III

Entre os differentes dialectos romanicos da peninsula nenhum recebeu

mais prematuramente a forma escripta do que o gallego, pelo qual se

introduziu a poesia provençal nas côrtes de Portugal e de Hespanha[33];

por circumstancias politicas nenhum perdeu tão cedo a vida litteraria,

ficando apenas fallado por um povo desde muito tempo annullado pela

absorpção castelhana. Ao formarem-se as primeiras litteraturas da

peninsula, o gallego foi a linguagem em que se poetava na côrte de

Castella, como se vê pelas _Cantigas_ de Affonso o Sabio, e na côrte

de Portugal, como está bem patente nas mil duzentas e cinco canções do

_Cancioneiro da Vaticana_, e nos centenares de canções da collecção da

Ajuda; por esse dialecto hoje desprezado, admittido apenas para uso das

relações intimas das necessidades infantis, é que se podem explicar

certas formas litterarias, como as Serranilhas, e certos phenomenos

linguisticos do portuguez e castelhano como o _che_ por _te_ e por

_pl_. Effectivamente, a Galliza deve ser considerada como um fragmento

de Portugal, que ficou fóra do progresso de nacionalidade. Apesar

de todos os esforços da desmembração politica, a Galliza não deixou

de influir nas formas da sociedade e da litteratura portugueza: nas

luctas de D. Affonso II, refugiaram-se na Galliza bastantes trovadores

portuguezes, como João Soares de Paiva, e nas luctas de D. Fernando,

refugiaram-se em Portugal um grande numero de familias nobres da

Galliza, como os Camões, os Mirandas, os Caminhas, d'onde provieram os

grandes e os maiores escriptores da esplendida epoca dos Quinhentistas.

Nas epocas em que a litteratura portugueza fixava as formas da lingua,

ainda bastantes vestigios do gallego transparecem inconscientemente na

linguagem dos escriptores, quando se aproximam da dicção popular. No

Cancioneiro de Resende, em um Vylancete do Conde de Vimioso, se acha o

galleguismo:

querend' esquexer-vos (fl. 85, col. 6.)

Nas comedias de Jorge Ferreira, cheias de locuções populares, abundam

estes factos: «pagam-se de bem _che_ quero;» (_Eufros._, 259) «fallou o

boi e _dixo_ bee;» (ib. 279) na comedia _Aulegraphia_: «Sempre fostes

d'esses _dichos_.» (fl. 37 _v._) «o som de bem _che_ farei e nunca lhe

fazem.» (fl. 20); «minha madrinha é azougue, e joga o dou-_che_-lo com

quantos aqui ancoram.» (fl. 59, v.) «Andaes vós a bons _dichos_ de

philosophos.» (fl. 76. v.)

Em Sá de Miranda, nas Eclogas, sobretudo quando imita a linguagem

popular, pollulam os galleguismos:

Onde quer que _cho_ demo jaz (Ed. 1804, p. 220.) Não sei quem _che_

por famoso (Id. 291.) Antre nós _che_ era outro tal. (Id. 223.) Disse

então. E assi _che_ vae? (Id. 232, passim.)

Dos Autos de Gil Vicente tiraremos os bastantes para se reconhecer este

fundo da lingua:

_Cha_, _cha_, _cha_, raivaram ellas (_Ob._ t. I, p. 131.) Que a

ninguem tanto mal quige (Id. p. 135.) Se _xe_ m'eu isso soubera (Ib.

p. 136.) Que te _dixe_, mana emfim? (Ib. p. 142.) Que homem ha hi-de

_pucha_ (Ib. p. 172.) Isto hi _xiquer_ irá (Ib. p. 247.) A Deos

_douche_ alma dizer. (Ib. p. 261.) Assi _xe_ m'o faço eu. (III, 162.)

Até em Camões ainda persistem as formas gallegas, como na cantiga:

_Hei me de_ embarcar n'um barco;

e nos _Lusiadas_ na expletiva _a_, tão peculiar do dialecto em que o

grande epico chegou a escrever dois sonetos.

Bem cedo as relações ethnicas de Portugal com a Galliza foram

desconhecidas, e este facto é uma consequencia do desprezo que os

escriptores tiveram pela tradição nacional. O nome de _gallego_

tornou-se desprezivel em Portugal, e os grandes poetas oriundos de

familias gallegas usaram-no n'esse sentido. Assim diz Sá de Miranda em

uma Serranilha:

Sola me dexaste

En aquel yermo

Villano, malo, _gallego_. (_Ob._, 1804, p. 404.)

E o proprio Camões, nos _Lusiadas_, deixou essa phrase injusta: «Oh

sórdido gallego...» ao passo que o povo portuguez derivou da sua indole

pacifica o velho amphigurí:

Duzentos gallegos

não fazem um homem...

As povoações do Alemtejo chamam _gallegos_ a todos os moradores do

Ribatejo, pela transmissão inconsciente de uma tradição perdida. Isto

bastará para explicar o assombro que deve causar aos conterraneos o

vêrem a poesia moderna gallega occupando um logar devido ao lado da

poesia portugueza, como uma das suas formas archaicas; seguimos o

rigoroso criterio scientifico, deixando as preoccupações vulgares.

