A CLARA...

(Trad.)

Paris, junho.

_Minha adorada amiga._--Não, não foi na _Exposição dos Aguarellistas_,

em março, que eu tive comsigo o meu primeiro encontro, por mandado dos

Fados. Foi no inverno, minha adorada amiga, no baile dos Tressans. Foi

ahi que a vi, conversando com Madame de Jouarre, diante d'uma console,

cujas luzes, entre os molhos de orchideas, punham nos seus cabellos

aquelle nimbo d'ouro que tão justamente lhe pertence como «rainha de

graça entre as mulheres». Lembro ainda, bem religiosamente, o seu sorrir

cançado, o vestido preto com relevos côr de botão d'ouro, o leque antigo

que tinha fechado no regaço. Passei; mas logo tudo em redor me pareceu

irreparavelmente enfadonho e feio; e voltei a readmirar, a _meditar_ em

silencio a sua belleza, que me prendia pelo esplendor patente e

comprehensivel, e ainda por não sei quê de fino, de espiritual, de

dolente e de meigo que brilhava através e vinha da alma. E tão

intensamente me embebi n'essa contemplação, que levei commigo a sua

imagem, decorada e inteira, sem esquecer um fio dos seus cabellos ou uma

ondulação da sêda que a cobria, e corri a encerrar-me com ella,

alvoroçado, como um artista que n'algum escuro armazem, entre poeira e

cacos, descobrisse a Obra sublime d'um Mestre perfeito.

E, porque o não confessarei? Essa imagem foi para mim, ao principio,

meramente um Quadro, pendurado no fundo da minha alma, que eu a cada

dôce momento olhava--mas para lhe louvar apenas, com crescente surpreza,

os encantos diversos de Linha e de Côr. Era sómente uma rara tela, posta

em sacrario, immovel e muda no seu brilho, sem outra influencia mais

sobre mim que a d'uma fórma muito bella que captiva um gosto muito

educado. O meu sêr continuava livre, attento ás curiosidades que até ahi

o seduziam, aberto aos sentimentos que até ahi o solicitavam;--e só

quando sentia a fadiga das coisas imperfeitas ou o desejo novo d'uma

occupação mais pura, regressava á Imagem que em mim guardava, como um

Fra Angelico, no seu claustro, pousando os pinceis ao fim do dia, e

ajoelhando ante a Madona a implorar d'ella repouso e inspiração

superior.

Pouco a pouco, porém, tudo o que não foi esta contemplação perdeu para

mim valor e encanto. Comecei a viver cada dia mais retirado no fundo da

minha alma, perdido na admiração da Imagem que lá rebrilhava--até que só

essa occupação me pareceu digna da vida, no mundo todo não reconheci

mais que uma apparencia inconstante, e fui como um monge na sua cella,

alheio ás coisas mais reaes, de joelhos e hirto no seu sonho, que é para

elle a unica realidade.

