A MADAME DE JOUJARRE

(Trad.)

Lisboa, março.

_Minha querida madrinha._--Foi hontem, por noite morta, no comboio, ao

chegar a Lisboa (vindo do Norte e do Porto), que de repente me acudia á

memoria estremunhada o juramento que lhe fiz no sabbado de Paschoa em

Paris, com as mãos piamente estendidas sobre a sua maravilhosa edição

dos _Deveres_ de Cicero. Juramento bem estouvado, este, de lhe mandar

todas as semanas, pelo correio, Portugal em «descripções, notas,

reflexões e panoramas», como se lê no sub-titulo da _Viagem á Suissa_ do

seu amigo o Barão de Fernay, commendador de Carlos III e membro da

Academia de Toulouse. Pois com tanta fidelidade cumpro eu os meus

juramentos (quando feitos sobre a Moral de Cicero, e para regalo de quem

reina na minha Vontade) que, apenas o recordei, abri logo

escancaradamente ambos os olhos para recolher «descripções, notas,

reflexões e panoramas» d'esta terra que é minha e que _está a la

disposicion de ustêd_... Chegáramos a uma estação que chamam de

Sacavem--e tudo o que os meus olhos arregalados viram do meu paiz,

através dos vidros humidos do wagon, foi uma densa treva, d'onde

mortiçamente surgiam aqui e além luzinhas remotas e vagas. Eram

lanternas de faluas dormindo no rio:--e symbolisavam d'um modo bem

humilhante essas escassas e desmaiadas parcellas de verdade positiva que

ao homem é dado descobrir no universal mysterio do Sêr. De sorte que

tornei a cerrar resignadamente os olhos--até que, á portinhola, um homem

de bonet de galão, com o casaco encharcado d'agua, reclamou o meu

bilhete, dizendo _Vossa Excellencia_! Em Portugal, boa madrinha, todos

somos nobres, todos fazemos parte do Estado, e todos nos tratamos por

_Excellencia_.

Era Lisboa e chovia. Vinhamos poucos no comboio, uns trinta

talvez--gente simples, de maletas ligeiras e sacos de chita, que bem

depressa atravessou a busca paternal e somnolenta da Alfandega, e logo

se sumia para a cidade sob a molhada noite de março.

No casarão soturno, á espera das bagagens sérias, fiquei eu, o Smith[3]

e uma senhora esgrouviada, de oculos no bico, envolta n'uma velha capa

de pelles. Deviam ser duas horas da madrugada. O asphalto sujo do

casarão regelava os pés.

Não sei quantos seculos assim esperamos, Smith immovel, a dama e eu

marchando desencontradamente e rapidamente para aquecer ao comprido do

balcão de madeira, onde dois guardas d'Alfandega, escuros como

azeitonas, bocejavam com dignidade. Da porta do fundo, uma carreta, em

que oscillava o montão da nossa bagagem, veio por fim rolando com

pachorra. A dama de nariz de cegonha reconheceu logo a sua caixa de

folha de Flandres, cuja tampa, cahindo para traz, revelou aos meus olhos

que observavam (em seu serviço, exigente madrinha!) um penteador sujo,

uma boceta de dôce, um livro de missa e dois ferros de frisar. O guarda

enterrou o braço através d'estas coisas intimas, e com um gesto clemente

declarou a Alfandega satisfeita. A dama abalou.

Ficamos sós, Smith e eu. Smith já arrebanhára a custo a minha bagagem.

Mas faltava inexplicavelmente um saco de couro; e em silencio, com a

guia na mão, um carregador dava uma busca vagarosa através dos fardos,

barricas, pacotes, velhos bahus, armazenados ao fundo, contra a parede

enxovalhada. Vi este digno homem hesitando pensativamente diante d'um

embrulho de lona, diante d'uma arca de pinho. Seria qualquer d'esses o

saco de couro? Depois, descorçoado, declarou que positivamente nas

nossas bagagens não havia nem couro nem saco. Smith protestava, já

irritado. Então o capataz arrancou a guia das mãos inhabeis do

carregador, e recomeçou elle, com a sua intelligencia superior de chefe,

uma rebusca através das «arrumações», esquadrinhando zelosamente

caixotes, vasilhas, pipos, chapeleiras, canastras, latas e garrafões...

