Se a vida de Fradique foi assim governada por um tão constante e claro
proposito de abstenção e silencio--eu, publicando as suas Cartas, pareço
lançar estouvada e traiçoeiramente o meu amigo, depois da sua morte,
n'esse ruido e publicidade a que elle sempre se recusou por uma rigida
probidade de espirito. E assim seria--se eu não possuisse a evidencia de
que Fradique incondicionalmente approvaria uma publicação da sua
Correspondencia, organisada com discernimento e carinho. Em 1888, n'uma
carta em que lhe contava uma romantica jornada na Bretanha, alludia eu a
um livro que me acompanhára e me encantára, a _Correspondencia de Xavier
Doudan_--um d'esses espiritos recolhidos que vivem para se aperfeiçoar
na verdade e não para se glorificar no mundo, e que, como Fradique, só
deixou vestigios da sua intensa vida intellectual na sua
Correspondencia, colligida depois com reverencia pelos confidentes do
seu pensamento.
Fradique, na carta que me volveu, toda occupada dos Pyrenéos onde
gastára o verão, accrescentava n'um _post-scriptum_:--«A Correspondencia
de Doudan é realmente muito legivel; ainda que através d'ella apenas se
sente um espirito naturalmente limitado, que desde novo se entranhou no
doutrinarismo da escola de Genebra, e que depois, cahido em solidão e
doença, só pelos livros conheceu a vida, os homens e o mundo. Li em todo
o caso essas cartas--como leio todas as collecções de Correspondencias,
que, não sendo didacticamente preparadas para o publico (como as de
Plinio), constituem um estudo excellente de psychologia e de historia.
Eis-ahi uma maneira de perpetuar as idéas d'um homem que eu afoutamente
approvo--publicar-lhe a corresponcia! Ha desde logo esta immensa
vantagem:--que o valor das idéas (e portanto a escolha das que devem
ficar) não é decidido por aquelle que as concebeu, mas por um grupo de
amigos e de criticos, tanto mais livres e mais exigentes no seu
julgamento quanto estão julgando um morto que só desejam mostrar ao
mundo pelos seus lados superiores e luminosos. Além d'isso uma
Correspondencia revela melhor que uma obra a individualidade, o homem; e
isto é inestimavel para aquelles que na terra valeram mais pelo caracter
do que pelo talento. Accresce ainda que, se uma obra nem sempre augmenta
o peculio do saber humano, uma Correspondencia, reproduzindo
necessariamente os costumes, os modos de sentir, os gostos, o pensar
contemporaneo e ambiente, enriquece sempre o thesouro da documentação
historica. Temos depois que as cartas d'um homem, sendo o producto
quente e vibrante da sua vida, contêm mais ensino que a sua
philosophia--que é apenas a creação impessoal do seu espirito. Uma
Philosophia offerece meramente uma conjectura mais que se vai juntar ao
immenso montão das conjecturas: uma Vida que se confessa constitue o
estudo d'uma realidade humana, que, posta ao lado de outros estudos,
alarga o nosso conhecimento do Homem, unico objectivo _accessivel_ ao
esforço intellectual. E finalmente como _cartas são palestras escriptas_
(assim affirma não sei que classico), ellas dispensam o revestimento
sacramental da _tal prosa como não ha_... Mas este ponto precisava ser
mais desembrulhado--e eu sinto parar á porta o cavallo em que vou trepar
ao pico de Bigorre».
Foi a lembrança d'esta opinião de Fradique, tão clara e fundamentada,
que me decidiu, apenas em mim se foi calmando a saudade d'aquelle
camarada adoravel, a reunir as suas cartas para que os homens alguma
coisa podessem aprender e amar n'aquella intelligencia que eu tão
estreitamente amára e seguira. A essa carinhosa tarefa devotei um
anno--porque a correspondencia de Fradique, que, desde os quietos
habitos a que se acolhera depois de 1880 aquelle «andador de
continentes», era a mais preferida das suas occupacões, apresenta a
vastidão e a copiosidade da correspondencia de Cicero, de Voltaire, de
Proudhon, e d'outros poderosos remexedores de idéas.
