Paris, outubro.
_Meu caro Bento._--A tua idéa de fundar um jornal é damninha e
execravel. Lançando, e em formato rico, com telegrammas e chronicas, uma
outra «d'essas folhas impressas que apparecem todas as manhãs», como diz
tão assustada e pudicamente o Arcebispo de Paris, tu vaes concorrer para
que no teu tempo e na tua terra se aligeirem mais os Juizos ligeiros, se
exacerbe mais a Vaidade, e se endureça mais a Intolerancia. Juizos
ligeiros, Vaidade, Intolerancia--eis tres negros peccados sociaes que,
moralmente, matam uma Sociedade! E tu alegremente te preparas para os
atiçar. Inconsciente como uma peste, espalhas sobre as almas a morte. Já
decerto o Diabo está atirando mais braza para debaixo da caldeira de
pez, em que, depois do Julgamento, recozerás e ganirás, meu Bento e meu
reprobo!
Não penses que, moralista amargo, exagero, como qualquer S. João
Chrysostomo. Considera antes como foi incontestavelmente a Imprensa,
que, com a sua maneira superficial, leviana e atabalhoada de todo
affirmar, de tudo julgar, mais enraigou no nosso tempo o funesto habito
dos juizos ligeiros. Em todos os seculos decerto se improvisaram
estouvadamente opiniões: o grego era inconsiderado e garrulo; já Moysés,
no longo Deserto, soffria com o murmurar variavel dos Hebreus; mas
nunca, como no nosso seculo apressado, essa improvisação impudente se
tornou a operação natural do entendimento. Com excepção de alguns
philosophos escravisados pelo Methodo, e d'alguns devotos roidos pelo
Escrupulo, todos nós hoje nos deshabituamos, ou antes nos desembaraçamos
alegremente, do penoso trabalho de verificar. É com impressões fluidas
que formamos as nossas massiças conclusões. Para julgar em Politica o
facto mais complexo, largamente nos contentamos com um boato, mal
escutado a uma esquina, n'uma manhã de vento. Para apreciar em
Litteratura o livro mais profundo, atulhado de idéas novas, que o amor
de extensos annos fortemente encadeou--apenas nos basta folhear aqui e
além uma pagina, através do fumo escurecedor do charuto. Principalmente
para condemnar, a nossa ligeireza é fulminante. Com que soberana
facilidade declaramos--«Este é uma besta! Aquelle é um maroto!» Para
proclamar--«É um genio!» ou «É um santo!» offerecemos uma resistencia
mais considerada. Mas ainda assim, quando uma boa digestão ou a macia
luz d'um céo de maio nos inclinam á benevolencia, tambem concedemos
bizarramente, e só com lançar um olhar distrahido sobre o eleito, a
corôa ou a aureola, e ahi empurramos para a popularidade um maganão
enfeitado de louros ou nimbado de raios. Assim passamos o nosso bemdito
dia a estampar rotulos definitivos no dorso dos homens e das coisas. Não
ha acção individual ou collectiva, personalidade ou obra humana, sobre
que não estejamos promptos a promulgar rotundamente uma opinião bojuda.
E a opinião tem sempre, e apenas, por base aquelle pequenino lado do
facto, do homem, da obra, que perpassou n'um relance ante os nossos
olhos escorregadios e fortuitos. Por um gesto julgamos um caracter: por
um caracter avaliamos um povo. Um inglez, com quem outr'ora jornadeei
pela Asia, varão douto, collaborador de _Revistas_, socio de Academias,
considerava os francezes todos, desde os senadores até aos varredores,
como «porcos e ladrões»... Porquê, meu Bento? Porque em casa de seu
sogro houvera um escudeiro, vagamente oriundo de Dijon, que não mudava
de collarinho e surripiava os charutos. Este inglez illustra
magistralmente a formação escandalosa das nossas generalisações.
