Joaquim Guilherme Gomes Coelho, filho de D. Anna Gomes Coelho e de José
Joaquim Gomes Coelho, nasceu no Porto aos 14 de novembro de 1839.
É dever nosso dizermos, remontando-nos á sua infancia, que frequentou
primeiras lettras com Antonio Ventura Lopes, em Miragaya, sendo que
n'estes inexperientes adejos de ave implume, que, saudosa do ninho
paterno, receia defrontar-se com a figura mais ou menos severa d'um
homem desconhecido, o professor, lhe serviu de estimulo e conforto a voz
carinhosa e authorisada de seu irmão, José Joaquim Gomes Coelho. E pois
que veio de geito escrever-se este nome, digamos de relance que era o de
um profundo e notavel talento, que ainda hoje é motivo de justissimo
orgulho para os fastos gloriosos da Academia Polytechnica do Porto, onde
José Joaquim Gomes Coelho frequentara distinctamente o curso
mathematico.
O snr. J. J. Rodrigues de Freitas Junior, no seu discurso pronunciado na
abertura das aulas da mesma Academia em 1 de outubro de 1867, alludindo
aos mais distinctos estudantes dos cursos preteritos, fez menção honrosa
do irmão de _Julio Diniz_ e, não contente com isso, consagrou-lhe em uma
nota explicativa estas saudosas palavras:
Gomes Coelho nasceu a 7 de novembro de 1834 e morreu a 30 de
dezembro de 1855, tendo completado, havia dous mezes, o curso de
engenheria civil. Foi premiado em diversas aulas; e sel-o-ia
n'outras, se não houvesse perdão de acto em dous annos da sua
frequencia,
O grande poeta Soares de Passos escreveu o seguinte epitaphio para a
campa do infeliz e sympathico mancebo:
Vinte annos? Ai! bem cedo arrebatado
O guardaste no seio, ó campa fria!
Flor passageira, succumbiu ao fado,
E seus perfumes exhalou n'um dia!
Quanta illusão desfeita em seu transporte!
Sonhou glorias, talvez! sonhou amores!
Tudo, tudo aqui jaz! Carpi-lhe a sorte;
Derramai-lhe na tumba algumas flores!
Era norma inalteravel das melhores educações d'aquelles tempos
desenvencilhar a meada das declinações latinas, depois de estudada a
grammatica nacional, theorica e praticamente. Gomes Coelho, como era de
rigor, tomou assento entre a numerosa fila dos discipulos do padre José
Henriques d'Oliveira Martins, conhecido latinista do Porto, já
fallecido, e então muito em voga como professor particular. Como se não
affrontasse demasiadamente o seu lucido espirito com o estudo da
litteratura romana, começou, ao mesmo tempo, a iniciar-se na lingua
franceza, ensinada pelo irmão com sensiveis progressos do discipulo e
verdadeiro orgulho do professor. Familiarisado com os idiomas que eram
então exigidos como preparatorios para um curso superior, matriculou-se
em logica nas aulas da Graça, denominação que n'esse tempo se dava ás
aulas publicas do Lyceu e da Academia, reunidas no mesmo edificio e
principiou simultaneamente a estudar inglez com o snr. Narciso José
de Moraes Junior, professor particular.
As difficuldades que ordinariamente embaraçam a traducção dos classicos
inglezes, não lhe foram obstaculo a que sobremodo os ficasse estimando,
senão de preferencia, ao menos a par dos poetas latinos e francezes que
a esse tempo já versava. É para notar que, sendo Gomes Coelho incorrecto
na pronuncia do inglez, a ponto de desafinar os tranquillos nervos
britanicos que por ventura o surprehendessem em peccado de lesaprosodia
(como me diz pessoa de suas intimas relações e muito entendida no
assumpto) vencesse por uma notavel intuição as mais intrincadas
subtilezas que, não só a esse tempo, mas em todo o decurso de sua vida,
lhe podia offerecer a leitura de Shakspeare, Milton e Byron, chegando
muitas vezes, especialmente em Shakspeare, a sobrepujar a traducção
franceza de Guizot.
Entre os quatorze e quinze annos, idade que então contava, matriculou-se
na Academia Polytechnica nas aulas de chimica e primeiro anno de
mathematica, regida pelo lente Antonio Luiz Soares.
Data d'essa epocha a sua intimidade com o notabilissimo poeta portuense
Antonio Augusto Soares de Passos, e como o espirito de Gomes Coelho era
d'estes que nascem com o privilegio de assimilarem toda a casta de
conhecimentos, por mais heterogeneos que sejam, começou a manifestar
certo enthusiasmo pela litteratura, enthusiasmo que a convivencia com o
cantor do _Firmamento_ foi desenvolvendo, dia a dia, insensivelmente. A
poesia sorria-lhe já no intimo da alma uns doces sorrisos de visão
feiticeira, mas tão egoista se sentia elle de tamanha felicidade, que
não ousava metrificar os seus secretos colloquios com a fada da
inspiração. Egoismo ou modestia,--ambas as coisas talvez. O certo é que
o poeta não se tinha revelado ainda pelos versos, mas se adivinhava já
pelos arrôbos.