Por fim sacudiu os hombros, com indizivel tedio, e desappareceu para

dentro, para a escuridão das plataformas interiores. Passados instantes

voltou, coçando a cabeça por baixo do bonet, cravando os olhos em roda,

pelo chão vasio, á espera que o saco rompesse das entranhas d'este globo

desconsolador. Nada! Impaciente, encetei eu proprio uma pesquiza sofrega

através do casarão. O guarda da Alfandega, de cigarro collado ao beiço

(bondoso homem!), deitava tambem aqui e além um olhar auxiliador e

magistral. Nada! Repentinamente porém uma mulher de lenço vermelho na

cabeça, que alli vadiava, n'aquella madrugada agreste, apontou para a

porta da estação:

--Será aquillo, meu senhor?

Era! Era o meu saco, fóra, no passeio, sob a chuvinha miuda. Não

indaguei como elle se encontrava alli, sósinho, separado da bagagem a

que estrictamente o prendia o numero d'ordem estampado na guia em letras

grossas--e reclamei uma tipoia. O carregador atirou a jaleca para cima

da cabeça, sahiu ao largo, e recolheu logo annunciando com melancolia

que não havia tipoias.

--Não ha! Essa é curiosa! Então como sahem d'aqui os passageiros?

O homem encolheu os hombros. «Ás vezes havia, outras vezes não havia,

era conforme calhava a sorte...» Fiz reluzir uma placa de cinco tostões,

e suppliquei áquelle benemerito que corresse as visinhanças da estação,

á cata d'um vehiculo qualquer com rodas, coche ou carroça, que me

levasse ao conchego d'um caldo e d'um lar. O homem largou, resmungando.

E eu logo, como patriota descontente, censurei (voltado para o capataz e

para o homem da Alfandega) a irregularidade d'aquelle serviço. Em todas

as estações do Mundo, mesmo em Tunis, mesmo na Romelia, havia, á chegada

dos comboios, omnibus, carros, carretas, para transportar gente e

bagagem... Porque não as havia em Lisboa? Eis ahi um abominavel serviço

que deshonrava a Nação!

O aduaneiro esboçou um movimento de desalento, como na plena consciencia

de que todos os serviços eram abominaveis, e a Patria toda uma

irreparavel desordem. Depois para se consolar puxou com delicia o lume

ao cigarro. Assim se arrastou um d'estes quartos d'hora que fazem rugas

na face humana.

Finalmente, o carregador voltou, sacudindo a chuva, affirmando que não

havia uma tipoia em todo o bairro de Santa Apolonia.

--Mas que hei de eu fazer? Hei de ficar aqui?

O capataz aconselhou-me que deixasse a bagagem, e na manhã seguinte, com

uma carruagem certa (contratada talvez por escriptura), a viesse

recolher «muito a meu contento». Essa separação porém não convinha ao

meu conforto. Pois n'esse caso elle não via solução, a não ser que por

acaso alguma caleche, tresnoitada e trasmalhada, viesse a cruzar por

aquellas paragens.

Então, á maneira de naufragos n'uma ilha deserta do Pacifico, todos nos

apinhamos á porta da estação, esperando através da treva a vela--quero

dizer a sege salvadora. Espera amarga, espera esteril! Nenhuma luz de

lanterna, nenhum rumor de rodas, cortaram a mudez d'aquelles ermos.

Farto, inteiramente farto, o capataz declarou que «iam dar tres horas, e

elle queria fechar a estação!» E eu? Ia eu ficar alli na rua, amarrado,

sob a noite agreste, a um montão de bagagens intransportavel? Não! nas

entranhas do digno capataz decerto havia melhor misericordia. Commovido,

o homem lembrou outra solução. E era que nós, eu e o Smith, ajudados por

um carregador--atirassemos a bagagem para as costas, e marchassemos com

ella para o Hotel. Com effeito este parecia ser o unico recurso aos

nossos males. Todavia (tanto costas amollecidas por longos e deleitosos

annos de civilisação repugnam a carregar fardos, e tão tenaz é a

esperança n'aquelles a quem a sorte se tem mostrado amoravel) eu e o

Smith ainda uma vez sahimos ao largo, mudos, sondando a escuridão, com o

ouvido inclinado ao lagedo, a escutar anciosamente se ao longe, muito ao

longe, não sentiriamos rolar para nós o calhambeque da Providencia.

Nada, desoladamente nada, na sombra avara!... A minha querida madrinha,

seguindo estes lances, deve ter já lagrimas a bailar nas suas

compassivas pestanas. Eu não chorei--mas tinha vergonha, uma immensa e

pungente vergonha do Smith! Que pensaria aquelle escocez da minha

patria--e de mim, seu amo, parcella d'essa patria desorganisada? Nada

mais fragil que a reputação das nações. Uma simples tipoia que falta de

noite, e eis, no espirito do Estrangeiro, desacreditada toda uma

civilisação secular!

