D. Mafalda principiou assim:

--Emilio da Cunha era o mais velho de tres irmãos, dos quaes, o mais

novo, vivia ha muitos annos no Rio de Janeiro, onde tinha alcançado

fortuna. O segundo nunca deixou o Porto, sendo sempre infeliz nos seus

commettimentos e especulações. Emilio da Cunha, á custa de muito

trabalho e economias, pôde alcançar uma fortunasinha, que lhe permittia

esperar com socego, o momento de descançar da vida laboriosa em que

tinha vivido.

Uma quarta pessoa completava esta familia, que era uma irmã, que tendo

seguido seu marido á India, para onde elle tinha sido despachado, e não

vindo nenhum d'elles a figurar n'esta minha historia, não lh'os

recordarei mais.

Aconteceu que o irmão de Emilio da Cunha, que residia no Porto, por uma

d'estas catastrophes que occasionam os jogos de bolsa, falliu. Teve tal

sentimento por este facto, que falleceu tres dias depois, atacado d'uma

febre cerebral. A herança, que deixou, foram dividas e um filho.

Emilio da Cunha, que tinha um coração bondoso, e um caracter

pundonoroso, para que a memoria de seu irmão não ficasse deshonrada,

comprometteu-se a pagar as dividas e recolheu em sua casa o filho para

lhe substituir o pai, que tinha perdido; procedimento louvavel, e digno

de se admirar, sabendo-se que elle tinha uma filha, para quem, passados

quatro ou cinco annos tinha a procurar um casamento vantajoso.

Roberto, se chamava o sobrinho de Emilio da Cunha, tinha já 15 annos

d'idade, mas o pai, inteiramente entregue ás especulações, e aos

cuidados, que ellas trazem comsigo, descuidou completamente a sua

educação, por isso o seu retrato moral, n'esta occasião, nada tinha de

vantajoso; o espirito tinha-o completamente inculto; as noções que

possuia do justo e do injusto eram as mais erroneas e disparatadas; o

respeito aos direitos d'outrem era para elle uma invenção estupida dos

homens, condemnada pela natureza, e a verdadeira liberdade consistia em

fazer o mal impunemente. Se algum bom instincto, ou algum vislumbre de

virtude, existia no coração de Roberto, ainda estava em embryão, por que

se não tinha demonstrado. Quantas e quantas vezes, em quanto que o pai,

cego pelas especulações, concentrava todas as suas faculdades

intellectuaes na realisação d'um impossivel, não deixou Roberto de ir ao

collegio, fazendo o que em termo escolar, se chama _gazear_, e gastava

as horas d'estudo em andar a vagabundear pelos campos e praças. D'ahi

proveio o tomar relações com meia duzia de garotos, ou vadios,

permitta-me a phrase, para quem nada era sagrado nem nas acções, nem nas

palavras. D'ahi nasceu a falta de respeito pela propriedade alheia,

roubando os pomares; e o endurecimento de coração, castigando

barbaramente animaes inoffensivos.

Emilio da Cunha reconheceu logo os maus instinctos de que seu sobrinho

era dotado, e a desmoralisação, que já se tinha infiltrado no seu

coração, mas concebeu a esperança de o regenerar com desvelos,

paciencia, e sobre tudo bons exemplos. Sua filha, a que chamarei

Valentina, de 14 annos d'idade, contribuiu poderosamente para a

realisação d'este seu empenho, tão justo e louvavel. Era uma menina para

quem a natureza tinha sido prodiga em encantos de rosto, d'espirito e

coração, a ponto de qualquer que a via a admirar, e de quem a ouvia

amal-a immediatamente. Tinha uma tal influencia, ou magia sobre os que

se acercavam d'ella, que aos bons tornava-os melhores, e aos maus

fazia-lhe retirar envergonhados para o fundo do coração os maus

instinctos. Esta magia não teve menos poder sobre Roberto, do que sobre

os outros, de sorte que a regeneração que elle soffreu, nos seus

costumes e acções, foi tão sensivel, que o bondoso Emilio da Cunha

revia-se alegre e contente na sua obra, e congratulava-se dos resultados

que tinha colhido.

