Soltava a barca da pesca
As azas brancas de neve
Aos mansos ventos do sul!
Estava a tarde tão fresca;
Estava o céo tão azul.
Ella corria assim leve
Como a espuma que fazia
Na carreira que levava!
Se a vela toda se enchia
A borda toda virava;
Se a vela cheia tombava
A barca toda se erguia!
Era assim que a mariposa
D'aquelle vasto oceano
Volitava em manso abril,
Sobre a onda buliçosa
Que ia e vinha, em giro eterno,
Beijar as fragas, sutil.
* * * * *
Eu na rocha mudo e quedo
Seguia a vela co'a vista
De quem vê a que é só vista
Com suave e doce medo!
* * * * *
E n'aquelle engano d'alma
Que arrobada trazia,
Sem saber que confundia
A que o fogo, branda, accalma,
A que o éstro accende em mim,
Com a barca fugidia
Que corre, e corre, perdido
O rumo e norte sem fim...
Até d'ella me esquecia!
Que pois me era esquecido
D'este mundo em que vivia.
Foi então, Deus meu, que assombro!
Que um não sei que de tão leve
Sentí poisar no meu hombro...
--Mão de neve,
D'onde vens?
Quem te deu, gentil mãosinha,
Esse aroma, essa magia,
Que tu tens?
Esse encanto d'onde vinha?
D'onde vens?
Louco de mim, que não via
Luz que doiras o meu dia,
Que eras tu...
Perdido n'aquelle enlevo...
Eu, que a ventura te devo
Que possúo.
* * * * *
Depois, inclinada a face
Como o céo que lá se arquêa,
Apontaste ao longe a aldêa
Que sobre o monte renace
Á luz de cada manhã,
Como rosa, que sobre haste
Abre as pétalas mimosa,
E a barquinha me apontaste
Que se ía librando airosa
Tão louçã!
Uniste as mãos; e olhando,
Co'esse olhar que amor te dá,
O céo, que a tarde incendeia,
Murmuraste suspirando,
E com voz de magoa cheia
--A vida... lá!