--Rosinha, queres ir viver com esta senhora e sua filha?
--Pois vós, senhora--respondeu Rosa tremula e timida--quereis mandar-me
embora?
--Não. Pergunto sómente se me queres deixar, para te tornares uma menina
da cidade, instruida e de maneiras polidas?
--Não, minha senhora. Nunca--disse Rosa chorando, lançando-se nos braços
da sua bemfeitora--nunca vos deixarei. Tenho muitos e muitos desejos de
me instruir e de aprender, mas, se para isso é necessario o deixar-vos,
antes quero ficar ignorante toda a minha vida. Recolheste-nos, senhora,
quando eu e a minha querida avósinha, estavamos quasi a morrer de fome,
e havia de ser tão ingrata, que, quando principio a servir d'alguma
utilidade, vos abandonasse? Não, senhora, nunca, nunca vos deixarei.
--Ouvistel-a, minhas senhoras--disse D. Thereza enxugando os olhos,
razos de lagrimas.
--Pelo que vejo, Rosa, estás bem decidida a não vir comnosco?--lhe disse
a viscondessa.
--Seria feliz e muito feliz, minha senhora, se podesse ir viver na sua
companhia, e de sua estimavel filha; mas antes de vós, está a snr.ª D.
Thereza, que salvou a minha pobre avósinha d'estender a mão á caridade
publica e que sempre tão minha amiga tem sido. Perdoai-me, senhora, se
assim fallo...
--Dá-me um abraço, minha menina--lhe disse a viscondessa
interrompendo-a--dá-me um abraço, porque te mostraste tal, como eu
desejava, boa, humilde e reconhecida aos beneficios, que te fazem.
Não tenhas receio, que te separemos da snr.ª D. Thereza. Pediremos
sómente á tua bemfeitora, que nos deixe entrar com metade nos
beneficios, que te prodigalisa.
--E eu, Rosa--acrescentou D. Julia--quero ser a tua preceptora. Quando o
tempo estiver bom, dar-te-hei as lições na serra, á sombra d'um
sobreiro, ou d'um pinheiro, ou á borda d'um regato; e quando estiver
mau, dar-tas-hei em minha casa, porque ouso esperar, que a snr.ª D.
Thereza me não negará este favor, e prazer.
--Oh não, minha senhora, esteja certa d'isso. Logo que termine o seu
serviço dos cestinhos fica livre para vos ir procurar.
--É objecto convencionado--disse a viscondessa--por isso a snr.ª D.
Thereza ha-de-me permittir licença de offerecer a Rosa, para si e sua
avó, o que contém esta pequena bolsa. É para comprar em nosso nome um
vestido novo.
E como D. Thereza, Rosa e a avó lhe fizessem muitos agradecimentos, a
viscondessa impoz-lhes com brandura silencio, e retirou-se, promettendo
voltar muito breve á quinta.
D. Julia abraçou a sua pequena discipula, e retirou-se dizendo-lhe «até
ámanhã».
Nas proximidades de casa a viscondessa e sua filha encontraram D.
Bertha, que estava esperando pelas meninas Meirelles.
--Meu Deus, como estou aborrecida--lhes disse ella.
--Pois eu, minha irmã--respondeu D. Julia--venho muito alegre; o
espectaculo, que acabo de gosar, dar-me-ha felicidade não só para hoje,
mas tambem para muito tempo, porque será contado no numero das minhas
mais gratas e queridas recordações.