XI.

José Francisco Andraens, mentiste á tua consciencia! Supposto que as

tuas barrigas te mereçam quantos desvelos cabem na alçada do oleo

d'amendoa dôce e da linhaça, o coração em ti é um musculo cheio de bom e

sadio sangue, sangue cruorico que por vezes te borbulha nas arterias, e

reçuma á cara em brazumes de ternura lubrica. Mentiste, José Francisco,

quando respondeste áquelle pobre morgado, que o que tu querias era

melhorar da barriga. Musculo enorme! tu amavas abrasado no lume da

faisca electrica em que se estremece cada uma de tuas fibras, rijas de

vida, saturadas do boi copioso que assimilas, e das tortas de frango com

que pejas diariamente as algibeiras do sobretudo, e das planganas de

farinha de pau e araruta que emborcas todas as manhãs. Commendador da

ordem de Christo! se o incognito da Providencia, chamado _acaso_, te

houvesse dado a faculdade de desafogar em vociferações contra a

fementida Silvina, dirias, no auge da tua angustia, blasphemias contra

as mulheres, injurias insultadoras contra a fidalga de Margaride, e

juramentos, por tua honra, de despresal-a e diffamal-a onde quer que

fosse a tua lingua peçonhenta e a dos teus amigos famintos de detracção

e escandalo. Os que assim procedem, fariam de ti riso, se te ouvissem o

dialogo com o teu amigo de Freixieiro; tu, porém, José Francisco

Andraens, que não sabes os quatro epithetos triviaes com que se vingam

amantes abandonados, ergueste os alçapões da tua alma, e deixaste romper

a torrente represada, com estas palavras: «Qual namoro, nem qual diabo!

o que eu queria era melhorar da barriga!»

Ai! se elle a amava!

Não houve ahi cancro de amor que afistulasse, tão no intimo, coração de

homem. Aquella propria dôr de estomago, rebelde á linhaça, nos está

dizendo finezas do amor de José Francisco, procedida, como é, do uso do

chá a que o forçavam successivas noites que passou em casa do tio de

Silvina. No principio, o hospede cauteloso recusou a chavena; mas a

fidalga teve a impiedade de dizer-lhe que não era extremamente do bom

tom rejeitar o chá, a pretexto de ser bebida nociva ao estomago. O

brazileiro, no dia seguinte, em vez d'uma, tomou tres chavenas, e em sua

casa, _para affazer a tripa_ como elle dizia, mandava cozinhar grandes

chocolateiras de chá, que a moça inexperta chamava o cozimento, e

carregava de folha até sahir negro na fervura. José Francisco conhecia o

veneno, punha a mão no buxo, e, se não dizia como o papa Ganganelli:

«hei-de morrer d'isto...» gritava pela cataplasma de linhaça, mitigava a

inflammação, e de puro amor continuava a immolar o estomago, como fino

amante que não tem mais que dar.

Ha ahi amadores, José Francisco, que cubiçam a pedraria oriental para

construirem um nicho para a mulher amada; pedem a Deus estrellas para

lhe marchetarem a alcatifa das botinhas; queriam a lua e as duas ursas

para o pavilhão do leito nupcial; os coriscos para lhe brincarem aos

pés; os jardins de Semiramis, recendentes de nardo e cardamomo, para lhe

deliciarem o olfacto; o sceptro do globo para a mão soberana, e o

diadema do universo para a fronte inspirada. Farelorio. Homem de

Cozelhas! o teu estomago estragado pelo chá, sobreleva em dolorosa

realidade a tudo quanto inventaram poetas, invejosos dos bens de Deus,

em quanto tu deixas em paz a lua e as estrellas, e compras dezesete

libras de pulseiras, ás quaes a propria Diana caçadora te estenderia os

seus divinos braços.

Ai! se elle a amava!

