A CANALHA

Eu vejo-a vir ao longe perseguida,

Como d'um vento livido varrida,

Cheia de febre, rota... muito além...

--Pelos caminhos asperos da Historia--

Emquanto os Reis e os Deuses na gloria

Não ouvem a ninguem!

Ella vem tríste, só, silenciosa,

Tinta de sangue... pallida, orgulhosa,

Em farrapos, na fria escuridão...

Buscando o grande dia da batalha,

--É ella! É ella! A livida _Canalha_!

--Caín, é vosso irmão!

Elles lá vêm famintos e sombrios,

Rotos, selvagens, abanando aos frios,

Sem leito e pão, descalços, semi-nús...

--Nada, jámais, sua carreira abranda!

Fizeram Roma, a Inglaterra e a Holanda,

E andaram com Jesus!

São os tristes, os vis, os opprimidos,

--Em Roma são marcados e batidos,

Passam cheios de vastas afflicções!...

Nem das mezas lhe atiram as migalhas!

Morrem sem nome, ás vezes, nas batalhas,

E andam nas sedições.

Vêm varridos do aspero destino!

Em Roma e velha Grecia erram, sem tino,

Nos tumultos, enterros, bacchanaes...

Nas praças e nos porticos profundos...

E disputam, famintos e immundos,

O lixo aos animaes!

São os párias, os servos, os _illotas_,

Vivem nas covas humidas, ignotas,

Sem luz e ár; arrancam-lhes as mães...

--Passam, curvados, nas manhãs geladas!

E, depois de já mortos, nas calçadas,

Devoram-os os cães.

Elles vêm de mui longe... vêm da Historia,

Frios, sinistros, maus como... a memoria

Dos pesadellos tragicos e maus...

--Eu oiço os reis cantando em suas festas!

E _elles_, _elles_--maiores do que as florestas--

Chorarem nos degraus!

É uma antiga e lugubre legenda!

--Vão, sempre, sempre, sós na sua senda,

Sublimes, heroicos, rotos, vis...

Cheios de fome, ás luzes das lanternas,

Cantando sujas farças, nas tabernas,

Chorando nos covís.

--Alguns dormem em covas quaes serpentes!

Viveram, entre os povos, e entre as gentes,

Vergados d'um remorso solitario...

--Sabem, de cór, os reinos devastados!

E vieram, talvez, ensanguentados

Da noite do Calvario!

Têm trabalhado, occultos, noite e dia,

Ó réis! ó réis! as luzes da orgia

De subito, que vento apagará!

--Corre no ár um ecco subitaneo,

E escuta-se, no seu subterraneo,

O riso de Marat!

Chega, talvez, a hora das contendas!

Ó legionarios! desertae as tendas,

Já demolem os porticos reaes...

Os que tem esgotado a negra taça,

--Cantam, ao vento, os psalmos da _Desgraça_,

E a historia dos punhaes!

Vão, ha muito, na sombra, foragidos,

Pelas neves, curvados e transidos,

Emquanto Deus se aquece nos seus Céos!

--Vem do Sul uma lugubre toada,

E escuta-se Rousseau, na agua furtada,

Gritar--_Que me quer Deus!?_

Erguem-se ebrios de mortes, de vinganças,

Assoma lá ao longe um mar de lanças,

Resôam sobre os thronos os machados...

E a Europa vê passar, cheia de assombros,

Ferozes, em triumphos, aos seus hombros,

--Seus reis esguedelhados.

Á voz das legiões rotas, sombrias,

Desabam pelo mundo as monarchias...

Tremem os graves bispos... e depois...

Que mais farão? perguntam, desolados,

--Vão ser, inda depois, crucificados

Os deuses e os heroes!

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Vae prolongada a barbara orgia!

No silencio da noite intensa e fria,

Vem uns echos perdidos de batalha...

Como uns ventos do norte impetuosos,

São uns passos, nas trevas, vagarosos,

Os passos da _Canalha_!

Elles vêm de mui longe... mui distantes

Como sonoros batalhões gigantes,

Como ondas negras de afflicto mar...

N'uma viagem tragica e ingloria,

--Ha muito, pela noite da Historia,

Que os oiço caminhar!

Quem sabe quando vêm... é longa a estrada,

D'esta comprida e aspera jornada

Quem sabe quando, emfim, descançarão?

Atapetem as pedras de flores,

Lá vêm queimados, rotos, vencedores,

Altivos e sem pão.

Não raiou inda o dia da Justiça!...

Mas, breve, talvez, se oiça a nova missa,

E dispersem-se tetricos caudilhos...

Vão talvez, vir os tempos desejados!

--E, então, por vossa vez, ó reis sagrados,

--_Saude aos maltrapilhos!_

Parnaso portuguez moderno · 第 118 / 267 题