MOCIDADE E MORTE

Solevantando o corpo, os olhos fitos,

As magras mãos cruzadas sobre o peito,

Vêde-o, tão moço, velador de angustias,

Pela alta noite em solitario leito.

Por essas faces pallidas, cavadas,

Olhae, em fio as lagrimas deslizam;

E como o pulso, que apressado bate,

Do coração os éstos harmonisam!

É que nas veias lhe circula a febre,

É que a fronte lhe alaga o suór frio;

É que lá dentro á dôr que o vae roendo,

Responde horrivel intimo cicío.

Encostado na mão o rosto acceso,

Fitou os olhos humidos de pranto

Na alampada mortal ali pendente,

E lá comsigo modulou um canto.

É um hymno de amor e de esperança?

É oração de angustia e de saudade?

Resignado na dôr saúda a morte,

Ou vibra aos céos blasphemia d'impiedade?

É isso tudo tumultuando incerto

No delirio febril d'aquella mente,

Que, baloiçada á borda do sepulchro,

Volve apóz si a vista longamente.

É a poesia a murmurar-lhe n'alma,

Ultima nota de quebrada lyra;

É o gemido do tombar do cedro;

É triste adeus do trovador que expira:

Parnaso portuguez moderno · 第 39 / 267 题