III

...E TORNARAM LOGO SILENCIOSOS...

--Eu tenho experimentado tudo, Quaresma, mas não sei... não ha meio!

--Já a levou a um medico especialista?

--Já. Tenho corrido medicos, espiritas até feiticeiros, Quaresma!

E os olhos do velho se orvalhavam por baixo do _pince-nez_. Os dous se

haviam encontrado na pagadoria da guerra e vinham pelo campo de

Sant'Anna, a pé, andando pequenos passos e conversando. O General era

mais alto que Quaresma, e emquanto este tinha a cabeça sobre um

pescoço alto, aquelle a tinha mettida entre os hombros proeminentes,

como cotos de azas. Albernaz reatou:

--E remedios! Cada medico receita uma cousa; os espiritas são os

melhores, dão homœpathia; os feiticeiros, tizanas, rezas e

defumações... Eu não sei. Quaresma!

E levantou os olhos para o céo, que estava um tanto plumbeo. Não se

demorou, porém, muito nessa postura; o _pince-nez_ não permittia, já

começava a cahir.

Quaresma abaixou a cabeça e andou assim um pouco olhando as

granulações do granito do passeio. Levantou o olhar ao fim de algum

tempo, e disse:

--Por que não a recolhe a uma casa de saude, General?

--Meu medico já me aconselhou isso... A mulher não quer e agora mesmo,

no estado em que a menina está, não vale a pena...

Falava da filha, da Ismenia, que, naquelles ultimos mezes, péorara

sensivelmente, não tanto da sua molestia mental, mas da saude commum,

vivendo de cama, sempre febril, enlanguescendo, definhando, marchando a

passos largos para o abraço frio da morte.

Albernaz dizia a verdade; para, cural-a tanto de sua loucura conto da

actual molestia intercorrente, lançara mão de todos os recursos, de

todos os conselhos apontados por quem quer que fosse.

Era de fazer reflectir ver aquelle homem, General, marcado com um curso

governamental, procurar mediuns e feiticeiros, para sarar a filha.

Ás vezes até levava-os em casa. Os mediuns chegavam perto da moça,

davam um estremeção, ficavam com uns olhos desvairados, fixos,

gritavam: sai, irmão!--e sacudiam as mãos, do peito para a moça, de

lá para cá, rapidamente, nervosamente, no intuito de descarregar sobre

ella os fluidos milagrosos.

Os feiticeiros tinham outros passes e as ceremonias para entrar no

conhecimento das forças occultas que nos cercam, eram demoradas, lentas

e acabadas. Em geral, eram pretos africanos. Chegavam, accendiam um

fogareiro no quarto, tiravam de um cesto um sapo empalhado ou outra

cousa exquisita, batiam com feixes de hervas, ensaiavam passos de dança

e pronunciavam palavras inintelligiveis. O ritual era complicado e tinha

a sua demora.

Na sahida, a pobre D. Maricota, um tanto já diminuida da sua actividade

e diligencia, olhando, ternamente aquelle grande rosto negro do

mandigueiro, onde a barba branca punha mais veneração e certa

grandeza, perguntava:

--Então, titio?

O preto considerava um instante, como se estivesse recebendo as ultimas

communicações do que não se vê nem se percebe, e dizia com a sua

magestade de africano:

--Vó vê, nhã nhã... Tô crôtando mandinga...

Ella e o General tinham assistido a ceremonia e o amor de paes e tambem

esse fundo de superstição que ha em todos nós, levavam a olhal-a com

respeito, quasi com fé.

--Então foi feitiço que fizeram á minha filha? perguntava a senhora.

--Foi, sim, nhãnhã.

--Quem?

--Santo não qué dizê.

E o preto obscuro, velho escravo, arrancado ha um meio seculo dos

confins da Africa, sahia arrastando a sua velhice e deixando naquelles

dous corações uma esperança fugaz.