Sente-se logo o prazer com que compunha estas cartas na fórma do
papel--esplendidas folhas de Whatman, eburneas bastante para que a penna
corresse n'ellas com o desembaraço com que a voz corta o ar; vastas
bastante para que n'ellas coubesse o desenrolamento da mais complexa
idéa; fortes bastante, na sua consistencia de pergaminho, para que não
prevalecesse contra ellas o carcomer do tempo. «Calculei já, ajudado
pelo Smith (affirma elle a Carlos Mayer), que cada uma das minhas
cartas, n'este papel, com enveloppe e estampilha, me custa 250 reis. Ora
suppondo vaidosamente que cada quinhentas cartas minhas contêm uma
idéa--resulta que cada idéa me fica por _cento e vinte e cinco mil
reis_. Este méro calculo bastará para que o Estado, e a economica
Classe-Média que o dirige, empeçam com ardor a educação--provando, como
inilludivelmente prova, que fumar é mais barato que pensar...
Contrabalanço _pensar_ e _fumar_, porque são, ó Carlos, duas operações
identicas que consistem em atirar pequenas nuvens ao vento».
Estas dispendiosas folhas têm todas a um canto as iniciaes de
Fradique--F. M.--minusculas e simples, em esmalte escarlate. A letra que
as enche, singularmente desigual, offerece a maior similitude com a
conversação de Fradique: ora cerrada e fina, parecendo morder o papel
como um buril para contornar bem rigorosamente a idéa; ora hesitante e
demorada, com riscos, separações, como n'aquelle esforço tão seu de
tentear, espiar, cercar a real realidade das coisas: ora mais fluida e
rapida, lançada com facilidade e largueza, lembrando esses momentos de
abundancia e de veia que Fontan de Carmanges denominava _le dégel de
Fradique_, e em que o gesto estreito e sobrio se lhe desmanchava n'um
esvoaçar de flammula ao vento.
Fradique nunca datava as suas cartas: e, se ellas vinham de moradas
familiares aos seus amigos, notava méramente o nome do mez. Existem
assim cartas innumeraveis com esta resumida indicação--_Paris, Julho_;
_Lisboa, Fevereiro_... Frequentemente, tambem, restituia aos mezes as
alcunhas naturalistas do kalendario republicano--_Paris, Floreal_;
_Londres, Nivoze_. Quando se dirigia a mulheres substituia ainda o nome
do mez pelo da flôr que melhor o symbolisa; e possuo assim cartas com
esta bucolica data--_Florença, primeiras violetas_ (o que indica fins de
fevereiro); _Londres, chegada dos Chrysanthemos_ (o que indica começos
de setembro). Uma carta de Lisboa offerece mesmo esta data
atroz--Lisboa, _primeiros fluxos da verborreia parlamentar!_ (Isto
denuncia um janeiro triste, com lama, tipoias no largo de S. Bento, e
bachareis em cima bolsando, por entre injurias, fézes de velhos
compendios).
Não é portanto possivel dispôr a Correspondencia de Fradique por uma
ordem chronologica: nem de resto essa ordem importa desde que eu não
edito a sua Correspondencia completa e integral, formando uma historia
continua e intima das suas idéas. Em cartas que não são d'um _auctor_ e
que não constituem, como as de Voltaire ou de Proudhon, o corrente e
constante commentario que acompanha e illumina a obra, cumpria sobretudo
destacar as paginas que com mais saliencia revelassem a
_personalidade_--o conjunto de idéas, gostos, modos, em que
tangivelmente se sente e se palpa o homem. E por isso, n'estes pesados
maços das cartas de Fradique, escolho apenas algumas, soltas, d'entre as
que mostram traços de caracter e relances da existencia activa; d'entre
as que deixam entrevêr algum instructivo episodio da sua vida de
coração; d'entre as que, revolvendo noções geraes sobre a litteratura, a
arte, a sociedade e os costumes, caracterisam o feitio do seu
pensamento; e ainda, pelo interesse especial que as realça, d'entre as
que se referem a coisas de Portugal, como as suas «impressões de
Lisboa», transcriptas com tão maliciosa realidade para regalo de Madame
de Jouarre.
Inutil seria decerto, n'estas laudas fragmentaes, procurar a summa do
alto e livre Pensar de Fradique ou do seu Saber tão fundo e tão certo. A
correspondencia de Fradique Mendes, como diz finamente Alceste--_c'est
son genie qui mousse_. N'ella, com effeito, vemos apenas a espuma
radiante e ephemera que fervia e transbordava, emquanto em baixo jazia o
vinho rico e substancial que não foi nunca distribuido nem serviu ás
almas sedentas. Mas, assim ligeira e dispersa, ella mostra todavia, em
excellente relevo, a imagem d'este homem tão superiormente interessante
em todas as suas manifestações de pensamento, de paixão, de
sociabilidade e de acção.
