«Em quanto ao fogo d'aquelle meu phantasiar de genio, fadado para
desgraças, encendrei as imagens das formosas apparições da terra, as
creações do meu espirito eram magnificas e brilhantes como as myriadas
do céo estrellado.
«Eu tinha horas de tão dôce scismar! O ideal de Fausto, a melancolia do
poeta d'Elvira, os coriscos de Byron, as satyras mordentes do
Diabo-Mundo, as facecias elegantes de Fielding, e as vaporosas
subtilesas de Senancourt! Ai! havia de todas essas feições do genio um
traço de cada uma, no meu espirito.
«Mas, n'aquelle dia, á entrada do meu caminho, n'aquella noite calmosa,
quando o sangue estuava nas arterias, quando as azas do coração, como as
da aguia ferida, baixavam á terra, aquella mulher...
«A mulher fatidica! O despertar do sonho de dezoito annos. A Beatriz, a
Laura, a Leonor, vingando-se na essencia d'uma, porque eu ousára crêr e
dizer que mentira Tasso, e mentira Petrarcha, e mentira Dante.
«Que mulher! Bella? Ai! não, não é essa a palavra. Bella como a filha do
anjo rebelde, a quem Deus vingativo dera o dom de crear a formosura que
mata, o olhar das chammas magneticas do crime, a fascinação do abysmo
onde o cahir é perder-se o homem para si, para a humanidade, e para
Deus.
«Eu era poeta.
«Com que enthusiasmo eu pedia o meu quinhão na herança das celebradas
agonias de tantas victimas de si, mansissimos cordeiros immolados no
calvario do talento!
«Este augusto titulo, mercê do céo, rubricado por sello divino no
coração do homem, tornou-se epitheto ridiculo ou injurioso.
«Gela-se-me o sangue, quando a ignorancia petulante faz um tregeito de
menospreço ao talento, e diz: _poeta!_
«Mal sabeis que brutal atrevimento, ha ahi no tom de escarneo com que as
bestas-feras insultam a intelligencia!
«Um bando de collarejas abrias, atirando-me em injurias a lama que lhes
extravasa da alma, seria para mim harmonioso cantico das graças,
comparado ao sorriso affrontoso do nescio que me diz: _poeta!_
«Ha ahi um rir do vulgacho, que dá em terra com a alma. Oh! o rir da
gentalha maltrapida é menos fulminante que o escarneo da plebe
engravatada, de todas as escorias sociaes a mais alvar e incorrigivel!»
Parou de escrever o meu amigo, quando eu entrava no seu gabinete de
trabalho.
Este nosso amigo... Consinta o leitor a apresentação, e de amigo logo,
porque eu sei que elle o é de conhecidos e desconhecidos, tirante os
estupidos maus.
Este nosso amigo é uma afflicção permanente, um como pelicano que se
está continuo espicaçando o peito para alimentar do sangue proprio seus
filhos insaciaveis, suas imaginações escandecidas.
Entrou na vida pela porta do inferno. Os olhos da alma abriu-lh'os uma
paixão das que alumiam a carreira do crime até á morte moral. A
consciencia de sua individualidade, desunida das mil formosas
existencias que se identificára, deu-lh'a o ser mais poetico da terra, a
soberana da creação--a mulher!
Aos dezoito annos expulso do paraiso pelo anjo a quem dobrára o joelho!
Até então, Jorge Coelho amou sua mãi e irmãos, flôres, estrellas, fontes
murmurosas, os pinhaes rumorejantes, o céo azul e as nuvens abertas em
coriscos, os repiques festivos do campanario da sua aldêa e o dobre de
finados, a cantilena da pastora e o gemer convulsivo da viuva e da
orphã.
Tudo lhe era n'este mundo poesia, desde a grinalda de flôres da esposada
até á baeta negra do esquife.
Não sou crendeiro em horoscopos de epiderme; todavia, tres rugas que lhe
avincavam a testa entre as bossas frontaes, impressionaram-me. Um poeta,
da alteza d'elle, diria que semelhantes vincos eram vestigios da vara
com que a mão de um genio funesto o ferira, no berço. Moço de dezoito
annos, que sobe ao empinado das serras, e circumvaga os olhos lagrimosos
pelos confins dos horisontes, e me diz:--«a minha alma não cabe aqui»
esse tal é de crêr que se fine na flôr dos annos, depois de haver
experimentado as dôres todas de longa vida.
«A minha alma não cabe aqui»--disse-me elle, sentado no tôpo de um
fragoedo, com a arma caçadeira encostada ao peito, e afagando com a mão
o focinho do galgo que a lambia.--«Nasci hontem, e já me cança a vida.
