O DESEJADO

O poema, cujos fragmentos são agora publicados, não seria uma composição

de caracter peculiarmente epico mas sim melhormente lyrico. Auctorisaria

esta conjectura o tom subjectivo do talento do poeta e ella é confirmada

pelo que elle chegou a realisar da sua concepção. Assim, quanto de

narrativamente historico houvesse de ser objecto da sua obra viria coado

atravez da imaginação do auctor. Elle propunha-se evocar não uma figura

de chronica mas um typo de lenda, e o seu alvo era fazer sentir ao

leitor o encanto idealista e romanesco do sebastianismo, considerado

como elemento de estimulo para a fé na nacionalidade e como incentivo e

consolação nas esperanças e nas decepções da patria.

Pelo que ficou deprehende-se que o auctor desenhara a largo traço o

programma da sua obra; mas em suas diversas secções não trabalhou com

assiduidade egual. Uma leitura attenta dos fragmentos pareceu permittir

coordenal-os n'uma ordem clara de successão, marcando-se com adequado

signal typographico as interrupções que ahi apparecem. N'esta melindrosa

faina foi de inestimavel valia a cooperação prestada pela benemerencia

de pessoa distinctissima, a ex.ma snr.ª D. Constança da Gama, que tivera

ensejo de ouvir do poeta os diversos episodios compostos, bem como a

explanação generica de sua phantasia e de seu intento.

O livro abriria, como abre, por uma dedicatoria geral _Á Lisboa das

naus, cheia de gloria_, a qual seria seguida de uma invocação, em

offerecimento, _Ás Senhoras de Lisboa_, que é uma especie de introducção

á historia de Anrique. Esta, diz o auctor tel-a ouvido ao mar e vem

contal-a a ellas, pedindo uma lagrima para os soffrimentos do seu heroe.

A este apresenta-o o poeta como penando das mais amargas desillusões e

possuido da triste convicção de que nada na vida o poderia abalar ainda

ou commover sequer, depois de ter devaneado tanto sonho e de haver visto

tantas chimeras suas cahidas por terra e murchas logo ao despertar.

Anrique enganara-se, porém; a sua alma generosa e confiante ainda

haveria de vibrar muito e mui doridamente; e, nos seus primeiros versos,

que não ficaram definitivamente concluidos, Antonio Nobre fazia a

confidencia ás Senhoras de Lisboa do arrebatamento passional de Anrique,

escarnecido pelo prosaico positivismo que zomba do seu afan da gloria,

como se ella fosse dote que se offerecesse. A feição symbolista do poema

de Antonio Nobre demonstra-se, n'este lance concepcional, pela

representação da Lua, imagem do quanto é vã e irrealisavel a aspiração a

um alvo intangivel, sonho ineffavel desfeito em fumo.

Em Anrique se personifica a abstracção; e, abandonando seu solar

portuguez, o sonhador abala-se na busca do ideal para terras de

Hespanha, finalmente de França, onde vamos encontral-o em Paris,

exhausto e desvairado pela insatisfação d'um desejo alto e incoercivel.

A Paris erroneamente se encaminhara já no fito de encontrar da sciencia

transcendental o remedio occulto a males irremediaveis; e são pungentes

as allusões e referencias que a todo o instante apparecem á historia

propria do poeta, em sua ideação e em seu cruel soffrimento.

Em Paris recebe Anrique a hospitalidade d'um convento, onde é acolhido

pelos carinhos paternos de um velho e santo monge, que, embora Anrique

não lhe tenha aberto a altiva alma, tenta prescrutar-lhe a ferida, para

lhe applicar salutifero balsamo.