Pelo estudo da poesia gallega, é que se podem comprehender as formas do

lyrismo portuguez; e a desmembração d'esse territorio, que ethnicamente

nos pertence e tem permanecido para nós extranho durante tantos

seculos, é que prova a falta absoluta de plano na nossa vida politica.

A verdadeira origem da tradição lyrica da Galliza está ligada á sua

constituição ethnica; esse lyrismo provém da eschola da Aquitania,

onde a raça pertencia, segundo Strabão, mais ao typo _iberico_ do

que ao gaulez. Segundo as modernas descobertas da Antropologia e

da Linguistica sabe-se que o _Ibero_, ou o basco actual, é de raça

turaniana. Quando Silio Italico, escrevendo no seculo I, faz no poema

historico da _Segunda guerra punica_ a lista dos diversos povos da

Peninsula que acompanharam Anibal na expedição contra a Italia, diz da

Galliza:

Fibrarum et pennœ, divinarumque sagacem,

Flammarum, misit dives Gallaecia pubem

Barbara nunc patriis _ululantem_ carmina linguis,

Nunc pedis alterno percussa verbere terra

Ad numerum resonas gaudentem plaudere cetras,

Haec requies, ludusque viris, ea sacra voluptas.

(Lib. III, V. 345.)

Esta descripção coincíde com muitos caracteristicos da raça turaniana.

Acclarando as interpretações de Sarmiento, poremos em relevo este

sentido novo. Nas _Memorias para la Historia de la poesia y poetas

españoles_, diz este critico patricio de Feijó: «Primeiramente llama a

este pais de Gallicia rico (_dives_) acaso por los varios y preciosos

metales que de alli salian para los romanos, y aun hoy se benefician.»

De facto sabe-se hoje que a industria metalurgica é de origem

turaniana, e que os vestigios d'esta raça se encontram sempre junto dos

grandes jazigos minereos. Diz mais Sarmiento: «supone que tenian idioma

proprio y aun idiomas diferentes (_propris linguiis_). Esto contra los

que imaginan un solo idioma nacional en toda España en tiempo de los

carthaginezes.» A fusão das tribus turanianas com os celtas lygios (tal

como se deu na Irlanda) formando os celtiberos, fazia-se notar aos

romanos pelos seus differentes, dialectos. Continúa Sarmiento: «supone

los gallegos devotos y religiosos, pues los supone con sacrificios y

demas diestros y sagaces en consultar á sus dioses, y al extispicio

de sus victimas, ya en el auspicio de las aves, ya finalmente en

la observancia, aun que vana, de los movimientos, color, volumen,

voracidad y direcion de las llamas de sus holocaustos.» As formas

magicas da religião accadica, o culto do fogo, e os nomes de divindades

naturalistas que se acham nas Inscripcões colligidas por Hubner, dão a

prova demonstrada d'essa raça turaniana, que desceu do norte da Europa.

Finalmente Sarmiento: «dice que usaban en sus diversiones, juegos y

fiestas sagradas de hymnos, canto, musica y bailes: _ulutantem...

carmina... alterno verbere pedis... ad numerum resonas cetras_[34].»

Esta grande abundancia de cantos e hymnos sagrados, tal como se

descobriram nos livros accádicos, levam-nos a fixar que sob a forma

celtica, acobertada com o nome de Galliza, existe uma camada social

turaniana, da antiga diffusão que occupava a Aquitania e a Sicilia. É

justamente n'estes pontos que subsistem as fórmas lyricas analogas ás

gallegas, e portanto nenhum conhecimento seguro se póde ter do genio

d'este povo sem tirar a luz da sua origem turaniana, tão persistente

na indole e fórmas da sua civilisação. Os instrumentos musicos a que

cantavam eram, como diz Silio Italico, _ritu moris Iberi... barbara

cetra_, o que confirma, que no primeiro seculo christão ainda era

sensivel esse caracter turaniano. A acção exercida pelo elemento

celtico, romano, e mais tarde suévico sobre a raça turaniana pelo

menos até ao Mondego, é complexissima: o celta desenvolveu a tendencia

poetica amorosa, fazendo esquecer pelas prescripções druidicas os

cantos religiosos; o romano influiu na creação precóce de um dialecto e

na industria agricola; a estabilidade do suevo, tornado pacifico pelas

suas grandes derrotas, manteve essa passividade que o gallego conserva

na constituição das modernas nacionalidades da Peninsula.

De todas estas camadas ethnicas se conservam vestigios poeticos, e com

assombro o dizemos, na tradição actual; são de origem turaniana os

cantos de _Alalála_; são celticos os _Cantares guayados_; são romanos

os cantos de _Ledino_, são suevicas ou germanicas as _Chacones_.

Falaremos d'aquelles cantos tradicionaes que explicam o lyrismo

moderno.

