CHACARA DE FLORES-BELLA

(Do Ceará)

--Mouro, se fôres ás guerras,

Trazei-me uma cativa!

Que não seja das mais nobres,

Nem tambem de villa minha;

Seja das escolhidas

Que em Castelhana havia.

Saiu o Conde Flores

Fazer essa romaria:

A Condessa como nobre

Foi em sua companhia.

Mataram o Conde Flores,

Cativaram Lixandria,

E trouxeram de presente

Á rainha de Turquia.

--«Vem cá, vem cá minha moura,

Aqui está vossa cativa;»

--Já vou entregar as chaves

As chaves da minha cozinha.

«Entregae, entregae, senhora,

Que a desgraça foi minha;

Ainda hontem ser senhora,

Hoje escrava da cosinha.

Ao cabo de cinco mezes

Tiveram os filhos n'um dia;

A moura teve um filho,

A cativa uma filha.

Levantou-se a moura

Com tres dias de parida,

Foi á cama da escrava:

--Como estaes, escrava minha?

«Como hei de estar, senhora,

Sempre na vossa cosinha.»

Foi olhando para a criança,

Foi achando muito linda:

--Se estivesses em tua terra

Que nome tu botarias?

«Botaria Flores-Bella,

Como uma mana que tinha,

Que os mouros carregaram

Sendo ella pequenina.

--Si tu a visses hoje

Tu a conhecerias?

«Pelo signal que tinha

Só assim a conhecia!»

--Que tinha um lirio roxo

Que todo peito cobria!

«Pelo signal que me dais,

Bem parece mana minha.»

--Vem cá, vem cá minha moura

Que te dizes tua cativa.

«Eu já estou bem agastada,

E já me vou anojar

Tu mandaste lá buscar,

O teu cunhado matar.»

--Si eu matei meu cunhado

Outro melhor te hei de dar.

Farei tua irmã senhora

Da minha monarchia!

«Eu não quero ser senhora

Da tua monarchia

Quero ir para a minha terra

Onde eu assistia.»

--Aprontae, aprontae a náo,

Mais depressa em demasia.

Para levar Lixandria,

Ella e sua filhinha.

«Adeus, adeus Flores-Bella!

--Vae-te embora Lixandria.

E dae lá muitas lembranças

Á nossa parentaria.

Que eu fico como moura

Entre tanta mouraria.»

* * * * *

Parnaso portuguez moderno · 第 177 / 267 题