VIII

Raivando contra si proprio, o barão de Celorico...

_O barão de Celorico!_ Personagem novo no conto?

Novo! pois eu não disse já que João José Dias dera cinco mil cruzados ás

urgencias do Estado, e seiscentos mil réis ao official maior da

secretaria onde se fabricam os barões, e cincoenta moedas ao agente

secreto das urgencias do Estado, e das urgencias dos estadistas?

Se não lêram isto já, perderam-se na typographia quatro tiras de

composição a mais rendilhada a buril classico, a mais puritana de

linguagem, com recheio de idéas substanciosas, e gordura de pensamentos!

Finalisava o capitulo VII por um baile de regosijo, que o novo titular

estimulado pelo sogro, resolvera dar aos seus collegas, e mais amigos,

que o felicitaram da mercê.

Esse baile correra amargurado para o barão de Celorico.

Ao caír da noite, recebera elle uma carta anonyma, da qual não pude

haver copia, e, podendo inventar uma, não o faço, que m'o veda o

proposito de fidelidade.

É certo, porém, que o contheudo d'essa carta entendia com Ludovina,

meiga creatura, organisação melindrosa, que tanto a pesar meu hei de

nomear baroneza de Celorico.

Não se póde aferir o grau de calumnia d'essa carta pelas carantonhas do

barão, que a lia. Em carantonha perenne estava elle sempre, lastimoso

Amphitryão, desde que a sombra de um Jupiter de casaca lhe assombrava os

encantos da innocente Alcmena. Qual seria o espirito rasteiro que se

quizesse vasar nas fórmas de João José para enganar-lhe a esposa? Esta

pergunta faço-a aos que leram Plauto, Molière, e Camões. Nem ella, com

tantos mimos e promessas de delicias, vos faria a vós, leitores

sedentos, acceitar a transfiguração hedionda.

O barão tragou a affronta em quanto o bojo o comportava; depois,

rebentou, chamando a sogra ao mais escuro do palacete, e dando-lhe a ler

a torpe carta.

D. Angelica disse conhecer a mal disfarçada letra de Ricardo de Sá;

convenceu-o de que o despeito de uma alma vil devia vir áquella infamia;

appellou da calumnia para a consciencia do barão; obrigou-o a confessar

que nunca sua mulher saíra de casa sem elle; fez, finalmente, resolver o

pestilencial tumor que ameaçava, n'aquella noite, uma supuração

escandalosa.

Raivando contra si proprio, (cá estamos na cabeça do capitulo) o barão

de Celorico, não podia transigir com as razões da sogra. Terminado o

baile, duas ou tres vezes amaxucára a carta na mão convulsa, para a

lançar ao toucador de Ludovina, que desenfeitava as tranças e o pescoço.

--Que tens, meu amiguinho?--disse ella, que o vira, no espelho, fazendo

esgares com os beiços--parece-me que está agitado!

«Estou bom, muito obrigado, estou como se quer.

--Que modo é esse de responder?--tornou ella, voltando-se de subito para

o barão, que passeava, ou antes se rolava de parede a parede com

achavascada impetuosidade.

«Está bom; deixe-me, que eu não estou bom, e qualquer dia dou um estoiro

como uma castanha.

--O senhor está disparatando! explique-se.

«Foi o diabo o nosso casamento, sr.ª D. Ludovina.

--Nada de exclamações; clareza e franqueza, meu amigo! Que é isso?

«É os meus peccados; é o que eu lhe tenho dito duzentas vezes, e a

senhora não quer crer que a sociedade do Porto está corrompida, e quem

aqui estiver não póde dar boa conta de si.

--Vamos aos factos; applique... diga a que vem isso?

«Ahi tem o que é.

E arremeçou-lhe ao regaço a carta amarfanhada, que parecia uma pela.

A baroneza abriu-a serenamente, amaciou-lhe os vincos, e leu, sem signal

de inquietar-se.

«Diz-se aqui que eu tenho um amante--disse ella sorrindo--que se

corresponde comigo. O senhor crê isto? Responda, senhor; crê que eu

tenho um amante?

--Não, senhora; mas, pelos modos, dizem-no, e a minha honra soffre com

isso.

«Como soffreria com a verdade do aviso?

--Que é? não entendi.

«Se as suas suspeitas condissessem com este aviso, não soffreria mais?

--Matava-a, sr.ª D. Ludovina, dou-lhe a minha palavra de honrado, que a

matava, e tiraria os figados pela bôca ao proprio diabo do inferno, e

tinha alma de metter uma faca no peito para morrer ao pé de si!

Esta rajada sacudiu todas as fibras bambas do barão. Não teve remedio se

não sentar-se, a resumar camarinhas de suor, impando, e arfando como

folle de forja.

Ludovina, mais assustada que compadecida, tomou-lhe a mão, e com a outra

enxugou-lhe a face.

«Soffre porque me não ama, porque me não crê...--disse ella.

--Não faças caso d'isto, não é nada... não é nada--regougou elle.

«Seja superior aos infames que nos invejam, meu amigo. Não lhes dê o

prazer da vingança. A pessoa que lhe escreve, é um miseravel inferior ao

meu desprezo.