O _Alalála_ é a neuma patriotica dos cantos gallegos, que os romanos

julgavam ser o ulular; é ella que hallucina o que está ausente da

sua patria, e que o cura da saudade nostalgica, chamada em Hespanha

_morrinha gallega_. Um proverbio vasconço diz: _Bethico leloa_, isto

é, «o eterno _lelo_,» ou--antigo e persistente como este estribilho

nacional, que Silio Italico tomou como caracteristico. Na poesia

euskariana conserva-se este vestigio cantabrico, que pela sua

aproximação dos costumes irlandezes, se vê que é o estribilho de uma

canção funebre ou areyto:

Lelo, il lelo

lelo, il lelo

leloa zarac (çaray?)

il leloa.

Outras canções vasconças conservam o mesmo estribilho, tantas vezes

considerado como um individuo:

Eta _lelori_ bay _lelo_...

Etoy _lelori_ bay _lelo_, _leloa_ çaray _leloa_[35].

Na poesia popular portugueza ainda se encontra em Coimbra e Açores o

estribilho:

_Lari lole_

Como vae airosa,

Com a mão na transa,

Não lhe caia a rosa[36].

Tudo isto se liga a um veio perdido da poesia primitiva da grande raça

turaniana, como se confirma por um canto funebre da Irlanda sempre

acompanhado como o estribilho _ullaloo_[37]. A demonstração torna-se

mais rigorosa desde que este mesmo estribilho apparece entre raças

isoladas, de origem turanica.

Diz o Abbade Bertrand: «Os Chulalanos nas suas festas cantavam,

dansando em volta de Teocalli (casa de Deus) um canto que começava

pelas palavras _tulanian, hululaez_, que não pertence a nenhuma lingua

actual do Mexico... O grito de alegria dos Kaulchadales, _alkalalai_,

lembra tambem a mesma fórmula pelas ultimas syllabas...» Os saxões

caminhavam para a guerra ao grito de _alelá_, grito que é ainda o

_haleli_ das caçadas. Em uma canção portugueza do _Cancioneiro da

Vaticana_, se repete _Edoy_ (Etoy) _lelia, leli, leli_. Como se explica

a persistencia d'este refrem primitivo, ao passo que se foi perdendo o

genero poetico? Sabe-se que o Arabe trouxe para a peninsula um grande

numero de superstições turanianas, e assim fez reviver formas quasi

extinctas da civilisação que trazia; a _Serranilha_ é de designação

arabe, como os _Fados_, (Huda) e um dos sete atributos que os derviches

repetiam frequentes vezes ao dia era: _La ilahi ill'Allah_ (não ha deus

senão Allah), que parece quasi o estribilho gallego moderno: Alalála,

_lála la_.

No grande Cancioneiro portuguez da Bibliotheca do Vaticano, ainda se

encontra um vestigio das antigas cantigas de _Alalála_; pertence essa

composição a Pedro Anes Solaz, e é do mais alto valor archeologico:

Eu, velida, dormia,

le-li-a, d'outra!

E meu amigo venia,

edoy le-li-a d'outra.

Nen dormia e cuydava

lelia d'outra!

E meu amigo chegava

edoy lelia d'outra!

O meu amigo venia

lelia d'outra!

E d'amor tambem dizia

edoy lelia d'outra.

O meu amigo chegava

lelia d'outra

E d'amor tambem cantava

edoy lelia d'outra!

Muyto desej'ey, eu amigo,

lelia d'outra,

Que vos tevesse comigo

edoy lelia d'outra!

Leli, leli, por deus lely

lelia d'outra!

Bem sey quem non diz leli

edoy lelia d'outra.

Bem sey eu quem diz lelya

lelia d'outra!

Demo xe quem non diz lelia

edoy lelia d'outra[38].

As varias formas poeticas, que se encontram na Europa, o _liedle_

do dialecto suisso, o _lied_ allemão, o _liod_ irlandez, _leod_

anglo-saxão, o _leudus_ da baixa latinidade, o _leoi_ irlandez, o

_lai_ bretão, correspondendo ao genero do _lelo_ basco e _Alalála_

galleziano, e _lelia_ portuguez, accusam uma origem commum, que se pode

explicar pela tradição lyrica da raça turaniana na Europa. O sentido

da palavra _lai_, que ficou nas litteraturas como caracteristico de um

genero lyrico, é especialmente musical.

Uma outra neuma caracteristica da Peninsula, mas já peculiar da raça

celtica é o _Guay_, que chegou a constituir um genero dos cantares

_guayados_, do que ainda falla Gil Vicente. Os romances peninsulares

assim como começavam «_Helo_, _helo_, por do viene» tambem tem outro

principio, como «_Guay_ Valencia, _Guay_ Valencia.» É aquelle grito

celtico _Woe! Woe!_ que ainda hoje se conserva na Escossia como

uma vehemente expressão natural. A _gaita_ de folles da Escossia é

similhante á gaita gallega, em tempo admtida no exercito hespanhol

como meio salutar na nostalgia dos recrutas da Galliza. Como o gaëls

das montanhas da Escocia, que, longe da patria, na America do norte ou

nas florestas do Canadá, falla o inglez, mas sonha e sente no dialecto

gaëlico, é assim o gallego entregue aos trabalhos braçaes longe da

sua patria, ou nas guarnições militares; as cantigas do _Alalála_, a

_Muiñera_ trazem-lhe á lembrança o ár das suas montanhas: _Ayriños de

miña terra_, que elles aspiram n'esse hausto de saudade, _Guay_!

