Quinta de Refaldes (Minho).
_Minha querida madrinha._--Estou vivendo pinguemente em terras
ecclesiasticas, porque esta quinta foi de frades. Agora pertence a um
amigo meu, que é, como Virgilio, poeta e lavrador, e canta piedosamente
as origens heroicas de Portugal emquanto amanha os seus campos e engorda
os seus gados. Rijo, viçoso, requeimado dos soes, tem oito filhos, com
que vai povoando estas cellas monasticas forradas de cretones claros. E
eu justamente voltei de Lisboa a estes milheiraes do Norte para ser
padrinho do derradeiro, um famoso senhor de tres palmos, côr de tijolo,
todo roscas e regueifas, com uma careca de melão, os olhinhos luzindo
entre rugas como vidrilhos, e o ar profundamente sceptico e velho. No
sabbado, dia de S. Bernardo, sob um azul que S. Bernardo tornára
especialmente vistoso e macio, ao repicar dos sinos claros, entre aromas
de roseira, e jasmineiro, lá o conduzimos, todo enfeitado de laçarotes e
rendas, á Pia, onde o Padre Theotonio inteiramente o lavou da fetida
crosta de Peccado Original, que desde a bolinha dos calcanhares até á
moleirinha o cobria todo, pobre senhor de tres palmos que ainda não
vivera da alma, e já perdera a alma... E desde então, como se Refaldes
fosse a ilha dos Latophagios, e eu tivesse comido em vez da couve-flôr
da horta a flôr do Lotus, por aqui me quedei, olvidado do mundo e de
mim, na doçura d'estes ares, d'estes prados, de toda esta rural
serenidade, que me affaga e me adormece.
O casarão conventual que habitamos, e onde os conegos Regrantes de Santo
Agostinho, os ricos e nedios Cruzios, vinham preguiçar no verão, prende
por um claustro florido de hydrangeas e a uma egreja lisa e sem arte,
com um adro assombreado por castanheiros, pensativo, grave, como são
sempre os do Minho. Uma cruz de pedra encima o portão, onde pende ainda
da corrente de ferro a vetusta e lenta sineta fradesca. No meio do
pateo, a fonte, de boa agua, que canta adormecidamente cahindo de concha
em concha, tem no topo outra cruz de pedra, que um musgo amarellento
reveste de melancolia secular. Mais longe, n'um vasto tanque, lago
caseiro orlado de bancos, onde decerto os bons Cruzios se vinham embeber
pelas tardes de frescura e repouso, a agua das regas, limpida e farta,
brota dos pés de uma santa de pedra, hirta no seu nicho, e que é talvez
Santa Rita. Adiante ainda, na horta, outra santa franzina, sustentando
nas mãos um vaso partido, preside, como uma nayade, ao borbulhar de
outra fonte, que por quelhas de granito vai luzindo e fugindo através do
feijoal. Nos esteios de pedra que sustentam a vinha ha por vezes uma
cruz gravada, ou um coração sagrado, ou o monogramma de Jesus. Toda a
quinta, assim santificada por signos devotos, lembra uma sacristia onde
os tectos fossem de parra, a relva cobrisse os soalhos, por cada fenda
borbulhasse um regato, e o incenso sahisse dos cravos.
Mas, com todos estes emblemas sacros, nada ha que nos môva; ou
severamente nos arraste, aos renunciamentos do mundo. A quinta foi
sempre, como agora, de grossa fartura, toda em campos de pão, bem arada
e bem regada, fecunda, estendida ao sol como um ventre de Nimpha antiga.
Os frades excellentes que n'ella habitaram amavam largamente a terra e a
vida. Eram fidalgos que tomavam serviço na milicia do Senhor, como os
seus irmãos mais velhos tomavam serviço na milicia d'El-rei--e que, como
elles, gozavam risonhamente os vagares, os privilegios e a riqueza da
sua Ordem e da sua Casta. Vinham para Refaldes, pelas calmas de julho,
em seges e com lacaios. A cozinha era mais visitada que a egreja--e
todos os dias os capões alouravam no espeto. Uma poeira discreta velava
a livraria, onde apenas por vezes algum conego rheumatisante e retido
nas almofadas da sua cella mandava buscar o _D. Quichote_, ou as _Farças
de D. Petronilla_. Espanejada, arejada, bem catalogada, com rotulos e
notas traçadas pela mão erudita dos Abbades--só a adega...
