Cinco paginas que é melhor não se lerem

Este capitulo mira a alvo transcendental.

Nem mais nem menos, quer provar que o Codigo do Imperador

Justiniano--corpo de leis que uma falsa piedade chama «Digesto», sendo

elle a causa indigesta de muitas gastralgias intellectuaes--quer provar,

digo, que o Digesto, entre muitas que não conheço, traz, uma lei de

tamanho absurdo e insensatez, quanta é a indignação com que para aqui a

traslado:

_Pater is est quem nuptiæ demonstrant._

Em portuguez comezinho:

_O pai é aquelle que se diz pae no assento do baptismo._

A versão é de christão catholico, entenda-se.

Aquella regra de jurisprudencia pagã não fala em assento baptismal. Se o

legislador fosse baptisado, como estes de agora, a lei não saía assim.

Contra a qual lei temos a articular:

1.º Que o pae é uma entidade muito mais nobre, efficiente, cathegorica,

e circumspecta. E demonstra-se:

Quem leu a physiologia da geração sabe que ha cinco phenomenos

caracteristicos d'essa funcção de mysteriosa origem. O primeiro d'esses

phenomenos, cuja confusa theoria os imperitos podem lêr nas fontes

respectivas, é influido pela acção de um ser directo e immediato, que os

latinos denominam _pater_, os inglezes _father_, os allemães _watter_,

os francezes _père_, os hespanhoes _padre_, e nós, com mais suavidade

que todos os outros idiomas, _pae_.

_Pae_ quer dizer «productor, gerador» _Parens qui aliquem genuit_--isto

a meu vêr, é claro como tudo o que se diz em latim.

Conclusão: Pae é aquelle que é pae.

2.º Ha paes postiços, paes contra-natura, paes testas de... ferro, paes

_in mente legis_, na presumpção da lei, e na fé dos padrinhos de quem

são compadres, por obra e graça de um sacramento.

Os homens, reconhecendo a inconveniencia de acceitar a natureza feia

como ella ás vezes se apresenta deliberaram, de commum concerto, pôr-lhe

mascara.

E como a natureza paterna era uma das que mais a miudo saía á gente com

as suas deformidades medonhas, resolveram os desvelados reformadores

corrigir os aleijões d'essa natureza, inventando o pae civil, o pae do

assento baptismal, o pae da arvore de geração escripta em pergaminho, o

pae que transmitte os bens e os appellidos, o pae, finalmente, que tem

tudo que é paternal, mas não é pae.

Este invento honra a sagacidade humana; mas a causa que o incitou

deturpa a humanidade, e opprime agramente os corações dos individuos

virtuosos. Todavia, a mascara foi necessaria, logo que as fealdades

deram nos olhos. Hoje acceita-se o remedio do mesmo modo que o travor da

quina se tolera para combater a sezão. Os paladares mais melindrosos

affazem-se á peçonha, e estomago ha ahi de pae postiço, que disputa a

Mithridates a invulnerabilidade.

Eu não applaudo a _Sandice_ como Desiderius Erasmus; mas observo que o

famoso theologo chamava «sandice» o que nós cá, gente bemaventurada da

civilisação, denominamos «Cultura.»

Erasmus não deu pela theoria das mascaras. Pasmado da bonacheirona paz

d'alguns paes impossiveis, exclama o mestre de Bolonha:

«Grande Jupiter! O que ahi não iria de divorcios, e peor do que

divorcios, se a união do homem e mulher não fosse corroborada pela

lisonja, pela complacencia, pelo esquecimento, e pela dissimulação, que

formam o meu cortejo! Que raros não seriam os matrimoniamentos, se o

homem de ante-mão esquadrinhasse os brinquedos da innocentinha noiva!

Que rompimentos conjugaes, se o descuido ou a inepcia, não cegassem o

bom do marido, para não enxergar os tregeitos e os feitios da

companheira querida! Dizem que é toleima isto; deixa'-la ser; mas o

grande caso é que marido e mulher vivem ás mil maravilhas, que reina a

santa paz em casa, e os vinculos da alliança estão rijos. Isto é que é o

essencial. Se ao pascacio dão nomes feios, que se lhe dá elle

d'isso? Ve'-la a infiel a choramingar; para logo o pobre marido lhe

sorve as lagrimas enternecidamente. Qual é melhor, ser assim bom, ou

andar atormentado pelas furias do ciume?»

É boa a pergunta do theologo! O melhor é ser assim bom, ser assim

illustrado, ser assim desbravado das velharias pundonorosas que

obrigaram Cicero e Sulpicio Gallo a divorciarem-se das mulheres, um

porque a sua lhe não respondeu a todas as cartas enviadas do exilio,

outro porque a d'elle teve a impudicicia de saír um dia, sem coifa, á rua.

Aconteceu isto muito depois do reinado de Saturno, quando o pudor, como

pondera Juvenal, já não morava nas primitivas cavernas onde os dois

sexos se luravam sobre colchões de folhagem.

_Credo Pudicitiam, Saturno rege, moratam_

_In terris_...

já quando o genio tutelar do hymeneu andava corrido das

pseudo-paternidades que se enxertavam, á sombra d'elle, nos illustres

troncos de Roma:

_Antiquum et vetus est alienum, Postume, lectum._

_Concutere, atque sacri genium contemnere fuclri._

«Ó Postumo!--exclama o poeta--pois tu eras, até aqui, escorreito e

atilado, e vaes casar

_Certe sanus eras: uxorem, Postume, ducis!_

Por esses tempos, a balbuciante civilisação dos espiritos engendrou a

lei contra a qual se escreve este capitulo. As nupcias indicavam o pae:

_pater is est quem nuptiæ demonstrant_. Agora, em pleno seculo de luz,

somos mais romanos que os proprios romanos, tresandamos ao paganismo

fetido, e difficultamos o divorcio para sellar o escandalo com o cunho

sacramental da lei nova.

Como quer que seja, pae é aquelle que é pae, apesar do Direito Romano, e

das Instituições de Direito Civil de Coelho da Rocha.

Não se adduzem os 3.º, 4.º e 5.º artigos da refutação, porque ninguem

supporta um embrechado arripiante de textos latinos: e o auctor, com

quanto assim grangeasse voga de romancista sumarento e condimentoso,

seria lido apenas por tres ou quatro mestres de latinidade.

O que fazem mulheres: Romance philosophico · 第 33 / 46 题