Sou um como hospede, que se sente ebrio antes de assentar-se á mesa do
festim. Meus irmãos estão contentes ao pé de minha mãi. De manhã são
abençoados e beijados; á noite vão restituir-lhe o beijo com a face
alumiada de santa alegria; recebem a segunda benção da virtuosa, e vão
dormir serenas horas, em quanto eu, fechado com os meus livros, tento
debalde entreter o espirito nos deleites da poesia, ou subjugal-o ás
paginas graves da philosophia que me disputa á fé, e da fé que me
arranca aos tedios indigestos da philosophia.»
--Nunca sahiste d'aqui?--interrompi, suspeitando da candura de Jorge
n'este tecido de palavras presumidas.
--Nunca sahi d'aqui. Fui litterariamente educado por um tio frade, que,
ha um anno, me entregou ao ensino de minha mãi, dizendo que a semente da
sciencia não podia germinar em terreno, onde faltava o amanho da boa
educação religiosa.
Minha mãi não me entendeu melhor que o frade. Fallou-me do temor de Deus
como principio da sabedoria humana. Eu tenho um Deus que não temo,
porque o amo e adoro com espontanea devoção, porque o vejo luminoso em
todas as minhas creações impalpaveis, porque o respiro e converto em
seiva da minha alma, que tanto mais se amplia quanto mais se engolfa na
immensidade divina.
Minha mãi é uma virtuosa senhora que só acha digna de Deus a linguagem
dos psalmos penitenciaes, e os actos contrictos de peccados imaginarios.
O circulo, que ella traça ás minhas aspirações, é estreitissimo. Para
ella, o futuro é a successão dos dias travados uns nos outros, iguaes e
serenos, como os viveram meus avós, e como ella pretende herdal-os a
seus filhos. O futuro para mim é o grandioso imprevisto, é a vida com os
seus desertos e oasis, é o oceano com as suas calmarias e borrascas, é a
peregrinação do israelita, agora perseguido nas aguas do mar vermelho,
logo alumiado pela columna de fogo.
Que sinto eu aqui?--proseguiu elle, pondo a mão na testa, cujos vincos
se afundavam--Será o pensamento confuso do girondino á vista da
guilhotina? Será o abutre gerado n'um sangue que, cedo ou tarde, tem de
trazer-me a congestão ao cerebro?... Não sei...
--Porque não será a alma que geme solitaria como a rôla, que, além, no
ramo secco d'aquelle azevinho, está chamando o companheiro que ha-de
vir?--disse eu em phrase lyrica para não destoar da linguagem levantada
de Jorge Coelho.
--Não creio--acudiu logo o meu amigo.--Eu tenho lido o amor dos livros,
o amor dos romances, o amor da historia, o amor da poesia. Não me
inquieto, nem me acho n'esse sentir. O que não entendia aos quatorze
annos, não o entendo hoje melhor. As impressões que então recebi,
recebo-as agora semelhantes. Os quadros de Dido e Eneas, de Helena e
Páris, são duas telas borrifadas de sangue. O amor não póde ser aquillo.
Paulo e Virginia, Julieta e Romeu são duas catastrophes que apertam a
alma entre a admiração e o dó. A felicidade não está n'esses amores tão
celebrados. Werther e Carlota, Chatterton e Kit-Bell, com o anjo
inexoravel da virtude entre si, ao despenharem-se um apoz outro no
abysmo da morte, para se salvarem do abysmo da perdição, são dous entes
desamparados do anjo bom que nem sequer já serve para galardoar heroicos
martyrios. Pois não irão mais longe os meus anhelos de gloria?
A região da felicidade estará delimitada pelas raias do amor, que o
romance, e a historia, e a epopea me pintam, glorificado por lagrimas e
sangue?
--Mas ha um amor--redargui--que não é o amor da historia, do romance, e
da epopea. É amor reflectido de mais alto amor, que as almas adivinham e
não entendem. É amor, preludio da bemaventurança, e prelibação da
ambrosia celestial.
--É o amor do romance, esse, creio eu...--interrompeu Jorge Coelho
sorrindo.
--Não é, meu amigo; e, se me contradizes n'essa idade, inculcas baixeza
de affectos, que eu não posso acreditar, por honra da especie humana. O
que te authorisa a desmentir um homem de trinta annos, que por sua honra
te jura que esse amor existe? Queres achar Vestigios dos trabalhos e
calamidades que me custou a descobril-o?
Repara nos meus cabellos brancos.
Colombo achou curtas as fadigas, que lhe deram o novo mundo, e a
perpetuidade do nome d'elle, mais valioso que o novo mundo.
Experimentaria Colombo as vertigens de prazer, que me endoudeciam,
quando encontrei a mulher mais perfeita que os primores da minha
phantasia?