Era uma singular situação, a daquelle preto africano, ainda certamente

pouco esquecido das dores do seu longo captiveiro, lançando mão dos

residuos de suas ingenuas crenças tribaes, residuos que tão a custo

tinham resistido ao seu transplante forçado para terras de outros

deuses--e empregando-os na consolação dos seus senhores de outro

tempo. Como que os deuses de sua infancia e de sua raça; aquelles

sanguinarios manipanços da Africa indecifravel, quizessem vingal-o á

legendaria maneira do Christo dos Evangelios...

A doente assistia tudo aquillo sem comprehender e se interessar por

aquelles trejeitos e passes de tão poderosos homens que se

communicavam, que tinham ás suas ordens os seres immateriaes, as

existencias fora e acima da nossa.

Andando, ao lado de Quaresma, o General lembrava-se de tudo isso e teve

um pensamento amargo contra a sciencia, contra os espiritos, contra os

feitiços, contra Deus que lhe ia tirando a filha aos poucos, sem

piedade e commiseração.

O Major não sabia o que dizer diante daquella immensa dor de pai e

parecia-lhe toda o qualquer palavra de consolo parva e idiota. Afinal

disse:

--General, o Sr. permitte que eu a faça ver por um medico?

--Quem é?

--É o marido de minha afilhada... o Sr. conhece... É moço, quem sabe

lá! Não acha? Póde ser, não é?

O General consentiu e a esperança de ver curada a filha lhe afagou as

faces enrugadas. Cada medico que consultava, cada espirita, cada

feiticeiro reanimava-o, pois de todos elle esperava o milagre. Nesse

mesmo dia, Quaresma foi procurar o Dr. Armando.

A revolta já tinha mais de quatro mezes de vida e as vantagens do

Governo eram problematicas. No Sul, a insurreição chegava ás portas

de S. Paulo, e só a Lapa resistia tenazmente, uma das poucas paginas

dignas e limpas de todo aquelle enxurro de paixões. A pequena cidade

tinha dentro de suas trincheiras o Coronel Gomes Carneiro, uma energia,

uma vontade, verdadeiramente isso, porque era sereno, confiante e justo.

Não se desmanchou em violencias de apavorado e soube tornar verdade a

gasta phrase grandiloquente: resistir até á morte.

A ilha do Governador tinha sido occupada e Magé tomado, os revoltosos,

porém, tinham a vasta bahia e a barra apertada, por onde sahiam e

entravam, sem temer o estorvo das fortalezas.

As violencias, os crimes que tinham assignalado esses dous marcos de

actividade guerreira do Governo, chegavam ao ouvido de Quaresma e elle

soffria.

Da ilha do Governador fez-se uma verdadeira mudança de moveis, roupas e

outros haveres. O que não podia ser transportado, era destruido pelo

fogo e pelo machado.

A occupação deixou lá a mais execranda memoria, e até hoje os seus

habitantes ainda se recordam dolorosamente de um Capitão, patriotico ou

da guarda nacional, Ortiz, pela sua ferocidade e insoffrido gosto pelo

saque e outras vexações. Passava um pescador, com uma tampa de peixe,

e o Capitão chamava o pobre homem:

--Venha cá!

O homem approximava-se amedrontado e Ortiz perguntava.

--Quanto quer por isso?

--Tres mil réis, capitão.

Elle sorria diabolicamente e familiarmente regateava:

--Você não deixa por menos... Está caro... Isso é peixe ordinario...

Carapebas! Ora!

--Bem, Capitão, vá lá por dous e quinhentos.

--Leve isso lá dentro.

Elle falava na porta de casa. O pescador voltava e ficava um tempo em

pé, demonstrando que esperava o dinheiro. Ortiz balançava a cabeça e

dizia escarninho:

--Dinheiro! hein? Vá cobrar ao Floriano.

Entretanto, Moreira Cesar deixou boas recordações de e ainda hoje ha

lá quem se lembre delle, agradecido por este ou aquelle beneficio que o

famoso Coronel lhe prestou.

As forças revoltosas parceiam não ter enfraquecido; tinham, porém,

perdido dous navios, sendo um destes o «Javary», cuja reputação na

revolta era das mais altas e consideradas. As forças de terra

detestavam-n'o particularmente. Era um monitor, chato, razo com a agua,

uma especie de saurio ou chelonio de ferro, de construcção franceza.

