O perfume é o invólucro invisivel
Que encerra as fórmas da mulher bonita,
Bem como a salamandra em chammas vive,
Entre perfumes a sultana habita.
Escrinio avelludado onde se guarda
Collar de pedras--a belleza esquiva,
Especie de crysálida, onde móra
A borboleta dos salões, a diva.
Alma das flores--quando as flores morrem,
Os perfumes emigram para as bellas,
Trocam labios de virgens por boninas,
Trocam lirios por seios de donzellas.
Ali--sylphos travessos, traiçoeiros
Vôam cantando em languido compasso,
Occultos n'esses cálices macios
Das covinhas de um rosto ou d'um regaço.
Vós, que não entendeis a lenda occulta,
A linguagem mimosa dos aromas,
De Magdalena a urna olhaes apenas
Como um primor de orientaes redomas.
E não vêdes, que ali na myrra e nardo
Vae toda a crença da judia loura...
E que o oleo que lava os pés de Christo
É uma resa tambem da peccadora.
Por mim eu sei que ha confidencias ternas,
Um poema saudoso, angustiado,
Se uma rosa de ha muito emmurchecida
Róla acaso de um livro abandonado.
O espirito talvez dos tempos idos
Desperta ali como invisivel nume...
E o poeta murmura suspirando:
Bem me lembro... era este o seu perfume!
E que segredo não revela acaso
De uma mulher a predilecta essencia?
Ora o cheiro é lascivo e provocante!
Ora casto, infantil, como a innocencia!
Ora propala os sensuaes anceios
D'alcôva de Ninon ou Margarida,
Ora o mysterio divinal do leito
Onde sonha Cecilia adormecida.
Aqui, na magnólia de Celuta
Lambe a solta madeixa que se estira;
Unge o bronze do dorso da cabôcla,
E o marmore do corpo da Hetaíra.
É que o perfume denuncia o espirito
Que sob as fórmas feminis palpita...
Pois como a salamandra em chammas vive,
Entre perfumes a mulher habita.
CASTRO ALVES, _Ibid_., p. 167.