Não te allucines, porém--prosegui, vendo nos olhos de Jorge a lucidez do
enthusiasmo, accusando o proposito de se abrasar no primeiro amor, que
lhe deparasse o acaso.--Não te allucines em presença de qualquer mulher
com sorrisos de Virginia, que tanto servem de elogio ao pudor como de
epitaphio da innocencia. Não respires com sofreguidão o aroma das
primeiras flôres, que encontrares. Lirios e mandragoras são bellas
flôres, que matam, se as não lançares de ti, aspirados os primeiros
effluvios. Ha mulheres como as flôres venenosas: se te detiveres com
ellas mais tempo que o necessario para lisongeares a sensação, e
regalares a phantasia, sentir-te-has tomado de um marasmo de espirito,
em que serão delidas as tuas mais nobres faculdades, e, a mais válida de
todas, o mais nobre apoio da tua dignidade de homem--a liberdade. Esta
doença, no começo da vida, deixa achaque para sempre; é como a bala
recebida em pleno peito e lá encerrada: o ferido vive; mas, a revezes, a
dôr lhe está lembrando que a bala pesa sobre o derradeiro fio da vida.
Mulheres, que matem corações generosos, ha muitas para cada homem.
Mulher, que salve, ha uma só.
A minha vida é uma elegia continuada desde o berço até esta ante-camara
do tribunal da morte, onde estou esperando que me chamem: não tem
romance: são desastres concatenados, sem intermedios d'esse
contentamento vulgar, que os fortunosos denominam amargura. Todavia, se
tivesses mais doze annos, Jorge, seria eu o teu conductor pelos infernos
d'este mundo, que Dante não cantou de preferencia aos do outro, porque a
civilisação da idade media não tinha em si os supplicios d'esta
sociedade em que vaes entrar.
E que lucrarias tu, ouvindo a minha historia? Vêr-me-ias longo tempo
enredado na torpeza, na irrisão, e na brutalidade dos differentes
algozes, que me suppliciaram a alma. Se quizesses que te iniciassem no
segredo de sondar a perversidade dos corações, não poderia eu, porque a
aspide, que te mede o salto do seio da mulher, só vibra a farpa mortal
depois que varas em terra embriagado de aspirar o aroma do ramilhete,
que a esconde.
A sombra da mancenilha é grata como a de todas as arvores; suave é a
viração que lhe estremece a coma; o sol nem sequer mosqueia o chão em
que refazes os membros lassos; mas agonia mortal será o teu despertar se
a formosa folhagem distillou sobre o teu corpo um sumo corrosivo que te
faz morrer em acerba palpitação de todas as fibras. Conheces tu a
mancenilha n'este deserto, que vaes palmilhar, encalmado das ardencias
do coração? Saberás tu, aos dezoito annos, distinguir a mulher, que
mata, da mulher, que salva? Os trinta abysmos, d'onde me eu levantei,
com as faces a escorrerem sangue, estarão cobertos de flôres para ti? Eu
creio que o poeta é um condemnado, a sua patria primitiva um outro
mundo, este, em que nos encontramos, amigo, o purgatorio. Que montam os
suffragios do padecente experimentado para te remir? Nada. Cumpre a
sentença, porque é intransitivo o calix...
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Decorrido um anno, encontrei Jorge Coelho, não vos direi aonde, porque
ha repugnancia em deslocar uma scena, quando a verdade não póde, por
motivos sagrados, ser dita á curiosidade malevola.
Encontrei-o escrevendo os periodos iniciaes d'este capitulo. Outros de
igual azedume, assignados por elle, me haviam denunciado a residencia
d'esse moço, na terra, em que eu, de passagem, assentára a minha barraca
de bohemio.
Reconhecendo-me, ergueu-se, abraçou-me com expansiva vehemencia, e
proferiu aquellas ultimas palavras do estirado discurso do anno
anterior:
_Cumpre a sentença porque é intransitivo o calix._
--E muito amargo? perguntei eu.
--Amargo, e nauseabundo. Fel e lama. O insulto e o aviltamento. Adormeci
debaixo da mancenilha, meu amigo; e acordei nos paroxismos de que não
posso morrer. Achei uma das mulheres, que perdem. A sociedade
applaudiu-a, quando eu cuidava que a indignação do mundo me vingaria.
Ajuntei á minha dôr o que devia ser pejo, deshonra, e remorso n'ella.
Quiz desafiar a piedade do mundo com o paciente silencio da minha
desgraça. O mundo viu-me passar de olhos baixos para esconder as
lagrimas, e fez da palavra «poeta» um synonymo chocarreiro de insensato.