Traslado fiel de uma carta de Leonardo Pires a Jorge Coelho:
«São 6 horas da manhã. Venho do baile do visconde dos Lagares. Tenho o
coração a trasbordar de amargura! Deixal-o trasbordar, que é uma gotta
de absintho n'um oceano de champagne. Um bago de uva matou Anacreonte.
Eu sinto-me triplicar de existencia na uva. _Evohé!_ Como a vida é
linda! que vergeis de flôres recendem á tona d'este lamaçal! Vem cá,
Fortuna! Schakspeare chamou-te prostituta. Linda, vem cá, que eu bem te
vi no baile, como o poeta inglez te via nos paços e nas tavernas!
Senta-te aqui nos meus joelhos, impudica! Solta d'essa larynge recozida
de alcool um dithyrambo! Ri-te commigo, e não me venhas dizer que és
filha da Providencia, infame blasphema!...
Cançou-me o folego, Jorge! O meu vinho nunca foi para grandes
apostrophes. O descriptivo é o meu forte.
Fui ao baile. Pude lograr a causa da moral publica. Deves presumir que
estou desacreditado no Porto, e em vesperas de um duello. Sou o varão
justo a braços com a adversidade: _vir fortis cum mala fortuna
compositus_--a maravilha que punha Seneca em extasis! O champagne do
visconde é litterario como as aguas da Aganippe. Que abundancia de
pegasos eu vi beber na sala da ceia, e apparecerem Homeros na sala do
baile!
Pedi a quatro conhecidos que me arranjassem convite. Era impossivel. O
visconde respondia que eu era um _bolas_, que descompozera no largo da
Batalha uma menina, noiva de um seu amigo. Eis que encontro o João da
Thereza da Cancella! Este João é meu caseiro ha cincoenta annos. Vê-me,
corre a abraçar-me, e exclama: «Fidalgo, o meu Francisco chegou!»--«Quem
é o teu Francisco, amigo João?»--«O meu Francisco--tornou elle--que
estava no Maranhão! pois não sabe?»--«Não sabia... Vem rico?»--«Rico
como um burro!»--«Está bom; estimo; é barão de...?»--«Não, senhor; barão
ainda não é; mas está aquartelado em casa do snr. visconde dos
Lagares.»--«Sim?!»--«É como digo, fidalgo, e, pelos modos casa-lhe com a
filha; é arranjo tratado já lá do Brazil.»--«Fazes-me um favor,
João?»--«É pedir por bocca.»--«Teu filho será capaz de me arranjar que
eu seja convidado para um baile que vai dar o visconde amanhã?»--«Que
remedio tem elle, senão arranjar?! Quem foi que lhe pagou a passagem
para o Rio senão o paisinho do fidalgo?!»--«Vai depressa, e volta aqui
com a resposta.»
Meia hora depois, voltou João da Thereza da Cancella, com a carta, e
disse-me: «Olhe que o homem não queria dar o officio; foi preciso eu
dizer que dava duas libras por elle, sendo preciso; o meu Francisco
chamou-me bruto, e depois lá se mexeram como poderam, e aqui tem.»
Dei um abraço democrata no meu caseiro; procurei os meus quatro
conhecidos, mostrei-lhes o cartão, e fiz o elogio do seu valimento
d'elles.
Apenas entrei no baile, fui comprimentar a viscondessa, que fallava com
Silvina. Esta, quando me viu, resfolegava como se eu fosse uma grande
botija destapada de vinagre de sete ladrões. Retirei-me a rir, e, na
reviravolta impetuosa, bati n'uma grande esponja: era José Francisco
Andraens.--Perdão!--disse-lhe eu. José Francisco grunhiu, e enviezou-me
um olhar sanhudo--Perdão!--tornei eu. O cerdo poz as mãos na linha
hemispherica do seu globo, constituiu-se vaso etrusco, e regougou: «O
senhor anda a embarrar pela gente?!»--Foi uma _embarração_ inopinada,
snr. Andraens!--repliquei eu--Se lhe offendi os tecidos,
desculpe-me.--«Estes meliantes...» disse o brazileiro, e foi-se embora.
Adiante encontrei os morgados de Santa Eufemia, e de Matto-grosso.
--Que ha de novo?--perguntei eu.
--O casamento de Silvina com o brasileiro está definitivamente
tratado--disse-me Egas de Encerra-bodes.
--Com o brazileiro?
--Com o brazileiro. Veiu ahi o pai d'ella; expoz á filha as vantagens do
casamento, e ella poz os olhos no céo, e disse:--cumpra-se a vontade do
Senhor,... e a de meu pai!
--E cá o amigo Christováo Pacheco que diz a isso?--perguntei eu,
voltando-me para o de Santa Eufemia, em quanto Egas ria estrondosamente.