Não se procure pois, n'esta morada de monges, o precioso sabor das
tristezas monasticas; nem as quebradas de serra e valle, cheias de ermo
e mudez, tão dôces para n'ellas se curtirem deliciosamente as saudades
do céo; nem as espessuras de bosque, onde S. Bernardo se embrenhava, por
n'ellas encontrar melhor que na sua cella a «fecunda solidão»; nem os
claros de pinheiral gemente, com rochas núas, tão proprias para a choça
e para a cruz do ermita... Não! Aqui, em torno do pateo (onde a agua da
fonte todavia corre dos pés da cruz) são solidas tulhas para o grão,
fofos eidos em que o gado medra, capoeiras abarrotadas de capões e de
perús reverendos. Adiante é a horta viçosa, cheirosa, succulenta,
bastante a fartar as panellas todas de uma aldeia, mais enfeitada que um
jardim, com ruas que as tiras de morangal orlam e perfumam, e as latadas
ensombram, copadas de parra densa. Depois a eira de granito, limpa e
alisada, rijamente construida para longos seculos de colheitas, com o
seu espigueiro ao lado, bem fendilhado, bem arejado, tão largo que os
pardaes voam dentro como n'um pedaço de céo. E por fim, ondulando
ricamente até ás collinas macias, os campos de milho, e de centeio, o
vinhedo baixo, os olivaes, os relvados, o linho sobre os regatos, o
matto florido para os gados... S. Francisco de Assis e S. Bruno
abominariam este retiro de frades e fugiriam d'elle, escandalisados,
como de um peccado vivo.
A casa dentro offerece o mesmo bom conchego temporal. As cellas
espaçosas, de tectos apainelados, abrem para as terras semeadas, e
recebem d'ellas, através da vidraçaria cheia de sol, a perenne sensação
de fartura, de opulencia rural, de bens terrenos que não enganam. E a
sala melhor, traçada para as occupações mais gratas, é o refeitorio, com
as suas varandas rasgadas, onde os regalados monges podessem, ao fim do
jantar, conforme a veneravel tradição dos Cruzios, beber o seu café aos
golos, galhofando, arrotando, respirando a fresquidão, ou seguindo nas
faias do pateo o cantar alto d'um melro.
De sorte que não houve necessidade de alterar esta vivenda, quando de
religiosa passou a secular. Estava já sabiamente preparada para a
profanidade;--e a vida que n'ella então se começou a viver, não foi
differente da do velho convento, apenas mais bella, porque, livre das
contradicções do Espiritual e do Temporal, a sua harmonia se tornou
perfeita. E, tal como é, deslisa com incomparavel doçura. De madrugada,
os gallos cantam, a quinta acorda, os cães de fila são acorrentados, a
moça vai mungir as vaccas, o pegureiro atira o seu cajado ao hombro, a
fila dos jornaleiros mette-se ás terras--e o trabalho principia, esse
trabalho que em Portugal parece a mais segura das alegrias e a festa
sempre incansavel, porque é todo feito a cantar. As vozes vêm, altas e
desgarradas, no fino silencio, d'além, d'entre os trigos, ou do campo em
sacha, onde alvejam as camisas de linho crú, e os lenços de longas
franjas vermelhejam mais que papoulas. E não ha n'este labor nem dureza,
nem arranque. Todo elle é feito com a mansidão com que o pão amadurece
ao sol. O arado mais acaricia do que rasga a gleba. O centeio cae por
si, amorosamente, no seio attrahente da foice. A agua sabe onde o torrão
tem sêde, e corre para lá gralhando e refulgindo. Ceres n'estes sitios
bemditos permanece verdadeiramente, como no Lacio, a Deusa da Terra, que
tudo propicia e soccorre. Ella reforça o braço do lavrador, torna
refrescante o seu suor, e da alma lhe limpa todo o cuidado escuro. Por
isso os que a servem, mantêm uma serenidade risonha na tarefa mais dura.
