VII

Se a vida de Fradique foi assim governada por um tão constante e claro

proposito de abstenção e silencio--eu, publicando as suas Cartas, pareço

lançar estouvada e traiçoeiramente o meu amigo, depois da sua morte,

n'esse ruido e publicidade a que elle sempre se recusou por uma rigida

probidade de espirito. E assim seria--se eu não possuisse a evidencia de

que Fradique incondicionalmente approvaria uma publicação da sua

Correspondencia, organisada com discernimento e carinho. Em 1888, n'uma

carta em que lhe contava uma romantica jornada na Bretanha, alludia eu a

um livro que me acompanhára e me encantára, a _Correspondencia de Xavier

Doudan_--um d'esses espiritos recolhidos que vivem para se aperfeiçoar

na verdade e não para se glorificar no mundo, e que, como Fradique, só

deixou vestigios da sua intensa vida intellectual na sua

Correspondencia, colligida depois com reverencia pelos confidentes do

seu pensamento.

Fradique, na carta que me volveu, toda occupada dos Pyrenéos onde

gastára o verão, accrescentava n'um _post-scriptum_:--«A Correspondencia

de Doudan é realmente muito legivel; ainda que através d'ella apenas se

sente um espirito naturalmente limitado, que desde novo se entranhou no

doutrinarismo da escola de Genebra, e que depois, cahido em solidão e

doença, só pelos livros conheceu a vida, os homens e o mundo. Li em todo

o caso essas cartas--como leio todas as collecções de Correspondencias,

que, não sendo didacticamente preparadas para o publico (como as de

Plinio), constituem um estudo excellente de psychologia e de historia.

Eis-ahi uma maneira de perpetuar as idéas d'um homem que eu afoutamente

approvo--publicar-lhe a corresponcia! Ha desde logo esta immensa

vantagem:--que o valor das idéas (e portanto a escolha das que devem

ficar) não é decidido por aquelle que as concebeu, mas por um grupo de

amigos e de criticos, tanto mais livres e mais exigentes no seu

julgamento quanto estão julgando um morto que só desejam mostrar ao

mundo pelos seus lados superiores e luminosos. Além d'isso uma

Correspondencia revela melhor que uma obra a individualidade, o homem; e

isto é inestimavel para aquelles que na terra valeram mais pelo caracter

do que pelo talento. Accresce ainda que, se uma obra nem sempre augmenta

o peculio do saber humano, uma Correspondencia, reproduzindo

necessariamente os costumes, os modos de sentir, os gostos, o pensar

contemporaneo e ambiente, enriquece sempre o thesouro da documentação

historica. Temos depois que as cartas d'um homem, sendo o producto

quente e vibrante da sua vida, contêm mais ensino que a sua

philosophia--que é apenas a creação impessoal do seu espirito. Uma

Philosophia offerece meramente uma conjectura mais que se vai juntar ao

immenso montão das conjecturas: uma Vida que se confessa constitue o

estudo d'uma realidade humana, que, posta ao lado de outros estudos,

alarga o nosso conhecimento do Homem, unico objectivo _accessivel_ ao

esforço intellectual. E finalmente como _cartas são palestras escriptas_

(assim affirma não sei que classico), ellas dispensam o revestimento

sacramental da _tal prosa como não ha_... Mas este ponto precisava ser

mais desembrulhado--e eu sinto parar á porta o cavallo em que vou trepar

ao pico de Bigorre».

Foi a lembrança d'esta opinião de Fradique, tão clara e fundamentada,

que me decidiu, apenas em mim se foi calmando a saudade d'aquelle

camarada adoravel, a reunir as suas cartas para que os homens alguma

coisa podessem aprender e amar n'aquella intelligencia que eu tão

estreitamente amára e seguira. A essa carinhosa tarefa devotei um

anno--porque a correspondencia de Fradique, que, desde os quietos

habitos a que se acolhera depois de 1880 aquelle «andador de

continentes», era a mais preferida das suas occupacões, apresenta a

vastidão e a copiosidade da correspondencia de Cicero, de Voltaire, de

Proudhon, e d'outros poderosos remexedores de idéas.