A sua artilharia era temida; o que sobremodo enraivecia os adversarios,

era elle não ter quasi borda acima d'agua, ficar quasi ao nivel do mar

e fugir assim aos tiros incertos de terra. As suas machinas não

funccionavam, e a grande tartaruga vinha collocar-se em posição de

combate com auxilio de um rebocador.

Um dia em que estava nas proximidades de Villegagnon, foi a pique. Não

se soube e até hoje não foi esclarecido, porque foi. Os legalistas

affirmaram que foi uma bala de Gragoatá; mas os revoltosos asseguraram

que foi a abertura de uma valvula ou um outro accidente qualquer.

Como o do seu irmão, o «Solimões», que desappareceu nas costas do

cabo Polonio, o fim do «Javary» ainda está envolvido no mysterio.

Quaresma permanecia de guarnição no Cajú, e viera receber dinheiro.

Deixara lá Polydoro, pois os outros officiaes estavam doentes ou

licenciados, e Fontes, que, sendo uma especie de inspector geral, ao

contrario de seus habitos, dormira aquella noite no pequeno pavilhão

imperial e ia ficar até á tarde.

Ricardo Coração dos Outros, desde o dia da prohibição de tocar

violão, andava macambuzio. Tinham-lhe tirado o sangue, o motivo de

viver, e passava os dias taciturno, encostado a um tronco de arvore,

maldizendo no fundo de si a incomprehensão dos homens e os caprichos do

destino. Fontes notara a sua tristeza; e, para minorar-lhe o desgosto,

obrigara a Bustamante a fazel-o sargento. Não foi sem custo, porque o

antigo veterano do Paraguay encarecia muito essa graduação e só a

dava como recompensa excepcional ou quando requerida por pessoas

importantes.

A vida do pobre menestrel era assim a de um melro engaiolado; e, de

quando em quando, elle se afastava um pouco e ensaiava a voz, para ver

se ainda a tinha e não fugira com o fumo dos disparos.

Quaresma sabendo que dessa maneira o posto estava bem entregue, resolveu

demorar-se mais, e, após despedir-se de Albernaz, encaminhou-se para a

casa do seu compadre, afim de cumprir a promessa que fizera ao general.

Coleoni ainda não decidira a sua viagem á Europa. Hesitava, esperando

o fim da rebellião que não parecia estar proximo. Elle nada tinha com

ella; até ali, não dissera a ninguem a sua opinião; e, se era muito

instado, appelava para a sua condição de estrangeiro e mettia-se numa

reserva prudente. Mas, aquella exigencia do passaporte, tirado na

chefatura de policia, dava-lhe susto. Naquelles tempos, toda a gente

tinha medo de tratar com autoridades. Havia tanta má vontade com os

estrangeiros, tanta arrogancia nos funccionarios que elle não se

animava a ir obter o documento, temendo que uma palavra, que um olhar,

que um gesto, interpretados por qualquer funccionario zeloso e dedicado,

não o levassem a soffrer maus quartos de hora.

Verdade é que elle era italiano e a Italia já fizera ver ao dictador

que era uma grande potencia, mas no caso de que se lembrava, tratava-se

de um marinheiro, por cuja vida, extincta por uma descarga das forças

legaes, Floriano pagara a quantia de cem contos. Elle, Coleoni, porém,

não era marinheiro, e não sabia, caso fosse preso, se os

representantes diplomaticos de seu paiz tomariam interesse pela sua

liberdade.

De resto, não tendo protestado manter a sua nacionalidade quando o

Governo provisorio expediu o famoso decreto de naturalização, era bem

possivel que uma ou outra parte se ativessem a isso, para

desinteressar-se delle ou mantel-o na famosa galeria 7, da Casa de

Correição, transformada, por uma pennada magica, em prisão de Estado.

A época era de susto e temor, e todos esses que elle sentia, só os

communicava a filha, porque o genro cada vez mais se fazia florianista e

jacobino, de cuja boca muita vez ouvia duras invectivas aos

estrangeiros.

