Ainda mal a aurora tinha raiado, já Rosa estava a pé. Fatigada, como
estava, da jornada do dia antecedente, custou-lhe muito a levantar-se
cedo, mas fez um esforço para mostrar os seus desejos a D. Thereza.
Arranjou-se, o melhor que pôde, com os seus velhos vestidos, e, depois
de ter dirigido mentalmente a Deus uma oração fervente, desceu ao andar
terreo.
--Já a pé,--lhe disse alegremente D. Thereza.
--Estava tão cançada do caminho d'hontem, que receei, já fosse tarde;
mas graças aos vossos beneficios, minha senhora, já estou prompta, para
o que me determinardes.
--E tua avó?
--Ainda dorme. É tão velhinha e tão doente, que vos peço tenhaes piedade
d'ella.
Rosa ergueu as mãos, e esperou tremula a resposta da dona da quinta.
D. Thereza de Sousa era, o que vulgarmente se chama, uma mulher de casa.
Tendo viuvado ha doze annos, geria com tanto acerto e economia as suas
propriedades, que a sua fortuna tinha augmentado consideravelmente.
Os visinhos do lugar diziam que, pela avareza e mesquinharia, é que
tinha alcançado a fortuna, que possuia, pois que em qualquer cousa
sempre tinha que diminuir, e acrescentavam ironicamente, que, dando
_tantas_ esmolas, o dinheiro nunca lhe havia de faltar.
Fosse como fosse, o que sei é, que D. Thereza sensibilisou-se tanto com
a historia de Rosinha, que, quando ella ergueu as mãos, e a viu com os
olhos arrasados de lagrimas, esperando a resposta, disse para si; que a
uma supplica tão humilde e cheia de tanto amor filial, era impossivel
resistir.
N'este momento quem accusasse de avarenta D. Thereza de Sousa, seria
injusto com ella, por que, recolhendo a avó e neta, tomava um encargo
bastante pesado. Rosa era ainda muito pequena, e de mais a mais muito
fraquinha, para poder ter utilidade real! A pobre criança estava a fazer
dez annos, mas era muito franzina e delicada. O seu rosto, cercado de
compridos caracóes louros, e animado com uns grandes olhos azues
escuros, inspirava sympathia. Tinha as maneiras delicadas, e a linguagem
menos rude, que a dos camponezes dos arredores. Esta distincção n'uma
criança, ainda tão tenra como Rosa, nascia da sua intelligencia mui
desenvolvida.
A mãi, logo que ella teve tino para se não perder nos caminhos,
mandava-a apanhar flôres silvestres, que ia vender ás familias mais
abastadas das aldéas visinhas. Como Rosa era muito linda as senhoras das
casas acolhiam-na muito bem, divertiam-se com ella, ouvindo-a tagarelar,
e demoravam-na muitas vezes a brincar com as suas filhas.
Sendo muito viva tomou facilmente as maneiras, e modo de fallar, das
pessoas com quem tratava, de modo que os rachadores denominavam-na a
fidalguinha.
Se tinha adquirido maneiras delicadas, não havia perdido as boas
qualidades, de que era dotada; humilde e carinhosa para todos, quem a
conhecia adorava-a.
O que a mim, minhas caras leitoras, me levou tanto tempo a dizer, passou
n'um instante pela idéa a D. Thereza de Sousa, e fixou-lhe a resolução
de recolher a avó e a neta.
--Vou-te mandar vestir uma roupinha melhor, Rosinha,--lhe disse D.
Thereza, animando-a com uma brandura, que lhe não era habitual,--porque
espero has-de ser uma boa criada, serviçal e trabalhadeira.
--Então fico em casa de v. exc.ª?--disse Rosa, não podendo crer em tanta
ventura.
--Ficas, sim, e parece-me que nunca me darás motivo para me arrepender
do que hoje faço.
--Oh! minha senhora, estai certa que me esforçarei o mais possivel, para
vos agradar e satisfazer os vossos desejos.
--Assim o espero. Anda vestir-te.
--Desculpe-me, senhora. Mas minha avó...--e Rosa parou corando.