E quem nos tem enraizado estes habitos de desoladora leviandade? O
jornal--o jornal, que offerece cada manhã, desde a chronica até aos
annuncios, uma massa espumante de juizos ligeiros, improvisados na
vespera, á meia noite, entre o silvar do gaz e o fervilhar das chalaças,
por excellentes rapazes que rompem pela redacção, agarram uma tira de
papel, e, sem tirar mesmo o chapéo, decidem com dois rabiscos da penna
sobre todas as coisas da Terra e do Céo. Que se trate d'uma revolução do
Estado, da solidez d'um Banco, d'uma Magica, ou d'um descarrillamento, o
rabisco da penna, com um traço, esparrinha e julga. Nenhum estudo,
nenhum documento, nenhuma certeza. Ainda, este domingo, meu Bento, um
alto jornal de Paris, commentando a situação economica, e politica de
Portugal, affirmava, e com um aprumado saber, que «em Lisboa os filhos
das mais illustres familias da aristocracia se empregam como
_carregadores da alfandega_, e ao fim de cada mez mandam receber as
soldadas _pêlos seus lacaios_!» Que dizes tu aos herdeiros das casas
historicas de Portugal, carregando pipas de azeite no caes da alfandega,
e conservando criados de farda para lhes ir receber o salario? Estas
pipas, estes fidalgos, estes lacaios dos carregadores, formam uma
deliciosa e chimerica alfandega que é menos das _Mil e Uma Noites_, que
das Mil e Uma Asneiras. Pois assim o ensinou um jornal consideravel,
rico, bem provido de Encyclopedias, de Mappas, de Estatisticas, de
Telephones, de Telegraphos, com uma redacção muito erudita, pinguemente
remunerada, que conhece a Europa, pertence á Academia das Sciencias
Moraes e Sociaes, e legisla no Senado! E tu, Bento, no teu jornal,
fornecido tambem de Encyclopedias e de Telephones, vaes com penna
sacudida lançar sobre a França e sobre a China, e sobre o desventuroso
Universo que se torna assumpto e propriedade tua, juizos tão solidos e
comprovados como os que aquella bemdita gazeta archivou definitivamente
ácerca da nossa alfandega e da nossa fidalguia...
Este é o primeiro peccado, bem negro. Considera agora outro, mais negro.
Pelo jornal, e pela reportagem que será a sua funcção e a sua força, tu
desenvolverás, no teu tempo e na tua terra, todos os males da Vaidade! A
reportagem, bem sei, é uma util abastecedora da Historia. Decerto
importou saber se era adunco ou chato o nariz de Cleopatra, pois que do
feitio d'esse nariz dependeram, durante algum tempo, de Philippes a
Actium, os destinos do Universo. E quantos mais detalhes a esfuracadora
bisbilhotice dos reporters revelar sobre o snr. Renan, e os seus moveis,
e a sua roupa branca, tantos mais elementos positivos possuirá o seculo
XX para reconstruir com segurança a personalidade do auctor das _Origens
do Christianismo_, e, através d'ella, comprehender a obra. Mas, como a
reportagem hoje se exerce, menos sobre os que influem nos negocios do
Mundo ou nas direcções do Pensamento, do que, como diz a Biblia, sobre
toda a «sorte e condições de gente van», desde os jockeys até aos
assassinos, a sua indiscriminada publicidade concorre pouco para a
documentação da historia, e muito, prodigiosamente, escandalosamente,
para a propagação das vaidades!
O jornal é com effeito o folle incansavel que assopra a vaidade humana,
lhe irrita e lhe espalha a chamma. De todos os tempos é ella, a vaidade
do homem! Já sobre ella gemeu o gemebundo Salomão, e por ella se perdeu
Alcibiades, talvez o maior dos gregos. Incontestavelmente, porém, meu
Bento, nunca a vaidade foi, como no nosso damnado seculo XIX, o motor
offegante do pensamento e da conducta. N'estes estados de civilisação,
ruidosos e ôcos, tudo deriva da vaidade, tudo tende á vaidade. E a fórma
nova da vaidade para o civilisado consiste em ter o seu rico nome
impresso no jornal, a sua rica pessoa commentada no jornal! _Vir no
jornal!_ eis hoje a impaciente aspiração e a recompensa suprema! Nos
regimens aristocraticos o esforço era obter, senão já o favor, ao menos
o sorriso do Principe. Nas nossas democracias a ancia da maioria dos
mortaes é alcançar em sete linhas o louvor do jornal. Para se
conquistarem essas sete linhas bemditas, os homens praticam todas as
acções--mesmo as boas. Mesmo as boas, meu Bento! O «nosso generoso amigo
Z...» só manda os cem mil reis á Creche, para que a gazeta exalte os cem
mil reis de Z..., nosso amigo generoso. Nem é mesmo necessario que as
sete linhas contenham muito mel e muito incenso: basta que ponham o nome
em evidencia, bem negro, n'essa tinta cujo brilho é mais appetecido que
o velho nimbo d'ouro do tempo das Santidades. E não ha classe que não
ande devorada por esta fome morbida do reclamo. Ella é tão roedora nos
sêres de exterioridade e de mundanidade, como n'aquelles que só pareciam
amar na vida, como a sua fórma melhor, a quietação e o silencio...