Deu-se porém uma circumstancia feliz, mas que ao mesmo tempo foi

desgraçada, que deteve Roberto repentinamente na boa estrada em que se

tinha embrenhado, e na qual parecia caminhar resolutamente. Por uma

carta chegada n'um dos paquetes inglezes do Brazil, soube Emilio da

Cunha, que seu irmão mais novo tinha fallecido, deixando-o, por elle ser

o seu mais proximo parente, herdeiro d'uma fortuna consideravel. Bens

rusticos, e estabelecimentos industriaes é no que consistia a fortuna,

dos quaes se poderia colher bons lucros, sendo bem geridos, conforme o

tinha praticado o seu defunto proprietario; mas Emilio da Cunha, além de

se não julgar com conhecimentos e forças para bem gerir a industria com

que seu irmão tinha feito fortuna, não tinha desejo, nem queria

expatriar-se. Foi até com immensa repugnancia que se resolveu a ir ao

Brazil tomar posse e liquidar a herança; parecia que um secreto

presentimento o avisava do que tinha de acontecer, levando-o a

considerar como uma desgraça esta viagem, a que os sagrados direitos de

sua predilecta filha Valentina, o obrigavam a emprehender.

Partiu finalmente, depois de ter tomado todas as precauções para a

tranquillidade de seu espirito. Valentina entrou em um dos collegios de

educação mais acreditados do Porto, e Roberto ficou n'uma casa

particular, onde lhe deviam prestar todos os cuidados, que exigiam a sua

idade, pois que já então tinha 17 annos, e a sua completa ignorancia, de

que até uma criança de 8 annos poderia zombar.

Emilio da Cunha aportou a salvamento ás terras de Santa Cruz, e logo que

saltou em terra, desenvolveu a maior actividade, e procurou por todos os

meios possiveis abreviar rapidamente os seus negocios, mas infelizmente

os resultados não correspondiam aos seus esforços e desejos, porque de

todos os lados, e a todos os momentos estavam sempre a surgir empecilhos

e embaraços não prevenidos nem esperados. Havia já um anno que Emilio da

Cunha tinha chegado ao Brazil, e ainda os seus negocios não estavam mais

adiantados, que no primeiro dia.

Cançado, desanimado e affectado de melancolia, ou _spleen_, como lhe

chamaria um nosso fiel alliado britannico, mortificado por um

desassosego de que não podia explicar a causa, deliberou entregar os

seus negocios e a liquidação e arrecadação da heranca a um procurador, e

embarcar-se no primeiro paquete, que seguisse viagem para Portugal.

Que se tinha porém passado no Porto, durante este tempo?

É o que lhe vou contar, meu visinho, se ainda tiver paciencia para me

ouvir, me disse D. Mafalda, e o que vou fazer ás minhas leitoras, se

ellas quizerem ter a mesma paciencia de me lêr.

Roberto, separado de sua prima, aborrecido e dominado pela priguiça,

fugiu um bello dia da casa onde se achava hospedado, foi procurar, e

infelizmente encontrou, os seus antigos companheiros da vadiagem, que

tinham quasi todos seguido a estrada do vicio e do crime. Arrastaram

portanto comsigo o desventurado Roberto para esse despenhadeiro, na

baixa do qual se encontra a escoria da sociedade. Roberto tinha por

companheiros habituaes homens criminosos, de cara sinistra, maneiras

brutaes, linguagem grosseira e vestidos esfarrapados, n'uma palavra

mendigos, ou ladrões. Adoptou-lhe portanto os costumes as maneiras e as

maximas, e quem o visse emmagrecido pela devassidão, com os vestidos em

desalinho, os cabellos eriçados, tomal-o-ia por um bandido de trinta

annos, quando elle não tinha mais que dezenove incompletos. Valentina,

pelo contrario, tinha crescido em corpo, belleza, espirito, talento e

virtudes.

