O que impressionava logo na Intelligencia de Fradique, ou antes na sua
maneira de se exercer, era a suprema liberdade junta á suprema audacia.
Não conheci jámais espirito tão impermeavel á tyrannia ou á insinuação
das «idéas feitas»: e decerto nunca um homem traduziu o seu pensar
original e proprio com mais calmo e soberbo desassombro. «Apesar de
trinta seculos de geometria me affirmarem (diz elle n'uma carta a J.
Teixeira d'Azevedo) que _a linha recta é a mais curta distancia entre
dois pontos_, se eu achasse que, para subir da porta do Hotel Universal
á porta da Casa Havaneza, me sahia mais directo e breve rodear pelo
bairro de S. Martinho e pelos altos da Graça, declararia logo á secular
geometria--que a distancia mais curta entre dois pontos é uma _curva_
vadia e delirante!». Esta independencia da Razão, que Fradique assim
apregôa com desordenada Phantasia, constitue uma qualidade rara:--mas o
animo de a affirmar intemeratamente diante da magestosa Tradição, da
Regra, e das conclusões oraculares dos Mestres, é já uma virtude, e
rarissima, de radiosa excepção!
Fradique (n'outra carta a J. Teixeira d'Azevedo) falla d'um polaco, G.
Cornuski, professor e critico, que escrevia na _Revista Suissa_, e que
(diz Fradique) «constantemente sentia o seu gosto, muito pessoal e muito
decidido, rebellar-se contra obras de Litteratura e de Arte que a
unanimidade critica, desde seculos, tem consagrado como magistraes--a
_Gerusalemme Liberata_ do Tasso, as telas do Ticiano, as tragedias de
Racine, as orações de Bossuet, os nossos _Lusiadas_, e outros monumentos
canonizados. Mas, sempre que a sua probidade de Professor e de Critico
lhe impunha a proclamação da verdade, este homem robusto, sanguineo, que
heroicamente se batera em duas insurreições, tremia, pensava:--«Não!
Porque será o meu criterio mais seguro que o de tão finos entendimentos
através dos tempos? Quem sabe? Talvez n'essas obras exista a
sublimidade--e só no meu espirito a impotencia de a comprehender». E o
desgraçado Cornuski, com a alma mais triste que um crepusculo d'outono,
continuava, diante dos córos da _Athalie_ e das nudezes do Ticiano, a
murmurar desconsoladamente:--«Como é bello!»
Raros soffrem estas angustias criticas do desditoso Cornuski. Todos
porém, com risonha inconsciencia, praticam o seu servilismo
intellectual. Já, com effeito, porque o nosso espirito não possua a
viril coragem de affrontar a auctoridade d'aquelles a quem
tradicionalmente attribue um criterio mais firme e um saber mais alto;
já porque as idéas estabelecidas, fluctuando diffusamente na nossa
memoria, depois de leituras e conversas, nos pareçam ser as nossas
proprias; já porque a suggestão d'esses conceitos se imponha e nos leve
subtilmente a concluir em concordancia com elles--a lamentavel verdade é
que hoje todos nós servilmente tendemos a pensar e sentir como antes de
nós e em torno de nós já se sentiu ou pensou.
«O homem do seculo XIX, o Europeu, porque só elle é essencialmente do
seculo XIX (diz Fradique n'uma carta a Carlos Mayer), vive dentro d'uma
pallida e morna _infecção de banalidade_, causada pelos quarenta mil
volumes que todos os annos, suando e gemendo, a Inglaterra, a França e a
Allemanha depositam ás esquinas, e em que interminavelmente e
monotonamente reproduzem, com um ou outro arrebique sobreposto, as
quatro idéas e as quatro impressões legadas pela Antiguidade e pela
Renascença. O Estado por meio das suas escólas canalisa esta infecção. A
isto, oh Carolus, se chama _educar_! A creança, desde a sua primeira
«Selecta de Leitura» ainda mal soletrada, começa a absorver esta camada
do Logar-Commum--camada que depois todos os dias, através da vida, o
Jornal, a Revista, o Folheto, o Livro lhe vão atochando no espirito até
lh'o empastarem todo em banalidade, e lh'o tornarem tão inutil para a
producção como um sólo cuja fertilidade nativa morreu sob a areia e
pedregulho de que foi barbaramente alastrado. Para que um Europeu
lograsse ainda hoje ter algumas idéas novas, de viçosa originalidade,
seria necessario que se internasse no Deserto ou nos Pampas; e ahi
esperasse pacientemente que os sopros vivos da Natureza, batendo-lhe a
Intelligencia e d'ella pouco a pouco varrendo os detritos de vinte
seculos de Litteratura, lhe refizessem uma virgindade. Por isso eu te
affirmo, oh Carolus Mayerensis, que a Intelligencia, que altivamente
pretenda readquirir a divina potencia de gerar, deve ir curar-se da
Civilisacão litteraria por meio d'uma residencia tonica, durante dois
annos, entre os Hottentotes e os Patagonios. A Patagonia opéra sobre o
Intellecto como Vichy sobre o figado--desobstruindo-o, e permittindo-lhe
o são exercicio da funcção natural. Depois de dois annos de vida
selvagem, entre o Hottentote nú movendo-se na plenitude logica do
Instincto,--que restará ao civilisado de todas as suas idéas sobre o
Progresso, a Moral, a Religião, a Industria, a Economia Politica, a
Sociedade e a Arte? Farrapos. Os pendentes farrapos que lhe restarão das
pantalonas e da quinzena que trouxe da Europa, depois de vinte mezes de
matagal e de brejo. E não possuindo em torno de si Livros e Revistas que
lhe renovem uma provisão de «idéas feitas», nem um benefico Nunes
Algibebe que lhe forneça uma outra andaina de «fato feito»--o Europeu
irá insensivelmente regressando á nobreza do estado primitivo, nudez do
corpo e originalidade da alma. Quando de lá voltar é um Adão forte e
puro, virgem de litteratura, com o craneo limpo de todos os conceitos e
todas as noções amontoadas desde Aristoteles podendo proceder
soberbamente a um exame inedito das coisas humanas. Carlos, espirito que
distillas _espiritos_, queres remergulhar nas Origens e vir commigo á
inspiradora Hottentocia? Lá, livres e nús, estirados ao sol entre a
palmeira e o regato que tutelarmente nos darão o sustento do corpo, com
a nossa lança forte cravada na relva, e mulheres ao lado vertendo-nos
n'um canto dôce a porção de poesia e de sonho que a alma
precisa--deixaremos livremente as ilhargas crestadas estalarem-nos de
riso á idéa das grandes Philosophias, e das grandes Moraes, e das
grandes Economias, e das grandes Criticas, e das grandes Pilherias que
vão por essa Europa, onde densos formigueiros de chapéos altos se
atropellam, estonteados pelas superstições da civilisação, pela illusão
do ouro, pelo pedantismo das sciencias, pelas mistificações dos
reformadores pela escravidão da rotina, e pela estupida admiração de si
mesmos!...»
