Director da _Revista de Biographia e de Historia_

Paris, setembro.

_Meu caro snr. Mollinet._--Encontrei hontem á noite, ao voltar de

Fontainebleau, a carta em que o meu douto amigo, em nome e no interesse

da _Revista de Biographia e de Historia_, me pergunta quem é este meu

compatriota Pacheco (José Joaquim Alves Pacheco), cuja morte está sendo

tão vasta e amargamente carpida nos jornaes de Portugal. E deseja ainda

o meu amigo saber que obras, ou que fundações, ou que livros, ou que

idéas, ou que accrescimo na civilisacão portugueza deixou esse Pacheco,

seguido ao tumulo por tão sonoras, reverentes lagrimas.

Eu casualmente conheci Pacheco. Tenho presente, como n'um resumo, a sua

figura e a sua vida. Pacheco não deu ao seu paiz nem uma obra, nem uma

fundação, nem um livro, nem uma idéa. Pacheco era entre nós superior e

illustre unicamente porque _tinha um immenso talento_. Todavia, meu caro

snr. Mollinet, este talento, que duas gerações tão soberbamente

acclamaram, nunca deu, da sua força, uma manifestação positiva,

expressa, visivel! O talento immenso de Pacheco ficou sempre calado,

recolhido, nas profundidades de Pacheco! Constantemente elle atravessou

a vida por sobre eminencias sociaes: Deputado, Director geral, Ministro,

Governador de bancos, Conselheiro d'Estado, Par, Presidente do

conselho--Pacheco tudo foi, tudo teve, n'este paiz que, de longe e a

seus pés, o contemplava, assombrado do seu immenso talento. Mas nunca,

n'estas situações, por proveito seu ou urgencia do Estado, Pacheco teve

necessidade de deixar sahir, para se affirmar e operar fóra, aquelle

immenso talento que lá dentro o suffocava. Quando os amigos, os

partidos, os jornaes, as repartições, os corpos collectivos, a massa

compacta da nação, murmurando em redor de Pacheco «_que immenso

talento!_» o convidavam a alargar o seu dominio e a sua fortuna--Pacheco

sorria, baixando os olhos serios por traz dos oculos dourados, e seguia,

sempre para cima, sempre para mais alto, através das instituições, com o

seu immenso talento aferrolhado dentro do craneo como no cofre d'um

avaro. E esta reserva, este sorrir, este lampejar dos oculos, bastavam

ao paiz que n'elles sentia e saboreava a resplandecente evidencia do

talento de Pacheco.

Este talento nasceu em Coimbra, na aula de direito natural, na manhã em

que Pacheco, desdenhando a _Sebenta_, assegurou «que o seculo XIX era um

seculo de progresso e de luz». O curso começou logo a presentir e a

affirmar, nos cafés da Feira, que havia muito talento em Pacheco: e esta

admiração cada dia crescente do curso, communicando-se, como todos os

movimentos religiosos, das multidões impressionaveis ás classes

raciocinadoras, dos rapazes aos lentes, levou facilmente Pacheco a um

_premio_ no fim do anno. A fama d'esse talento alastrou então por toda a

academia--que, vendo Pacheco sempre pensabundo, já d'oculos, austero nos

seus passos, com praxistas gordos debaixo do braço, percebia alli um

grande espirito que se concentra e se retesa todo em força intima. Esta

geração academica, ao dispersar, levou pelo paiz, até os mais sertanejos

burgos, a noticia do immenso talento de Pacheco. E já em escuras boticas

de Traz-os-Montes, em lojas palreiras de barbeiros do Algarve, se dizia,

com respeito, com esperança:--«Parece que ha agora ahi um rapaz de

immenso talento que se formou, o Pacheco!»