Conduzi-o do Porto ao Rio de Janeiro, e do Rio de Janeiro ao Porto,

agora, querendo-me seguir, leval-o-hei a Lisboa, onde se passa um

pequeno episodio d'esta muito veridica historia.

De bordo d'um paquete inglez, chegado dos portos do Brazil, tinha

desembarcado um passageiro, que se dirigiu a um hotel para descançar, e

ahi passar até ao dia seguinte, em que devia seguir viagem para o Porto,

na mala-posta, a fim de se vir unir a seus filhos, que estava ancioso

por abraçar e apertar contra o coração. Julgo desnecessario o dizer-lhe,

pois me parece já o adivinhou, que este viajante era Emilio da Cunha,

que se considerava feliz por pisar o solo da sua patria, que tanto

amava, e onde estava tudo o que elle mais presava n'este mundo. Logo que

no hotel lhe prepararam o quarto e tomou uma pequena refeição, deitou-se

e adormeceu, embalado por sonhos felizes.

No dia seguinte ainda o sol mal tinha despontado, já subia pela escada

do hotel e entrava no corredor commum, sobre o qual deitavam uma duzia

de portas de quartos, um homem de má catadura. Era um d'estes

_cavalheiros d'industria_, a qual consiste em entrar, sob qualquer

pretexto, de manhã cedo nos hoteis, e aproveitar-se do primeiro quarto

que encontram aberto para empalmarem destramente um relogio, ou uma

mala, se o acordar do hospede ou locatario do quarto, os não obriga a

retirar-se de mãos vazias, desculpando-se de que se tinham enganado na

porta.

No andar, vacillante, e como desconfiado, do _cavalheiro d'industria_ se

reconhecia facilmente, que era um noviço, que ia tentar os seus

primeiros ensaios, ou que ia fazer a sua _primeira escamoteação_.

Depois de ter estado por bastante tempo em lucta com a sua consciencia,

e irresoluto se devia ou não penetrar no quarto de que a porta se achava

meia cerrada, metteu primeiro a cabeça, depois uma perna, e por ultimo

todo o corpo; mas fazendo algum ruido com este ultimo movimento, o

hospede, que estava deitado, acordou, e virando rapidamente a cabeça,

Roberto, por que o _cavalheiro d'industria_ era elle, encarou com seu

tio Emilio da Cunha, ficou estupefacto e como fulminado por um raio.

N'esse mesmo dia de tarde Emilio da Cunha tomou lugar no caminho de

ferro até ao Carregado, e ahi na mala-posta até ao Porto, onde trinta e

seis horas depois se achava nos braços de sua querida filha Valentina,

que immediatamente tinha ido procurar ao collegio.

--Tu sahes já, já do collegio, minha filha--lhe diz Emilio da

Cunha--para retomares, e nunca mais deixares, o teu lugar a meu lado.

--Que felicidade--exclamou Valentina toda alegre e folgazã--que vida

socegada e feliz não vamos passar todos tres, não é assim meu querido

pai, por que Roberto tambem vai para a nossa companhia?

--Roberto, morreu--respondeu Emilio da Cunha com rosto severo, e voz

soturna.--Não quero que me falles mais n'elle, entendes Valentina?

Valentina admirada da resposta, ainda fez diversas perguntas a seu pai,

mas a todas ellas não obteve outra resposta, senão a completa prohibição

de nunca mais lhe fallar em Roberto.

