IV

--Então a pequena está incommodada?--perguntou Melchior a sua mulher,

que não declinava os olhos do cepo informe do sr. João José Dias.

--Um pouco incommodada.

--Vaes dizer-lhe que venha á sala, menina?

--Irei.

--Estou boa, papá--disse Ludovina entrando subitamente, e cortejando o

hospede, que ella reconhecera de o ter visto outra vez.

--Tem a bondade de sentar-se, snr. Dias?--disse Melchior ao acanhado

brasileiro, que mal pudera gaguejar um «creado de vossa senhoria» que

corrigiu bruscamente em «vossa excellencia.»--Minha filha, quando hontem

te disse que a Providencia me deparára para ti um digno marido, era

d'este senhor que te falava.

--Tenho muito prazer em conhece'-lo--atalhou Ludovina com uma

affabilidade e desembaraço que espantou a mãe, alegrou o pae, e

lisonjeou o noivo.

--Para satisfazer a uma exigencia d'este cavalheiro--continuou

Melchior--é preciso que tu digas se acceitas livremente a minha

escolha, ou direi melhor a escolha com que te distinguiu o sr. Dias.

--Acceito muito de minha livre vontade--respondeu com firmeza D. Ludovina.

--Não lhe restam escrupulos?--tornou Melchior inclinando-se para o

brasileiro.

--Não, senhor--disse elle--Estou satisfeito; o que eu não queria era que

a menina viesse um dia a arrepender-se... e...

--Não espero tal desgraça...--interrompeu Ludovina, sem fitar os olhos

no brasileiro.

--Da minha parte, hei-de fazer o possivel por lhe não dar desgosto,

porque o meu natural é bom, e ninguem, até hoje, se deu mal comigo.

Ludovina ergueu-se, e pediu licença de retirar-se por um instante. D.

Angelica entendeu-a, e seguiu-a pouco depois. Foi encontra'-la no

quarto, afogada em soluços, curvada sobre o leito.

--Que é isto, filha?

--Nada, minha mãe...

--É muito, Ludovina; que tens?

--Precisão de desabafar assim. Estas lagrimas não fazem mal a ninguem. É

uma victima que se entrega ao sacrificio, mas deixem-a chorar... Que

vida, que futuro, meu Deus!

--Ludovina, não chores, e escuta-me. Eu não imaginava que teu pae te

dera a semelhante homem. Tens razão... É repugnante, e horroroso. Não

casarás com elle, menina.

--Hei-de casar, minha mãe. Mal o vi ainda; não tive ainda tempo de

sentir repugnancia ou horror... Choro como victima, mas não d'elle; é do

outro que me matou.

--Isso é que é cobardia, Ludovina! Pois não te fez nojo esse miseravel?

--Fez, fez; mais que nojo... É preciso que elle se não persuada que

minha mãe lhe mentiu, quando lhe disse que a sua intenção era dar-lhe

parte do meu casamento. Devo casar muito depressa, o mais breve que seja

possivel.

--Casar por vingança?... Isto é um desforço desgraçado...

--Não caso por vingança, que elle não vale o odio. Caso para salvar a

nossa dignidade, minha mãe. Hei-de simular quanto possa o contentamento

da mais feliz mulher. Não tenho já coração para sentir desgostos. Será

tudo estupidamente alegria na minha vida. Toda a gente dirá que eu

amo... meu marido. As pessoas que souberem do meu namoro com esse

infame, dirão que devia ama'-lo muito pouco a mulher que se deixou casar

com um homem ridiculo. Quero que se diga isto; quero que me assaquem a

calumnia de que eu sou mais uma das mulheres que se venderam á riqueza.

O que nunca ninguem dirá é que eu infamei o homem que me comprou...

nunca, meu Deus!... Pois a mãe está chorando agora, depois de me ter

ensinado a ver o mundo como elle é? Não se arrependa, minha boa mãe.

Deu--me a maior prova de amor fazendo-me escutar o que esse homem

disse... palavras de tanta afflicção como vergonha para mim... Fiquei

bem, estou desopprimida... vê? já não choro.

D. Angelica abraçou com vehemencia a filha, beijou-a como beijaria a

creancinha de peito, e saíu, enxugando as lagrimas. Entretanto,

conversavam assim, na sala, os snrs. João José Dias e Melchior Pimenta:

--Gostou dos modos da pequena, snr. Dias?

--Gostei muito; mas, a falar-lhe a verdade, pareceu-me que ella não

olhava direita para mim!

--Recato de moça, pejo, e acanhamento, não acha que é muito natural?

