_PORTO_
1902
A fraterna piedade de Augusto Nobre e a saudade amiga de Justino de
Montalvão honraram-me com o pedido commovente de algumas linhas que
acompanhassem este volume posthumo. Tendo organisado a nota que precede
os fragmentos, ao deante publicados, do poema _O Desejado_, hesitei
grandemente em acquiescer á solicitação que refiro. Temi que malignas
malevolencias acaso increpassem como de impertinente intromettimento
essas linhas sinceras e innocentes. E ellas seriam, de facto, com
severidade condemnaveis, desde que as dictassem pedantescas pretensões
de recommendação ás delicadas leituras. O nôme do poeta não é sómente
conhecido; está decisivamente consagrado. Um prosador incorrecto e secco
não conseguiria senão tornar-se ridiculo, quando tam improcedente
estimulo fôsse a impulsional-o.
Assim meditava e quasi me resolvia por uma polida escusa, que me
magoaria aliaz; porém mais se radicou em meu animo o motivo antagonico
que me convidara a ceder á captivante seducção do pedido, feito pelo
irmão e pelo companheiro.
Lembrava-me e lembrei-me de que fôra eu quem, sem sequer de vista o
conhecer, apontou ao publico culto o original, promettedor talento
d'aquelle moço ignorado então.
Concorrendo n'um effeito de beneficencia, apparecera no Porto um
volumesinho de versos, collaborado principalmente por academicos, sob o
titulo generico e designativo de _Um bouquet de sonetos._ Eu lêra as
composições contidas na sympathica collecção e prestei preferente
cuidado áquellas que a novos, sem notoriedade ainda, pertenciam. Entre
essas, primacialmente sobresahia o soneto de Antonio Nobre, nôme que eu
havia notado já, por subscrever, em revistas litterarias de collegiaes,
infantilidades onde perpassava uma restea do fulgor divino. Fundára, por
esse tempo, um diario de propaganda politica _A Discussão_; na secção
litteraria da folha estampei um artigo longo ácerca do opusculo que me
attrahira o reparo; Gomes Leal replicou-me, com motivo d'algumas
affirmativas minhas, concernentemente á fórma e á essencia do genero
artistico. E no modesto estudo com que momentaneamente quebrei,
confugindo, a monotonia acre das acerbas recriminações partidarias,
indiquei o nôme do joven poeta, como o de alguem que tinha personalidade
e viria a ser muito.
Veio, na verdade, a ser muito: tam fino, candidamente malicioso, dôce,
ingenuo era seu temperamento; tam sincera sua tristeza; tam moderno seu
gosto; tam nacionalista seu sentir, na patria e na familia; tam
suggestiva sua imaginação, ardorosa e melancholica!
Ora, já quando, na jubilosa plenitude da consciencia esthetica, o
escriptor preparava em Paris o original definitivo do seu volume _Só_,
como quer que ao mesmo Paris, sceptico e arisco na banalidade d'uma
affectuosidade de superficie, me atirasse uma onda centrifuga do atroz
redomoinho, elle mostrou-me que não esquecera as palavras do jornalista
portuense, as quaes só um merito possuiam, o de se haverem coadunado com
o lealismo d'uma emoção espontanea. Na escura rua de Trévise me
procurou, abandonando por horas a sua preferida margem-esquerda, de que
lhe era tam penoso afastar-se, Antonio Nobre, uma tarde em que eu
soffria cruelmente. Esta visita sensibilisou me; como me encantou a
conversação do poeta, pelo tom subtil da melindrosa reserva na
consolação, a um tempo caridosa e primorosa, d'um'alma em carne viva,
como a minha por então andava.
Só no Porto novamente me reencontrei, conversando, com Antonio Nobre; de
volta do exilio eu, de regresso da illusão de estancias salvadoras elle.
Ambos viajaramos; ambos conheceramos a glacial indifferença do homem; o
poeta e o politico encontravamo-nos na identidade d'uma amarga
desesperança tranquilla. Separamo-nos depois de uma hora, melhorados
para um instante.
Não o tornei a vêr; sabia qua ia cada vez mais a peor, n'este rude
Porto, fatal, physica e moralmente, ás naturezas susceptivelmente
quintessenciadas como a d'elle. Subito entrou em minha casa Justino de
Montalvão, para que eu estivesse á noite na egreja, a ajudar a conduzir
o nosso amigo, no seu caixão, para a sua tarima. Eis o desfecho de tudo.
Nunca me affligiu a minha aridez verbal como agora, em que me daria um
orgulho ineffavel o poder fallar do talento d'este querido morto com
palavras encantadas, que embebessem a leitura n'uma idealidade sonhada.
Pouso a penna aspera; demasiado dilacerou o papel; o dever da gratidão
está cumprido; mas quedaria ainda faina para a critica perspicaz e
expressiva. Como indispensavel, tocante elemento informativo, tenho aqui
a fazer uma referencia ao titulo do volume, _Despedidas_. Este titulo
foi escolhido pelo poeta. Criminosa impiedade seria que d'outrem
emanasse.
Em uma das crises de pungente desanimo que frequentemente o assaltavam
no ultimo periodo da implacavel enfermidade a que succumbiu, pediu elle
que, se viesse a morrer antes de poder publicar o seu livro, lhe dessem
o titulo de _Despedidas_, significando este a sua retirada da vida
litteraria; mas mais tarde deu a perceber claramente que assim o
escolhera, por serem as suas ultimas poesias, visto que tinha perdido a
esperança de cura da doença que o torturava. Ainda só quinze dias antes
da data fatal do seu trespasso, quiz elle ir para a aldeia, com tenções
de passar a limpo todas as suas poesias e de escrever definitivamente _O
Desejado_, que, como se frisa na nota que lhe precede hoje os
fragmentos, o poeta tinha todo _in mente_, mas muito incompleto nos seus
cadernos de apontamentos.
D'estas linhas que acima ficam se deprehende que jámais lograram os
versos que sahem agora a lume o ser corrigidos por seu auctor. Se
imperfeições aqui ou alli acaso os maculem, acate-se o legitimo
escrupulo que não se atreveu a sujeitar o texto a alheia revisão
minuciosa. Elle foi recebido como uma herança de coração; com inquieto
sobresalto, julgou-se sacrilego que ella não fosse assaz respeitada.
Todavia, esta advertencia era indispensavel, para obviar a quaesquer
reparos que o livro actual podesse offerecer a uma leitura ou hostil ou
sequer fria. Não é a essa especie de critica, a qual não comprehende
porque não sente, que o editor confia a obra posthuma do poeta a quem
amou e cuja inolvidanda memoria o penetra d'uma inexhaurivel saudade. A
verdadeira critica, a critica san, fal-a-ha o leitor melhormente dotado,
com apurar que o livro actual, fragmentario consoante é, confirma a
gloria de Antonio Nobre, cuja figura litteraria destacará como uma das
mais accentuadas d'entre as mais accentuadas da nova geração portugueza.
José Pereira de Sampaio (_Bruno_).