Ainda porém não tinha Emilio da Cunha soffrido todas as provações, que

Deus lhe destinára. Haviam decorrido seis mezes desde que tinha chegado

do Rio de Janeiro, quando recebeu a participação de que o procurador,

que ficára encarregado da liquidação e arrecadação da herança, tinha

cumprido a sua missão, mas que, depois de ter arrecadado a somma

importante, que produzira a mesma herança, tinha desapparecido, sem que

as pesquizas feitas para se descobrir o lugar de seu refugio, tivessem

dado o desejado resultado.

Emilio da Cunha ficou completamente arruinado por este facto, porque,

impaciente por satisfazer os credores de seu irmão, pai de Roberto,

tinha vendido tudo o que possuia em Portugal.

O golpe foi forte, mas ainda assim não o foi bastante para poder

subjugar a coragem do bom e respeitavel velho, mostrando-se Valentina

n'esta conjunctura, digna filha d'um tal pai.

Renunciando heroicamente ás commodidades da vida, em que até então

tinham vivido, foram habitar, em um bairro mais afastado da cidade, uma

pequena casa, na qual soffreram privações diarias e penosas, tratando

sempre d'obter alguns recursos para a sua subsistencia, mesmo em

trabalhos mal retribuidos.

Valentina, que Deus tinha dotado de bom gosto, e bastante habilidade,

principiou a trabalhar para uma modista, a qual satisfeita com os seus

primeiros trabalhos, lh'os deu em seguida mais delicados e por isso

melhor retribuidos, o que foi para elles uma grande felicidade, e que

assim lhes proporcionou meios licitos de pagarem regularmente o seu

aluguel, e de já não receiarem tanto nem o frio, nem a fome.

Valentina ia entregar a sua obra á modista, a qual satisfeita com ella

lhe dava sempre mais, e muitas vezes mais do que a que ella podia fazer.

A uma crise terrivel tinha-se seguido uma abastança mediocre, que era

por isso uma felicidade mais agradavel e estimada.

Decorreram assim dous annos.

Um dia, em que Valentina estava só, lhe entregou o carteiro uma carta, e

qual não foi a sua surpreza quando reconheceu a letra de seu primo.

Roberto contava n'esta carta tudo o que tinha passado, desde o momento

em que o vimos no hotel em Lisboa preparando-se para _escamotear_ seu

tio. Fulminado pela vista d'Emilio da Cunha tinha recobrado os sentidos

para na fuga se salvar ás imprecações d'indignação do velho. Chegou

offegante ao Terreiro do Paço, onde se sentou, ou melhor se deixou cahir

n'um dos assentos de pedra, que alli se acham, e assim esteve por muito

tempo, com a cabeça escondida entre as mãos, mergulhado em acerbas e

crueis reflexões.

Experimentou ou sentiu dentro em si uma completa revolução; o seu

procedimento indigno e infame se lhe apresentou em toda a sua nudez e

hediondez; teve horror de si mesmo e por um instante pensou em

suicidar-se; mas com o arrependimento entraram-lhe no coração

sentimentos mais generosos. Lembrou-se que, tendo d'ora avante uma

conducta honrosa e illibada, ainda poderia chegar a fazer esquecer os

seus erros passados, e reanimado por esta feliz lembrança, que o seu

anjo bom lhe tinha suggerido, levantou-se resoluto a trabalhar para a

sua rehabilitação, e a não descançar sem a ter chegado a alcançar.

A occasião favoravel não se fez esperar muito, por que um capitão d'um

navio mercante, que estava apparelhando para a California, lhe concedeu

passagem gratuita, mediante os seus serviços e o seu trabalho na viagem.

Aportou Roberto á California e sorrindo-lhe a fortuna, em lugar de se

embrenhar no jogo, arriscando assim as suas economias, fundou um

estabelecimento, que ia prosperando, faltando unicamente para a sua

felicidade se tornar completa, o obter o perdão de seu tio, e a

esperança de poder tornar a vêr sua prima, cuja imagem tinha

constantemente na idéa, e o sustentava e animava n'esta nova estrada de

trabalho e ordem, de que não pensava mais em se desviar.

