Verificaram-se os presagios do padre João. Jorge, depois da ultima carta
d'aquelle singular e diabolico Pires, quiz reanimar-se, e já não pôde.
Debil de compleição, quebrantado de insomnias, sorvido incessantemente
na funesta scisma de que não havia ahi na terra voz humana que o
chamasse ao amor da vida, nem no céo misericordia que o remisse da
immerecida pena, Jorge, sem um queixume, sem uma lagrima, sem dar de si
incentivo á piedade dos seus, desculpou-se com um ligeiro incommodo, e
ficou um dia no leito. A pobre mãi alvoroçou-se, e com ella toda a
familia, que via chorar. Veiu logo a sciencia que trata magistralmente
dos achaques do estomago, e d'outras visceras nobres, e declarou que a
molestia do doente era cousa moral, paixão, hypocondria, ou romance. O
facultativo capitulou assim a enfermidade com um sorriso supicaz, e
disse á viuva que não era nada aquillo, e ao padre, piscando o olho,
acrescentou que era aquella uma das feridas que se curam com o pello do
mesmo cão. Chiste de cirurgião de aldêa.
D. Antonia recobrou-se do seu desmaio; mas o egresso entrou em maiores
cuidados.--Para o Porto, e sem demora, o rapaz--disse o padre á cunhada.
--Mas o cirurgião não receia, nem Jorge se queixa...--acudiu D. Antonia,
temerosa da separação.
--Deixe fallar o cirurgião, senhora. Seu filho morre sem se queixar.
--Não me diga isso!...--exclamou a mãi consternada.--Pois as suas
palavras tão persuasivas, mano, e a religião não hão-de poder nada?
--A religião póde muito: se elle fizer uma confissão contricta, e morrer
com sincera dôr dos seus peccados, a religião encaminha-o para Deus; mas
o que nós queremos é que elle viva. Que me responde a isto, mana
Antonia?
--Eu antes o queria com Deus, que perdido no mundo--disse ella suffocada
pelos gemidos.
--Respondeu acertadamente; mas a supposição de que Jorge se perde no
mundo, acho-a exagerada. Deixe-o ir onde elle se envergonhe de padecer,
que eu lh'o dou por salvo. Torno a repetir-lhe, mana, que eu fui homem
antes de ser frade, e a senhora foi sempre o que é--uma alma cheia de
innocencia, de bondade, e de ignorancia.
--Pois bem, meu amigo, faça o que entender, mas salvem-me o meu filho.
--Aceito o encargo com uma condição: a mana não chora mais uma só
lagrima na presença de seu filho; finge acreditar que elle precisa de
banhos do mar; exige que vá já para o Porto, e de lá para Coimbra, se
fôr vontade d'elle ir a Coimbra este anno. Conforma-se com isto?
--Com tudo que de mim quizerem--murmurou ella enxugando as lagrimas.
--Agora cuide da bagagem de Jorge, que eu vou fallar-lhe.
Jorge Coelho estava sentado na cama, lendo a _Nova Heloisa_ de J. J.
Rousseau. O egresso foi de mansinho ao pé do leito, tirou pausadamente
os oculos d'um enorme estojo escarlate, montou-os na ponta do nariz,
abriu e arredondou os beiços, pendido o queixo, e examinando o livro,
disse:
--Era um grande homem esse Saint-Preux, ó Jorge!...
--Pois o tio conhece Saint-Preux?!
--Relacionei-me com esse cavalheiro e com outros da sua estofa ha bons
quarenta annos. Nunca t'o apresentei, quando praticavamos litteratura,
por que sempre entendi que o ias encontrar a Coimbra, de parçaria com os
muitos filhos que elle gerou para amparo de muitas Heloisas novissimas,
de que está inçado o mundo, graças ás novellas, e ao descredito a que
baixou a roca e o fuso. Que carta lés?
O egresso levantou o nariz com os oculos á linha horisontal dos olhos, e
leu algumas linhas da pagina.
--Ah!--continuou elle--trata do suicidio... Está mui atiladamente
debatida a questão por uma e outra parte. O Rousseau era mestre em
paradoxos; e sabia bastante de musica; mas os paradoxos dava-os de mimo
á humanidade, e para elle guardava a vida com todas as suas paixões
villãs, mal resguardadas por uma côdea de soberba e orgulho. Ensinava o
mundo a educar os filhos, e mandava os d'elle para a roda. Atassalhava a
impudicicia do seu confrade Voltaire, e escrevia as suas _Confissões_,
com esqualido recheio de desvergonhamentos, para prova de que até o
impudor tem a sua soberba. E depois, meu sobrinho, o philosopho, a
luminaria do seculo, vendo que a ulcera, aberta no coração da sociedade
pelas más doutrinas, ia lavrando, defendeu de concerto com os seus
tresvalios, uma these apologetica da ignorancia... Vou-me alongando, e
já receio de ter dito de mais. Isto são reminiscencias das minhas
leituras de ha quarenta annos. Quando orçares pelos sessenta, Jorge,
has-de abrir a tua _Nova Heloisa_ n'essa pagina, e has-de rir da
impressão, que te magoava, quando a lêste, aos vinte annos.