Vejamos como por seu termo a influencia do genio celtico faz prevalecer

esse profundo caracter de unidade tradicional do lyrismo moderno. Na

civilisação da Peninsula, a Galliza occupa uma posição excepcional como

a Provença para com a França; a sua longa tranquilidade fel-a adoptar o

gosto lyrico da Eschola da Aquitania; e assim como a poesia provençal

foi o desenvolvimento litterario de cantos tradicionaes do meio dia da

França (celto-romana) como ainda se descobre por uma rubrica de uma

canção do conde Poitiers, na Galliza sugere as formas novas e o estylo

lyrico popular aos trovadores portuguezes e castelhanos. Não basta

sómente Strabão considerar os Aquitanios mais parecidos com os Iberos

(da fusão celtibera) do que com os gaulezes (reconhecidos como raça

scythica[39]) ha um fundo commum de poesia lyrica pertencente á Italia,

á Provença, á Galliza, e a Portugal, que comprova a existencia de um

mesmo elemento ethnico n'estes paizes. Onde povos celticos se cruzaram

com iberos, ou tribus turanianas, persistiu a primitiva tradição

lyrica. A publicação moderna de algumas _Pastorellas_ provençaes levou

a presentir pela comparação essa unidade. Os restos de _Dizeres_ e

_Serranilhas_, que Gil Vicente intercala nos seus autos, são vestigios

de canções gallegas do seculo XIV, tal como se lêem no _Cancioneiro

portuguez da Vaticana_[40].

Uma Pastorella de Guido Cavalcanti traz estes versos quasi identicos a

uma das serranilhas de Gil Vicente:

E domandai si avesse compagnia?

Ed ella me rispose dolcemente

Che sola, sola per lo bosco gia[41].

E em Gil Vicente:

Cheguei-me per'ella com gram cortezia,

Disse lhe:--Senhora, quereis companhia?

Disse-me: Escudeiro, segui vossa via[42].

Em um poeta do Cancioneiro geral, achamos um vilancente immensamente

parecido com uma canção bearneza e com outra do sul da Franca; eis o

vilancente de Francisco de Sousa:

Abaix'esta serra

verey minha terra!

Oh montes erguidos,

Deixae-vos caír,

Deixae-vos sumir

E ser destroydos!

Poys males sentidos

Me dam tanta guerra

Por ver minha terra[43].

Na canção bearneza de Gastão Phebus, existem estes mesmos elementos

tradicionaes:

Aquères mountines

Qui ta haütes soun,

M'empèchen de béde

Mas amous oun soun.

Si subi las béde

Ou las rancountrá,

Passéri l'ayguete

Chéus poü dem'nega[44].

Em um canto provençal moderno de Jasmim, ao referir-se aos refrens que

ressôam pelos áres, intercala este vestigio tradicional das antigas

pastorellas:

Aquellos muntaynos

Que tam hautos sun,

M'empachon de beyre

Mas amus un sun;

Baycha-bus, muntaynos,

Planos, hausabús,

Perque posqui beyre

Un sun mas amús[45].