Assim diz Fradique. Ora este «exame inedito das coisas humanas», só
possivel, segundo o poeta das Lapidarias, ao Adão renovado que
regressasse da Patagonia com o espirito escarolado do pó e do lixo de
longos annos de Litteratura--tentou-o elle, sem deixar os muros
classicos da rua de Varennes, com incomparavel vigor e sinceridade. E
n'isto mostrava intrepidez moral. No mundo a que irresistivelmente o
prendiam os seus gostos e os seus habitos--mundo mediano e regrado, sem
invenção e sem iniciativa intellectual, onde as Idéas, para agradar,
devem ser como as Maneiras, «geralmente adoptadas» e não individualmente
creadas--Fradique, com a sua indocil e brusca liberdade de Juizos,
affrontava o perigo de passar por um petulante rebuscador de
originalidade, avido de gloriola e de excessivo destaque. Um espirito
inventivo e novo, com uma força de pensar muito propria, deixando
transbordar a vida abundante e multipla que o anima e enche--é mais
desagradavel a esse mundo do que o homem rudemente natural que não regre
e limite dentro das «Conveniencias» a espessura da cabelleira, o
estridor das risadas, e o franco mover dos membros grossos. D'esse
espirito indisciplinado e creador, logo se murmura com desconfiança:
«Pretencioso! busca o effeito e o destaque!» Ora Fradique nada detestava
mais intensamente do que o _effeito_ e o _destaque excessivo_. Nunca lhe
conheci senão gravatas escuras. E tudo preferiria a ser apontado como um
d'esses homens, que, sem odio sincero a Diana e ao seu culto e só para
que d'elles se falle com espanto nas praças, vão, em plena festa,
agitando um grande facho, incendiar-lhe o templo em Epheso. Tudo
preferiria--menos (como elle diz n'uma carta a Madame de Jouarre) «ter
de vestir a Verdade nos armazens do Louvre para poder entrar com ella em
casa de Anna de Varle, duqueza de Varle e d'Orgemont. A entrar hei de
levar a minha amiga núa, toda núa, pisando os tapetes com os seus pés
nús, enristando para os homens as pontas fecundas dos seus nobres seios
nús. _Amicus Mundus, sed magis amica Veritas!_ Este bello latim
significa, minha madrinha, que eu, no fundo, julgo que a originalidade é
agradavel ás mulheres e só desagradavel aos homens--o que duplamente me
leva a amal-a com pertinacia».
Esta independencia, esta livre elasticidade de espirito e intensa
sinceridade--impedindo que por seducção elle se désse todo a um Systema,
onde para sempre permanecesse por inercia--eram de resto as qualidades
que melhor convinham á funcção intellectual que para Fradique se tornára
a mais continua e preferida. «Não ha em mim infelizmente (escrevia elle
a Oliveira Martins, em 1882) nem um sabio, nem um philosopho. Quero
dizer, não sou um d'esses homens seguros e uteis, destinados por
temperamento ás analyses secundarias que se chamam Sciencias, e que
consistem em reduzir uma multidão de factos esparsos a Typos e Leis
particulares por onde se explicam modalidades do Universo; nem sou
tambem um d'esses homens, fascinantes e pouco seguros, destinados por
genio ás analyses superiores que se chamam Philosophias, e que consistem
em reduzir essas Leis e esses Typos a uma formula geral por onde se
explica a essencia mesma do inteiro Universo. Não sendo pois um sabio,
nem um philosopho, não posso concorrer para o melhoramento dos meus
semelhantes--nem accrescendo-lhes o bem-estar por meio da Sciencia que é
uma productora de riqueza, nem elevando-lhes o bem-sentir por meio da
Metaphysica que é uma inspiradora de poesia. A entrada na Historia
tambem se me conserva vedada:--porque, se, para se produzir Litteratura
basta possuir talentos, para tentar a Historia convém possuir virtudes.
E eu!... Só portanto me resta ser, através das idéas e dos factos, um
homem que passa, infinitamente curioso e attento. A egoista occupação do
meu espirito hoje, caro historiador, consiste em me acercar d'uma idéa
ou d'um facto, deslizar suavemente para dentro, percorrel-o miudamente,
explorar-lhe o inedito, gozar todas as surprezas e emoções intellectuaes
que elle possa dar, recolher com cuidado o ensino ou a parcella de
verdade que exista nos seus refolhos--e sahir, passar a outro facto ou a
outra idéa, com vagar e com paz, como se percorresse uma a uma as
cidades d'um paiz d'arte e luxo. Assim visitei outr'ora a Italia,
enlevado no esplendor das côres e das fórmas. Temporal e espiritualmente
fiquei simplesmente um _touriste_».
Estes _touristes_ da intelligencia abundam em França e em Inglaterra.
Sómente Fradique não se limitava, como esses, a exames exteriores e
impessoaes, á maneira de quem n'uma cidade d'Oriente, retendo as noções
e os gostos de Europeu, estuda apenas o aéreo relevo dos monumentos e a
roupagem das multidões. Fradique (para continuar a sua imagem)
transformava-se em «cidadão das cidades que visitava». Mantinha por
principio que se devia momentaneamente _crêr_ para bem comprehender uma
crença. Assim se fizera babista, para penetrar e desvendar o Babismo.
Assim se afiliára em Paris a um club revolucionario, _As Pantheras de
Batignolles_, e frequentára as suas sessões, encolhido n'uma quinzena
sordida pregada com alfinetes, com a esperança de lá colher «a flôr de
alguma extravagancia instructiva». Assim se incorporava em Londres aos
Positivistas rituaes, que, nos dias festivos do Calendario Comtista, vão
queimar o incenso e a myrrha na ara da Humanidade e enfeitar de rosas a
Imagem de Augusto Comte. Assim se ligára com os _Theosophistas_,
concorrera prodigamente para a fundação da _Revista Espiritista_, e
presidia as Evocações da rua Cardinet, envolto na tunica de linho, entre
os dois _mediums_ supremos, Patoff e Lady Thorgan. Assim habitára
durante um longo verão Seo-d'Urgel, a catholica cidadella do Carlismo,
«para destrinçar bem (diz elle) quaes são os motivos e as formulas que
fazem um _Carlista_--porque todo o sectario obedece á realidade d'um
motivo e á illusão d'uma formula». Assim se tornára o confidente do
veneravel Principe Koblaskini, para «poder desmontar e estudar peça a
peça o mecanismo d'um cerebro de Nihilista». Assim se preparava (quando
a morte o surprehendeu) a voltar á India, para se tornar budhista
praticante, e penetrar cabalmente o Budhismo, em que fixára a
curiosidade e actividade critica dos seus derradeiros annos. De sorte
que d'elle bem se póde dizer que foi o devoto de todas as Religiões, o
partidario de todos os Partidos, o discipulo de todas as
Philosophias--cometa errando através das idéas, embebendo-se
convictamente n'ellas, de cada uma recebendo um accrescimo de
substancia, mas em cada uma deixando alguma coisa do calor e da energia
do seu movimento pensante. Aquelles que imperfeitamente o conheciam
classificavam Fradique como um _dilettante_. Não! essa séria convicção
(a que os inglezes chamam _earnestness_), com que Fradique se
arremessava ao fundo real das coisas, communicava á sua vida uma valia e
efficacia muito superiores ás que o _dilettantismo_, a diversão sceptica
que tantas injurias arrancou a Carlyle, communica ás naturezas que a
elle deliciosamente se abandonam. O _dilettante_, com effeito, corre
entre as idéas e os factos como as borboletas (a quem é desde seculos
comparado) correm entre as flôres, para pousar, retomar logo o vôo
estouvado, encontrando n'essa fugidia mutabilidade o deleite supremo.
Fradique, porém, ia como a abelha, de cada planta pacientemente
extrahindo o seu mel:--quero dizer, de cada opinião recolhendo essa
«parcella de verdade» que cada uma invariavelmente contém, desde que
homens, depois de outros homens, a tenham fomentado com interesse ou
paixão.
