Passei os oito seguintes dias em angustia inexprimivel. Não parava em
parte alguma. Os temores, as suspeitas subiam-me ao cerebro em
borbotões, como os vapores da vinolencia. Pensava n'ella só! Dizia-me
não sei que de convicto e infallivel que eu estava ameaçado de perder
Fanny. Era como um espectro deante de mim a imagem d'uma separação
violenta. Não atinava com o modo de aliar esta especie de previdencia
com a certeza de que o marido ignorava tudo; mas esta previdencia
justificava-se tanto que eu entrei a tomal-a como aviso do céo.
Ao oitavo dia, á hora costumada, puz-me a caminho; mas, d'esta vez não
esperei a hora indicada, nem me acautelei para entrar em casa de Fanny.
Não. Caminhava deante de mim mesmo, com a violencia e direitura d'uma
balla, resolvido a procural-a mesmo no seu quarto, se a não encontrasse
no pavilhão. Timido de tudo, sem poder definir o objecto dos meus
temores, esporeava o cavallo, que se espadellava com a terra,
alternadamente contrahido e distendido como um grande arco atormentado
por mãos febris. A lua alumiava de travez a estrada silencioza que eu
levava, zebrando-a de listas de prata, e parecia voltar-se para mim
melancolicamente seguindo-me com os seus fulgidos olhares. Desfillavam a
meu lado as arvores, rapidas e negras como phantasmas vertiginosamente
marulhados n'um rodopio. Os cães, que dormiam nos pateos, atiravam-se
aos portões latindo ao estrepido das ferraduras do meu cavallo, que
estalavam na calçada. E o vento que me açoitava a cara, murmurava-me aos
ouvidos palavras irritantes. Tudo me impellia e me vaticinava algum
drama em que eu ia representar um papel. Armei-me para isso, decidido a
não succumbir sem luctar com todas as forças que a desesperação desde
muito me tinha dado. Quão exaggerado eu era na espectativa como nos
preparatorios! Este meu espirito enthusiasta não sonhava senão combates
sobrehumanos, desinteresse fero, esforços heroicos!... Ai! e que
desenlace tão vulgar me esperava!