A persistencia da tradição lyrica na Galliza, é que a tornou o centro

de irradiação litteraria nas côrtes peninsulares onde o seu dialecto

era empregado na linguagem poetica, como o provençal no norte da

França. A conquista romana veiu muito cedo influir na constituição do

dialecto gallego, sem alterar a tradição poetica; influiu bastante

na forma da industria agricola. Diz Sarmiento: «Galicia, mi patria,

_es la Provincia que mas voces latinas conserva_, y en especial en

quanto toca á agricultura. Digolo, porque lei por curiosidad de verbo

ad verbum, á Caton, Varron, Columella y Palladio[46].» A Galliza foi

o primeiro territorio da Peninsula que sofreu e ficou submettido á

invasão dos barbaros do norte; os Suevos, que se apoderaram d'ella

eram um dos ramos mais civilisados das raças germanicas, e chegaram

a estender o seu dominio até ao Tejo. A sua derrota, por Theodorico,

na batalha de Urbius, restringiu-os ao territorio gallaico, e a sua

adopção do catholicismo, fez com que o Suevo perdesse os seus mythos

odinicos, e por tanto não pode elaborar os cantos epicos, que teriam

sido um estimulo de resistencia e de cohesão nacional. Por causa do

catholicismo entraram em conflicto com os Vandalos, que seguiam as

doutrinas de Ario, e pelo catholicismo veiu a prevalecer a erudição

morta das escholas latinas, dando ao novo dialecto uma forma bastante

artificial. Uma vez privado das antigas ambições de conquista e da

actividade das armas, o Suevo ficou sedentario, e pelas condições

do territorio em que estava limitado, entregou-se ao trabalho da

agricultura; o lyrismo desenvolveu-se sob as emoções da vida rural, mas

a emphyteuse romana, e os direitos de mão-morta tornaram a lavoura um

trabalho de servos e a Galliza um paiz de desgraçados. A influencia da

lingua dos suevos sobre o gallego actual fazendo com que tivesse uma

poesia muito mais cedo do que as outras linguas da Peninsula, é assim

caracterisada por Helfrich e Declermont: «Comparando a vocalisação do

dialecto suabio actual á do portuguez, julga-se ter achado a solução

do problema. Foram os Suevos, que, primeiro do que todas as outras

tribus germanicas se estabeleceram na Galliza, e admittindo que a

lingua allemã recebesse na bocca dos Suevos, desde a sua primeira

apparição historica, uma vocalisação distincta da do gothico, não

custará a attribuir a intonação nasal, particular ao dialecto suabio,

e que se encontra de uma maneira surprehendente no portuguez, á

influencia da lingua dos Suevos sobre o novo-latino que acabava de se

formar unicamente na Galliza[47].» E Sarmiento, tão investigador das

antiguidades da Galiza, affirma: «Quando Portugal estaba em posesion de

los Moros, se hablava ya en Galicia el idioma vulgar, aunque dudo que

se escribiesse; como ni aun hoy se escribe. Pero esto no impide que se

cantasse, e que en el se hiciesen varias coplas, que despues se pasaran

al papel...» (op. cit., p. 200). D'estes cantos populares existem

preciosos especimens no Cancioneiro da Vaticana, mas sobretudo existe

a canção épica com que o genio do Suevo reagiu contra a invasão arabe

da peninsula; tal é a tradição de _Peito Burdello_, gallega na forma,

conservada em Portugal:

No figueiral figueiredo

_A_ no figueiral entrei;

Seis _nenas_ encontrara

Seis _nenas_ encontrei...[48]

D'outras formas epicas conserva-se apenas a designação de _Chacone_,

tambem commum a Portugal, Hespanha, França e Italia, como vestigio do

elemento germanico (wisigothico, franko e lombardo). O mais antigo

romance hespanhol hoje conhecido, tem a fórma gallega, e foi por nós

restituido sobre o apographo da Vaticana[49].

Uma das causas porque a lingua gallega se tornou o dialecto particular

da poesia lyrica tanto de Portugal como de Castella alem da

communicação primeira com os trovadores da Aquitania, está no estado de

desenvolvimento politico d'estes dois paizes. Castella, não tinha ainda

dominado as differentes provincias de Hespanha, nem garantido contra

ellas a sua propria independencia; a unidade soberana das Hespanhas

era disputada pelo Aragão e por Leão. Só no meiado do seculo XV, sob

Fernando e Izabel é que essa unidade politica se fez; e é a datar

d'esse tempo que a lingua castelhana toma desenvolvimento, reduzindo as

outras linguas a dialectos restrictos e particulares; era no principio

do seculo XV que o marquez de Santillana fallava do uso gallego na

poesia castelhana não só referindo-se ás poesias de Affonso o Sabio,

educado na Galliza, mas a essa especie de renascença do genio poetico

da Galliza em Villasandino, em Macias e Juan Rodrigues del Padron,

seus contemporaneos. A influencia da lingua gallega cessa no momento

em que o castelhano, por effeito da unidade politica, se constitue

em disciplina grammatical e em lingua official. N'este mesmo periodo

do seculo XV já a lingua portugueza estava mais _contraída_ do que

a castelhana, já distinguia a sua epoca _archaica_, porque desde a

constituição da nacionalidade portugueza ou melhor, desde que recebeu

forma escripta, não teve nunca a lutar com as aberrações dialectaes,

e por isso o seu desenvolvimento em vez de dispender-se em unificação

deu-se no sentido do neologismo e da disciplina.

Mas o uso da lingua gallega em Portugal, sobretudo na poesia, proveiu,

em parte, do elemento aristocratico, e em parte pela immobilidade

d'esse dialecto, que era uma como especie de apoio no meio das

perturbações que as colonias francezas e inglezas, e as povoações

mosarabes e _mudgares_ conquistadas podiam produzir na nova sociedade.

A separação do portuguez do gallego consistiu na immobilidade do mesmo

dialecto em um ponto, e do seu progresso successivo e litterario em

outro.

Os limites da Galliza, na epoca da constituição da nacionalidade

portugueza, demonstram materialmente a relação em que estavamos para

recebermos e imitarmos essa poesia popular e esse novo dialecto. Diz

Herculano: «No seculo XI a extrema fronteira da Galliza ao occidente,

parece ter-se dilatado ao sul do Douro, nas proximidades da sua foz,

pela orla do mar até alem do Vouga; mas seguindo ao nascente o curso

d'aquelle rio, os sarracenos estavam de posse dos castellos de Lamego,

Tarouca, S. Martinho de Mouros, etc.[50]» No antigo Cancioneiro da

Ajuda, encontra-se a cada verso o _xe_, por _te_:

Fazer eu quanto _x_'el quer fazer. (Canc. n.º 55.)

