Raivando contra si proprio, o barão de Celorico...
_O barão de Celorico!_ Personagem novo no conto?
Novo! pois eu não disse já que João José Dias dera cinco mil cruzados ás
urgencias do Estado, e seiscentos mil réis ao official maior da
secretaria onde se fabricam os barões, e cincoenta moedas ao agente
secreto das urgencias do Estado, e das urgencias dos estadistas?
Se não lêram isto já, perderam-se na typographia quatro tiras de
composição a mais rendilhada a buril classico, a mais puritana de
linguagem, com recheio de idéas substanciosas, e gordura de pensamentos!
Finalisava o capitulo VII por um baile de regosijo, que o novo titular
estimulado pelo sogro, resolvera dar aos seus collegas, e mais amigos,
que o felicitaram da mercê.
Esse baile correra amargurado para o barão de Celorico.
Ao caír da noite, recebera elle uma carta anonyma, da qual não pude
haver copia, e, podendo inventar uma, não o faço, que m'o veda o
proposito de fidelidade.
É certo, porém, que o contheudo d'essa carta entendia com Ludovina,
meiga creatura, organisação melindrosa, que tanto a pesar meu hei de
nomear baroneza de Celorico.
Não se póde aferir o grau de calumnia d'essa carta pelas carantonhas do
barão, que a lia. Em carantonha perenne estava elle sempre, lastimoso
Amphitryão, desde que a sombra de um Jupiter de casaca lhe assombrava os
encantos da innocente Alcmena. Qual seria o espirito rasteiro que se
quizesse vasar nas fórmas de João José para enganar-lhe a esposa? Esta
pergunta faço-a aos que leram Plauto, Molière, e Camões. Nem ella, com
tantos mimos e promessas de delicias, vos faria a vós, leitores
sedentos, acceitar a transfiguração hedionda.
O barão tragou a affronta em quanto o bojo o comportava; depois,
rebentou, chamando a sogra ao mais escuro do palacete, e dando-lhe a ler
a torpe carta.
D. Angelica disse conhecer a mal disfarçada letra de Ricardo de Sá;
convenceu-o de que o despeito de uma alma vil devia vir áquella infamia;
appellou da calumnia para a consciencia do barão; obrigou-o a confessar
que nunca sua mulher saíra de casa sem elle; fez, finalmente, resolver o
pestilencial tumor que ameaçava, n'aquella noite, uma supuração
escandalosa.
Raivando contra si proprio, (cá estamos na cabeça do capitulo) o barão
de Celorico, não podia transigir com as razões da sogra. Terminado o
baile, duas ou tres vezes amaxucára a carta na mão convulsa, para a
lançar ao toucador de Ludovina, que desenfeitava as tranças e o pescoço.
--Que tens, meu amiguinho?--disse ella, que o vira, no espelho, fazendo
esgares com os beiços--parece-me que está agitado!
«Estou bom, muito obrigado, estou como se quer.
--Que modo é esse de responder?--tornou ella, voltando-se de subito para
o barão, que passeava, ou antes se rolava de parede a parede com
achavascada impetuosidade.
«Está bom; deixe-me, que eu não estou bom, e qualquer dia dou um estoiro
como uma castanha.
--O senhor está disparatando! explique-se.
«Foi o diabo o nosso casamento, sr.ª D. Ludovina.
--Nada de exclamações; clareza e franqueza, meu amigo! Que é isso?
«É os meus peccados; é o que eu lhe tenho dito duzentas vezes, e a
senhora não quer crer que a sociedade do Porto está corrompida, e quem
aqui estiver não póde dar boa conta de si.
--Vamos aos factos; applique... diga a que vem isso?
«Ahi tem o que é.
E arremeçou-lhe ao regaço a carta amarfanhada, que parecia uma pela.
A baroneza abriu-a serenamente, amaciou-lhe os vincos, e leu, sem signal
de inquietar-se.
«Diz-se aqui que eu tenho um amante--disse ella sorrindo--que se
corresponde comigo. O senhor crê isto? Responda, senhor; crê que eu
tenho um amante?
--Não, senhora; mas, pelos modos, dizem-no, e a minha honra soffre com
isso.
«Como soffreria com a verdade do aviso?
--Que é? não entendi.
«Se as suas suspeitas condissessem com este aviso, não soffreria mais?
--Matava-a, sr.ª D. Ludovina, dou-lhe a minha palavra de honrado, que a
matava, e tiraria os figados pela bôca ao proprio diabo do inferno, e
tinha alma de metter uma faca no peito para morrer ao pé de si!
Esta rajada sacudiu todas as fibras bambas do barão. Não teve remedio se
não sentar-se, a resumar camarinhas de suor, impando, e arfando como
folle de forja.
Ludovina, mais assustada que compadecida, tomou-lhe a mão, e com a outra
enxugou-lhe a face.
«Soffre porque me não ama, porque me não crê...--disse ella.
--Não faças caso d'isto, não é nada... não é nada--regougou elle.
«Seja superior aos infames que nos invejam, meu amigo. Não lhes dê o
prazer da vingança. A pessoa que lhe escreve, é um miseravel inferior ao
meu desprezo.