--Já sei tudo... não falemos n'isso mais. Deite-se, que eu preciso de

tomar ar.

«Onde vae?

--Vou ao jardim.

«Eu vou comsigo... espere um bocadinho.

--Não venhas cá, deita-te, que está fria a madrugada.

Foi.

Eram tres horas e meia da manhã. As trevas descondensavam-se. A nebrina

do mar serpenteava por entre as ribas marginaes do Douro. O clarão da

lua ia-se descórando ao arraiar do crepusculo. Era a hora menos poetica

das vinte e quatro da rotação d'este planeta, onde ás tres horas e meia

da manhã, dorme toda a gente que tem juizo, e sabe um pouco de hygiene.

O barão de Celorico não dava fé das bellezas matutinas que o rodeavam.

Atravessou, sorvendo haustos de ar fresco, o passeio central do seu

jardim, até parar no muro, que o extremava de outra rua. Esta rua é

justamente aquella por onde vimos passar Francisco Nunes, raivando

imprecações garrafaes contra o charuto incombustivel. N'esse muro havia

uma gradaria de ferro, e portadas interiores. O barão abriu

machinalmente a janella, e viu approximar-se d'ella um vulto embuçado,

que lhe disse:

--Cuidei que tinhas adormecido! que demora foi essa?

--O que é?--exclamou o barão atordoado.

O vulto coseu-se com a parede, e, a passo rapido, desappareceu na meia

escuridão.

Longo tempo, agarrado ás grades, o barão de Celorico, parecia ter

perdido a memoria, a sensibilidade, o senso intimo. A patrulha, que

recolhia ao quartel, vendo aquelle immovel espectaculo, através das

grades, imaginou primeiro seria estatua do jardim; reparando

attentivamente, ouviu o sussurro da respiração cavernosa, e decidiu que

estava alli um homem.

--Olá!--disse um soldado.

«Que é?--respondeu o barão, espertando da lethargia.

--É d'ahi d'essa casa?

«Sou o dono d'ella.

--Então perdoará. Fizemos esta pergunta, porque ha de haver cinco dias

que vimos saír ás quatro horas da manhã um encapotado d'aquella porta

que alli está abaixo, chamamo'-lo, elle deu á canella, e sumiu-se-nos lá

em baixo na travessa.

«D'esta porta que está na parede d'este jardim?--exclamou o barão.

--É como diz.

«A que horas?

--A estas horas, pouco mais ou menos.

«Um homem de capote?

--Tal e qual.

«E não viram mais ninguem?

--Parece-me que vi ahi n'essa grade uma figura de mulher, com lenço

branco na cabeça.

«Obrigado, camaradas, muito obrigado, e boas noites.

O barão arremessou as portadas, e, levando as mãos á cabeça, atirou-se

com brutal frenesi a um banco de pedra. Ao tempo que cáe em cheio, vê ao

pé de si um objecto escuro. Apalpa, repara, examina: era o projectil

fatal do charuto que Francisco Ennes, na vespera, arrojára para dentro.

O barão contempla o charuto na mão convulsa, e desentranha um rugido

fremente, apertando-a, rábido e sanhudo.

--Eis a prova da minha deshonra!--exclama, e ergue-se vacillante e

cambaio. Entra em casa, e vê correr um vulto de mulher através de um

passadiço. Corre impetuoso, e já o não alcança. Tresvariando, grita que

ha ladroes em casa. Affluem os creados, buscam e rebuscam todos os

cantos inutilmente. Ludovina e sua mãe acodem espavoridas, e encontram o

barão, debatendo-se nos braços de dois creados, com um ataque de nervos.

Ministram-lhe soccorros, conduzem-n'o á cama, querem vêr o que elle

fecha na mão direita, e podem apenas lobrigar a ponta queimada de um

charuto. Ludovina inquire com meiguice e pena o que é aquillo, e o

desgraçado, maior e mais eloquente na sua angustia, responde:

«É a nossa morte!

Instam na explicação das respostas, e elle troveja:

--Não quero aqui ninguem!

Pasmam; e retiram-se, atemorisados.

«Estará elle doudo, meu pae?--dizia a baroneza, tremula de medo,

apoiando-se nos braços do espavorido Melchior.

--Parece que sim, minha filha. Chamem-se medicos já. Este homem deve ter

demasiado sangue. É ameaça de doudice, não póde ser outra cousa.

«Que sorte a minha!--disse Ludovina lagrimosa. E foi para o pé do leito

de seu marido.

* * * * *

--Se se verificar a demencia--dizia Melchior a D. Angelica, de modo que

só todos nós pudemos ouvir--a administração da casa passa immediatamente

para Ludovina, e Rilhafolles com elle. Este homem saíu muito outro do

que eu imaginava. Ainda me não disse que deixasse o logar da alfandega,

nem me offereceu um emprestimo com que eu possa tentar demanda contra os

possuidores da minha casa. Tenho remorsos de ter dado a este alarve uma

creatura tão perfeita como a nossa Ludovina!

O que fazem mulheres: Romance philosophico · 第 25 / 46 题