Pacheco estava maduro para a representação nacional. Veio ao seu

seio--trazido por um governo (não recordo qual) que conseguira, com

dispendios e manhas, apoderar-se do precioso talento de Pacheco. Logo na

estrellada noite de dezembro em que elle, em Lisboa, foi ao Martinho

tomar chá e torradas, se susurrou pelas mesas, com curiosidade:--«É o

Pacheco, rapaz de immenso talento!» E desde que as Camaras se

constituiram, todos os olhares, os do governo e os da opposição, se

começaram a voltar com insistencia, quasi com anciedade, para Pacheco,

que, na ponta d'uma bancada, conservava a sua attitude de pensador

recluso, os braços cruzados sobre o collete de velludo, a fronte vergada

para o lado como sob o peso das riquezas interiores, e os oculos a

faiscar... Finalmente uma tarde, na discussão da resposta ao discurso da

Corôa, Pacheco teve um movimento como para atalhar um padre zarolho que

arengava sobre a «liberdade». O sacerdote immediatamente estacou com

deferencia; os tachygraphos apuraram vorazmente a orelha: e toda a

camara cessou o seu desafogado susurro, para que, n'um silencio

condignamente magestoso, se podesse pela vez primeira produzir o immenso

talento de Pacheco. No emtanto Pacheco não prodigalisou desde logo os

seus thesouros. De pé, com o dedo espetado (geito que foi sempre muito

seu), Pacheco affirmou n'um tom que trahia a segurança do pensar e do

saber intimo:--«que ao lado da liberdade devia sempre coexistir a

autoridade!» Era pouco, decerto:--mas a camara comprehendeu bem que, sob

aquelle curto resumo, havia um mundo, todo um formidavel mundo, de idéas

solidas. Não volveu a fallar durante mezes--mas o seu talento inspirava

tanto mais respeito quanto mais invisivel e inaccessivel se conservava

lá dentro, no fundo, no rico e povoado fundo do seu sêr. O unico recurso

que restou então aos devotos d'esse immenso talento (que já os tinha,

incontaveis) foi contemplar a testa de Pacheco--como se olha para o céo

pela certeza que Deus está por traz, dispondo. A testa de Pacheco

offerecia uma superficie escanteada, larga e lustrosa. E muitas vezes,

junto d'elle, Conselheiros, e Directores geraes balbuciavam

maravilhados:--«Nem é necessário mais! Basta vêr aquella testa!»

Pacheco pertenceu logo ás principaes commissões parlamentares. Nunca

porém accedeu a relatar um projecto, desdenhoso das especialidades.

Apenas ás vezes, em silencio, tomava uma nota lenta. E quando emergia da

sua concentração, espetando o dedo, era para lançar alguma idéa geral

sobre a Ordem, o Progresso, o Fomento, a Economia. Havia aqui a evidente

attitude d'um immenso talento que (como segredavam os seus amigos,

piscando o olho com finura) «está á espera, lá em cima, a pairar».

Pacheco mesmo, de resto, ensinava (esboçando, com a mão gorda, o voar

superior d'uma aza por sobre arvoredo copado) que o «talento verdadeiro

só devia conhecer as coisas _pela rama_».

Este immenso talento não podia deixar de soccorrer os conselhos da

Corôa. Pacheco, n'uma recomposição ministerial (provocada por uma

roubalheira) foi Ministro:--e immediatamente se percebeu que massiça

consolidação viera dar ao Poder o immenso talento de Pacheco. Na sua

pasta (que era a da Marinha) Pacheco não fez durante os longos mezes de

gerencia «absolutamente nada», como insinuaram tres ou quatro espiritos

amargos e estreitamente positivos. Mas pela primeira vez, dentro d'este

regimen, a nação deixou de curtir inquietações e duvidas sobre o nosso

Imperio Colonial. Porquê? Porque sentia que finalmente os interesses

supremos d'esse Imperio estavam confiados a um immeaso talento, ao

talento immenso de Pacheco.

Nas cadeiras do governo, Pacheco rarissimamente surdia do seu silencio

repleto e fecundo. Ás vezes porém, quando a opposição se tornava

clamorosa, Pacheco descerrava o braço, tomava com lentidão uma nota a

lapis:--e esta nota, traçada com saber e madurissimo pensar, bastava

para perturbar, acuar a opposição. É que o immenso talento de Pacheco

terminára por inspirar, nas camaras, nas commissões, nos centros, um

terror disciplinar! Ai d'esse sobre quem viesse a desabar com colera

aquelle talento immenso! Certa lhe seria a humilhação irresgatavel!

Assim dolorosissimamente o experimentou o pedagogista, que um dia se

arrojou a accusar o snr. Ministro do Reino (Pacheco dirigia então o

Reino) de descurar a Instrucção do paiz! Nenhuma incriminação podia ser

mais sensivel áquelle immenso espirito que, na sua phrase lapidaria e

succulenta, ensinára que «um povo sem o curso dos lyceus é um povo

incompleto». Espetando o dedo (geito sempre tão seu) Pacheco esborrachou

o homem temerario com esta coisa tremenda:--«Ao illustre deputado que me

censura só tenho a dizer que emquanto, sobre questões d'Instrucção

Publica, s. exc.^a, ahi n'essas bancadas, faz berreiro, eu, aqui n'esta

cadeira, faço luz!»--Eu estava lá, n'esse esplendido momento, na

galeria. E não me recordo de ter jámais ouvido, n'uma assembléa humana,

uma tão apaixonada e fervente rajada de acclamações! Creio que foi d'ahi

a dias que Pacheco recebeu a grã-cruz da Ordem de S. Thiago.