Mais pois vejo que _x_'el quer assi

Poil-o el faz _xe_ me mal fazer. (N.º 158.)

Estas fórmas explicam-nos a tendencia da lingua portugueza em converter

a combinação _pl_ em _ch_, como em _pl_us, _ch_us, _pl_antar,

_ch_antar, _pl_anto, _ch_anto, _pl_ano, _ch_ão, _pl_atus, _ch_ato, que

na corrente erudita se conservam na sua pureza latina, como _plantar_,

_pranto_, _plano_, _prato_. O _Cancioneiro da Vaticana_ conserva entre

os trovadores portuguezes muitos poetas gallegos taes como Affonso

Gomes, jograr de Sarria, Fernam Gonçalves de Senabria, João Ayras,

burquez de Santiago, João Romeu, de Lugo, João Soares de Paiva, que foi

morrer á Galliza por amores de uma infanta, João Vasques, de Talavera,

Martim de Pedrozelos, João Nunes Camanes, Vasco Fernandes de Praga

e outros muitos. A Galliza, nas luctas da côrte portugueza no tempo

de D. Affonso II, D. Affonso III e D. Fernando I, foi uma especie de

paiz neutro para onde se acolhiam os fidalgos portuguezes; os fidalgos

gallegos recebiam em Portugal o melhor acolhimento e não receiaram

seguir o partido de D. Fernando, tendo por isso de se refugiarem na sua

côrte depois de vencidos. Aquelles poetas quinhentistas portuguezes,

Sá de Miranda e Camões, que ligaram ao nome de _gallego_ um sentido

de desprezo, eram oriundos d'esta emigração politica do fim do seculo

XIV; e foram elles que acharam a feição nacional da nossa poesia e nos

libertaram da subserviencia litteraria de Castella, em que estavamos,

como se vê pelo Cancioneiro geral, de Resende.

Era preciso que a tradição poetica popular da Galliza fosse profunda

para que, ainda depois de Affonso o Sabio, quando já a Galliza não

tinha vida politica, produzisse poetas lyricos de tal forma inspirados,

como Villassandino, Macias, Juan Rodrigues del Padron, Jerena e

Arcediago do Toro, para que no fim do seculo XIV luctassem contra a

influencia do novo lyrismo da Italia, que entrava por Sevilha. Nas

litteraturas a fecundidade e originalidade individual correspondem

sempre á existencia de um vigoroso elemento de tradição popular; esta

grande lei da critica moderna verifica-se na Galliza. No meado do

seculo XV escrevia o Marquez de Santillana ao Condestavel de Portugal:

«E depois acharam esta _Arte_, que _Maior_ se chama, e _Arte Commum_,

creio, nos reinos de Galliza e Portugal, onde não ha que duvidar, que

o exercicio d'estas sciencias mais do que em nenhumas outras regiões

e provincias de Hespanha se costuma; em tanto gráo, que não ha muito

tempo, quaesquer Dizidores ou Trovadores d'estas partes ou fossem

Castelhanos, Andaluzes ou da Extremadura todas as suas obras compunham

em lingua gallega ou portugueza. E ainda é certo que recebemos os

nomes de arte, como: maestria mayor, e menor, encadenados, lexapren e

mansobre[51].»

D'este trecho, se infere: 1.º Existencia da _Arte commum_, usada

pelos _Dizidores_, que compunham em _maestria menor_ essas obras que

o Marquez no § XV chama «cantigas, Serranas e Dizeres portuguezes,

e gallegos.» 2.º Que a par d'esta fonte popular coexistia a _Arte

Mayor_, usada pelos Trovadores, que escreviam em metro limosino ou

endecassyllabo, (eschola da Aquitania) sendo as suas composições

mais artificiaes, como os encadenados, lexapren e mansobre. 3.º Que

o dialecto gallego era usado na poesia lyrica tanto em Portugal,

como em Castella, na Extremadura e Andaluzia. No seculo passado teve

o erudito Sarmiento uma polemica com Don Thomaz Sanchez, tomando

no sentido mais absoluto as palavras do Marquez de Santillana: «Yo

como interessado en esta conclusion, por ser gallego, quisiera tener

presentes los fundamentos que tuvo el Marquez de Santillana; pero en

ningun Autor de los que he visto, se halla palabra que pueda servir de

alguna luz[52].» No tempo de Sarmiento já eram estudadas as poesias de

Affonso o Sabio escriptas em dialecto gallego, conforme o reconheciam

Diego Ortiz de Zuniga e Papebroquio e hoje todos os philologos.

