O leitor é uma pessoa de juizo limado e occupações serias. Estou que não
lê romances de ninguem, e muito menos os meus, que são escriptos em
lingua portugueza e modelados em cousas de Portugal, onde é sabido que
não ha imaginação que invente a novella, nem modos de vida que saiam bem
no romance. D'onde vem que o romance portuguez, se não é copia do
estrangeiro, e aborrecida inverosemelhança, orça por cousa peor, que é a
semsaboria.
Eu tenho escripto alguns volumes de semsaborias: creio que são vinte e
tantos. Entre estes, mergulharam de cachapuz no rio
_do negro esquecimento e eterno somno_
tres livros denominados: ONDE ESTÁ A FELICIDADE--UM HOMEM DE BRIOS--e a
VINGANÇA.
N'estes tres romances figura um homem, ao qual eu nunca puz nome. Umas
vezes chamei-lhe poeta, outras jornalista, outras litterato, e assim fui
aguentando com embaraços da composição, mas venci a minha. Custava-me a
falsificar o nome d'um homem que copiei com esmeros de rigorosa
fidelidade; figurava-se-me irreverencia o que em si não era senão
escrupulo banal. Ainda agora me deixo levar da criancice, e não acabo
commigo dar um nome qualquer ao homem. Quer-me parecer que ha uns longes
de poesia n'este segredo. Diga o leitor que é tolice, e saldemos assim
as contas amigavelmente: eu dou-lhe a troco da injuria esta revelação da
minha crendice, e guardo as chimeras como o homem de boa fé guarda o
tôco de cera benta para se alumiar á hora da morte.
Pois é verdade. Aquelle poeta era o amigo de Guilherme do Amaral e de
Augusta.
Espectros sombrios, memorias queridas e amargas da minha alma em
infancia de illusões, passai um instante luminosos na escuridade d'esta
recamara da sepultura, onde até a lampada da esperança se vai
extinguindo na mão do anjo do conforto! Vinde a mim, corações amigos,
cujas lagrimas eu vi, e contei uma a uma, quando apenas tinha a
intuscepção da alma, predestinada ao vosso fel, para lhes avaliar o
travo. Na vossa mortalha foi o melhor da minha vida, o crêr nas
promessas do coração, nos levantados desejos do espirito que não caiam á
terra sem se infamarem; foi comvosco a fé na religião da poesia, que era
a minha fé unica, porque não havia crêr nem sentir em mim em que não
estivesse Deus, que eu convidava, sem temor sacrilego, a gosar-se das
delicias que eram d'elle, creações suas, umas sujas, outras empestadas
pelas mãos dos homens! Comvosco foi o meu ultimo dia de oração, a minha
ultima acção de graças, a palavra final da profissão de fé, que devia, a
meu vêr, remontar-me ao céo, e que, ao revez das mais espirituaes
theorias de Platão, de Socrates, de Jesus, e de todos os Messias da
redempção das almas, deu commigo em baixo n'um golfão de lama, onde ha o
ranger de dentes d'estas bestas feras, que até na lama sustentam o
egoismo da sua propriedade!
Ó visões immorredouras, que me ensinastes o amor e o sentimento, e
levastes comvosco o segredo de morrer antes do longo paroxismo do tedio
da vida, vós bem vistes com que saudosa unção eu vos offertei dous
livros e um ramo de perpetuas, que valiam mais que os livros, e menos
que esta pagina em que bem vedes com que fervor me atrevo á prosa
d'estes annos, á mofa d'estes industriaes, que me estão perguntando se a
apostrophe ha-de ser muito comprida, para tomarem fôlego, e accenderem o
seu charuto.
Pois accendam o seu charuto, e retirem-se as almas evocadas, e mais os
romances, que não tem que vêr com elles o leitor, que tanto conheceu as
almas, como se lhe dá dos romances.
Veiu isto a ponto de estar aqui já comnosco o amigo de Guilherme do
Amaral e d'aquella Augusta por quem choram as flôres do Candal, e as
almas desamparadas d'aquelles que... Lá ia já sahindo outra tirada de
sentimento. É enguiço, que me ha-de retirar a protecção de muita gente
boa, que não precisa de lêr um folhetim para convencer-se do seu direito
de espriguiçar-se, e voltar a gazeta de costas, e calcular
perspicuamente as relações economicas que podem dar-se entre a alta do
cravo dito girofe e a baixa do cacau.
Ora ahi vai agora o conto direito. O antigo jornalista, amigo da
defuncta baroneza de Amares, estava no Porto de visita em casa de
Bernardo Joaquim Ferreira, ahi nos ultimos dias de Outubro de 1855.