Sente-se logo o prazer com que compunha estas cartas na fórma do

papel--esplendidas folhas de Whatman, eburneas bastante para que a penna

corresse n'ellas com o desembaraço com que a voz corta o ar; vastas

bastante para que n'ellas coubesse o desenrolamento da mais complexa

idéa; fortes bastante, na sua consistencia de pergaminho, para que não

prevalecesse contra ellas o carcomer do tempo. «Calculei já, ajudado

pelo Smith (affirma elle a Carlos Mayer), que cada uma das minhas

cartas, n'este papel, com enveloppe e estampilha, me custa 250 reis. Ora

suppondo vaidosamente que cada quinhentas cartas minhas contêm uma

idéa--resulta que cada idéa me fica por _cento e vinte e cinco mil

reis_. Este méro calculo bastará para que o Estado, e a economica

Classe-Média que o dirige, empeçam com ardor a educação--provando, como

inilludivelmente prova, que fumar é mais barato que pensar...

Contrabalanço _pensar_ e _fumar_, porque são, ó Carlos, duas operações

identicas que consistem em atirar pequenas nuvens ao vento».

Estas dispendiosas folhas têm todas a um canto as iniciaes de

Fradique--F. M.--minusculas e simples, em esmalte escarlate. A letra que

as enche, singularmente desigual, offerece a maior similitude com a

conversação de Fradique: ora cerrada e fina, parecendo morder o papel

como um buril para contornar bem rigorosamente a idéa; ora hesitante e

demorada, com riscos, separações, como n'aquelle esforço tão seu de

tentear, espiar, cercar a real realidade das coisas: ora mais fluida e

rapida, lançada com facilidade e largueza, lembrando esses momentos de

abundancia e de veia que Fontan de Carmanges denominava _le dégel de

Fradique_, e em que o gesto estreito e sobrio se lhe desmanchava n'um

esvoaçar de flammula ao vento.

Fradique nunca datava as suas cartas: e, se ellas vinham de moradas

familiares aos seus amigos, notava méramente o nome do mez. Existem

assim cartas innumeraveis com esta resumida indicação--_Paris, Julho_;

_Lisboa, Fevereiro_... Frequentemente, tambem, restituia aos mezes as

alcunhas naturalistas do kalendario republicano--_Paris, Floreal_;

_Londres, Nivoze_. Quando se dirigia a mulheres substituia ainda o nome

do mez pelo da flôr que melhor o symbolisa; e possuo assim cartas com

esta bucolica data--_Florença, primeiras violetas_ (o que indica fins de

fevereiro); _Londres, chegada dos Chrysanthemos_ (o que indica começos

de setembro). Uma carta de Lisboa offerece mesmo esta data

atroz--Lisboa, _primeiros fluxos da verborreia parlamentar!_ (Isto

denuncia um janeiro triste, com lama, tipoias no largo de S. Bento, e

bachareis em cima bolsando, por entre injurias, fézes de velhos

compendios).

Não é portanto possivel dispôr a Correspondencia de Fradique por uma

ordem chronologica: nem de resto essa ordem importa desde que eu não

edito a sua Correspondencia completa e integral, formando uma historia

continua e intima das suas idéas. Em cartas que não são d'um _auctor_ e

que não constituem, como as de Voltaire ou de Proudhon, o corrente e

constante commentario que acompanha e illumina a obra, cumpria sobretudo

destacar as paginas que com mais saliencia revelassem a

_personalidade_--o conjunto de idéas, gostos, modos, em que

tangivelmente se sente e se palpa o homem. E por isso, n'estes pesados

maços das cartas de Fradique, escolho apenas algumas, soltas, d'entre as

que mostram traços de caracter e relances da existencia activa; d'entre

as que deixam entrevêr algum instructivo episodio da sua vida de

coração; d'entre as que, revolvendo noções geraes sobre a litteratura, a

arte, a sociedade e os costumes, caracterisam o feitio do seu

pensamento; e ainda, pelo interesse especial que as realça, d'entre as

que se referem a coisas de Portugal, como as suas «impressões de

Lisboa», transcriptas com tão maliciosa realidade para regalo de Madame

de Jouarre.

Inutil seria decerto, n'estas laudas fragmentaes, procurar a summa do

alto e livre Pensar de Fradique ou do seu Saber tão fundo e tão certo. A

correspondencia de Fradique Mendes, como diz finamente Alceste--_c'est

son genie qui mousse_. N'ella, com effeito, vemos apenas a espuma

radiante e ephemera que fervia e transbordava, emquanto em baixo jazia o

vinho rico e substancial que não foi nunca distribuido nem serviu ás

almas sedentas. Mas, assim ligeira e dispersa, ella mostra todavia, em

excellente relevo, a imagem d'este homem tão superiormente interessante

em todas as suas manifestações de pensamento, de paixão, de

sociabilidade e de acção.