Essa era a ditosa feição da vida antiga.
Á uma hora é o jantar, serio e pingue. A quinta tudo fornece
prodigamente:--e o vinho, o azeite, a hortaliça, a fructa têm um sabor
mais vivo e são, assim cabidos das mãos do bom Deus sobre a mesa, sem
passar pela mercancia e pela loja. Em palacio algum, por essa Europa
superfina, se come na verdade tão deliciosamente como n'estas rusticas
quintas de Portugal. Na cozinha enfumarada, com duas panellas de barro e
quatro achas a arder no chão, estas caseiras de aldeia, de mangas
arregaçadas, guizam um banquete que faria exultar o velho Jupiter, esse
transcendente guloso, educado a nectar, o Deus que mais comeu, e mais
nobremente soube comer, desde que ha Deuses no céo e na terra. Quem
nunca provou este arroz de caçoula, este anho paschal candidamente
assado no espeto, estas cabidellas de frango coevas da Monarchia que
enchem a alma, não póde realmente conhecer o que seja a especial
bemaventurança tão grosseira e tão divina, que no tempo dos frades se
chamava a _comezaina_. E a quinta depois, com as suas latadas de sombra
macia, a dormente susurração das aguas regantes, os ouros claros e
foscos ondulando nos trigaes, offerece, mais que nenhum outro paraiso
humano ou biblico, o repouso acertado para quem emerge, pesado e
risonho, d'este arroz e d'este anho!
Se estes meios-dias são um pouco materiaes, breve a tarde trará a porção
de poesia de que necessita o Espirito. Em todo o céo se apagou a
refulgencia d'ouro, o esplendor arrogante que se não deixa fitar e quasi
repelle; agora apaziguado e tratavel, elle derrama uma doçura, uma
pacificação que penetra na alma, a torna tambem pacifica e dôce, e cria
esse momento raro em que céo e alma fraternisam e se entendem. Os
arvoredos repousam n'uma immobilidade de contemplação, que é
intelligente. No piar velado e curto dos passaros ha um recolhimento e
consciencia de ninho feliz. Em fila, a boiada volta dos pastos, cançada
e farta, e vai ainda beberar ao tanque, onde o gotejar da agua sob a
cruz é mais preguiçoso. Toca o sino a Ave-Marias. Em todos os casaes se
está murmurando o nome de Nosso Senhor. Um carro retardado, pesado de
matto, geme pela sombra da azinhaga. E tudo é tão calmo e simples e
terno, minha madrinha, que, em qualquer banco de pedra em que me sente,
fico enlevado, sentindo a penetrante bondade das coisas, e tão em
harmonia com ella, que não ha n'esta alma, toda encrostada das lamas do
mundo, pensamento que não podesse contar a um santo...
Verdadeiramente estas tardes santificam. O mundo recua para muito longe,
para além dos pinhaes e das collinas, como uma miseria esquecida:--e
estamos então realmente na felicidade de um convento, sem regras e sem
abbade, feito só da religiosidade natural que nos envolve, tão propria á
oração que não tem palavras, e que é por isso a mais bem comprehendida
por Deus.
Depois escurece, já ha pyrilampos nas sebes. Venus, pequenina, scintilla
no alto. A sala, em cima, está cheia de livros, dos livros fechados no
tempo dos Cruzios--porque só desde que não pertence a uma ordem
espiritual é que esta casa se espiritualisou. E o dia na quinta finda
com uma lenta e quieta palestra sobre idéas e letras, emquanto na
guitarra ao lado geme algum dos fados de Portugal, longo em saudades e
em ais, e a lua, ao fundo da varanda, uma lua vermelha e cheia, surde,
como a escutar, por detraz dos negros montes.
_Deus nobis haec otia fecit in umbra Lusitaniae pulcherrimae_... Mau
latim--grata verdade.
Seu grato e mau afilhado--Fradique.