Sarmiento depois de reconhecer tambem a lingua em que escreveram

Macias e Padron, conclue: «De este modo se entiende y se confirma lo

que escribió el Marquez de Santillana sobre el idioma de los antiguos

Trobadores castellanos, andaluces y estremenhos.» (p. 200.) Quando o

Marquez de Santillana assignalava esta influencia da Galliza, escrevia

«_não ha muito tempo_»; este limite da influencia gallega assigna-se

em Hespanha com a introducção da imitação italiana em Castella por

Micer Imperial, e com relação a nós os portuguezes com a imitação de

João de Mena começada pelo infante D. Pedro. O ultimo vestigio d'esta

unidade poetica da Peninsula foi assignado por Sarmiento na comparação

dos Adagios gallegos: «Los Adagios gallegos son los mismos que los

de los Portuguezes y Castellanos mas antiguos[53]; y los Catalanes,

que son semejantes á los Francezes...» (Ibid., 178.) No seculo XV

ainda em Portugal Camões escreveu dois sonetos em lingua gallega, cuja

intenção se não pode conhecer; no seculo XVII o Marquez de Montebello

caracterisa o gosto das mulheres de Braga pelo canto em córos, tal como

no seculo XVIII observa Sarmiento na Galliza; diz o Marquez: «Com

grande destreza se exercita a musica, que é tão natural em seus

moradores esta arte, que succede muitas vezes aos forasteiros que

passam pelas ruas, especialmente nas tardes do verão, parar e

suspenderem-se _ouvindo as trovas que cantam em córos com fugas e

repetições as raparigas, que, para excitar o trabalho_ de que vivem

lhes é permitido...» (Vida de Manoel Machado de Azevedo.) Sarmiento

escrevendo em 1741, observa tambem a influencia da mulher na poesia

popular da Galliza: «Ademas d'esto he observado que en Galicia las

mujeres no solo son poetisas, sino tambien musicas naturales.» (P.

237.) Esta caracteristica explica-se ethnicamente: «los paizes que

estan entre los dos rios Duero y Miño, pertenecian á Galicia y no á

Lusitania. Ptolomeo expresamente pone dos classes de gallegos: unos

_Bracharenses_ cuya capital era Braga; y otros _Lucenses_, cuya cabeza

era Lugo. Pero despues que Portugal se erigió en reyno á parte, agregó

muchos paizes de Galicia. De esto ha resultado que muchas cosas, que

en realidad son gallegas han passado por portuguezas; etc.» (Ib. p.

201.) Isto se pode applicar á antiga tradição do _Peito Burdelo_ ou do

tributo das donzellas, versificada na Galliza, e hoje só conhecida em

Portugal[54].

Caracterisando a poesia popular da Galliza, continúa Sarmiento:

«Generalmente hablando, assi en Castilla como en Portugal y en otras

provincias los hombres son los que componem las coplas e inventam los

tonos ó ayres; y ahi se vé que en este genero de coplas populares,

hablan los hombres con las mujeres ó para amarlas ó para satyrisarlas.

En Galicia es el contrario. En la mayor parte de las coplas gallegas

hablan las mujeres con los hombres; y es porque ellas son las que

componen las coplas sin artificio alguno; y elas mismas inventan

los tonos ó ayres a que las han de cantar, sin tener ideia del arte

musico.» (Ib. p. 237.) Este caracteristico é mui bem observado,

com a differença porém, no que diz respeito a Portugal, se deve

exceptuar o Minho, o qual, não só pelo que vimos do trecho do Marquez

de Montebello, como pelo estado actual da tradição alli, são as

mulheres que exclusivamente cantam e improvisam, e os homens em geral

conservam-se mudos, pelo seu estado de estupidez. Um moderno escriptor

que viveu no Minho, dá-nos a seguinte noticia do estado da poesia

popular: «Passei á orla das cortinhas onde mourejavam as moças da

aldeia, e ouvi-as _cantar ladainhas e versos de Sam Gregorio_. Quedaram

de cantar e romperam n'um murmurio monotono: resavam a corôa.» O

phenomeno da Galliza e do Minho em que as mulheres são as que conservam

a poesia, é o resultado da sua ultima decadencia; os padres prohibem as

cantigas amorosas e impõem a _Ladainha_ ou o _Bemdito_. As Romarias,

são um meio em que o fanatismo das classes populares se concilia com

as suas tradições lyricas; a Galliza e o Minho tem as Romarias como as

suas festas mais queridas, como o pretexto dos seus cantos e dansas.

Muitas das antigas Serranilhas do _Cancioneiro da Vaticana_ alludem aos

logares das romarias:

Ir a _San Salvador_...

A la _egreja de Vigo_...

Ir a _Santa Cecilia_...

Ora vou a _San Servando_...

Ide a _San Mamede_, ver-me-hedas... etc.