Entrámos na quaresma (é entre as cinzas, e com cinzas, que te estou
moralisando). Agora, n'estas semanas de peixe, surdem os frades
dominicanos, do fundo dos seus claustros, a prégar nos pulpitos de
Paris. E porquê esses sermões sensacionaes, d'uma arte profana e
theatral, com exhibicões de psychologia amorosa, com affectações de
anarchismo evangelico, e tão creadores de escandalo que Paris corre mais
gulosamente a Notre-Dame em tarde de Dominicano, do que á
Comedia-Franceza em noite de Coquelin? Porque os monges, filhos de S.
Domingos, querem setenta linhas nos jornaes do Boulevard, e toda a
celebridade dos histriões. O Jornal estende sobre o mundo as suas duas
folhas, salpicadas de preto, como aquellas duas azas com que os
iconographistas do seculo XV representavam a Luxuria ou a Gula: e o
Mundo todo se arremessa para o jornal, se quer agachar sob as duas azas
que o levem á gloriola, lhe espalhem o nome pelo ar sonoro. E é por essa
gloriola que os homens se perdem, e as mulheres se aviltam, e os
Politicos desmancham a ordem do Estado, e os Artistas rebolam na
extravagancia esthetica, e os Sabios alardeiam theorias mirabolantes, e
de todos os cantos, em todos os generos, surge a horda ululante dos
charlatães... (Como me vim tornando altiloquente e roncante!...) Mas é a
verdade, meu Bento! Vê quantos preferem ser injuriados a serem
ignorados! (Homenzinhos de letras, poetisas, dentistas, etc.). O proprio
mal appetece sofregamente as sete linhas que o maldizem. Para
apparecerem no jornal, ha assassinos que assassinam. Até o velho
instincto da conservação cede ao novo instincto da notoriedade: e existe
tal maganão, que ante um funeral convertido em apotheose pela abundancia
das corôas, dos coches e dos prantos oratorios, lambe os beiços,
pensativo, e deseja ser o morto.
N'este verão, uma manhã, muito cedo, entrei n'uma taberna de Montmartre
a comprar phosphoros. Rente ao balcão de zinco, diante de dois copos de
vinho branco, um meliante, que pelas ventas chatas, o bigode hirsuto e
pendente, o barrete de pelle de lontra, parecia (e era) um Huno, um
sobrevivente das hordas d'Alarico,--gritava triumphalmente para outro
vadio imberbe e livido, a quem arremessára um jornal:
--É verdade, em todas as letras, o meu nome todo! Na segunda columna,
logo em cima, onde diz:--_Hontem um infame e ignobil bandido_... Sou eu!
O nome todo!
E espalhou lentamente em redor um olhar que triumphava. Eis-ahi, como
agora se diz tão alambicadamente, um «estado d'alma»! Tu, Bento, vaes
crear d'estes estados.
Depois considera o derradeiro peccado, negrissimo. Tu fundas, com o teu
novo jornal, uma nova escola de Intolerancia. Em torno de ti, do teu
partido, dos teus amigos, ergues um muro de pedra miuda e bem cimentada:
dentro d'esse murosinho, onde plantas a tua bandeirola com o costumado
lemma de _imparcialidade_, _desinteresse_, etc., só haverá, segundo
Bento e o seu jornal, intelligencia, dignidade, saber, energia, civismo;
para além d'esse muro, segundo o jornal de Bento, só haverá
necessariamente sandice, vileza, inercia, egoismo, traficancia! É a
disciplina de partido (e para te agradar, entendo partido, no seu
sentido mais amplo, abrangendo a Litteratura, a Philosophia, etc.) que
te impõe fatalmente esta divertida separação das virtudes e dos vicios.