O immenso talento de Pacheco pouco a pouco se tornava um credo nacional.

Vendo que inabalavel apoio esse immenso talento dava ás instituições que

servia, todas o appeteceram. Pacheco começou a ser um Director universal

de Companhias e de Bancos. Cubiçado pela Corôa, penetrou no Conselho de

Estado. O seu partido reclamou avidamente que Pacheco fosse seu Chefe.

Mas os outros partidos cada dia se soccorriam com submissa reverencia do

seu immenso talento. Em Pacheco pouco a pouco se concentrava a nação.

Á maneira que elle assim envelhecia, e crescia em influencia e

dignidades, a admiração pelo seu immenso talento chegou a tomar no paiz

certas fórmas d'expressão só proprias da religião e do amor. Quando elle

foi Presidente do Conselho, havia devotos que espalmavam a mão no peito

com uncção, reviravam o branco do olho ao céo, para murmurar

piamente:--«Que talento!» E havia amorosos que, cerrando os olhos e

repenicando um beijo nas pontas apinhadas dos dedos, balbuciavam com

langor:--«Ai! que talento!» E, para que o esconder? Outros havia, a quem

aquelle immenso talento amargamente irritava, como um excessivo e

desproporcional privilegio. A esses ouvi eu bradar com furor, atirando

patadas ao chão:--«Irra, que é ter talento de mais!» Pacheco no emtanto

já não fallava. Sorria apenas. A testa cada vez se lhe tornava mais

vasta.

Não relembrarei a sua incomparavel carreira. Basta que o meu caro snr.

Mollinet percorra os nossos annaes. Em todas as instituições, reformas,

fundações, obras, encontrará o cunho de Pacheco. Portugal todo, moral e

socialmente, está repleto de Pacheco. Foi tudo, teve tudo. Decerto, o

seu talento era immenso! Mas immenso se mostrou o reconhecimento da sua

patria! Pacheco e Portugal, de resto, necessitavam insubstituivelmente

um do outro, e ajustadissimamente se completavam. Sem Portugal--Pacheco

não teria sido o que foi entre os homens: mas sem Pacheco--Portugal não

seria o que é entre as nações!

A sua velhice offereceu um caracter augusto. Perdera o cabello

radicalmente. Todo elle era testa. E mais que nunca revelava o seu

immenso talento--mesmo nas minimas coisas. Muito bem me lembro da noite

(sendo elle Presidente do Conselho) em que, na sala da Condessa de

Arrôdes, alguem, com fervor, appeteceu conhecer o que s. exc.^a pensava

de Canovas del Castillo. Silenciosamente, magistralmente, sorrindo

apenas, s. exc.^a deu com a mão grave, de leve, um corte horisontal no

ar. E foi em torno um murmurio d'admiração, lento e maravilhado.

N'aquelle gesto quantas coisas subtis, fundamente pensadas! Eu por mim,

depois de muito esgravatar, interpretei-o d'este modo:--«mediocre,

meia-altura, o snr. Canovas!» Porque, note o meu caro snr. Mollinet como

aquelle talento, sendo tão vasto--era ao mesmo tempo tão fino!

Rebentou;--quero dizer, s. exc.^a morreu, quasi repentinamente, sem

soffrimento, no começo d'este duro inverno. Ia ser justamente creado

marquez de Pacheco. Toda a nação o chorou com infinita dôr. Jaz no alto

de S. João, sob um mausoleu, onde por suggestão do snr. conselheiro

Accacio (em carta ao _Diario de Noticias_) foi esculpida uma figura de

_Portugal chorando o Genio_.

Mezes depois da morte de Pacheco, encontrei a sua viuva, em Cintra, na

casa do dr. Videira. É uma mulher (asseguram amigos meus) de excellente

intelligencia e bondade. Cumprindo um dever de portuguez, lamentei,

diante da illustre e affavel senhora, a perda irreparavel que era sua e

da patria. Mas quando, commovido, alludi ao immenso talento de Pacheco,

a viuva de Pacheco ergueu n'um brusco espanto, os olhos que conservára

baixos--e um fugidio, triste, quasi apiedado sorriso arregaçou-lhe os

cantos da bôca pallida... Eterno desaccordo dos destinos humanos!

Aquella mediana senhora nunca comprehendera aquelle immenso talento!

Creia-me, meu caro snr. Mollinet, seu dedicado--Fradique.

A correspondência de Fradique Mendes memórias e notas · 第 31 / 46 题