Estes versos formavam um genero ainda conhecido em Portugal no

principio do seculo XVI pela designação de Cantos de _ledino_. A

descripção que Sarmiento faz d'este costume da Galliza corresponde

tambem ainda hoje ao nosso Minho: «Aun hoy executan lo mismo aquelles

nacionales quando van á algun santuario ó Romeria. Siempre van en

tropa hombres y mujeres. Estas cantando coplas al asunto y tocando un

pandero; uno de los hombres tañendo flauta; y otro ó otros dançando

continuamente delante hasta cansarse, y entran otros despues. Es verdad

que non lleban armas para batirlas al compas, pelo lleban en su logar

un genero de instrumento crustico que en el pais llaman _ferreños_ (em

portug. ferrinhos) y en Castella sonajas[55].» Pela poesia popular

da Galliza se explicam as formas dos _Cantares de Amigo_ dos nossos

Cancioneiros aristocraticos, as Serranilhas, cujos refrens ainda

prevalecem hoje no lyrismo brazileiro, os cantos _guayados_ e de

_ledino_, ainda lembrados em Portugal no seculo XVI, os caracteristicos

dos cantos do Minho entoados por mulheres e ao mesmo tempo a falta de

tradições epicas.

Os trovadores e jograes que figuram no _Cancioneiro da Vaticana_,

constituiram um genero poetico d'esta caracteristica tão especial dos

cantos populares gallegos; a par de muitas canções de uma metrificação

artificial e de um sentimento requintado, apparecem os mais suaves

idylios em um parallelismo quasi biblico, com retornellos repetidos,

em que são as mulheres que fallam dos seus namorados, despedindo-se,

esperando-os, arrufando-se com elles, pondo prazo para romarias.

Chamou-se a este genero _Cantares de Amigo_, e o que assombra é a

persistencia d'esta fórma, que se elevou do povo até á imitação

aristocratica, obtendo a predilecção de el-rei Dom Diniz, e como

tornou a desapparecer dos Cancioneiros ficando até hoje nos costumes

populares. Algumas d'essas _cantigas de amigo_ eram tão proverbiaes que

os segreis as intercallavam no meio das suas composições, como fazia

Ayres Nunes, repetindo:

Sol-o ramo verde, frolido

Vodas fazem ao meu amigo;

e choram olhos de amor.

(_Canc. da Vat._, n.º 454.)

Uma canção de João de Gaya, termina com esta rubrica preciosa: «Esta

cantiga foy seguida de uma baylada que diz:

Vós avedes los olhos verdes

e matar-me-hedes com elles.»

(_Canc. da Vat._, n.º 1062.)

Em outro logar o mesmo jogral satyrisando o alfaiate do bispo Dom

Domingos Jardo, apresenta a rubrica: «Diz uma cantiga de vilaño:

Ó pee d'huna torre

bayla corpo e giolo,

vedel o cós, ay cavalleiro.»

(_Canc._, n.º 1043.)

Estes vestigios accentuam a corrente popular que entrou nos

Cancioneiros, e nos dão a origem das mais bellas composições ou fórmas

tradicionaes que ahi se conservam.

Portugal, Galliza e Brazil tão separados pelas vicissitudes politicas,

conservam ainda inteira a sua unidade ethnica na tradição litteraria. É

o que pretendemos fazer sentir n'este livro.

Pelo estudo da sua tradição é que as nacionalidades revivem; é pelo

conhecimento do seu desgraçado passado que Portugal saberá traçar o seu

novo destino. Na moderna nacionalidade brazileira o elemento portuguez

da provincia de Minas, está destinado a manter a integridade de um povo

facil a ser desnaturado por um excessivo cosmopolitismo. No seculo

passado começou na Galliza um movimento nacional da tradição, pelos

eruditos Feijó, auctor do _Theatro critico_, Sarmiento, o que até então

melhor estudou as origens litterarias de Hespanha, e Sobreyra, que

deixou os manuscriptos _Ideia de un Diccionario de la lengua gallega_.

No emtanto as agitações napoleonicas embaraçaram esse progresso local,

e a Galliza annullada pela centralisação castelhana, perdeu a sua

lingua. Esta queda reflecte-se no annexim popular:

Sei que porque estás na Coruña

Xa non queres falar en galego[56].

O afastamento da Galliza de Portugal provém do esquecimento da

tradição nacional e da falta de plano politico em todos os que nos

tem governado. Em Portugal o espirito moderno penetra, mas ainda,

é considerado como revolucionario. Na Galliza o estudo da tradição

recomeçou já; a lingua tem já uma grammatica composta por D. Xam

Anton Saco Arce[57], e um diccionario por D. Juan Cuveiro Pinhol; tem

já uma historia, por D. Manoel Murguia, e a poesia é cultivada por

vultos sympathicos como Elvira Luna d'o Castillo, D. Rosalia Castro

de Murguia, D. Ramon Rua Figuénsa, Valentin L. Carvajal, Alberto

Camiño, D. José Benito Amado, e Turnes, que fazem reviver esse dialecto

outr'ora peculiar das côrtes peninsulares. E por isso que cada paiz tem

o seu lyrismo bem caracterisado, em Portugal a poesia é o unico agente

da ideia avançada que trabalha para a transformação futura; no Brasil

predomina ainda a feição colonial, conservando as fórmas perdidas

desde o seculo XVI na poesia portugueza; na Galliza, a poesia tem a

ingenuidade e o fervor de uma renascença.

Parnaso portuguez moderno · 第 23 / 267 题