Assim se exercia esta diligente e alta Intelligencia. Qual era porém a
sua qualidade essencial e intrinseca? Tanto quanto pude discernir, a
suprema qualidade intellectual de Fradique pareceu-me sempre ser--uma
percepção extraordinaria da Realidade. «Todo o phenomeno (diz elle n'uma
carta a Anthero de Quental, suggestiva através de certa obscuridade que
a envolve) tem uma Realidade. A expressão de _Realidade_ não é
philosophica; mas eu emprego-a, lanço-a ao acaso e tenteando, para
apanhar dentro d'ella o mais possivel d'um conceito pouco coercivel,
quasi irreductivel ao verbo. Todo o phenomeno, pois, tem relativamente
ao nosso entendimento e á sua potencia de discriminar, uma
Realidade--quero dizer certos caracteres, ou (para me exprimir por uma
imagem, como recommenda Buffon) certos _contornos_ que o limitam, o
definem, lhe dão feição propria no esparso e universal conjunto, e
constituem o seu _exacto_, _real_ e _unico_ modo de ser. Sómente o erro,
a ignorancia, os preconceitos, a tradição, a rotina e sobretudo a
ILLUSÃO, formam em torno de cada phenomeno uma nevoa que esbate e
deforma os seus contornos, e impede que a visão intellectual o divise no
seu _exacto_, _real_ e _unico_ modo de ser. É justamente o que succede
aos monumentos de Londres mergulhados no nevoeiro... Tudo isto vai
expresso d'um modo bem hesitante e incompleto! Lá fóra o sol está
cahindo d'um céo fino e nitido sobre o meu quintal de convento coberto
de neve dura: n'este ar tão puro e claro, em que as coisas tomam um
relevo rigido, perdi toda a flexibilidade e fluidez da technologia
philosophica: só me poderia exprimir por imagens recortadas á tesoura.
Mas vossê decerto comprehenderá, Anthero excellente e subtil! Já esteve
em Londres, no outono, em novembro? Nas manhãs de nevoeiro, n'uma rua de
Londres, ha difficuldade em distinguir se a sombra densa que ao longe se
empasta é a estatua d'um heroe ou o fragmento d'um tapume. Uma
pardacenta illusão submerge toda a cidade--e com espanto se encontra
n'uma taverna quem julgára penetrar n'um templo. Ora para a maioria dos
espiritos uma nevoa igual fluctua sobre as realidades da vida e do
mundo. D'ahi vem que quasi todos os seus passos são transvios, quasi
todos os seus juizos são enganos; e estes constantemente estão trocando
o Templo e a Taberna. Raras são as visões intellectuaes bastante agudas
e poderosas para romper através da neblina e surprehender as linhas
exactas, o verdadeiro contorno da Realidade. Eis o que eu queria
tartamudear».
Pois bem! Fradique dispunha de uma d'essas visões privilegiadas. O
proprio modo que tinha de pousar lentamente os olhos e _detalhar em
silencio_--como dizia Oliveira Martins--revelava logo o seu processo
interior de concentrar e applicar a Razão, á maneira de um longo e
pertinaz dardo de luz, até que, desfeitas as nevoas, a Realidade pouco a
pouco lhe surgisse na sua rigorosa e _unica_ fórma.
A manifestação d'esta magnifica força que mais impressionava--era o seu
poder de _definir_. Possuindo um espirito que _via_ com a maxima
exactidão; possuindo um verbo que _traduzia_ com a maxima concisão--elle
podia assim dar resumos absolutamente profundos e perfeitos. Lembro que
uma noite, na sua casa da rua de Varennes, em Paris, se discutia com
ardor a natureza da Arte. Repetiram-se todas as definições de Arte,
enunciadas desde Platão: inventaram-se outras, que eram, como sempre, o
phenomeno visto limitadamente através d'um temperamento. Fradique
conservou-se algum tempo mudo, dardejando os olhos para o vago. Por fim,
com essa maneira lenta (que para os que incompletamente o conheciam
parecia professoral) murmurou, no silencio deferente que se
alargára:--«A Arte é um resumo da Natureza feito pela imaginação».
Certamente, não conheço mais completa definição d'Arte! E com razão
affirmava um amigo nosso, homem de excellente phantasia, que «se o bom
Deus, um dia, compadecido das nossas hesitações, nos atirasse lá de
cima, do seu divino ermo, a final explicação da Arte, nós ouviriamos
resoar entre as nuvens, soberba como o rolar de cem carros de guerra, a
definição de Fradique!»
A superior intelligencia de Fradique tinha o apoio de uma cultura forte
e rica. Já os seus instrumentos de saber eram consideraveis. Além d'um
solido conhecimento das linguas classicas (que, na sua idade de Poesia e
de Litteratura decorativa, o habilitára a crear em latim barbaro
poemetos tão bellos como o _Laus Veneris tenebrosae_)--possuia
profundamente os idiomas das tres grandes nações pensantes, a França, a
Inglaterra e a Allemanha. Conhecia tambem o arabe, que (segundo me
affirmou Riaz-Effendi, chronista do sultão Abdul-Aziz) fallava com
abundancia e gosto.
As sciencias naturaes eram-lhe queridas e familiares; e uma insaciavel e
religiosa curiosidade do Universo impellira-o a estudar tudo o que
divinamente o compõe, desde os insectos até aos astros. Estudos
carinhosamente feitos com o coração--porque Fradique sentia pela
Natureza, sobretudo pelo animal e pela planta, uma ternura e uma
veneração genuinamente budhistas. «Amo a Natureza (escrevia-me elle em
1882) por si mesma, toda e individualmente, na graça e na fealdade de
cada uma das fórmas innumeraveis que a enchem: e amo-a ainda como
manifestação tangivel e multipla da suprema Unidade, da Realidade
intangivel, a que cada Religião e cada Philosophia deram um nome diverso
e a que eu presto culto sob o nome de Vida. Em resumo adoro a Vida--de
que são igualmente expressões uma rosa e uma chaga, uma constellação e
(com horror o confesso) o conselheiro Acacio. Adoro a Vida e portanto
tudo adoro--porque tudo é viver, mesmo morrer. Um cadaver rigido no seu
esquife vive tanto como uma aguia batendo furiosamente o vôo. E a minha
religião está toda no credo de Athanasio, com uma pequena
variante:--«Creio na _Vida_ toda-poderosa, creadora do céo e da
terra...»
Quando começou porém a nossa intimidade, em 1880, o seu inquieto
espirito mergulhava de preferencia nas sciencias sociaes, aquellas
sobretudo que pertencem á Pre-historia--a Anthropologia, a Linguistica,
o estudo das Raças, dos Mythos e das Instituições Primitivas. Quasi
todos os tres mezes, altas rumas de livros enviadas da casa Hachette,
densas camadas de Revistas especiaes, alastrando o tapete de Caramania,
indicavam-me que uma nova curiosidade se apoderára d'elle com
intensidade e paixão. Conheci-o assim successiva e ardentemente occupado
com os monumentos megalithicos da Andaluzia; com as habitações
lacustres; com a mythologia dos povos Aryanos; com a magia Chaldaica;
com as raças Polynesias; com o direito costumario dos Cafres; com a
christianisação dos Deuses Pagãos... Estas aferradas investigações
duravam emquanto podia extrahir d'ellas «alguma emoção ou surpreza
intellectual». Depois, um dia, Revistas e volumes desappareciam, e
Fradique annunciava triumphalmente alargando os passos alegres por sobre
o tapete livre:--«Sorvi todo o Sabeismo!», ou «Esgotei os Polynesios!»
O estudo porém a que se prendeu ininterrompidamente, com especial
constancia, foi o da Historia. «Desde pequeno (escrevia elle a Oliveira
Martins, n'uma das suas ultimas cartas, em 1886) tive a paixão da
Historia. E adivinha vossê porquê, Historiador? Pelo confortavel e
conchegado sentimento que ella me dava da solidariedade humana. Quando
fiz onze annos, minha avó, de repente, _para me habituar ás coisas duras
da vida_ (como ella dizia), arrancou-me ao pachorrento ensino do padre
Nunes, e mandou-me a uma escóla chamada _Terceirense_. O jardineiro
levava-me pela mão: e todos os dias a avó me dava com solemnidade um
pataco para eu comprar na tia Martha, confeiteira da esquina, bolos para
a minha merenda. Este creado, este pataco, estes bolos, eram costumes
novos que feriam o meu monstruoso orgulho de morgadinho--por me descerem
ao nivel humilde dos filhos do nosso procurador. Um dia, porém,
folheando uma _Encyclopedia de Antiguidades Romanas_, que tinha
estampas, li, com surpreza, que os rapazes em Roma (na grande Roma!) iam
tambem de manhã para a escóla, como eu, pela mão d'um servo--denominado
o _Capsarius_; e compravam tambem, como eu, um bolo n'uma tia Martha do
Velabro ou das Carinas, para comerem á merenda--que chamavam o
_Ientaculum_. Pois, meu caro, no mesmo instante a veneravel antiguidade
d'esses habitos tirou-lhes a vulgaridade toda que n'elles me humilhava
tanto! Depois de os ter detestado por serem communs aos filhos do Silva
procurador--respeitei-os por terem sido habituaes nos filhos de Scipião.