No emtanto o capataz fervia. Eram tres horas (mesmo tres e um quarto), e

elle queria fechar a estação! Que fazer? Abandonamo-nos, suspirando, á

decisão do desespero. Agarrei o estojo de viagem e o rolo de mantas:

Smith deitou aos seus respeitaveis hombros, virgens de cargas, uma

grossa maleta de couro: o carregador gemeu sob a enorme mala de

cantoeiras d'aço. E (deixando ainda dois volumes para ser recolhidos de

dia), começamos, sombrios e em fila, a trilhar _á pata_ a distancia que

vai de Santa Apolonia ao Hotel de Braganza! Poucos passos adiante, como

o estojo de viagem me derreava o braço, atirei-o para as costas... E

todos tres, de cabeça baixa, o dorso esmagado sob dezenas de kilos, com

um intenso azedume a estragar-nos o figado, lá continuamos, devagar,

n'uma fileira soturna, avançando para dentro da capital d'estes reinos!

Eu viera a Lisboa com um fim de repouso e de luxo. Este era o luxo, este

o repouso! Alli, sob a chuvinha impertinente, offegando, suando,

tropeçando no lagedo mal junto d'uma rua tenebrosa, a trabalhar de

carrejão!...

Não sei quantas eternidades gastamos n'esta via dolorosa. Sei que de

repente (como se a trouxesse, á redea, o anjo da nossa guarda) uma

caleche, uma positiva caleche, rompeu a passo do negrume d'uma viella.

Tres gritos, sofregos e desesperados, estacaram a parelha. E, á uma,

todas as malas rolaram em catadupa sobre o calhambeque, aos pés do

cocheiro, que, tomado d'assalto e de assombro, ergueu o chicote,

praguejando com furor. Mas serenou, comprehendendo a sua espantosa

omnipotencia--e declarou que ao Hotel de Braganza (uma distancia pouco

maior que toda a Avenida dos Campos Elyseos) não me podia levar por

menos de _tres mil reis_. Sim, minha madrinha, _dezoito francos_!

Dezoito francos em metal, prata ou ouro, por uma corrida, n'esta Idade

democratica e industrial, depois de todo o penoso trabalho das Sciencias

e das Revoluções para igualisarem e embaratecerem os confortos sociaes.

Tremulo de colera, mas submisso como quem cede á exigencia d'um trabuco,

enfiei para a tipoia--depois de me ter despedido com grande affecto do

carregador, camarada fiel da nossa trabalhosa noite.

Partimos emfim, n'um galope desesperado. D'ahi a momentos estavamos

assaltando a porta adormecida do Hotel de Braganza com repiques,

clamores, punhadas, cocegas, injurias, gemidos, todas as violencias e

todas as seducções. Debalde! Não foi mais resistente ao bello cavalleiro

Percival o portão de ouro do palacio da Ventura! Finalmente o cocheiro

atirou-se a ella aos couces. E, decerto por comprehender melhor esta

linguagem, a porta, lenta e estremunhada, rolou nos seus gonzos. Graças

te sejam, meu Deus, pae ineffavel! Estamos emfim sob um tecto, no meio

dos tapetes e estuques do Progresso, ao cabo de tão barbara jornada.

Restava pagar o batedor. Vim para elle com acerba ironia:

--Então, são tres mil reis?

Á luz do vestibulo, que me batia a face, o homem sorria. E que ha de

elle responder, o malandro sem par?

--Aquillo era por dizer... Eu não tinha conhecido o snr. D. Fradique...

Lá para o snr. D. Fradique é o que quizer.

Humilhação incomparavel! Senti logo não sei que torpe enternecimento que

me amollecia o coração. Era a bonacheirice, a relassa fraqueza que nos

enlaça a todos nós portuguezes, nos enche de culpada indulgencia uns

para os outros, e irremediavelmente estraga entre nós toda a Disciplina

e toda a Ordem. Sim, minha cara madrinha... Aquelle bandido conhecia o

snr. D. Fradique. Tinha um sorriso brejeiro e serviçal. Ambos eramos

portuguezes. Dei uma libra áquelle bandido!

E aqui está, para seu ensino, a veridica maneira por que se entra, no

ultimo quartel do seculo XIX, na grande cidade de Portugal. Todo seu,

aquelle que de longe de si sempre péna--Fradique.

A correspondência de Fradique Mendes memórias e notas · 第 28 / 46 题