Mas não era, minha adorada amiga, um pallido e passivo extasi diante da

sua Imagem. Não! era antes um ancioso e forte estudo d'ella, com que eu

procurava conhecer através da Fórma a Essencia, e (pois que a Belleza é

o esplendor da Verdade) deduzir das perfeições do seu Corpo as

superioridades da sua Alma. E foi assim que lentamente surprehendi o

segredo da sua natureza; a sua clara testa que o cabello descobre, tão

clara e lisa, logo me contou a rectidão do seu pensar: o seu sorriso,

d'uma nobreza tão intellectual, facilmente me revelou o seu desdem do

mundanal e do ephemero, a sua incansavel aspiração para um viver de

verdade e de belleza: cada graça de seus movimentos me trahiu uma

delicadeza do seu gosto: e nos seus olhos differencei o que n'elles tão

adoravelmente se confunde, luz de razão, calor de coração, luz que

melhor aquece, calor que melhor alumia... Já a certeza de tantas

perfeições bastaria a fazer dobrar, n'uma adoração perpetua, os joelhos

mais rebeldes. Mas succedeu ainda que, ao passo que a comprehendia e que

a sua Essencia se me manifestava, assim visivel e quasi tangivel, uma

influencia descia d'ella sobre mim--uma influencia estranha, differente

de todas as influencias humanas, e que me dominava com transcendente

omnipotencia. Como lhe poderei dizer? Monge, fechado na minha cella,

comecei a aspirar á santidade, para me harmonisar e merecer a

convivencia com a Santa a que me votára. Fiz então sobre mim um aspero

exame de consciencia. Investiguei com inquietação se o meu pensar era

condigno da pureza do seu pensar; se no meu gosto não haveria

desconcertos que podessem ferir a disciplina do seu gosto; se a minha

idéa da vida era tão alta e séria como aquella que eu presentira na

espiritualidade do seu olhar, do seu sorrir; e se o meu coração não se

dispersára e enfraquecera de mais para poder palpitar com parallelo

vigor junto do seu coração. E tem sido em mim agora um arquejante

esforço para subir a uma perfeição identica áquella que em si tão

submissamente adoro.

De sorte que a minha querida amiga, sem saber, se tornou a minha

educadora. E tão dependente fiquei logo d'esta direcção, que já não

posso conceber os movimentos do meu sêr senão governados por ella e por

ella ennobrecidos. Perfeitamente sei que tudo o que hoje surge em mim de

algum valor, idéa ou sentimento, é obra d'essa educação que a sua alma

dá á minha, de longe, só com existir e ser comprehendida. Se hoje me

abandonasse a sua influencia--devia antes dizer, como um asceta, a sua

Graça--todo eu rolaria para uma inferioridade sem remissão. Veja pois

como se me tornou necessaria e preciosa... E considere que, para exercer

esta supremacia salvadora, as suas mãos não tiveram de se impôr sobre as

minhas--bastou que eu a avistasse de longe, n'uma festa, resplandecendo.

Assim um arbusto silvestre floresce á borda d'um fôsso, porque lá em

cima nos remotos céos fulge um grande sol, que não o vê, não o conhece,

e magnanimamente o faz crescer, desabrochar, e dar o seu curto aroma...

Por isso o meu amor attinge esse sentimento indescripto e sem nome que a

Planta, se tivesse consciencia, sentiria pela Luz.

E considere ainda que, necessitando de si como da luz, nada lhe rogo,

nenhum bem imploro de quem tanto póde e é para mim dona de todo o bem.

Só desejo que me deixe viver sob essa influencia, que, emanando do

simples brilho das suas perfeições, tão facil e dôcemente opéra o meu

aperfeiçoamento. Só peço esta permissão caridosa. Veja pois quanto me

conservo distante e vago, na esbatida humildade d'uma adoração que até

receia que o seu murmurio, um murmurio de prece, roce o vestido da

imagem divina...

Mas se a minha querida amiga por acaso, certa do meu renunciamento a

toda a recompensa terrestre, me permittisse desenrolar junto de si, n'um

dia de solidão, a agitada confidencia do meu peito, decerto faria um

acto de ineffavel misericordia--como outr'ora a Virgem Maria quando

animava os seus adoradores, ermitas e santos, descendo n'uma nuvem e

concedendo-lhes um sorriso fugitivo, ou deixando-lhes cahir entre as

mãos erguidas uma rosa do Paraiso. Assim, ámanhã, vou passar a tarde com

Madame de Jouarre. Não ha ahi a santidade d'uma cella ou d'uma ermida,

mas quasi o seu isolamento: e se a minha querida amiga surgisse, em

pleno resplendor, e eu recebesse de si, não direi uma rosa, mas um

sorriso, ficaria então radiosamente seguro de que este meu amor, ou este

meu sentimento indescripto e sem nome que vai além do amor, encontra

ante seus olhos piedade e permissão para esperar.--Fradique.

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A correspondência de Fradique Mendes memórias e notas · 第 33 / 46 题