A compra do bolo tornou-se como um rito que desde a Antiguidade todos os
rapazes de escóla cumpriam, e que me era dado por meu turno celebrar
n'uma honrosa solidariedade com a grande gente togada. Tudo isto,
evidentemente, não o sentia com esta clara consciencia. Mas nunca entrei
d'ahi por diante na tia Martha, sem erguer a cabeça, pensando com uma
vangloria heroica:--«Assim faziam tambem os romanos!» Era por esse tempo
pouco mais alto que uma espada gôda, e amava uma mulher obesa que morava
ao fim da rua...»
N'essa mesma carta, adiante, Fradique accrescenta:--«Levou-me pois
effectivamente á Historia o meu amor da Unidade--amor que envolve o
horror ás interrupções, ás lacunas, aos espaços escuros onde se não sabe
o que ha. Viajei por toda a parte viajavel, li todos os livros de
explorações e de travessias--porque me repugnava não conhecer o globo em
que habito até aos seus extremos limites, e não sentir a contínua
solidariedade do pedaço de terra que tenho sob os pés com toda a outra
terra que se arqueia para além. Por isso, incansavelmente exploro a
Historia, para perceber até aos seus derradeiros limites a Humanidade a
que pertenço, e sentir a compacta solidariedade do meu sêr com a de
todos os que me precederam na vida. Talvez vossê murmure com
desdem--«mera bisbilhotice!» Amigo meu, não despreze a bisbilhotice!
Ella é um impulso humano, de latitude infinita, que, como todos, vai do
reles ao sublime. Por um lado leva a escutar ás portas--e pelo outro a
descobrir a America!»
O saber historico de Fradique surprehendia realmente pela amplexidade e
pelo detalhe. Um amigo nosso exclamava um dia, com essa ironia affavel
que nos homens de raça celtica sublinha e corrige a admiração:--«Aquelle
Fradique! Tira a charuteira, e dá uma synthese profunda, d'uma
transparencia de crystal, sobre a guerra do Peloponeso;--depois accende
o charuto, e explica o feitio e o metal da fivela do cinturão de
Leonidas!» Com effeito, a sua forte capacidade de comprehender
philosophicamente os movimentos collectivos, o seu fino poder de evocar
psychologicamente os caracteres individuaes--alliava-se n'elle a um
minucioso saber archeologico da vida, das maneiras, dos trajes, das
armas, das festas, dos ritos de todas as idades, desde a India Vedica
até á França Imperial. As suas cartas a Oliveira Martins (sobre o
Sebastianismo, o nosso Imperio no Oriente, o Marquez de Pombal)[1] são
verdadeiras maravilhas pela sagaz intuição, a alta potencia synthetica,
a certeza do saber, a força e a abundancia das idéas novas. E, por outro
lado, a sua erudição archeologica repetidamente esclareceu e auxiliou,
na sabia composição das suas telas, o paciente e fino reconstructor dos
Costumes e das Maneiras da Antiguidade Classica, o velho Suma-Rabêma.
Assim m'o confessou uma tarde Suma-Rabêma, regando as roseiras, no seu
jardim de Chelsea.
Fradique era de resto ajudado por uma prodigiosa memoria que tudo
recolhia e tudo retinha--vasto e claro armazem de factos, de noções, de
fórmas, todos bem arrumados, bem classificados, promptos sempre a
servir. O nosso amigo Chambray affirmava que, comparavel á memoria de
Fradique, como «installação, ordem e excellencia do _stock_», só
conhecia a adega do café Inglez.
A cultura de Fradique recebia um constante alimento e accrescimo das
viagens que sem cessar emprehendia, sob o impulso de admirações ou de
curiosidades intellectuaes. Só a Archeologia o levou quatro vezes ao
Oriente:--ainda que a sua derradeira residencia em Jerusalem, durante
dezoito mezes, foi motivada (segundo me affirmou o consul Raccolini) por
poeticos amores com uma das mais esplendidas mulheres da Syria, uma
filha de Abraham Côppo, o faustoso banqueiro de Aleppo, tão
lamentavelmente morta depois, sobre as tristes costas de Chypre, no
naufragio do _Magnolia_. A sua aventurosa e aspera peregrinação pela
China, desde o Thibet (onde quasi deixou a vida, tentando temerariamente
penetrar na cidade sagrada de Lahsá) até á alta Manchuria, constitue o
mais completo estudo até hoje realisado por um homem da Europa sobre os
Costumes, o Governo, a Ethica e a Litteratura d'esse povo «profundo
entre todos, que (como diz Fradique) conseguiu descobrir os tres ou
quatro unicos principios de moral capazes, pela sua absoluta força, de
eternisar uma civilisação».
O exame da Russia e dos seus movimentos sociaes e religiosos
trouxeram-no prolongados mezes pelas provincias ruraes d'entre o Dnieper
e o Volga. A necessidade d'uma certeza sobre os Presidios Penaes da
Siberia impelliu-o a affrontar centenas de milhas de steppes e de neves,
n'uma rude telega, até ás minas de prata de Nerchinski. E proseguiria
n'este activo interesse, se não recebesse subitamente, ao chegar á
costa, a Archangel, este aviso do general Armankoff, chefe da IV secção
da policia imperial:--_Monsieur, vous nous observez de trop près, pour
que votre jugement n'en soit faussé; je vous invite donc, sur votre
intérêt, et pour avoir de la Russie une vue d'ensemble plus exacte,
d'aller la regarder de plus loin, dans votre belle maison de
Paris!_--Fradique abalou para Vasa, sobre o golfo de Bothnia. Passou
logo á Suecia, e mandou de lá, sem data, este bilhete ao general
Armankoff:--_Monsieur, j'ai reçu votre invitation où il y a beaucoup
d'intolerance et trois fautes de français._
Os mesmos interesses de espirito e «necessidades de certeza» o levaram
na America do Sul desde o Amazonas até ás areias da Patagonia, o levaram
na Africa Austral desde o Cabo até aos Montes de Zokunga... «Tenho
folheado e lido attentamente o mundo como um livro cheio de idéas. Para
vêr _por fóra_, por mera festa dos olhos, nunca fui senão a Marrocos».
O que tornava estas viagens tão fecundas como ensino era a sua rapida e
carinhosa sympathia por todos os povos. Nunca visitou paizes á maneira
do detestavel _touriste_ francez, para notar de alto e pêcamente «os
defeitos»--isto é, as divergencias d'esse typo de civilisação mediano e
generico d'onde sahia e que preferia. Fradique amava logo os costumes,
as idéas, os preconceitos dos homens que o cercavam: e, fundindo-se com
elles no seu modo de pensar e de sentir, recebia uma lição directa e
viva de cada sociedade em que mergulhava. Este efficaz preceito--«_em
Roma sê romano_»--tão facil e dôce de cumprir em Roma, entre as vinhas
da collina Celia e as aguas susurrantes da Fonte Paulina, cumpria-o elle
gostosamente trilhando com as alpercatas rotas os desfiladeiros do
Himalaya. E estava tão homogeneamente n'uma cervejaria philosophica da
Allemanha, aprofundando o Absoluto entre professores de Tubingen--como
n'uma aringa africana da terra dos Matabeles, comparando os meritos da
carabina «Express» e da carabina Winchester, entre caçadores de
elephantes.