Eis aqui em resumo o que continha a carta que Roberto dirigiu a sua

prima.

Valentina muito commovida, mas gostosa e alegre por ter de dar tão grata

noticia a seu querido pai, esperava anciosa a sua volta.

Mal lhe deu tempo de sentar-se, ia logo a contar-lhe o succedido, mas,

Emilio da Cunha a deteve, apenas tinha pronunciado a primeira palavra.

Valentina insistiu, mas o velho levantou-se com a maldição nos labios;

ella lançou-se-lhe de joelhos aos pés, chorou, supplicou, mas elle a

tudo ficou impassivel e inflexivel.

Valentina consternada respondeu á carta de seu primo descrevendo-lhe o

succedido, e a inutilidade de seus esforços; mas para o não desanimar

promettia-lhe de os renovar, e que os repetiria até que chegasse a mover

seu pai á commiseração e piedade, de que não desesperava. A carta

continha tambem a descripção de todos os successos, que se tinham dado

desde que Roberto tinha desapparecido; a decadencia de Emilio da Cunha,

a pobresa em que tinham vivido em quanto que o seu trabalho mal

retribuido lhe dava parcos meios de subsistencia, e o melhoramento de

sua posição, finalmente continha tambem algumas palavras d'exhortação e

amisade.

A situação de Emilio da Cunha e sua filha soffreu, passado algum tempo,

uma modificação muito mais inesperada, do que a que se havia seguido ao

aniquilamento da sua fortuna.

Emilio da Cunha foi chamado a casa d'um capitalista, aonde lhe

entregaram 20 contos de reis de que um anonymo lhe mandava dar posse a

titulo de restituição. D'onde tinha vindo este dinheiro?

Emilio da Cunha pensou muito naturalmente, que o procurador que o tinha

roubado, mortificado pelo remorso, e querendo socegar um pouco a sua

consciencia, lhe tinha mandado entregar aquella quantia, como uma parte

da restituição, que lhe tinha a fazer. Valentina estava muito longe de

concordar com a opinião de seu pai, mas nem por isso teve a franqueza de

lh'o declarar, nem lhe dar a entender qual era a sua.

Qual das duas opiniões era a verdadeira, é o que nos não importa saber,

o que se sabe é que a abastança ou decencia tinha reentrado em casa

d'Emilio da Cunha, e as idéas do digno e honrado velho, foram-se

tornando mais brandas sob a influencia do bem-estar.

Foi elle proprio que em um dia fallou primeiro a Valentina em seu primo

Roberto, e ella não perdendo esta occasião tão propicia, que se lhe

offerecia, advogou por muito tempo, com calor e eloquencia, a causa de

seu primo. Emilio da Cunha deixou-a fallar como e todo o tempo que ella

quiz, sem lhe dar a mais pequena resposta, nem lhe replicar a cousa

alguma.

Estaria ou não convencido?

A pergunta não tinha muito facil resposta, mas pelo menos tinha ouvido

sem colera e com socego as allegações a favor de seu sobrinho, o que já

era um bom indicio da mudança que n'elle se havia operado.

Valentina, contente e satisfeita com o resultado do seu primeiro

commettimento, escreveu immediatamente a seu primo informando-o do que

havia, e a esta carta seguiram-se outras muitas, noticiando-lhe sempre

algum novo passo dado na estrada da reconciliação.

Aconteceu um dia que Emilio da Cunha, no meio d'uma conversa, que tinha

seguido n'um objecto mui diverso, parasse precipitadamente para dizer a

sua filha:

--Tu acreditas sinceramente no arrependimento de teu primo?

--Oh! sim, meu pai--se apressou em responder Valentina.

--Queira Deus que te não enganes.

Um outro dia acordou d'uma pequena sesta, que se tinha seguido ao

jantar, gritando, como se continuasse uma conversa começada:

--Ah! se Roberto estivesse arrependido realmente, como tu o suppões, com

que prazer e alegria........