Além do meu desejo que os contemporaneos venham a amar este espirito que
tanto amei--eu obedeço, publicando as cartas de Fradique Mendes, a um
intuito de puro e seguro patriotismo.
Uma nação só vive porque pensa. _Cogitat ergo est._ A Força e a Riqueza
não bastam para provar que uma nação vive d'uma vida que mereça ser
glorificada na Historia--como rijos musculos n'um corpo e ouro farto
n'uma bolsa não bastam para que um homem honre em si a Humanidade. Um
reino d'Africa, com guerreiros incontaveis nas suas aringas e
incontaveis diamantes nas suas collinas, será sempre uma terra bravia e
morta, que, para lucro da Civilisação, os Civilisados pisam e retalham
tão desassombradamente como se sangra e se corta a rez bruta para nutrir
o animal pensante. E por outro lado se o Egypto ou Tunis formassem
resplandecentes centros de Sciencias, de Litteraturas e de Artes, e,
através de uma serena legião de homens geniaes, incessantemente
educassem o mundo--nenhuma nação, mesmo n'esta idade de ferro e de
força, ousaria occupar como um campo maninho e sem dono esses sólos
augustos d'onde se elevasse, para tornar as almas melhores, o enxame
sublime das Idéas e das Fórmas.
Só na verdade o Pensamento e a sua creação suprema, a Sciencia, a
Litteratura, as Artes, dão grandeza aos Povos, attrahem para elles
universal reverencia e carinho, e, formando dentro d'elles o thesouro de
verdades e de bellezas que o mundo precisa, os tornam perante o mundo
sacrosantos. Que differença ha, realmente, entre Paris e Chicago? São
duas palpitantes e productivas cidades--onde os palacios, as
instituições, os parques, as riquezas, se equivalem soberbamente. Porque
fórma pois Paris um fóco crepitante de Civilisação que irresistivelmente
fascina a humanidade--e porque tem Chicago apenas sobre a terra o valor
de um rude e formidavel celleiro onde se procura a farinha e o grão?
Porque Paris, além dos palacios, das instituições e das riquezas de que
Chicago tambem justamente se gloría, possue a mais um grupo especial de
homens--Renan, Pasteur, Taine, Berthelot, Coppée, Bonnat, Falguieres,
Gounod, Massenet--que pela incessante produccão do seu cerebro convertem
a banal cidade que habitam n'um centro de soberano ensino. Se as
_Origens do Christianismo_, o _Fausto_, as telas de Bonnat, os marmores
de Falguieres, nos viessem d'além dos mares, da nova e monumental
Chicago--para Chicago, e não para Paris, se voltariam, como as plantas
para o sol, os espiritos e os corações da Terra.
Se uma nação, portanto, só tem superioridade porque tem pensamento, todo
aquelle que venha revelar na nossa patria um novo homem de original
pensar concorre patrioticamente para lhe augmentar a unica grandeza que
a tornará respeitada, a unica belleza que a tornará amada;--e é como
quem aos seus templos juntasse mais um sacrario ou sobre as suas
muralhas erguesse mais um castello.
Michelet escrevia um dia, n'uma carta, alludindo a Anthero de
Quental:--«Se em Portugal restam quatro ou cinco homens como o auctor
das _Odes Modernas_, Portugal continúa a ser um grande paiz vivo...» O
mestre da _Historia de França_ com isto significava--que emquanto viver
pelo lado da Intelligencia, mesmo que jaza morta pelo lado da Acção, a
nossa patria não é inteiramente um cadaver que sem escrupulo se pise e
se retalhe. Ora no Pensamento ha manifestações diversas: e se nem todas
irradiam o mesmo esplendor, todas provam a mesma vitalidade. Um livro de
versos póde sublimemente mostrar que a alma de uma nação vive ainda pelo
Genio Poetico: um conjunto de leis salvadoras, emanando de um espirito
positivo, póde solidamente comprovar que um povo vive ainda pelo Genio
Politico:--mas a revelação de um espirito como o de Fradique assegura
que um paiz vive tambem pelos lados menos grandiosos, mas valiosos
ainda, da graça, da vivaz invenção, da transcendente ironia, da
phantasia, do humorismo e do gosto...
Nos tempos incertos e amargos que vão, Portuguezes d'estes não podem
ficar para sempre esquecidos, longe, sob a mudez de um marmore. Por isso
eu o revelo aos meus concidadãos--como uma consolação e uma esperança.