--Isso sim; mas dava aquellas respostas tão... tão... tão desenganadas,

que parecia ter por mim sympathia de mais tempo...

--Minha filha tem muito juizo, snr. Dias...

--Não duvido.

--E então quiz desde logo agradar a seu pae e a seu futuro marido.

--Ora, olhe; o senhor não se lhe dá que eu tenha com sua filha, cá em

particular, uma conversasita?

--Pois não, snr. Dias! todas as vezes que quizer. Eu mesmo desejo que

sonde o coração de Ludovina, e reconsidere a sua tenção, se vir que ella

o não merece. Eu vou manda'-la.

--Faça-me esse favor.

Melchior procurou a filha, reparou nos indicios das lagrimas, e fingiu

que os não percebia. Dizendo-lhe que viesse á sala, accrescentou:

--Lembra-te que fazes a tua felicidade e a de tua familia. Esse homem

não será só teu marido, será um protector de todos os teus, e fará a tua

independencia n'uma sociedade onde a formosura se estima como um meio de

alcançar «fortuna», e a «fortuna» como um meio de se alcançar tudo.

Entendeste-me, filha?

--Entendi, meu pae.

Ludovina entrou jovialmente na sala.

--Minha senhora,--disse o brasileiro, gaguejando--Eu fui toda a minha

vida negociante, apenas sei ler e escrever, e digo as cousas assim como

ellas me vem á idéa. Ora bem; a menina está resolvida a ser minha

companheira de toda a vida?

--Sim, senhor, disse ainda ha pouco que sim.

--É verdade que disse; mas póde ser que o dissesse para contentar seu

pae, e lá no interior sentisse outra cousa.

--Disse o que sentia, e repito o que disse.

--Quem sabe se a senhora tinha alguma sympathia por ahi, e que lá por eu

ter alguns vintens seu pae a fizesse voltar-se para outro lado?

--Não, senhor, eu não tenho affeição a alguem.

--Porque depois eramos ambos desgraçados; e eu devo dizer-lhe, que tudo

o que eu mais tenho estimado n'este mundo é a minha honra; até hoje,

louvado Deus, ninguem lhe pôz o dedo sujo; e seria mais facil eu deixar

que me tirassem a vida do que a honra. Trabalhei muito anno para a

conservar, cheguei até esta edade sem ser offendido, e assim d'estes

cabellos brancos que me vê, se alguem me atacasse a minha honra,

tornava aos meus vinte e cinco annos. A menina entende-me?

--Creio que entendi, e sinto que v. s.ª me esteja offendendo com as suas

supposições injuriosas.

--Isto é um modo de falar, sr.ª D. Ludovina, e perdoará se a offendi.

Tudo o que lhe digo é em bem seu, e meu. Eu sou o que está vendo; a

menina é nova e linda; se vê que se ha de arrepender, diga-me a verdade

do seu coração, que eu arranjarei as cousas de modo que seu pae se

queixe de mim e não da senhora.

--Já disse a v. s.ª que desejo ser sua esposa; não sei que mais deva

dizer-lhe. Não me hei de arrepender, porque espero merecer sempre a sua

estima e confiança; mas tenho um favor a pedir-lhe.

--Diga lá, seja o que fôr.

--Desejava que ficassemos na companhia de meus paes.

--Ficaremos; e quando formos passar algum tempo á nossa casa de

Celorico, a nossa familia irá comnosco. Era só isso?

--Não tenho outra ambição.

--Isso pouco é... Ha-se de fazer tudo que a menina quizer: graças a

Deus, temos mais que o preciso para satisfazer as nossas vontades.

Agora, se quizer dizer a seu pae que já lhe disse o que tinha a dizer,

vá lá, que eu fico á espera d'elle e de sua mãesinha para me despedir,

até á noite.

D. Ludovina chamou o pae, sem saír da sala. Melchior, lendo o bom

resultado das suas reflexões na cara jubilosa do radioso

capitalista, convidou-o a jantar, quando elle se despedia. João José

disse que jantára tres horas antes, e jantaria segunda vez com tão

amavel companhia. Estava inspirado!

E cumpriu a promessa. Jantou, fez muitos brindes, e o ultimo, e mais

solenne que fez foi o seguinte:

_Á saude de quem de hoje a um anno ha de ser meu compadre, e minha

comadre!_

Melchior Pimenta agradeceu.

D. Angelica franziu a testa, fez-se branca de cera, e levou o calix aos

labios.

O que fazem mulheres: Romance philosophico · 第 19 / 46 题