E o doutor tinha razão; já obtivera uma graça governamental. Fôra

nomeado medico do Hospital de Santa Barbara, na vaga de um collega,

demittido a bem do serviço publico como suspeito por ter ido visitar um

amigo na prisão. Como o hospital, porém, ficasse no ilhéo do mesmo

nome, dentro da bahia, em frente á Saude e a Guanabara ainda estivesse

em mão dos revoltosos, elle nada tinha que fazer, pois até agora o

Governo não aceitara, os seus offerecimentos de auxiliar o tratamento

dos feridos.

O Major foi encontrar pai e filha em casa; o doutor tinha sahido, ido

dar uma volta pela cidade, dar arrhas de sua dedicação á causa legal,

conversando com os mais exaltados jacobinos do Café do Rio, não

esquecendo tambem de passear pelos corredores do Itamaraty, fazendo-se

ver pelos ajudantes de ordens, secretarios e outras pessoas influentes

no animo de Floriano.

A moça viu entrar Quaresma com aquelle sentimento extranho que o seu

padrinho lhe causava ultimamente, e esse sentimento mais agudo se

tornava quando o via contar os casos guerreiros do seu destacamento, a

passagem de balas, as descargas das lanchas, naturalmente, simplesmente,

como se fossem feições de uma festa, de uma justa, de um divertimento

qualquer em que a morte não estivesse presente.

Tanto mais que o via apprehensivo, deixando perceber numa phrase e

noutra desanimo e desesperança.

Na verdade o Major tinha um espinho n'alma. Aquella recepção de

Floriano ás suas lembranças de reformas não esperavam nem o seu

enthusiasmo e sinceridade nem tão pouco a idéa que elle fazia do

dictador. Sahira ao encontro de Henrique IV e de Sully e vinha esbarrar

com um presidente que o chamava de visionario, que não avaliava o

alcance dos seus projectos, que os não examinava sequer, desinteressado

daquellas altas cousas de governo como só não o fosse!... Era pois

para sustentar tal homem que deixara o socego de sua casa e se arriscava

nas trincheiras? Era, pois, por esse homem que tanta gente morria? Que

direito tinha elle de vida e de morte sobre os seus concidadãos, se

não se interessava pela sorte delles, pela sua vida feliz e abundante,

pelo enriquecimento do paiz, o progresso de sua lavoura e o bem estar de

sua população rural?

Pensando assim, havia instantes que lhe vinha um mortal desespero, uma

raiva de si mesmo; mas em seguida considerava: o homem está

atrapalhado, não póde agora; mais tarde com certeza elle fará a

cousa...

Vivia nessa alternativa dolorosa e era ella que lhe trazia

apprehensões, desanimo e desesperança, notados por sua afilhada na sua

physionomia já um pouco acabrunhada.

Não tardou, porém, que, abandonando os episodios da sua vida militar,

Quaresma explicasse o motivo de sua visita.

--Mas qual dellas? perguntou a afilhada.

--A segunda, a Ismenia.

--Aquella que estava para casar com o dentista?

--Esta mesmo.

--Ahn!...

Ella pronunciou este _ahn_ muito longo e profundo, como se puzesse nelle

tudo que queria dizer sobre o caso. Via bem o que fazia o desespero da

moça, mas via melhor a causa, naquella obrigação que incrustam no

espirito das meninas, que ellas se devem casar a todo o custo, fazendo

do casamento o pólo e fim da vida, a ponto de parecer uma deshonra, uma

injuria, ficar solteira.

O casamento já não é mais amor, não é maternidade, não é nada

disso: é simplesmente casamento, uma cousa vasia, sem fundamento nem na

nossa natureza nem nas nossas necessidades.

Graças á frouxidão, á pobreza intellectual e fraqueza de energia

vital de Ismenia, aquella fuga do noivo se transformou em certeza de

não casar mais e tudo nella se abysmou nessa idéa desesperada.

Coleoni enterneceu-se muito e interessou-se. Sendo bom de fundo, quando

lutava pela fortuna se fez duro e aspero, mas logo que se viu rico,

perdeu a dureza de que se revestira, pois percebia bem que só se póde

ser bom quando se é forte de algum modo.