Desde 1880 os seus movimentos pouco a pouco se concentraram entre Paris
e Londres--com excepção das «visitas filiaes» a Portugal: porque, apesar
da sua dispersão pelo mundo, da sua facilidade em se nacionalisar nas
terras alheias, e da sua impersonalidade critica, Fradique foi sempre um
genuino Portuguez com irradicaveis traços de fidalgo ilhéo.
O mais puro e intimo do seu interesse deu-o sempre aos homens e ás
coisas de Portugal. A compra da quinta do _Saragoça_, em Cintra,
realisára-a (como diz n'uma carta a F. G., com desacostumada emoção)
«para _ter terra em Portugal_, e para se prender pelo forte vinculo da
propriedade ao sólo augusto d'onde um dia tinham partido, levados por um
ingenuo tumulto de idéas grandes, os seus avós, buscadores de mundos, de
quem elle herdára o sangue e a curiosidade do _além_!»
Sempre que vinha a Portugal ia «retemperar a fibra» percorrendo uma
provincia, lentamente, a cavallo--com demoras em villas decrepitas que o
encantavam, infindaveis cavaqueiras á lareira dos campos, fraternisações
ruidosas nos adros e nas tavernas, idas festivas a romarias no carro de
bois, no vetusto e veneravel carro sabino, toldado de chita, enfeitado
de louro. A sua região preferida era o Ribatejo, a terra chã da leziria
e do boi. «Ahi (diz elle), de jaleca e cinta, montado n'um potro, com a
vara de campino erguida, correndo entre as manadas de gado, nos finos e
lavados ares da manhã, sinto, mais que em nenhuma outra parte, a delicia
de viver».
Lisboa só lhe agradava--como paizagem. «Com tres fortes retoques
(escrevia-me elle em 1881, do Hotel Braganza), com arvoredo e pinheiros
mansos plantados nas collinas calvas da Outra-Banda; com azulejos
lustrosos e alegres revestindo as fachadas sujas do casario; com uma
varredella definitiva por essas bemditas ruas--Lisboa seria uma d'essas
bellezas da Natureza creadas pelo Homem, que se tornam um motivo de
sonho, de arte e de peregrinação. Mas uma existencia enraizada em Lisboa
não me parece toleravel. Falta aqui uma atmosphera intellectual onde a
alma respire. Depois certas feições, singularmente repugnantes, dominam.
Lisboa é uma cidade _alitteratada_, _afadistada_, _catita_ e
_conselheiral_. Ha _litteratice_ na simples maneira com que um caixeiro
vende um metro de fita; e, nas proprias graças com que uma senhora
recebe, transparece _fadistice_: mesmo na Arte ha _conselheirismo_; e ha
_catitismo_ mesmo nos cemiterios. Mas a nausea suprema, meu amigo, vem
da politiquice e dos politiquetes».
Fradique nutria pelos politicos todos os horrores, os mais
injustificados: horror intellectual, julgando-os incultos, broncos,
inaptos absolutamente para crear ou comprehender idéas; horror mundano,
presuppondo-os reles, de maneiras crassas, improprios para se misturar a
naturezas de gosto; horror physico, imaginando que nunca se lavavam,
rarissimamente mudavam de meias, e que d'elles provinha esse cheiro
morno e molle que tanto surprehende e enoja em S. Bento aos que d'elle
não têm o habito profissional.
Havia n'estas ferozes opiniões, certamente, laivos de perfeita verdade.
Mas em geral, os juizos de Fradique sobre a Politica offereciam o cunho
d'um preconceito que dogmatisa--e não d'uma observação que discrimina.
Assim lh'o affirmava eu uma manhã, no Braganza, mostrando que todas
essas deficiencias de espirito, de cultura, de maneiras, de gosto, de
finura, tão acerbamente notadas por elle nos Politicos--se explicam
sufficientemente pela precipitada democratisação da nossa sociedade;
pela rasteira vulgaridade da vida provincial; pelas influencias
abominaveis da Universidade; e ainda por intimas razões que são no fundo
honrosas para esses desgraçados Politicos, votados por um fado vingador
á destruição da nossa terra.
Fradique replicou simplesmente:
--Se um rato morto me disser,--«eu cheiro mal por isto e por aquillo e
sobretudo porque apodreci»,--eu nem por isso deixo de o mandar varrer do
meu quarto.
Havia aqui uma antipathia de instincto, toda physiologica, cuja
intransigencia e obstinação nem factos nem raciocinios podiam vencer.
Bem mais justo era o horror que lhe inspirava, na vida social de Lisboa,
a inhabil, descomedida e papalva imitacão de Paris. Essa «saloia
macaqueação», superiormente denunciada por elle n'uma carta que me
escreveu em 1885, e onde assenta, n'um luminoso resumo, que «_Lisboa é
uma cidade traduzida do francez em calão_»--tornava-se para Fradique,
apenas transpunha Santa Apolonia, um tormento sincero. E a sua anciedade
perpetua era então descobrir, através da frandulagem do Francezismo,
algum resto do genuino Portugal.
Logo a comida constituia para elle um real desgosto. A cada instante em
cartas, em conversas, se lastíma de não poder conseguir «um cozido
vernaculo!»--«Onde estão (exclama elle, algures) os pratos veneraveis do
Portugal portuguez, o pato com macarrão do seculo XVIII, a almondega
indigesta e divina do tempo das descobertas, ou essa maravilhosa
cabidella de frango, petisco dilecto de D. João IV, de que os fidalgos
inglezes que vieram ao reino buscar a noiva de Carlos II levaram para
Londres a surprehendente noticia? Tudo estragado! O mesmo provincianismo
reles põe em calão as comedias de Labiche e os acepipes de Gouffé. E
estamo-nos nutrindo miseravelmente dos sobejos democraticos do
_boulevard_, requentados, e servidos em chalaça e galantine! Desastre
estranho! As coisas mais deliciosas de Portugal, o lombo de porco, a
vitella de Lafões, os legumes, os dôces, os vinhos, degeneraram,
_insipidaram_... Desde quando? Pelo que dizem os velhos, degeneraram
desde o Constitucionalismo e o Parlamentarismo. Depois d'esses enxertos
funestos no velho tronco lusitano, os fructos têm perdido o sabor, como
os homens têm perdido o caracter...»
Só uma occasião, n'esta especialidade consideravel, o vi plenamente
satisfeito. Foi n'uma taverna da Mouraria (onde eu o levára), diante
d'um prato complicado e profundo de bacalhau, pimentos e grão de bico.
Para o gozar com coherencia Fradique despiu a sobrecasaca. E como um de
nós lançára casualmente o nome de Renan, ao atacarmos o piteu sem igual,
Fradique protestou com paixão:
--Nada de idéas! Deixem-me saborear esta bacalhoada, em perfeita
innocencia de espirito, como no tempo do Senhor D. João V, antes da
Democracia e da Critica!
A saudade do velho Portugal era n'elle constante: e considerava que, por
ter perdido esse typo de civilisação intensamente original, o mundo
ficára diminuido. Este amor do passado revivia n'elle, bem curiosamente,
quando via realisados em Lisboa, com uma inspiração original, o luxo e o
«modernismo» intelligente das civilisações mais saturadas de cultura e
perfeitas em gosto. A derradeira vez que o encontrei em Lisboa foi no
Rato--n'uma festa de raro e delicado brilho. Fradique parecia desolado:
--Em Paris, affirmava elle, a duqueza de La Rochefoucauld-Bisaccia póde
dar uma festa igual: e para isto não me valia a pena ter feito a
quarentena em Marvão! Supponha porém vossê que eu vinha achar aqui um
sarau do tempo da Senhora D. Maria I, em casa dos Marialvas, com
fidalgas sentadas em esteiras, frades tocando o lundum no bandolim,
desembargadores pedindo mote, e os lacaios no pateo, entre os mendigos,
rezando em côro a ladainha!... Ahi estava uma coisa unica, deliciosa,
pela qual se podia fazer a viagem de Paris a Lisboa em liteira!