--Já sei tudo... não falemos n'isso mais. Deite-se, que eu preciso de
tomar ar.
«Onde vae?
--Vou ao jardim.
«Eu vou comsigo... espere um bocadinho.
--Não venhas cá, deita-te, que está fria a madrugada.
Foi.
Eram tres horas e meia da manhã. As trevas descondensavam-se. A nebrina
do mar serpenteava por entre as ribas marginaes do Douro. O clarão da
lua ia-se descórando ao arraiar do crepusculo. Era a hora menos poetica
das vinte e quatro da rotação d'este planeta, onde ás tres horas e meia
da manhã, dorme toda a gente que tem juizo, e sabe um pouco de hygiene.
O barão de Celorico não dava fé das bellezas matutinas que o rodeavam.
Atravessou, sorvendo haustos de ar fresco, o passeio central do seu
jardim, até parar no muro, que o extremava de outra rua. Esta rua é
justamente aquella por onde vimos passar Francisco Nunes, raivando
imprecações garrafaes contra o charuto incombustivel. N'esse muro havia
uma gradaria de ferro, e portadas interiores. O barão abriu
machinalmente a janella, e viu approximar-se d'ella um vulto embuçado,
que lhe disse:
--Cuidei que tinhas adormecido! que demora foi essa?
--O que é?--exclamou o barão atordoado.
O vulto coseu-se com a parede, e, a passo rapido, desappareceu na meia
escuridão.
Longo tempo, agarrado ás grades, o barão de Celorico, parecia ter
perdido a memoria, a sensibilidade, o senso intimo. A patrulha, que
recolhia ao quartel, vendo aquelle immovel espectaculo, através das
grades, imaginou primeiro seria estatua do jardim; reparando
attentivamente, ouviu o sussurro da respiração cavernosa, e decidiu que
estava alli um homem.
--Olá!--disse um soldado.
«Que é?--respondeu o barão, espertando da lethargia.
--É d'ahi d'essa casa?
«Sou o dono d'ella.
--Então perdoará. Fizemos esta pergunta, porque ha de haver cinco dias
que vimos saír ás quatro horas da manhã um encapotado d'aquella porta
que alli está abaixo, chamamo'-lo, elle deu á canella, e sumiu-se-nos lá
em baixo na travessa.
«D'esta porta que está na parede d'este jardim?--exclamou o barão.
--É como diz.
«A que horas?
--A estas horas, pouco mais ou menos.
«Um homem de capote?
--Tal e qual.
«E não viram mais ninguem?
--Parece-me que vi ahi n'essa grade uma figura de mulher, com lenço
branco na cabeça.
«Obrigado, camaradas, muito obrigado, e boas noites.
O barão arremessou as portadas, e, levando as mãos á cabeça, atirou-se
com brutal frenesi a um banco de pedra. Ao tempo que cáe em cheio, vê ao
pé de si um objecto escuro. Apalpa, repara, examina: era o projectil
fatal do charuto que Francisco Ennes, na vespera, arrojára para dentro.
O barão contempla o charuto na mão convulsa, e desentranha um rugido
fremente, apertando-a, rábido e sanhudo.
--Eis a prova da minha deshonra!--exclama, e ergue-se vacillante e
cambaio. Entra em casa, e vê correr um vulto de mulher através de um
passadiço. Corre impetuoso, e já o não alcança. Tresvariando, grita que
ha ladroes em casa. Affluem os creados, buscam e rebuscam todos os
cantos inutilmente. Ludovina e sua mãe acodem espavoridas, e encontram o
barão, debatendo-se nos braços de dois creados, com um ataque de nervos.
Ministram-lhe soccorros, conduzem-n'o á cama, querem vêr o que elle
fecha na mão direita, e podem apenas lobrigar a ponta queimada de um
charuto. Ludovina inquire com meiguice e pena o que é aquillo, e o
desgraçado, maior e mais eloquente na sua angustia, responde:
«É a nossa morte!
Instam na explicação das respostas, e elle troveja:
--Não quero aqui ninguem!
Pasmam; e retiram-se, atemorisados.
«Estará elle doudo, meu pae?--dizia a baroneza, tremula de medo,
apoiando-se nos braços do espavorido Melchior.
--Parece que sim, minha filha. Chamem-se medicos já. Este homem deve ter
demasiado sangue. É ameaça de doudice, não póde ser outra cousa.
«Que sorte a minha!--disse Ludovina lagrimosa. E foi para o pé do leito
de seu marido.
* * * * *
--Se se verificar a demencia--dizia Melchior a D. Angelica, de modo que
só todos nós pudemos ouvir--a administração da casa passa immediatamente
para Ludovina, e Rilhafolles com elle. Este homem saíu muito outro do
que eu imaginava. Ainda me não disse que deixasse o logar da alfandega,
nem me offereceu um emprestimo com que eu possa tentar demanda contra os
possuidores da minha casa. Tenho remorsos de ter dado a este alarve uma
creatura tão perfeita como a nossa Ludovina!