Ultimamente o Major tinha diminuido um pouco o interesse pela moça;

andava atormentado com o seu caso de consciencia; entretanto, se não

tinha um constante e particular pensamento pela desdita da filha de

Albernaz, abrangia-a ainda na sua bondade geral, larga e humana.

Não se demorou muito na casa do compadre; elle queria, antes de voltar

ao Cajú, passar pelo quartel do seu batalhão. Ia ver se arranjava uma

pequena licença, para visitar a irmã que deixara lá, no «Socego», e

de quem tinha noticias, por carta, tres vezes por semana. Eram ellas

satisfatorias, comtudo elle tinha necessidade de ver tanto ella como o

Anastacio, physionomias com quem se encontrava diariamente ha tantos

annos e cuja contemplação lhe fazia falta e talvez lhe restituisse a

calma e a paz de espirito.

A ultima carta que recebera de D. Adelaide, havia uma phrase de que, no

momento, se lembrava sorrindo: «Não te exponhas muito, Polycarpo. Toma

muita cautela». Pobre Adelaide! Estava a pensar que esse negocio de

balas é assim como a chuva?!...

O quartel ainda ficava tio velho cortiço condemnado pela hygiene, lá

para as bandas da cidade nova. Assim que Quaresma apontou na esquina, a

sentinella deu um grande berro, fez uma immensa bulha com a arma e elle

entrou, tirando o chapéo da cabeça baixa, pois estava á paisana e

tinha abandonado a cartola com medo de que esse traje fosse ferir as

susceptibilidades republicanas dos jacobinos.

No pateo, o instructor côxo adestrava novos voluntarios e os seus

magestosos e demorados gritos: hom-broôô... armas! Mei-ããã volta...

volver! subiam ao céo e ecoavam longamente pelos muros da antiga

estalagem.

Bustamante estava no seu cubiculo, mais conhecido por gabinete,

irreprehensivel no seu uniforme verde garrafa, alamares dourados e vivos

azul ferrete. Com auxilio de um sargento, examinava a escripta de um

livro quarteleiro.

--Tinta vermelha, Sargento! É como mandam as instrucções de 1864.

Tratava-se de uma emenda ou de cousa semelhante.

Logo que viu Quaresma entrar, o commandante exclamou radiante:

--O Major adivinhou!

Quaresma descançou placidamente o chapéo, bebeu um pouco d'agua, e o

Coronel Innocencio explicou a alegria:

--Sabe que temos de marchar?

--Para onde?

--Não sei... Recebi ordem do Itamaraty.

Elle não dizia nunca do Quartel-General, nem mesmo do Ministro da

Guerra: era do Itamaraty, do Presidente, do chefe supremo. Parecia que

assim dava mais importancia a si mesmo e ao seu batalhão, fazia-o uma

especie de batalhão da guarda, favorito e amado do dictador.

Quaresma não se espantou, nem se aborreceu. Percebeu que era impossivel

obter a licença e tambem necessario mudar os seus estudos: da

artilharia, tinha que passar para a infantaria.

--O Major é que vai commandar o corpo, sabia?

--Não, Coronel. E o senhor não vai?

--Não, disse Bustamante, alisando o cavaignac mosaico e abrindo a bocca

para o lado esquerdo. Tenho que acabar a organização da unidade e não

posso... Não se assuste, mais tarde irei lá ter...

Começava a tarde, quando Quaresma sahiu do quartel. O instructor côxo

continuava, com força, magestade e demora, a gritar: hom-brôôô...

armas! A sentinella não pôde fazer a bulha da entrada, porque só viu

o Major, quando já ia longe. Elle desceu até á cidade e foi ao

Correio. Havia alguns tiros espaçados; no Café do Rio, os levitas

continuavam a trocar idéas para a consolidação definitiva da

Republica.

Antes de chegar ao Correio, Quaresma lembrou-se de sua partida. Correu a

uma livraria e comprou livros sobre infantaria; precisava tambem dos

regulamentos: arranjaria no quartel-general.

Para onde ia? Para o Sul, para Magé, para Nictheroy? Não sabia... Não

sabia... Ah! se isso fosse para realização dos seus desejos e sonhos!