Um dia que jantavamos em casa de Carlos Mayer, e que Fradique lamentava,
com melancolica sinceridade, o velho Portugal fidalgo e fradesco do
tempo do snr. D. João V--Ramalho Ortigão não se conteve:
--Vossê é um monstro, Fradique! O que vossê queria era habitar o
confortavel Paris do meado do seculo XIX, e ter aqui, a dois dias de
viagem, o Portugal do seculo XVIII, onde podesse vir, como a um museu,
regalar-se de pittoresco e de archaismo... Vossê, lá na rua de Varennes,
consolado de decencia e de ordem. E nós aqui, em viellas fedorentas,
inundados á noite pelos despejos d'aguas sujas, aturdidos pelas arruaças
do marquez de Cascaes ou do conde d'Aveiras, levados aos empurrões para
a enxovia pelos malsins da Intendencia, etc. etc... Confesse que é o que
vossê queria!
Fradique volveu serenamente:
--Era bem mais digno e bem mais patriotico que em logar de vos vêr aqui,
a vós, homens de letras, esticados nas gravatas e nas idéas que toda a
Europa usa, vos encontrasse de cabelleira e rabicho, com as velhas
algibeiras da casaca de sêda cheias d'odes shaphicas, encolhidinhos no
salutar terror d'El-Rei e do Diabo, rondando os pateos da casa de
Marialva ou d'Aveiro, á espera que os senhores, de cima, depois de dadas
as graças, vos mandassem por um pretinho, os restos do perú e o mote.
Tudo isso seria dignamente portuguez, e sincero; vós não merecieis
melhor; e a vida não é possivel sem um bocado de pittoresco depois do
almoço.
Com effeito, n'esta saudade de Fradique pelo Portugal antigo, havia amor
do «pittoresco», estranho n'um homem tão subjectivo e intellectual: mas
sobretudo havia o odio a esta universal modernisação que reduz todos os
costumes, crenças, idéas, gostos, modos, os mais ingenitos e mais
originalmente proprios, a um typo uniforme (representado pelo _sujeito
utilitario e sério_ de sobrecasaca preta)--com a monotonia com que o
chinez apara todas as arvores d'um jardim, até lhes dar a fórma unica e
dogmatica de pyramide ou de vaso funerario.
Por isso Fradique em Portugal amava sobretudo o povo--o povo que não
mudou, como não muda a Natureza que o envolve e lhe communica os seus
caracteres graves e dôces. Amava-o pelas suas qualidades, e tambem pelos
seus defeitos:--pela sua morosa paciencia de boi manso; pela alegria
idyllica que lhe poetisa o trabalho; pela calma acquiescencia á
vassallagem com que depois do _Senhor Rei_ venera o _Senhor Governo_;
pela sua doçura amaviosa e naturalista; pelo seu catholicismo pagão, e
carinho fiel aos Deuses latinos, tornados santos calendares; pelos seus
trajes, pelos seus cantos... «Amava-o ainda (diz elle) pela sua
linguagem tão bronca e pobre, mas a unica em Portugal onde se não sente
odiosamente a influencia do Lamartinismo ou das _Sebentas_ de Direito
Publico».
V
A ultima vez que Fradique visitou Lisboa foi essa em que o encontrei no
Rato, lamentando os saraus beatos e secios do seculo XVIII. O antigo
poeta das Lapidarias tinha então cincoenta annos; e cada dia se prendia
mais á quieta doçura dos seus habitos de Paris.
Fradique habitava, na rua de Varennes, desde 1880, uma ala do antigo
palacio dos Duques de Tredennes que elle mobilára com um luxo sobrio e
grave--tendo sempre detestado esse atulhamento de alfaias e estofos,
onde inextricavelmente se embaralham e se contradizem as Artes e os
Seculos, e que, sob o barbaro e justo nome de _bric-à-brac_, tanto seduz
os financeiros e as _cocottes_. Nobres e ricas tapeçarias de Paizagem e
de Historia; amplos divans d'Aubusson; alguns moveis d'arte da
Renascença Franceza; porcelanas raras de Deft e da China; espaço,
claridade, uma harmonia de tons castos--eis o que se encontrava nas
cinco salas que constituiam o «covil» de Fradique. Todas as varandas, de
ferro rendilhado, datando de Luiz XIV, abriam sobre um d'esses jardins
de arvores antigas, que, n'aquelle bairro fidalgo e ecclesiastico,
formam retiros de silencio e paz silvana, onde por vezes nas noites de
maio se arrisca a cantar um rouxinol.
A vida de Fradique era medida por um relogio secular, que precedia o
toque lento e quasi austero das horas com uma toada argentina de antiga
dança de côrte: e era mantida n'uma immutavel regularidade pelo seu
creado Smith, velho escossez da _clan_ dos Macduffs, já todo branco de
pello e ainda todo rosado de pelle, que havia trinta annos o
acompanhava, com severo zêlo, através da vida e do mundo.
De manhã, ás nove horas, mal se espalhavam no ar os compassos gentis e
melancolicos d'aquelle esquecido minuete de Cimarosa ou de Haydin, Smith
rompia pelo quarto de Fradique, abria todas as janellas á luz,
gritava:--_Morning, Sir!_ Immediatamente Fradique, dando de entre a
roupa um salto brusco que considerava «de hygiene transcendente», corria
ao immenso laboratorio de marmore, a esponjar a face e a cabeça em agua
fria, com um resfolgar de Trytão ditoso. Depois, enfiando uma das
cabaias de sêda que tanto me maravilhavam, abandonava-se, estirado n'uma
poltrona, aos cuidados de Smith que, como barbeiro (affirmava Fradique)
reunia a ligeireza macia de Figaro á sapiencia confidencial do velho
Oliveiro de Luiz XI. E, com effeito, emquanto o ensaboava e escanhoava,
Smith ia dando a Fradique um resumo nitido, solido, todo em factos, dos
telegrammas politicos do _Times_, do _Standard_ e da _Gazeta de
Colonia_!
Era para mim uma surpreza, sempre renovada e saborosa, vêr Smith, com a
sua alta gravata branca á Palmerston, a rabona curta, as calças de
xadrez verde e preto (côres da sua _clan_), os sapatos de verniz
decotados, passando o pincel na barba do amo, e murmurando, em perfeita
sciencia e perfeita consciencia:--«Não se realisa a conferencia do
principe de Bismarck com o conde Kalnocky... Os conservadores perderam a
eleição supplementar de York... Fallava-se hontem em Vienna d'um novo
emprestimo russo...» Os amigos em Lisboa riam d'esta «caturreira»; mas
Fradique sustentava que havia aqui um proveitoso regresso á tradição
classica, que em todo o mundo latino, desde Scipião o Africano,
instituira os barbeiros como «informadores universaes da coisa publica».
Estes curtos resumos de Smith formavam a carcassa das suas noções
politicas: e Fradique nunca dizia--«Li no _Times_»--mas «Li no Smith».
Bem barbeado, bem informado, Fradique mergulhava n'um banho ligeiramente
tepido, d'onde voltava para as mãos vigorosas de Smith, que, com um jogo
de luvas de lã, de flanella, d'estopa, de clina e de pelle de tigre, o
friccionava até que o corpo todo se lhe tornasse, como o de Apollo,
«roseo e reluzente». Tomava então o seu chocolate; e recolhia á
bibliotheca, sala séria e simples, onde uma imagem da Verdade,
radiosamente branca na sua nudez de marmore, pousava o dedo subtil sobre
os labios puros, symbolisando, em frente á vasta mesa de ébano, um
trabalho todo intimo á busca de verdades que não são para o ruido e para
o mundo.