--Eu digo--respondeu elle--que já cá botei as minhas contas, e que
hei-de tourear o tal José Francisco!... Estou civilisado;--cá o primo
tosqueou-me o pello.
--Vi-te n'aquelle momento, meu caro Jorge. Vi a tua candida alma, n'esse
ermo, a penar, em quanto a vil, que te mentira o apunhalara, se andava
alli glorificando de que a indigitassem como futura quinhoeira dos
duzentos contos do negreiro. Fervia-me o sangue em borbotões de raiva.
Jurei tirar alli uma vingança em teu nome, a vêr se me assim despenava
da culpa de te apresentar, de te immolar aos rasos instinctos d'aquella
mulher. Busquei ensejo de fallar-lhe; mas ella evadia-se, não largando
nunca o braço de um ou outro homem. O millionario, filho do João da
Thereza, levou-me á casa da ceia, e serviu-me tres copos de um vinho que
tinha um nome barbaro. Abrazou-me as arterias; mas a minha raiva medrava
nas chammas como a salamandra. Tornei ás salas, encontrei Francisca da
Cunha pelo braço do linheiro das Hortas; parei diante d'elles, e disse,
com a solemnidade do estilo:--Boccacio e Fiammentta! Bettina e Goethe!
Fornarina e Rafael de Urbino!
O linheiro, voltou-se para Francisca e murmurou:--Não conheço este
sujeito.
Eu continuei: Beatriz e Bernardim!
--O senhor está enganado comnosco--disse o linheiro na sua boa fé de
linheiro. Francisca, tirou-lhe pelo braço com força, e afastaram-se. Não
sei o que lhe ella segredou. O homem, pouco depois sahiu-me de cara, e
disse-me:
--V. s.ª parece que, ha bocado, me quiz insultar.
--Eu não o quiz insultar ha bocado, senhor... como é a sua graça?
--Eu chamo-me Antonio José Guimarães.
--Pois senhor Antonio José Guimarães, como passou?
O linheiro açafroou-se, mediu-me tres vezes perpendicularmente, e disse:
--O senhor ha-de dar-me uma satisfação.
--N'esse caso, satisfaça-se, e, quando estiver satisfeito, avise-me,
snr. Antonio.
--Na rua nos encontraremos.
--Pois sim, repliquei eu, na rua nos encontraremos. O snr. Antonio quer
duello a todo o trance e sem misericordia? Eu não me bato com armas
brancas nem pretas. O snr. Antonio, como tem a materia prima de casa,
leve uma corda, que o hei-de enforcar.
O linheiro ficou chumbado ao tapete, e suava como uma abobora porqueira
em manhã de orvalho.
Tocou á ceia. Entrei na sala. O champagne estalava. Os crystaes
retiniam. Os talheres tilintavam. Eu tinha no craneo a musica das
espheras. José Francisco Andraens ia atamancando um empadão de pombos,
cujos arcabouços lhe pendiam das belfas em fragmentos. Silvina
defrontava com elle, e comia a duodecima Sandwich. Estavam tres perús,
ou seis, ou não sei quantos perús intactos na mesa. Fui collocar-me
atraz de José Francisco Andraens, e chamei um servo agaloado de prata. O
snr. commendador Andraens--disse-lhe eu a meia voz--quer que vossê leve
um d'estes perús de mando d'elle áquella senhora que tem uma grinalda de
flôres brancas. Disse e fui collocar-me a pouca distancia de Silvina.
Chegou o criado com a travessa, e disse:--Minha senhora, o snr.
commendador Andraens manda isto a v. exc.ª
--Isto a mim!--tartamudeou ella entre admirada e vexada.
--Sim, minha senhora, a v. exc.ª--teimou o criado.
Silvina pregou os olhos abrasoados em José Francisco, que lhe abria um
sorriso apaixonado por entre o costado d'um pombo. Ao sorriso respondeu
ella com um tregeito de colera. Cheguei ao ouvido de Silvina, e
segredei-lhe:
«Minha senhora, José Francisco envia-lhe um suspiro d'alma; e como a
alma de José Francisco é uma ucharia, os suspiros de José Francisco são
perús.»
Quando Silvina volvia os olhos fuzilantes, tinha eu desapparecido. Fui
ao ouvido de José Francisco, e disse-lhe á puridade:
--A sua noiva está indignada de o vêr comer assim! Sacrifique a Cupido o
oitavo pombo, amigo José.
O que decorreu depois d'isto, não sei dizer-te meu caro Jorge. A minha
cabeça não podia já com encargo da chronica até final: sahi. O ar fresco
da madrugada, que aspirei até ás cinco horas, restituiu-me á bestial
vida commum. Não posso mais.
--Resta-me dizer-te que, se choraste uma lagrima por Silvina,
envergonha-te de chorar segunda.