D. Angelica abriu a carta com fervente soffreguidão, e leu o seguinte:

«Minha prezada amiga. Sei quanto deve ser-lhe penosa a noticia do triste

acontecimento, que hontem se deu. Apresso-me a dar-lhe a certeza do

nenhum risco da ferida, e rogo-lhe que se convença d'esta verdade, para

ser mais suave a cura. De v. exc.ª amigo verdadeiro.--_Antonio de

Almeida._»

«Isto é verdade, Ludovina?--exclamou ella erguendo as mãos, e apertando

a carta ao coração--Isto é verdade, minha filha?

--É, juro-lhe que é...

«Como podes tu jura'-lo? quem o viu?

--Eu, mãe.

«Tu! viste-o, Ludovina? sem repugnancia, minha filha? Que

inspiração tiveste de o visitar? O coração impellia-te? era o coração?

diz, diz, que eu preciso acreditar n'uma influencia divina em tua nobre

alma! Não me respondes, filha! Não queres dar-me a alegria completa! Foi

só por caridade, por compaixão, que o visitaste?

--Foi por amor de minha mãe que o visitei.

«E elle? que fez quando te viu? abraçou-te? beijou-te? chorou nos teus

braços, Ludovina? Disse-te alguma palavra que te espantou, augmentando a

tua piedade? Fala, fala sem pejo. Aqui a vergonha é toda minha. A

reserva já agora é impossivel entre nós, filha. Que te disse? responde...

--Nada, minha mãe...--balbuciou a baroneza.

«Nada?

--Que poderia elle dizer-me... para augmentar a minha piedade? bastava

ser nosso amigo de tantos annos... lembrar-me eu que o vi sempre ao pé

de minha mãe... recordo-me dos affagos que elle me fazia, dos bons

conselhos que me deu sempre, das consolações affectuosas com que

alliviava as minhas maguas, desde que infelizmente casei. Tanto como

isto era sobejo estimulo á minha pena. E, depois, vêr quanto a mãe

soffria... porque o prezava tanto como eu o estimava...

«Basta, minha filha, eu mortifico-te... Ha de custar-te amarguras

terriveis essa delicadeza... Comprehendo-te, minha amiga... Agora vaes

tu dizer-me por que meio has de restaurar o teu credito perante teu

marido... Não me atrevo a aconselhar-te, Ludovina, por que ha em ti

fortaleza de juizo que confunde a minha timidez e fraqueza... Faz o que

quizeres de mim; eu obedeço-te, sigo-te cegamente; acceito conselhos de

ti como do meu anjo da guarda.

--Eu não a aconselho, minha mãe... pelo contrario, supplico-lhe que me

advirta, se eu me desencaminhar do bom caminho onde a consciencia me diz

que estou agora. Toda a minha confiança está posta em Deus, que protege

a innocencia e é misericordioso com a culpa. O mundo será cruel

comnosco; seja, muito embora; nós supportaremos as cruezas do mundo, sem

nos curvarmos aos seus juizos. Minha mãe ha de ajudar-me a vencer os

dissabores passageiros da maledicencia, pensando em me fazer cada vez

mais digna do seu amor. No tocante ao que ha de vir melhorar a nossa

sorte, espero que virá, mas os meios não os sei. Hei de a este respeito

consultar o nosso amigo Antonio de Almeida.

O que fazem mulheres: Romance philosophico · 第 36 / 46 题