Não terminou a phrase, mas a expressão benevola da physionomia de Emilio

da Cunha indicou a Valentina o complemento da idéa.

Isto foi objecto para uma ultima carta a Roberto, a que elle respondeu,

e fechou-se a correspondencia.

Uma manhã Emilio da Cunha achava-se com Valentina em uma pequena, mas

elegante sala, que deitava sobre o jardim--por que elles tinham deixado

a sua pobre morada, trocando-a por outra mais decente--Emilio da Cunha

sentado junto d'uma mesa, sobre a qual se achava uma magnifica jarra de

flôres, olhava sorrindo para Valentina, que, de pé, junto d'um açafate

em que estavam dous pombinhos, reprehendia, acariciando-o, um d'elles:

--Eis-te aqui, meu bello fugitivo--lhe dizia ella--pensavas que era só

voltar para te ser concedido o perdão, depois de me teres feito soffrer

com a tua ausencia e ingratidão? Muito bem; visto que o teu regresso

prova um arrependimento sincero, perdôo com prazer; não é assim,

paisinho--acrescentou ella com voz meiga e levantando os lindos olhos

com uma expressão de candura para Emilio da Cunha--que se devem receber

os filhos prodigos, que regressam arrependidos e contrictos?

Emilio da Cunha não deu uma palavra, mas rolou-lhe uma lagrima sobre a

face.

N'este momento surprehendeu elle um olhar d'intelligencia, que Valentina

dirigia a alguem, que estava pelo lado detraz da cadeira em que estava

sentado. Voltou-se rapidamente, e soltando um grito, ouviu-se o nome de

Roberto.

Era Roberto realmente. A scena que se seguiu o meu caro visinho melhor a

poderá imaginar, do que eu pintar-lh'a, ou descrever-lh'a.

Roberto voltava honrado e rico. Julgo que já comprehendeu que, para

soccorrer seu tio, elle concebeu e executou o plano da restituição.

D. Mafalda calou-se. Parecia esperar, que eu, convencido pela sua

historia, sanccionasse com o meu voto a doutrina, que ella tinha

expendido antes de começar.

--Ah!--lhe disse eu com admiração sincera--v. exc.ª podia facilmente

escrever um romance.

--Isso quer dizer que me faz a honra de julgar esta minha historia como

producção da minha imaginação e phantasia?

Limitei-me a inclinar-me respeitosamenie, e aqui terminou a nossa

discussão.

No dia seguinte D. Mafalda offereceu-se para me apresentar a um seu

sobrinho, proprietario d'um estabelecimento industrial importante nos

suburbios do Porto. Aceitei gostosa e promptamente. Fui recebido com

extrema bondade e franqueza. O sobrinho de D. Mafalda gosava uma

felicidade digna de ser invejada; era casado com uma mulher, que era um

anjo de belleza e bondade, e tinha um filho o mais lindo e traquinas que

se póde imaginar; o seu estabelecimento florescia e prosperava; o seu

nome figurava entre os principaes e os mais honrados do mundo commercial

e industrial, n'uma palavra nada faltava á sua gloria, fortuna, e

felicidade domestica.

--Que pensa de meu sobrinho?--me perguntou D. Mafalda, quando nos

retiramos.

--Ah! minha senhora, nada mais ambiciono do que poder imital-o.

--Pois aquelle que viu é o Roberto da minha historia.

Recolhi-me a casa fazendo para mim as seguintes reflexões: Que a

regeneração do homem pelo arrependimento não é utopia, e que a sociedade

e a sua organisação é que são as causas principaes, que occasionam que

muitos de seus membros não se regenerem, por lhe embargarem ou matarem

logo algumas centelhas de virtude, que ainda tinham no coração.

Pensem, e verão o corollario que tiram.

Annos de Prosa; A Gratido; O Arrependimento · 第 45 / 70 题