Á uma hora almoçava, com a sobriedade d'um grego, ovos e legumes:--e
depois, estendido n'um divan, tomando goles lentos de chá russo,
percorria nos Jornaes e nas Revistas as chronicas d'arte, de
litteratura, de theatro ou de sociedade, que não eram da competencia
politica de Smith. Lia então tambem com cuidado os jornaes portuguezes
(que chama algures «phenomenos picarescos de decomposição social»),
sempre caracteristicos, mas superiormente interessantes para quem como
elle se comprazia em analysar «a obra genuina e sincera da
mediocridade», e considerava Calino tão digno d'estudo como Voltaire. O
resto do dia dava-o aos amigos, ás visitas, aos _ateliers_, ás salas
d'armas, ás exposições, aos clubs--aos cuidados diversos que se cria um
homem d'alto gosto vivendo n'uma cidade d'alta civilisacão.
De tarde subia ao _Bois_ conduzindo o seu phaeton, ou montando a _Sabá_,
uma maravilhosa egoa das caudelarias de Aïn-Weibah que lhe cedera o Emir
de Mossul. E a sua noite (quando não tinha cadeira na Opera ou na
_Comédie_) era passada n'algum salão--precisando sempre findar o seu dia
entre «o ephemero feminino». (Assim dizia Fradique).
A influencia d'este «feminino» foi suprema na sua existencia. Fradique
amou mulheres; mas fóra d'essas, e sobre todas as coisas, amava a
Mulher.
A sua conducta para com as mulheres era governada conjuntamente por
devoções de espiritualista, por curiosidades de critico, e por
exigencias de sanguineo. Á maneira dos sentimentaes da Restauração,
Fradique considerava-as como «organismos» superiores, divinamente
complicados, differentes e mais proprios de adoração do que tudo o que
offerece a Natureza: ao mesmo tempo, através d'este culto, ia dissecando
e estudando esses «organismos divinos», fibra a fibra, sem respeito, por
paixão de analysta; e frequentemente o critico e o enthusiasta
desappareciam para só restar n'elle um homem amando a mulher, na simples
e boa lei natural, como os Faunos amavam as Nymphas.
As mulheres, além d'isso, estavam para elle (pelo menos nas suas
theorias de conversação) classificadas em especies. Havia a «mulher
d'exterior», flôr de luxo e de mundanismo culto: e havia a «mulher
d'interior», a que guarda o lar, diante da qual, qualquer que fosse o
seu brilho, Fradique conservava um tom penetrado de respeito, excluindo
toda a investigação experimental. «Estou em presença d'estas (escreve
elle a Madame de Jouarre), como em face d'uma carta alheia fechada com
sinete e lacre». Na presença, porém, d'aquellas que se «exteriorisam» e
vivem todas no ruido e na phantasia, Fradique achava-se tão livre e tão
irresponsavel como perante um volume impresso. «Folhear o livro (diz
elle ainda a Madame de Jouarre), annotal-o nas margens assetinadas,
critical-o em voz alta com independencia e veia, leval-o no coupé para
lêr á noite em casa, aconselhal-o a um amigo, atiral-o para um canto
percorridas as melhores paginas--é bem permittido, creio eu, segundo a
Cartilha e o Codigo».
Seriam estas subtilezas (como suggeria um cruel amigo nosso) as d'um
homem que theorisa e idealisa o seu temperamento de carrejão para o
tornar litterariamente interessante? Não sei. O commentario mais
instructivo das suas theorias dava-o elle, visto n'uma sala, entre «o
ephemero feminino». Certas mulheres muito voluptuosas, quando escutam um
homem que as perturba, abrem insensivelmente os labios. Em Fradique eram
os olhos que se alargavam. Tinha-os pequenos e côr de tabaco: mas junto
d'uma d'essas mulheres de exterior, «estrellas de mundanismo»,
tornavam-se-lhe immensos, cheios de luz negra, avelludados, quasi
humidos. A velha lady Mongrave comparava-os «ás guelas abertas de duas
serpentes». Havia alli com effeito um acto de alliciação e de
absorpção--mas havia sobretudo a evidencia da perturbação e do encanto
que o inundavam. N'essa attenção de beato diante da Virgem, no murmurio
quente da voz mais amollecedora que um ar de estufa, no humedecimento
enleado dos seus olhos finos,--as mulheres viam apenas a influencia
omnipotentemente vencedora das suas graças de Fórma e d'Alma sobre um
homem esplendidamente viril. Ora nenhum homem mais perigoso do que
aquelle que dá sempre ás mulheres a impressão clara, quasi tangivel--de
que ellas são irresistiveis, e subjugam o coração mais rebelde só com
mover os hombros lentos ou murmurar «que linda tarde!» Quem se mostra
facilmente seduzido--facilmente se torna seductor. É a lenda india, tão
sagaz e real, do espelho encantado em que a velha Maharina se via
radiosamente bella. Para obter e reter esse espelho, em que com tanto
esplendor se reflecte a sua pelle engilhada--que peccados e que traições
não commetterá a Maharina?...
Creio, pois, que Fradique foi profundamente amado, e que magnificamente
o mereceu. As mulheres encontravam n'elle esse sêr, raro entre os
homens--um Homem. E para ellas Fradique possuia esta superioridade
inestimavel, quasi unica na nossa geração--uma alma extremamente
sensivel, servida por um corpo extremamente forte.
De maior duração e intensidade que os seus amores foram todavia as
amizades que Fradique a si attrahiu pela sua excellencia moral. Quando
eu conheci Fradique em Lisboa, no remoto anno de 1867, julguei sentir na
sua natureza (como no seu verso) uma impassibilidade brilhante e
metallica: e através da admiração que me deixára a sua arte, a sua
personalidade, o seu viço, a sua cabaia de sêda--confessei um dia a J.
Teixeira d'Azevedo que não encontrára no poeta das Lapidarias aquelle
_tepido leite da bondade humana_, sem o qual o velho Shakspeare (nem eu,
depois d'elle) comprehendia que um homem fosse digno da humanidade. A
sua mesma polidez, tão risonha e perfeita, me parecera mais composta por
um systema do que genuinamente ingenita. Decerto, porém, concorreu para
a formação d'este juizo uma carta (já velha, de 1855) que alguem me
confiou, e em que Fradique, com toda a leviana altivez da mocidade,
lançava este rude programma de conducta:--«Os homens nasceram para
trabalhar, as mulheres para chorar, e nós, os fortes, para passar
friamente através!...»
Mas em 1880, quando a nossa intimidade uma noite se fixou a uma mesa do
Bignon, Fradique tinha cincoenta annos: e, ou porque eu então o
observasse com uma assiduidade mais penetrante, ou porque n'elle se
tivesse já operado com a idade esse phenomeno que Fustan de Carmanges
chamou depois _le degel de Fradique_, bem cedo senti, através da
impassibilidade marmorea do cinzelador das Lapidarias, brotar, tepida e
generosamente, o _leite da bondade humana_.
A forte expressão de virtude que n'elle logo me impressionou foi a sua
incondicional e irrestricta indulgencia. Ou por uma conclusão da sua
philosophia, ou por uma inspiração da sua natureza--Fradique, perante o
peccado e o delicto, tendia áquella velha misericordia evangelica que,
consciente da universal fragilidade, pergunta d'onde se erguerá a mão
bastante pura para arremessar a primeira pedra ao erro. Em toda a culpa
elle via (talvez contra a razão, mas em obediencia áquella _voz_ que
fallava baixo a S. Francisco d'Assis e que ainda se não calou) a
irremediavel fraqueza humana: e o seu perdão subia logo do fundo d'essa
Piedade que jazia na sua alma, como manancial d'agua pura em terra rica,
sempre prompto a brotar.