Por uma tarde de Agosto, na alamêda da Lapa, se andava José Francisco

passeando com o seu amigo visconde dos Lagares. A espaços, o amador de

Silvina desprendia uns como gemidos desentranhados com estridor de

arroto, e o açafroado das belfas, ora se enrubecia mais intenso, ora

desmaiava n'um pardacento, que deu nos olhos solicitos do visconde:

--Que tem vossê, sôr Andraens?!--perguntou o trinchante da casa real,

afervorando o zelo da pergunta com um suave empurrão.

--Que hei-de eu ter, amigo visconde? Vossê bem sabe que eu ando mettido

n'uma camisa de onze varas. A minha sina, que me lêram quando eu era

rapaz, dá-me que eu hei-de passar por um grande desgosto. Até ao

presente, em boa hora o digamos, a cousa não me tem ido mal; d'aqui por

diante como o outro que diz, um bomem deve estar tem-te não caias.

--Mas então vossê que medo tem?--tornou o visconde, variando a mimica

com uma palmada na espadua boleada de José Francisco.

--Homem, vossê casou quando era moço, e deu-se bem com a mulher, e tem

vivido sem sustos; mas eu já cá estão os cincoenta, não sou dos rapazes

da moda, e tenho ás vezes umas lembranças que me derrancam o coração.

--Ora, deixe-se d'isso, sôr Andraens! Pelos modos a senhora, com quem

vossê vai casar, é menina bem comportadinha, e vossê, quando casar,

deixe-se de ir muitas vezes ás assembleas, e pouco de visitas, e de

theatros; metta-se em sua casa a mais a mulher; trate da sua labutação,

e não a deixe pôr pé em ramo verde, sem ir com ella.

--Pois não pozeste!--acudiu José Francisco soltando uma risada aspera de

sacões, que valia bem um programma.--Vossê ainda está n'essa?

A minha mulher, quando eu a tiver, é cá para o amanho da minha casa.

Comer e beber, e vestidos, e enfeites d'ouro, não lhe ha-de cançar; mas

ir a bailes e a comedias... isso, snr. visconde... olhe cá se me vê

algum _T_ na testa! É verdade que a minha futura noiva é toda pronostica

e está avezada ao palavriado dos pantomineiros que não tem senão aquillo

e a sua miça; mas eu logo que case hei-de pôl-a na lei em que ha-de

viver.

A mulher é do seu homem, e casou para tratar-lhe das doenças, e do

arranjo da familia. Quem quer andar á tuna nas comedias e nos balancés

deixa-se estar solteira; não é assim, amigo visconde?

--Assim é; mas não será bom apertal-a muito, amigo Andraens... Isto de

mulheres, olhe que nem o diabo as quiz guardar, e quando ellas entram a

desatremar, adeus, minha vida!

--A desatremar!--clamou José Francisco com iracundia.--Então um homem

não é senhor de fechar as suas portas, e viver como quizer com a mulher

com quem reparte do que tem? do seu dinheiro? do que lhe não custou a

ella a ganhar? do seu dinheiro?

--Vossê diz bem, sôr José; mas é que ella a isso póde dizer que estava

melhor solteira.

--Homem, vossê nem parece visconde n'isso que diz!--atalhou com ironia

pungente José Francisco.--Eu vou já embuchal-o com uma pergunta:--Quanto

vale a tal madama?

--Pelos modos, disse o visconde, acho que pouco tem.

--Por tudo que ella tem não dou eu seiscentos mil réis. A casa é do

morgado, e os bens livres, repartidos por seis irmãos, nem p'ra pagarem

a minha divida chegam. E quanto acha vossê que eu tenho, ó amigo

visconde?

--Vossê, cá segundo os meus calculos, ha-de ter o melhor de cem

contos... p'ra cima que não p'ra baixo.

--Aqui que ninguem nos ouve, snr. visconde, disse José Francisco muito á

puridade, se não fosse aquella tapona que eu levei na costa d'Africa,

podia ter os meus quatrocentos contos; agora, mais cem, menos cem mil

réis a minha fortuna ha-de andar ahi por duzentos contos, e se as cousas

correrem regularmente, cá nos engajados, escuso de bulir no que tenho

apurado. Ora ahi tem vossê. Faz favor de me dizer se a rapariga, que não

tem nada, casar commigo, não fica a ser rica e respeitada no mundo!

