A CLARA...

(_Trad._)

Paris, novembro.

_Meu amor._--Ainda ha poucos instantes (dez instantes, dez minutos, que

tanto gastei n'um _fiacre_ desolador desde a nossa _Torre de Marfim_) eu

sentia o rumor do teu coração junto do meu, sem que nada os separasse

senão uma pouca de argilla mortal, em ti tão bella, em mim tão rude--e

já estou tentando recontinuar anciosamente, por meio d'este papel

inerte, esse ineffavel _estar comtigo_ que é hoje todo o fim da minha

vida, a minha suprema e unica vida. É que, longe da tua presença, cesso

de viver, as coisas para mim cessam de ser--e fico como um morto jazendo

no meio de um mundo morto. Apenas, pois, me finda esse perfeito e curto

momento de vida que me dás, só com pousar junto de mim e murmurar o meu

nome--recomeço a aspirar desesperadamente para ti como para uma

resurreição!

Antes de te amar, antes de receber das mãos de meu Deus a minha Eva--que

era eu, na verdade? Uma sombra fluctuando entre sombras. Mas tu vieste,

dôce adorada, para me fazer sentir a minha realidade, e me permittir que

eu bradasse tambem triumphalmente o meu--«_amo, logo existo!_» E não foi

só a minha realidade que me desvendaste--mas ainda a realidade de todo

este Universo, que me envolvia como um inintelligivel e cinzento montão

de apparencias. Quando ha dias, no terraço de Savran, ao anoitecer, te

queixavas que eu contemplasse as estrellas estando tão perto dos teus

olhos, e espreitasse o adormecer das collinas junto ao calor dos teus

hombros--não sabias, nem eu te soube então explicar, que essa

contemplação era ainda um modo novo de te adorar, porque realmente

estava admirando nas coisas a belleza inesperada que tu sobre ellas

derramas por uma emanação que te é propria, e que, antes de viver a teu

lado, nunca eu lhes percebera, como se não percebe a vermelhidão das

rosas ou o verde tenro das relvas antes de nascer o sol! Foste tu, minha

bem-amada, que me alumiaste o mundo. No teu amor recebi a minha

Iniciação. Agora entendo, agora sei. E, como o antigo Iniciado, posso

affirmar:--«Tambem fui a Eleusis; pela larga estrada pendurei muita flôr

que não era verdadeira, diante de muito altar que não era divino; mas a

Eleusis cheguei, em Eleusis penetrei--e vi e senti a verdade!...»

E accresce ainda, para meu martyrio e gloria, que tu és tão

sumptuosamente bella e tão ethereamente bella, d'uma belleza feita de

Céo e de Terra, belleza completa e só tua, que eu já concebera--que

nunca julgára realizavel. Quantas vezes, ante aquella sempre admirada e

toda perfeita Venus de Milo, pensei que se debaixo da sua testa de Deusa

podessem tumultuar os cuidados humanos; se os seus olhos soberanos e

mudos se soubessem toldar de lagrimas; se os seus labios, só talhados

para o mel e para os beijos, consentissem em tremer no murmurio de uma

prece submissa; se, sob esses seios, que foram o appetite sublime dos

Deuses e dos Heroes, um dia palpitasse o Amor e com elle a Bondade; se o

seu marmore soffresse, e pelo soffrimento se espiritualisasse, juntando

ao esplendor da Harmonia a graça da Fragilidade; se ella fosse do nosso

tempo e sentisse os nossos males, e permanecendo Deusa do Prazer se

tornasse Senhora da Dôr--então não estaria collocada n'um museu, mas

consagrada n'um santuario, porque os homens, ao reconhecer n'ella a

alliança sempre almejada e sempre frustrada do Real e do Ideal, decerto

a teriam acclamado _in eternum_ como a definitiva Divindade. Mas quê! A

pobre Venus só offerecia a serena magnificencia da carne. De todo lhe

faltava a chamma que arde na alma e a consome. E a creatura incomparavel

do meu scismar, a Venus Espiritual, Cytherêa e Dolorosa, não existia,

nunca existiria!... E quando eu assim pensava, eis que tu surges, e eu

te comprehendo! Eras a encarnação do meu sonho, ou antes d'um sonho que

deve ser universal--mas só eu te descobri, ou, tão feliz fui, que só por

mim quizeste ser descoberta!

Vê, pois, se jámais te deixarei escapar dos meus braços! Por isso mesmo

que és a minha Divindade,--para sempre e irremediavelmente estás presa

dentro da minha adoração. Os Sacerdotes de Carthago acorrentavam ás

lages dos Templos, com cadeias de bronze, as imagens dos seus Baals.