D. Marianna, esposa do snr. Ferreira, e suas quatro filhas, e dous
meninos, e varias outras pessoas, estão sentadas em roda de uma grande
mesa jogando o quino. O jornalista está sentado n'um sophá, conversando
com o dono da casa, sobre cousas do Brazil, d'onde o primeiro tinha
vindo depois de cinco annos de ausencia. A conversação foi interrompida
pela entrada de uma filha do snr. Ferreira, que a mãi e irmãos receberam
com muitas vozes de alegria, ás quaes ella respondeu dando um beijo na
fronte da mãi, e outro nos labios das irmãs. Com a bem vinda entrou
tambem o marido. O litterato, já de pé, deu dous passos, e disse á dama
que entrára:
--Quero vêr se me conhece ainda, minha senhora.
--Se o conheço!--exclamou Rachel.--O mesmo que foi para o Brazil; o
mesmo que era ha cinco annos... Não se admire da nenhuma surpreza com
que lhe fallo porque eu já sabia que o vinha encontrar. A mãi, quando o
senhor chegou, mandou-m'o dizer para a quinta, e deu-me sempre noticias
suas. Agora pertence-me a mim perguntar-lhe se me acha muito mudada.
--Quando, ha cinco annos, me despedi de v. exc.ª--disse o poeta--se bem
me recordo, tive a honra e o prazer de ser propheta, dizendo-lhe que a
viria encontrar cinco, dez, ou vinte annos depois, bella como a deixava,
minha senhora. Noto-lhe apenas uma differença sensivel.
--Qual?--perguntou D. Marianna com solicitude de mãi.
--Acho-a mais bella--respondeu o poeta.
Por entre os dizeres usuaes que vem sempre depois de um dito feliz como
aquelle, ouviu-se a voz aspera do snr. Manoel Pereira, marido de Rachel,
dizendo:
--Então, vamos a isto?--E escolhia cartões do quino.
Queria dizer na sua o snr. Manoel Pereira que bastava já de
comprimentos, em que a formosura de sua mulher era encarecida por um
homem da antipathia d'elle.
As senhoras sentaram-se, e Rachel, obrigada, pela indicação do marido,
ficou com as costas voltadas para o jornalista.
--Não vem jogar?--disse Rachel ao hospede.
--Vou, sim, minha senhora.
As damas deram-lhe lugar immediato a Rachel. Manoel Pereira estorcegou
machinalmente um cartão entre os dedos convulsos, e fez-se escarlate,
cravando os olhos no rosto descuidado de sua mulher.
O jornalista viu tudo isto, e riu-se para dentro.
Agora descreve-se Rachel; depois Manoel Pereira; por fim alguns traços
geraes d'esta familia, e fechará o capitulo.
Rachel tem vinte e quatro annos. É encorpada, mas a robustez não desdiz
da gentileza. Não tem attitude alguma de estudo, e parece esculptural em
todas ellas. Nos mais communs movimentos ostenta graça, e garbo que vem
de seu natural, e ninguem o dirá se a não tiver visto em toda a sua
desaffectada singeleza no recesso das suas occupações caseiras. Quando
Rachel está n'um baile... N'um baile foi que eu a vi a primeira vez. Era
ella solteira, e teria quinze annos. Isto já lá vai ha quinze. Se eu me
não lembrar do que ella era então, melhor me será despedir de mim esta
bruta alma que nem para a saudade já serve. As minhas reminiscencias
dão-me Rachel vestida de branco. Não lhe hei-de aqui chamar anjo, porque
não foi essa a impressão. Era tudo magestade, tudo estatuario n'aquella
criança; não a vi a descer do céo, onde os poetas teimam em ir buscar
tudo que é excellente, como se o céo não fosse um puro congresso de
espiritos que valem de certo lá muito mais do que pesam, mas que
passariam desapercebidos nos nossos bailes, se não tivessem a esperteza
de entrarem em corpos como o de Rachel. Eu quando a vi lembrou-me a
Grecia, as artes, em requinte de pompas, a numerosa familia das Venus,
todos esses marmores eternos, que hão-de sobreviver á mythologia dos
anjos, dos archanjos e dos seraphins. Os olhos de Rachel... estou-os
vendo; nem as franjas sedosas e longas das palpebras m'os escondem;
poderiam as arcadas espessas e travadas do sobr'olho quebrar a luz
d'aquelles olhos; mas nem assim! Como tu olhas, Rachel! Diz a
antiguidade que na Scythia havia umas mulheres que matavam olhando se o
rancor lhes fuzilava nas pupillas; porém tu que paixão tiravas da alma
toda amor, para a lançares de ti como um incendio que te abrasaria, se