Responda a isto, amigo, se é capaz!

--Sôr José Francisco, tornou o visconde com sisuda gravidade, olhe que

eu tenho andado muito mundo, e visto muita cousa. A rapariga, se casa

comsigo, é por que quer figurar. Vossê já não é muito moço, e não sei

como ha-de estar em casa mettido a entreter a mulher. Sabe que mais? se

está na teima de a não deixar ter alguma folga, o melhor é deixar-se

estar solteiro até lhe apparecer moça mais azada p'ro seu modo de vida.

Deixe cá o arranjo ao meu cuidado, que eu conheço muito negociante aqui

no Porto que tem raparigaças como castellos, e vossê não tem senão

escolher.

--Cale-se lá, homem!--interrompeu com azedume e paixão o de Cozelhas--Eu

gosto de Silvina d'uma vez! E, se quer que lhe diga a verdade, já fiz

alguma despeza com ella. Vossê inda a não enxergou?

--Ainda não á minha vontade; mas na semana que vem vou dar um baile só

para a vêr a preceito; já a lobriguei de longe, e alvidou-se-me que ella

era bem tirada das canellas, e que tinha a cinta muito delgada.

--Isso então!--exclamou o snr. Andraens, com os olhos rutilantes de

jubilo, e um sorriso de satyro, que lhe fazia recuar os refegos das

bochechas até ás orelhas, como dobras de cortinas apanhadas.--Bem feita

até alli! O pescoço é branco como a cal da parede; os braços parecem de

leite, e aquillo hão-de ser macios que nem veludo; os olhos, continuou

José Francisco, com precipitada torrente de imagens orientaes, parece

que entram no interior da gente, e andam sempre a bulir nos buracos como

dous grillos; os dentes são da côr d'essa camisa, e tão iguaesinhos que

parece mesmo cousa de fazer crescer a agua na bocca; quando ella anda

pela casa, aquillo é um gosto vêl-a! parece que está a casa cheia! E

ouvil-a fallar?! Vossê não faz uma pequena idéa! Até falla de

Sebastopool! (Vê-se que esta feição do talento de D. Silvina foi a que

mais deu no gôto do snr. José Francisco Andraens.) Em fim, amigo

visconde, mulher como ella não espero topal-a. Tenho-lhe sympathia cá de

dentro; sonho com ella todas as noites; dia em que a não veja, ando como

a cobra que perdeu a peçonha; se adrega d'ella ir visitar alguem, e eu

não a vejo, vou zangado p'ra casa, e já me tem acontecido não ceiar! As

cartas d'ella tenho-as na cabeça, e já comprei um livro muito grande,

chamado... chamado elle... assim uma cousa a modo... de... vossê hade

saber? Aquillo que ensina a escrever direitas as palavras!...

--Uma pauta, ha-de ser pauta...

--Qual pauta, nem qual diabo! é um livro, que ensina a escrever com as

letras todas... Já me lembra: um breviario.

--Ha-de ser isso, ha-de ser isso...--disse o visconde, que apreciou o

ensejo de saber que o breviario ensinava a escrever com as letras

todas--mas, a fallar verdade--continuou ingenuamente o brazileiro--não

me ageito com o tal livreco, e vou-lhe escrevendo como sei. Aqui trago

eu na carteira uma carta, respondendo á d'ella de hontem, a vêr se lh'a

entrego esta noite. Quer vossê vêr, amigo visconde? Eu p'ra si não tenho

aquellas. Ora escute lá; mas o mais acertado é lêrmos primeiro a que

ella me escreveu. Vossê vai ficar pasmado; ora ouça.

José Francisco sentou-se n'um dos bancos de pedra da alamêda da Lapa, e

leu correntemente o seguinte:

«Meu caro amigo.