--Não me sinto magoado por impressão alguma, meu tio--disse Jorge,
sorrindo, e depondo o livro.
--Não mintas, meu sobrinho--tornou o padre com branda severidade--Faz
quanto em ti couber por salvar dos teus temporaes desfeitos do coração,
o melhor thesouro d'elle, a _verdade_, filho. Sofres, e soffres muito,
Jorge. Pensas em morrer, e dás de bom grado a tua vida a Deus, se é que
a Divina Providencia transluz nas tuas imaginações negras. Não te culpo,
rapaz de vinte annos. O mesmo seria culpar-te e reprehender o naufragado
que não soube salvar-se. Nem de fraco te accuso. Se eu quizer que uma
tenra vergontea, dobrada pelas minhas mãos, se levante commigo, não
hei-de molestar-me se me chamarem insensato. No mais verde dos annos,
não responde o mancebo de suas fraquezas: a sociedade que responda por
elle, e o temperamento tambem. Isto do _temperamento_, digo-to aqui
muito á puridade, que nós cá, os theologos, não queremos ceder nada aos
temperamentos. Ora vamos, Jorge, a pé d'essa cama!
--A pé!--disse Jorge--e poderei eu?!
--Pódes porque queres. Hoje e ámanhã de convalescença; depois de ámanhã
para banhos do mar.
--De que me servem banhos de mar, meu tio?
--A resposta é do fôro da medicina. Vaes para o Porto. Hospedas-te em
casa de D. Marianna Ferreira, a amiga da creação de tua mãi. Vaes do
Porto á Foz tomar o teu banho. Se, no fim do mez, quizeres ir frequentar
o primeiro anno juridico, vai; se não quizeres, fica o inverno no Porto,
e vem para casa em Maio, caso tenhas saudades nossas e da primavera dos
teus arvoredos.
--Peço licença--disse Jorge com amargura sincera--para contrariar a
vontade de meu tio.
--Teu tio não concede a licença pedida.
O moço fitou os olhos nas mãos cruzadas sobre o seio, e não respondeu. O
egresso lançou-lhe sobre o leito o fato, e sahiu, dizendo:
--Vou mandar pôr o teu talher na mesa.
Jorge disse entre si:--Morrer aqui ou lá... que importa?
Na passagem do seu quarto para a casa de jantar, Jorge recebeu de um
criado duas cartas. Uma era de Leonardo Pires; o sobrescripto da outra
fez-lhe uma convulsão: era de Silvina. Abriu, e leu o seguinte:
«Não sei que mal fiz a v. exc.ª para merecer-lhe uma vingança tão baixa!
Collocou ao meu lado um insultador petulante que me vexa em toda a
parte. Que fiz eu ao snr. Jorge Coelho?
«Aceitei os seus galanteios com amor, e aceitei o seu abandono com
paciencia. Que queria que eu fizesse para não ser insultada pelo seu
amigo? Diga-me se é necessario pedir-lhe perdão de ter sido abandonada.
Não hesitarei em fazel-o com tanto que v. exc.ª me garanta a certeza de
que não serei injuriada nas praças e nos bailes. De v. exc.ª--eu muito
respeitadora, _Silvina de Mello_.»
Jorge cahiu extenuado n'uma cadeira: a orla roixa das palpebras fez-se
negra; apanharam-se-lhe as faces, como se a doença, em poucos minutos,
progredisse mezes. D. Antonia vinha chamal-o, e encontrou-o assim, com a
carta na mão tremula.
--Que tens, meu filho?--clamou ella ajoelhando diante d'elle, e
abraçando-o.
--Nada, minha mãi, é fraqueza... Não chore, por piedade, não chore, que
eu estou bem.
E, erguendo-se com vacillante esforço, foi para a mesa. Forcejou por
comer; mas as lagrimas cahiam-lhe das faces no prato, e a violencia não
conseguia desentalar-lhe a garganta.
--Que é isto?--disse o egresso.
--Foi uma carta...--respondeu D. Antonia.
--Não é nada, meu tio. Recebi uma carta que me fez mal. A impressão
gasta-se, e eu d'aqui a pouco estou bom. Agora pedia licença para me
erguer da mesa, e dar um passeio no jardim.
--Vai--disse o padre.
--Eu vou comtigo, meu filho--acudiu a mãi levantando-se.
--Não vai, mana; deixe-o ir sosinho.
Eram imperiosas as palavras do padre: D. Antonia sentou-se. Jorge desceu
ao jardim, e foi sentar-se n'um banco de cortiça encostado a um maciço.
Abriu a carta de Pires, que resava assim:
«A Providencia não é uma mentira. José Francisco Andraens apanhou uma
indigestão de pombos, salame e salmão no baile do visconde, e está em
risco de rebentar. Eu estou de atalaia a vêr quantos Jonas sahem
d'aquelle bojo! O morgado de Santa Eufemia veiu dar-me a noticia,
jubiloso, como quem espera empalmar Silvina, extincto o bruto. O qual
bruto já se confessou, a vêr se a gente se persuade que existe uma alma
n'aquellas cavernas de sebo!
Parte o correio.