Desde que penetras na batalha, nunca poderás admittir que a Razão ou a
Justiça ou a Utilidade se encontrem do lado d'aquelles contra quem
descargas pela manhã a tua metralha silvante de adjectivos e
verbos--porque então a decencia, se não já a consciencia, te forçariam a
saltar o muro e desertar para esses justos. Tens de sustentar que elles
são maleficos, desarrazoados, velhacos, e vastamente merecem o chumbo
com que os trespassas. Das solas dos pés até aos teus raros cabellos,
meu Bento, desde logo te atolas na Intolerancia! Toda a idéa que se
eleve, para além do muro, a condemnarás como funesta, sem exame, só
porque appareceu dez braças adiante, do lado dos outros, que são os
Reprobos, e não do lado dos teus, que são os Eleitos. Realisam esses
outros uma obra? Bento não poupará prosa nem musculo para que ella
pereça: e se por entre as pedras que lhe atira, casualmente entrevê
n'ella certa belleza ou certa utilidade, mais furiosamente apressa a sua
demolição, porque seria mortificante para os seus amigos que alguma
coisa de util ou de bello nascesse dos seus inimigos--e vivesse. Nos
homens que vagam para além do teu muro, tu só verás peccadores; e quando
entre elles reconhecesses S. Francisco d'Assis distribuindo aos pobres
os derradeiros ceitis da Porciuncula, taparias a face para que tanta
santidade te não amollecesse, e gritarias mais sanhudamente:--«Lá anda
aquelle malandro a esbanjar com os vadios o dinheiro que roubou!»
Assim tu serás no teu jornal. E, em torno de ti, os que o compram e o
adoptam lentamente e moralmente se fazem á tua imagem. Todo o jornal
distilla intolerancia, como um alambique distilla alcool, e cada manhã a
multidão se envenena aos goles com esse veneno capcioso. É pela acção do
jornal que se azedam todos os velhos conflictos do mundo--e que as
almas, desevangelisadas, se tornam mais rebeldes á indulgencia. A
sociabilidade incessantemente amacia e arredonda as divergencias
humanas, como um rio arredonda e alisa todos os seixos que n'elle rolam:
e a humanidade, que uma longa cultura e a velhice tem tornado docemente
sociavel, tenderia a uma suprema pacificação--se cada manhã o jornal não
avivasse os odios de Principios, de Classes, de Raças, e, com os seus
gritos, os acirrasse como se acirram mastins até que se enfureçam e
mordam. O jornal exerce hoje todas as funcções malignas do defuncto
Satanaz, de quem herdou a ubiquidade; e é não só o Pae da Mentira, mas o
Pae da Discordia. É elle que por um lado inflamma as exigencias mais
vorazes--e por outro fornece pedra e cal ás resistencias mais iniquas.
Vê tu quando se alastra uma gréve, ou quando entre duas nações
bruscamente se chocam interesses, ou quando, na ordem espiritual, dois
credos se confrontam em hostilidade: o instincto primeiro dos homens,
que o abuso da Civilisação material tem amollecido e desmarcialisado, é
murmurar _paz! juizo!_ e estenderem as mãos uns para os outros,
n'aquelle gesto hereditario que funda os pactos. Mas surge logo o
jornal, irritado como a Furia antiga, que os separa, e lhes sopra na
alma a intransigencia, e os empurra á batalha, e enche o ar de tumulto e
de pó.
O jornal matou na terra a paz. E não só atiça as questões já dormentes
como borralhos de lareira, até que d'ellas salte novamente uma chamma
furiosa--mas inventa dissensões novas, como esse anti-semitismo
nascente, que repetirá, antes que o seculo finde, as anachronicas e
brutas perseguições medievaes. Depois é o jornal...
Mas escuta! Onze horas! Onze horas ligeiras estão dançando, no meu velho
relogio, o minuete de Gluck. Ora esta carta já vai, como a de Tiberio,
muito tremenda e verbosa, _verbosa et tremenda epistola_; e eu tenho
pressa de a findar, para ir, ainda antes do almoço, lêr os meus jornaes,
com delicia.--Teu Fradique.