Era uma especie de touro com face humana. De estatura mediana.
Quando comia, atirava para diante, as espaduas robustas, e a cadeira
gemia sob a gravosa flexão dos seus encontros quadrangulares. Eu via-lhe
do meu logar, na testa, os arcos carregados das sobrancelhas hirtas de
cabellos grossos, e abaixo fulgurava-lhe um olho pardo e luzidio
d'aquelle brilho metalico que reluz na pupila impassivel dos carnivoros.
Comia, ás mãos juntas, mãos carnudas e curtas, e levantava os cotovêlos
para melhor pezar sobre a faca brilhante, e sobre o cabo do garfo. Entre
cada prato respirava largamente, limpava a boca, e bebia a longos sorvos
grandes copos de vinho estreme.
Não tinha má cara, nem vulgar. O aspecto era de força. Todo elle
denotava pujança extraordinaria de musculos. A superficie das faces e
queixo perfeitamente escanhotado, apparentava regidez marmorea, e a
fronte rasgada, limpida, cercada de cabellos negros já betados de
russas, revelava um espirito de vontade cheio de rectidão e
persistencia.
Era affectuoso o sorrir d'elle, e o olhar desmalicioso, porém claro como
cristal. Incarava-vos de face, nos olhos, de um modo tal, que vos
julgarieis felizes, evitando esse espelho de aço incommodativo á força
de franco. O que elle tinha era dar cascalhadas estridorosas, repuchando
em sacões os peitoraes acima da cintura apertada, e descompondo para
traz a cara vermelhaça. Era grave e sonora a sua voz; o gesto
tranquillo, e um pouco sombrio. Tinha bonitos dentes, unhas rosadas,
brilhantes e bem feitas; em fim, dominava n'aquelle todo um ar de
inteireza e aceio.
Pareceu-me ter quarenta annos.
Primeiro, ao vêl-o, fiquei como humilhado: corri-me de entrar em
rivalidade com natureza tão possante. Involuntariamente me confrontei
com elle, eu, a par d'elle tão franzino, como o seriam quasi todos os
rapazes da minha idade. O que havia em mim de debilidade nervosa, e
fineza de raça, e de elegancia, amesquinhava-se em comparação d'aquella
riqueza de sangue, pujança de fórmas, e virilidade fria e pacata. Eu era
como um sylpho contemplando, assombrado, a estatua d'um gigante. Ao pé
d'elle que homem era eu? Forte e gentil expressão de homem era sómente
elle, eu não.
E, mais cruel ainda para commigo mesmo, passava depois a comparação de
mim para ella. E, vendo-a sentada ao meu lado, dôce e loura como Eva,
candida como uma virgem, com aquella cintura de fada, e aquelle colo
requebrado em languor, e todo aquelle ar de timidez que lhe impanava a
face adoravel como a sombra d'um vapor... vendo-a assim, e tão delicada
no pensar, perguntava-me, eu, phrenetico, como é que ella poderá amar
tal homem? Violenta associação de duas naturezas que entre si não tinham
um ponto só de contacto! Irmanavam-se com a seda e com o ferro!
Oh! Desdemona!--me dizia eu--que Othello escolheste! Mas mal sabia Fanny
que furor raivava ao seu lado! Dirigia-me placidamente a palavra,
olhando-me com ar de simples, e affastando com sua mão alvissima os
louros anneis que lhe volteavam como plumas sobre a fronte. E
fallava-lhe a elle, sem turvação nem embaraço... e dizia-lhe: _meu
amigo_, deante de mim.
E elle, com menos embaraço ainda, lhe respondia, todo attenções e
deferencia, com ar, porém, de grande superioridade.
O Hercules via n'ella um ser perigrino, mas absurdo: e por isso o que
lhe dizia eram bagatellas, com ar amavel e paternal, como os pais as
dizem aos filhinhos curiosos.