eu, se todos, que te viam, não tomassem de joelhos um quinhão d'esse
fogo! Que haverá alli de mysterios n'aquelles olhos, se o fluido
electrico não basta a dizer o que é que vem de lá como corpo estranho
que vos entra no seio, e vos não cabe na alma, e quer fugir ás ancias do
coração que o aperta, e vos leva do amor ao transporte, do extasis ao
phrenesi, do rir ébrio da felicidade ás lagrimas incessantes de noites
desveladas! E, depois, porque não eram só os olhos o condão d'esta
mulher? Diante de Deus todos somos iguaes! Na alma se quizerem, e o
Creador, lá se avenha com os que o injuriam assim; mas que desigualdade
diante do divino artista! Lembra-me que a um lado de Rachel estava uma
menina de olhos vesgos; do outro lado uma senhora com um nariz impio;
mais longe outra menina em torturas para esconder quatro dentes
enclavinhados; além aquell'outra franzindo os labios, e exercitando uma
laboriosa mechanica do sorriso para corrigir a natureza que lhe dera uma
bocca limitrophe das orelhas. E ella, Rachel, toda primores, a
estremecida creatura, com uma luz serena de céo n'aquella face em que se
espelhava o seu Creador, o Deus que nos fez para a adorarmos, a rever-se
n'ella! Abençoada sejas tu de todas as venturas, que tão perfeita és,
tão cheia de tua belleza, tão digna dos thronos da terra, já que o
Creador, o teu Pygmaleão, te não arrebatou para si! Onde está, ó Senhor
Deus das maravilhas, o homem digno d'aquella obra tua, aqui posta entre
nós que apenas temos thronos, imperios, talentos, epopeas, as riquezas
da Asia, e o sangue das nossas veias para lhe offerecer! De que barro, ó
mão divina, fizeste o homem que ha-de primeiro embriagar-se nos aromas
que recende aquella virgem? Onde está o homem que...
O homem elle aqui está. É o snr. Manoel Pereira. Já quinou tres vezes.
Feliz no jogo, infeliz no amor; é certo o proverbio... até com elle!
Manoel Pereira tem cincoenta e cinco annos! estatura mean, cabeça
quadrilatera, e plana como um queijo do Além-Tejo desde o occipicio até
á cisura do coronal. As arcadas zygomaticas (vejam um compendio de
anatomia comparada) entestam com o rebordo esponjoso dos olhos
arrastando cada uma para o seu lado a venta correspondente que termina
em fórma de fava. O nariz não tem canas; parece que é formado de
parafusos. Começa do centro da testa por uma verruga, transforma-se em
lobinho, ladea em pequenos abscessos escarlates, e pega no beiço
superior, repuxando por elle de modo que o dono não póde exercitar as
funcções olfactorias sem enviezar o beiço. Este nariz ha-de ser
lithographado e distribuido aos assignantes, concluido o romance. O
nariz é o homem. Quem o vir organisa o complexo de Manoel Pereira, como
Cuvier recompunha o reptil iguanodo, e o megaterio.
Temos á roda da mesa a snr.ª D. Marianna e quatro filhas. É de notar em
Rachel o typo perfeito d'aquella familia. A mãi, senhora de quarenta
annos, é bonita ainda. Se a perfeição das raças é admissivel, nunca mais
sensivel foi a gradação do aperfeiçoamento como entre D. Marianna e
Rachel. Das outras filhas, uma é formosa, se bem que já ferida da
tisica, que d'ahi a mezes a levara para o lado de uma sua irmã que a
mesma enfermidade matou, quando lhe sorriam duas primaveras, a das
flôres, e a dos prazeres da vida. Outra é uma linda criança de doze
annos, com os olhos de Rachel. A que porfia em belleza desvantajosamente
com a mais bella é já casada, e tem vinte annos. Ha uma outra de aspecto
vulgar, posto que o não pareça entre outras que não sejam suas irmãs.
Bernardo Joaquim Ferreira, o pai d'estas lindas meninas, tem uma
agradavel physionomia de homem de cincoenta annos, e maneiras polidas,
sem embargo do trafego commercial em que labuta desde rapaz. Revela a
esperteza ordinaria na sua classe, temperada pelo uso da boa sociedade
em que desbravou as rudezas congeniaes, e as adquiridas nos seus
primeiros annos.
Ácerca d'esta familia, outras miudezas seriam intempestivas agora.
Saudemos com lagrimas a entrada de Rachel n'esta historia, que principia
desde hoje a tomar as proporções d'um escandalo monumental.