A sua bondade, porém, não se limitava a esta expressão passiva. Toda a
desgraça, desde a amargura limitada e tangivel que passa na rua, até á
vasta e esparsa miseria que com a força d'um elemento devasta classes e
raças, teve n'elle um consolador diligente e real. São d'elle, e
escriptas nos derradeiros annos (n'uma carta a G. F.) estas nobres
palavras:--«Todos nós que vivemos n'este globo formamos uma immensa
caravana que marcha confusamente para o Nada. Cerca-nos uma natureza
inconsciente, impassivel, mortal como nós, que não nos entende, nem
sequer nos vê, e d'onde não podemos esperar nem soccorro nem consolação.
Só nos resta para nos dirigir, na rajada que nos leva, esse secular
preceito, summa divina de toda a experiencia humana--«ajudai-vos uns aos
outros!» Que, na tumultuosa caminhada, portanto, onde passos sem conta
se misturam--cada um ceda metade do seu pão áquelle que tem fome;
estenda metade do seu manto áquelle que tem frio; acuda com o braço
áquelle que vai tropeçar; poupe o corpo d'aquelle que já tombou; e se
algum mais bem provido e seguro para o caminho necessitar apenas
sympathia d'almas, que as almas se abram para elle transbordando d'essa
sympathia... Só assim conseguiremos dar alguma belleza e alguma
dignidade a esta escura debandada para a Morte».
Decerto Fradique não era um santo militante, rebuscando pelas viellas
miserias a resgatar: mas nunca houve mal, por elle conhecido, que d'elle
não recebesse allivio. Sempre que lia por acaso, n'um jornal, uma
calamidade ou uma indigencia, marcava a noticia com um traço a lapis,
lançando ao lado um algarismo--que indicava ao velho Smith o numero de
libras que devia remetter, sem publicidade, pudicamente. A sua maxima
para com os pobres (a quem os Economistas affirmam que se não deve
Caridade mas Justiça)--era «que á hora das comidas mais vale um pataco
na mão que duas Philosophias a voar». As creanças, sobretudo quando
necessitadas, inspiravam-lhe um enternecimento infinito; e era d'estes,
singularmente raros, que encontrando, n'um agreste dia de inverno, um
pequenino que pede, tranzido de frio--param sob a chuva e sob o vento,
desapertam pacientemente o paletot, descalçam pacientemente a luva, para
vasculhar no fundo da algibeira, á procura da moeda de prata que vai ser
o calor e o pão d'um dia.
Esta caridade estendia-se budhistamente a tudo que vive. Não conheci
homem mais respeitador do animal e dos seus direitos. Uma occasião em
Paris, correndo ambos a uma estação de _fiacres_ para nos salvarmos d'um
chuveiro que desabava, e seguir, na pressa que nos leváva, a uma venda
de tapeçarias (onde Fradique cubiçava umas _Nove Musas dançando entre
loureiraes_), encontrámos apenas um _coupé_, cuja pileca, com o sacco
pendente do focinho, comia melancolicamente a sua ração. Fradique teimou
em esperar que o cavallo almoçasse com socego--e perdeu as _Nove Musas_.
Nos ultimos tempos, preoccupava-o sobretudo a miseria das classes--por
sentir que n'estas Democracias industriaes e materialistas, furiosamente
empenhadas na lucta pelo pão egoista, as almas cada dia se tornam mais
sêccas e menos capazes de piedade. «A fraternidade (dizia elle n'uma
carta de 1886 que conservo) vai-se sumindo, principalmente n'estas
vastas colmeias de cal e pedra onde os homens teimam em se amontoar e
luctar; e, através do constante deperecimento dos costumes e das
simplicidades ruraes, o mundo vai rolando a um egoismo feroz. A primeira
evidencia d'este egoismo é o desenvolvimento ruidoso da philantropia.
Desde que a caridade se organisa e se consolida em instituição, com
regulamentos, relatorios, comités, sessões, um presidente e uma
campainha, e de sentimento natural passa a funcção official--é porque o
homem, não contando já com os impulsos do seu coração, necessita
obrigar-se publicamente ao bem pelas prescripções d'um estatuto. Com os
corações assim duros e os invernos tão longos, que vai ser dos
pobres?...»
Quantas vezes, diante de mim, nos crepusculos de novembro, na sua
bibliotheca apenas alumiada pela chamma incerta e dôce da lenha no
fogão, Fradique emergiu d'um silencio em que os olhares se lhe perdiam
ao longe, como afundados em horisontes de tristeza--para assim lamentar,
com enternecida elevação, todas as miserias humanas! E voltava então a
amarga affirmação da crescente aspereza dos homens, forçados pela
violencia do conflicto e da concorrencia a um egoismo rude, em que cada
um se torna cada vez mais o lobo do seu semelhante, _homo homini lupus_.
--Era necessario que viesse outro Christo! murmurei eu um dia.
Fradique encolheu os hombros:
--Ha de vir; ha de talvez libertar os escravos; ha de ter por isso a sua
igreja e a sua liturgia; e depois ha de ser negado; e mais tarde ha de
ser esquecido; e por fim hão de surgir novas turbas de escravos. Não ha
nada a fazer. O que resta a cada um por prudencia é reunir um peculio e
adquirir um revolwer; e aos seus semelhantes que lhe baterem á porta,
dar, segundo as circumstancias, ou pão ou bala.
Assim, cheios de idéas, de delicadas occupações e d'obras amaveis,
decorreram os derradeiros annos de Fradique Mendes em Paris, até que no
inverno de 1888 a morte o colheu sob aquella fórma que elle, como Cesar,
sempre appetecera--_inopinatam atque repentinam_.
Uma noite, sahindo d'uma festa da condessa de La Ferté (velha amiga de
Fradique, com quem fizera n'um _yacht_ uma viagem á Islandia) achou no
_vestiario_ a sua pelissa russa trocada por outra, confortavel e rica
tambem, que tinha no bolso uma carteira com o monogramma e os bilhetes
do general Terran-d'Azy. Fradique, que soffria de repugnancias
intolerantes, não se quiz cobrir com o agasalho d'aquelle official
rabugento e catarrhoso, e atravessou a praça da Concordia a pé, de
casaca, até ao club da _Rue Royale_. A noite estava sêcca e clara, mas
cortada por uma d'essas brizas subtis, mais tenues que um halito, que
durante leguas se afiam sobre planicies nevadas do norte, e já eram
comparadas pelo velho André Vasali a «um punhal traiçoeiro». Ao outro
dia acordou com uma tosse leve. Indifferente porém aos resguardos,
seguro d'uma robustez que affrontára tantos ares inclementes, foi a
Fontainebleau com amigos no alto d'um _mail-coach_. Logo n'essa noite,
ao recolher, teve um longo e intenso arripio; e trinta horas depois, sem
soffrimento, tão serenamente que durante algum tempo Smith o julgou
adormecido, Fradique, como diziam os antigos, «tinha vivido». Não acaba
mais dôcemente um bello dia de verão.
O dr. Labert declarou que fôra uma fórma rarissima de pleuriz. E
accrescentou, com um exacto sentimento das felicidades
humanas:--«_Toujours de la chance, ce Fradique!_»
Acompanharam a sua passagem derradeira pelas ruas de Paris, sob um céo
cinzento de neve, alguns dos mais gloriosos homens de França nas coisas
do saber e da arte. Lindos rostos, já pisados pelo tempo, o choraram, na
saudade das emoções passadas. E, em pobres moradas, em torno a lares sem
lume, foi decerto tambem lamentado este sceptico de finas letras, que
cuidava dos males humanos envolto em cabaias de sêda.
Jaz no _Père-Lachaise_, não longe da sepultura de Balzac, onde no dia
dos Mortos elle mandava sempre collocar um ramo d'essas violetas de
Parma que tanto amára em vida o creador da _Comedia Humana_. Mãos fieis,
por seu turno, conservam sempre perfumado de rosas frescas o marmore
simples que o cobre na terra.