Em uma d'essas melancholicas tardes que parece haverem exercido sobre o

poeta uma mysteriosa influencia e que elle toca com um encanto vago e

penetrante, o seu heroe Anrique, que divaga, na phase mystica e exaltada

em que se encontra, pelas ruas, sem proposito exacto e á mercê de mil

fluctuantes pensamentos, entra, ao acaso, no templo de um convento de

freiras, justamente na occasião em que ellas iam começar a entoar a sua

novena da tarde. Ás primeiras notas d'aquelle cantico suave, Anrique

queda-se extatico, no arroubo que o trespassa e embebe, como um echo de

saudade irreflectida e apaixonada. É que em uma das frescas vozes que

alli alevantavam hymnos de amor divino, Anrique julgara encontrar a

reminiscencia de uma outra voz purissima, doce e harmoniosa, que deixara

lá para longe, para além das serras, em Portugal, quando não fôra mais

que a muito natural similhança de duas vozes meigas de rapariga.

No fremito da illusão jubilosa e magoadôra, uma excitada hallucinação o

faz delirar, em lamentos onde a incoherencia da palavra é o transumpto

de uma anniquiladora tristeza. Como natural reacção, logo em sua alma e

de seus labios rebenta uma explosão de força e de enthusiasmo, saudando

o seu amor com palavras freneticas e desvairadas, em como que parece

lançar um repto e vibrar um desafio. Prestes acode o desalento final e,

após consolações inuteis do bom frade, nas palavras de Anrique põe o

poeta toda a resignada amargura da sua alma.

Já então de todo a chimera parisiense se diluíra. Já de todo Anrique se

voltara novamente e de vez para o seu Portugal. De regresso ao reino,

affoita-o o encontrar-se com a sua bem-amada; singrando vem Tejo acima a

barca que o reconduz. Um ardor immenso o impulsiona e move; Anrique

sauda com férvido enthusiasmo o passado heroico de Lisboa; mas a atroz

realidade do presente surge perante o impeto epico como uma satyra

tragica. Ao passado volve olhos cubiçosos da esperança no futuro; e a

compensação prophetica que se lhe desenha é-lhe figurada na vinda

phantasiosa do _Desejado_, do chimerico D. Sebastião, do lendario

«Rey-Menino», que foi o symbolo de todo o anhelo e de toda a fé, que foi

a incarnação ideal de todos os sonhos de imperio, de todas as aspirações

messianicas do povo portuguez.

Porém, Anrique não demora muito n'este pensamento exterior; logo o

preoccupa a sua torsionante crise moral; por completo o toma a ideia de

que é chegado emfim á terra onde, ha tantos annos, o espera sua noiva.

Então, sauda-a, tambem a ella, com palavras que patenteiam a anciedade

que sente de repousar afinal de suas infructuosas fadigas

contemplativas.

Mas do velho solar só restam ruinas; pelo filho prodigo que volta, só

aguarda a velha ama Thereza. Acorre, comtudo, o povo n'uma dura e

indiscreta curiosidade; e do coração de Anrique soltam-se

involuntariamente lamentos acres, pela traição d'aquella que elle amara.

Ahi, elle conta, a si-mesmo, alheiado, a historia da sua afflictiva

agonia interior, onde mais doem na recordação as ingenuidades e os

candidos embustes da quadra florente e illusionante.

Este é o episodio capital da crise subjectiva que perpassa na trama

lyrica do poema de Antonio Nobre. Depois d'esta desconsoladora estada em

Portugal, Anrique resolve-se a voltar a França, na saudade, agora

corrosiva, do socego tumular dos claustros. Alli o esperam os resignados

conselhos; alli elle se votará a uma confissão sincera e plena, embora

pretenda a apparencia d'uma dignidade soberba e orgulhosa, sob a mascara

d'uma indifferença gelida.

Infelizmente para as boas lettras, o poeta não pôde levar a cabo o seu

amplo proposito; mas para o cabal entendimento da ordenada sequencia da

sua phantasia cremos que estas linhas darão alguma luz. Assim,

suspendemo-nos, anciosos de que, desprendendo-se de nossa companhia, o

leitor, de per si, aprecie e encareça, com legitimos gabos, as

composições que seguem, algumas das quaes, sem favor, se podem

qualificar de maravilhosamente bellas.

Despedidas: 1895-1899 · 第 43 / 67 题