Além do meu desejo que os contemporaneos venham a amar este espirito que

tanto amei--eu obedeço, publicando as cartas de Fradique Mendes, a um

intuito de puro e seguro patriotismo.

Uma nação só vive porque pensa. _Cogitat ergo est._ A Força e a Riqueza

não bastam para provar que uma nação vive d'uma vida que mereça ser

glorificada na Historia--como rijos musculos n'um corpo e ouro farto

n'uma bolsa não bastam para que um homem honre em si a Humanidade. Um

reino d'Africa, com guerreiros incontaveis nas suas aringas e

incontaveis diamantes nas suas collinas, será sempre uma terra bravia e

morta, que, para lucro da Civilisação, os Civilisados pisam e retalham

tão desassombradamente como se sangra e se corta a rez bruta para nutrir

o animal pensante. E por outro lado se o Egypto ou Tunis formassem

resplandecentes centros de Sciencias, de Litteraturas e de Artes, e,

através de uma serena legião de homens geniaes, incessantemente

educassem o mundo--nenhuma nação, mesmo n'esta idade de ferro e de

força, ousaria occupar como um campo maninho e sem dono esses sólos

augustos d'onde se elevasse, para tornar as almas melhores, o enxame

sublime das Idéas e das Fórmas.

Só na verdade o Pensamento e a sua creação suprema, a Sciencia, a

Litteratura, as Artes, dão grandeza aos Povos, attrahem para elles

universal reverencia e carinho, e, formando dentro d'elles o thesouro de

verdades e de bellezas que o mundo precisa, os tornam perante o mundo

sacrosantos. Que differença ha, realmente, entre Paris e Chicago? São

duas palpitantes e productivas cidades--onde os palacios, as

instituições, os parques, as riquezas, se equivalem soberbamente. Porque

fórma pois Paris um fóco crepitante de Civilisação que irresistivelmente

fascina a humanidade--e porque tem Chicago apenas sobre a terra o valor

de um rude e formidavel celleiro onde se procura a farinha e o grão?

Porque Paris, além dos palacios, das instituições e das riquezas de que

Chicago tambem justamente se gloría, possue a mais um grupo especial de

homens--Renan, Pasteur, Taine, Berthelot, Coppée, Bonnat, Falguieres,

Gounod, Massenet--que pela incessante produccão do seu cerebro convertem

a banal cidade que habitam n'um centro de soberano ensino. Se as

_Origens do Christianismo_, o _Fausto_, as telas de Bonnat, os marmores

de Falguieres, nos viessem d'além dos mares, da nova e monumental

Chicago--para Chicago, e não para Paris, se voltariam, como as plantas

para o sol, os espiritos e os corações da Terra.

Se uma nação, portanto, só tem superioridade porque tem pensamento, todo

aquelle que venha revelar na nossa patria um novo homem de original

pensar concorre patrioticamente para lhe augmentar a unica grandeza que

a tornará respeitada, a unica belleza que a tornará amada;--e é como

quem aos seus templos juntasse mais um sacrario ou sobre as suas

muralhas erguesse mais um castello.

Michelet escrevia um dia, n'uma carta, alludindo a Anthero de

Quental:--«Se em Portugal restam quatro ou cinco homens como o auctor

das _Odes Modernas_, Portugal continúa a ser um grande paiz vivo...» O

mestre da _Historia de França_ com isto significava--que emquanto viver

pelo lado da Intelligencia, mesmo que jaza morta pelo lado da Acção, a

nossa patria não é inteiramente um cadaver que sem escrupulo se pise e

se retalhe. Ora no Pensamento ha manifestações diversas: e se nem todas

irradiam o mesmo esplendor, todas provam a mesma vitalidade. Um livro de

versos póde sublimemente mostrar que a alma de uma nação vive ainda pelo

Genio Poetico: um conjunto de leis salvadoras, emanando de um espirito

positivo, póde solidamente comprovar que um povo vive ainda pelo Genio

Politico:--mas a revelação de um espirito como o de Fradique assegura

que um paiz vive tambem pelos lados menos grandiosos, mas valiosos

ainda, da graça, da vivaz invenção, da transcendente ironia, da

phantasia, do humorismo e do gosto...

Nos tempos incertos e amargos que vão, Portuguezes d'estes não podem

ficar para sempre esquecidos, longe, sob a mudez de um marmore. Por isso

eu o revelo aos meus concidadãos--como uma consolação e uma esperança.

A correspondência de Fradique Mendes memórias e notas · 第 15 / 46 题