Assim te quero tambem, acorrentada dentro do templo avaro que te

construi, só Divindade minha, sempre no teu altar,--e eu sempre diante

d'elle rojado, recebendo constantemente n'alma a tua visitação,

abysmando-me sem cessar na tua essencia, de modo que nem por um momento

se descontinue essa fusão ineffavel, que é para ti um acto de

Misericordia e para mim de Salvação. O que eu desejaria na verdade é que

fosses invisivel para todos e como não existente--que perpetuamente um

estofo informe escondesse o teu corpo, uma rigida mudez occultasse a tua

intelligencia. Assim passarias no mundo como uma apparencia

incomprehendida. E só para mim, de dentro do involucro escuro, se

revelaria a tua perfeição rutilante. Vê quanto te amo--que te queria

entrouxada n'um rude, vago vestido de merino, com um ar quêdo,

inanimado... Perderia assim o triumphal contentamento de vêr

resplandecer entre a multidão maravilhada aquella que em segredo nos

ama. Todos murmurariam compassivamente--«_Pobre creatura!_» E só eu

saberia da «pobre creatura», o corpo e a alma adoraveis!

Quanto adoraveis! Nem comprehendo que, tendo consciencia do teu encanto,

não estejas de ti namorada como aquelle Narciso que treme de frio,

coberto de musgo, à beira da fonte, em Savran. Mas eu largamente te amo

e por mim e por _ti_! A tua belleza, na verdade, attinge a altura de uma

virtude:--e foram decerto os modos tão puros da tua alma que fixaram as

linhas tão formosas do teu corpo. Por isso ha em mim um incessante

desespero de não te saber amar condignamente--ou antes (pois desceste de

um céo superior) de não saber tratar, como ella merece, a hospeda divina

do meu coração. Desejaria, por vezes, envolver-te toda n'uma felicidade

immaterial, seraphica, calma infinitamente como deve ser a

Bemaventurança--e assim deslisarmos enlaçados através do silencio e da

luz, muito brandamente, n'um sonho cheio de certeza, sahindo da vida á

mesma hora e indo continuar no _além_ o mesmo sonho estatico. E outras

vezes desejaria arrebatar-te n'uma felicidade vehemente, tumultuosa,

fulgurante, toda de chamma, de tal sorte que n'ella nos destruissemos

sublimemente, e de nós só restasse uma pouca de cinza sem memoria e sem

nome! Possuo uma velha gravura que é um Satanaz, ainda em toda a

refulgencia da belleza archangelica, arrastando nos braços para o Abysmo

uma freira, uma Santa, cujos derradeiros véos de penitencia se vão

esgaçando pelas pontas das rochas negras. E na face da Santa, através do

horror, brilha, irreprimida e mais forte que o horror, uma tal alegria e

paixão, tão intensas--que eu as appeteceria para ti, oh minha Santa

roubada! Mas de nenhum d'estes modos te sei amar, tão fraco ou inhabil é

o meu coração, de modo que por o meu amor não ser perfeito, tenho de me

contentar que seja eterno. Tu sorris tristemente d'esta eternidade.

Ainda hontem me perguntavas:--«No calendario do seu coração, quantos

dias dura a eternidade?» Mas considera que eu era um morto--e que tu me

resuscitaste. O sangue novo que me circula nas veias, o espirito novo

que em mim sente e comprehende, são o meu amor por ti--e se elle me

fugisse, eu teria outra vez, regelado e mudo, de reentrar no meu

sepulchro. Só posso deixar de te amar--quando deixar de ser. E a vida

comtigo, e por ti, é tão inexprimivelmente bella! É a vida de um Deus.

Melhor talvez:--e se eu fosse esse pagão que tu affirmas que sou, mas um

pagão do Lacio, pastor de gados, crente ainda em Jupiter e Apollo, a

cada instante temeria que um d'esses Deuses invejosos te raptasse, te

elevasse ao Olympo para completar a sua ventura divina. Assim não

receio:--toda minha te sei e para todo o sempre, olho o mundo em torno

de nós como um Paraiso para nós creado, e durmo seguro sobre o teu peito

na plenitude da gloria, oh minha tres vezes bemdita, Rainha da minha

graça.

Não penses que estou compondo canticos em teu louvor. É em plena

simplicidade que deixo escapar o que me está borbulhando na alma... Ao

contrario! Toda a Poesia de todas as idades, na sua gracilidade ou na

sua magestade, seria impotente para exprimir o meu extase. Balbucio,

como posso, a minha infinita oração. E n'esta desoladora insufficiencia

do Verbo humano é como o mais inculto e o mais illetrado que ajoelho

ante ti, e levanto as mãos, e te asseguro a unica verdade, melhor que

todas as verdades--que te amo, e te amo, e te amo, e te amo!...

Fradique.

A correspondência de Fradique Mendes memórias e notas · 第 40 / 46 题