«Soube que hontem me procurou. Quiz o meu infortunio que eu não

estivesse em casa. O tio anda a pagar visitas, e ordenou que eu o

acompanhasse. Passei uma noite insipida, lembrando-me que podia passal-a

no remanso duma dôce paz e contentamento d'alma ao lado do homem cujas

tão amantes como paternaes palavras me embalam o somno para os sonhos

d'um delicioso futuro...»

Aqui José Francisco sacudiu na mão o papel, e exclamou radioso:

--Olhe isto, amigo visconde! _os sonhos d'um delicioso futuro_!... Pelos

modos, quer dizer que o que ella quer é uma vida socegada para, em vez

d'andar em visitas, dormir na sua cama á sua vontade. Não é isto?

--Pois elle que ha-de ser senão isso?--disse o visconde gostoso da

modestia consultiva do seu amigo, e ia continuar reflexões a proposito,

quando José Francisco, menos jubiloso, continuou, lendo:

«Estará ainda longe o dia suspirado, meu amigo? Não tem já do meu

caracter um profundo conhecimento? Não se demore a confirmar o destino

que minha alma anceia, porque desgraçadamente a minha vontade não é de

todo livre, e bem póde ser que meu pai, antes da resolução de v. s.ª,

tome outra, contraria aos nossos intentos. Sua do coração, _S._»

--Á troca d'estas linhas do fim--disse o brazileiro um pouco recolhido e

melancolico--é que eu hoje tenho andado azoado, e a suspirar cá de

dentro. Ora escute lá a resposta:

«Meus amores!!! (Na pontuação guardamos a fidelidade que descuramos na

orthographia, cuja liberdade concedemos a José Francisco e pedimos

alternativamente para nós). As vossas letras recebidas ao fazer d'esta

até ao meio consolaram o meu coração saudoso!!... mas as que vem no cabo

da vossa carta penetraram qual duro ferro no meu coração saudoso!! Se

vosso pai não levar a bem o nosso casamento, ó céos!!! tanto faz querer

como não querer o arranjo ha se de fazer, ainda que eu vá ás do cabo;

estai descançada, joven Silvina amada!! Logo que eu tenha a nossa casa

da Lixa arranjada (que andam lá os estucadores e os pintores) estamos

casados e arruma-se d'aqui o pensamento!!! D'este vosso idolatrado até á

morte, J. F. Andraens, vosso futuro esposo.»

--Que tal?--murmurou com certo ar de pudica modestia o erotico

compositor de cartas incendiarias.

--Onde diabo aprendeu vossê tanto, ó sôr José?--disse o visconde com

sincero espanto.

--Isto que aqui vê fil-o de fio a pavio, sem ir ao breviario, amigo

visconde. Ponto é ter cá dentro o amor a puxar pelas memorias.

José Francisco ergueu-se triumphante com miraculosa agilidade; deu

alguns passeios floreando a bengala, e rindo a revezes do espasmo do

visconde, que, em sua consciencia, suspeitava de que fosse a carta

apocripha; mas, por delicadeza, calou as duvidas.

José Francisco tinha desafogado. O arroto já não vinha acompanhado do

suspiro. As tres barrigas funccionavam em toda a sua plenitude

phisiologica. O jubilo doudo da sua esperança sorria aos arreboes que

cintavam o horisonte do oceano; a viração da tarde, brincando na

folhagem dos alamos e acacias, rumorejava um soido mellico aos ouvidos

d'alma d'aquelle amante feliz.

Ai! se elle a amava!

Este expansivo dialogo fôra anterior quarenta e oito horas áquell'outro

que ouvimos entre o brazileiro, e Christovão Pacheco de Valladares.

Quem te ha-de crêr agora, José Francisco Andraens! Que se te dá a ti da

barriga, se tu amas tanto a mulher predestinada?! Descança, anjo do

amor, no teu céo de duzentos contos, que as filhas dos homens lá irão

buscar-te!

Annos de Prosa; A Gratido; O Arrependimento · 第 22 / 70 题