É uma historia que faz arripiar os cabellos.
Ha aqui bacamartes e pistolas, lagrimas e sangue, gemidos e berros,
anjos e demonios.
É um arsenal, uma sarrabulhada, e um dia de juizo!
Isto sim que é romance!
Não é romance; é um soalheiro, mas tragico, mas horrivel, soalheiro em
que o sol esconde a cara.
Como da seva mesa de Thyestes
Quando os filhos por mão de Atreu comia.
Escreve-se esta chronica em quanto as imagens dos algozes e victimas me
cruzam por diante da phantasia, como bando de aves agoureiras, que
espirram de pardieiro esboroado, se as acossa o archote de um phantasma.
Tenebroso e medonho! É uma dança macabra! um tripudio infernal! cousa só
semelhante a uma novella pavorosa das que aterram um editor, e se
perpetuam nas estantes, como espectros immoveis.
Ha ahi almas de pedra, corações de zinco, olhos de vidro, peitos de
asphalto?
Que venham para cá.
Aqui ha cebola para todos os olhos;
Broca para todas as almas;
Cadinhos de fundição metallurgica para todos os peitos.
Não se resiste a isto. Ha-de chorar toda a gente, ou eu vou contar aos
peixes, como o padre Vieira, este miserando conto.
Os dias actuaes são melancolicos; a humanidade quer rir-se; muita gente,
séria e sisuda, se compra um romance, é para dar treguas ás
despoetisadas e pêcas realidades da vida.
Sei-o de mais. Eu tambem compro os livros dos meus amigos, para
espairecer de meditações serumbaticas em que me anda trabalhado o espirito.
Sei quantos devo, e que favores impagaveis me deveria, leitor bilioso,
se eu lhe encurtasse as horas com paginas galhofeiras, picarescas,
salitrosas, travando bem á malagueta, nos beiços de toda a gente, afóra
os seus.
Tenha paciencia: ha de chorar ainda que lhe custe.
Se respeita a sua sensibilidade, fique por aqui; não leia o resto, que
está ahi adiante uma, ou duas são ellas, as scenas das que se não levam
ao cabo, sem destillar em lagrimas todos os liquidos da economia animal.
Este romance foi escripto n'um subterraneo, ao bruxolear sinistro de uma
lampada.
Alfredo de Vigny não diz que escreveu um drama, ás escuras, em vinte
dias? E Frederico Soulié não se rodeava de esqueletos e esquifes?
E outros não se espertaram com todos os estimulos imaginaveis de terror?
Menos o do subterraneo... este é meu, se me dão licença.
Pois foi lá que eu desentranhei do seio estes lobregos lamentos.
No fim de cada capitulo, vinha ao ar puro sorver alguns átomos de
oxigenio, e todos me perguntavam se eu tinha pacto com o diabo.
Almas plebeias! não sabem o que é a fidalguia do talento, que tem
alcaçar nos astros, e nos antros lobregos da terra; não entendem este
fadario do «genio», que elles chamam «excentricidade», como se não
houvesse um nome portuguez que dar a isto.
O leitor sabe o que isto é? Já sentiu na alma o apertar de um caustico?
Excruciaram-no, alguma vez, os flagellos da inspiração corrosiva, como
duas onças de _sublimado_?
Se não sabe o que isto é, estude pharmacia, abra um expositor de chimica
mineral, e verá.
Não cuidem que podem ler um romance, logo que soletram. Precisam-se mais
conhecimentos para o ler que para o escrever. Ao auctor basta-lhe a
inspiração, que é uma cousa que dispensa tudo, até o siso e a
grammatica. O leitor, esse precisa mais alguma cousa: intelligencia;--e,
se não bastar esta, valha-se da resignação.
Ora, está dito tudo.
Leiam isto, que é verdadeiro como o «Agiologio» de Ribadaneira, como as
«Peregrinações» de Fernão Mendes, como todos os livros legados de
geração a geração com o sinete da crença universal.