Mas quem sabe?... Podia ser... talvez... Mais tarde...

E passou o dia atormentado pela duvida do bom emprego de sua vida e de

suas energias.

O marido de Olga não fez nenhuma questão em ir ver a filha do General.

Elle levava a intima convicção de que a sua sciencia toda nova pudesse

fazer alguma cousa; mas assim não se deu.

A moça continuou a definhar, e, se a mania parecia um pouco attenuada,

o seu organismo cahia. Estava magra e fraca, a ponto de quasi não poder

sentar-se na cama. Era sua mãe quem mais junto a ella vivia; as irmãs

se desinteressavam um pouco, pois as exigencias de sua mocidade

levavam-n'as para outros lados.

D. Maricota, tendo perdido todo aquelle antigo fervor pelas festas e

bailes, estava sempre no quarto da filha, a consolal-a, animal-a, e, ás

vezes, quando a olhava muito, como que se sentia um tanto culpada pela

sua infelicidade.

A molestia tinha posto mais firmeza nos traços de Ismenia, tinha-lhe

diminuido a lassidão, tirado o mortiço dos olhos e os seus lindos

cabellos castanhos, com reflexos de ouro, mais bellos se faziam quando

cercavam a pallidez de sua face.

Raro era falar muito; e assim foi que, naquelle dia, se espantou muito

D. Maricota com a loquacidade da filha.

--Mamãe, quando se casa Lalá?

--Quando se acabar a revolta.

--A revolta ainda não acabou?

A mãe respondeu-lhe e ella esteve um instante calada, olhando o tecto,

e, após essa contemplação disse á mãe:

--Mamãe... Eu vou morrer...

As palavras sairam-lhe dos labios, seguras, doces e naturaes.

--Não diga isso, minha filha, adiantou-se D. Maricota. Qual morrer!

Você vai ficar boa; seu pai vai levar você para Minas; você engorda,

toma forças...

A mãe dizia-lhe tudo isso devagar, alisando-lhe a face com a mão, como

se tratasse de uma criança. Ella ouvia tudo com paciencia e voltou

por sua vez serenamente:

--Qual, mamãe! Eu sei: vou morrer e peço uma cousa a senhora...

A mãe ficou espantada com a seriedade e firmeza da filha. Olhou em

redor, deu com a porta semi-cerrada e levantou-se para fechal-a. Quiz

ainda ver se a dissuadia daquelle pensamento; Ismenia, porém,

continuava a repetil-o pacientemente docemente, serenamente:

--Eu sei, mamãe.

--Bem. Supponho que é verdade: o que é que você quer?

--Eu quero, mamãe, ir vestida de noiva.

D. Maricota ainda quiz brincar, troçar; a filha, porém, voltou-se para

o outro lado, poz-se a dormir, com um leve respirar espaçado. A mãe

saiu do quarto, commovida, com lagrimas nos olhos e a secreta certeza de

que a filha, falava a verdade.

Não tardou muito a se verificar. O Dr. Armando a tinha visitado

naquella manhã pela quarta vez; ella parecia melhor, desde alguns dias,

falava com discernimento, sentava-se á cama e conversava com prazer.

D. Maricota teve que fazer uma visita e deixou a doente entregue ás

irmãs. Ellas foram lá ao quarto varias vezes e parecia dormir.

Distrahiram-se.

Ismenia despertou: viu, por entre a porta do guarda-vestidos meio

aberto, o seu traje de noiva. Teve vontade de vel-o mais de perto.

Levantou-se descalça e estendeu-o na cama para contemplal-o. Chegou-lhe

o desejo de vestil-o. Poz a saia: e, por ahi, vieram recordações do

seu casamento falhado. Lembrou-se do seu noivo, do nariz fortemente

osseo e dos olhos esgazeados de Cavalcanti; mas não se recordou com

odio, antes como se fosse um logar visto ha muito tempo, e que a tivesse

impressionado.

De quem ella se lembrava com raiva era da cartomante. Illudindo sua

mãe, acompanhada por uma criada, tinha conseguido consultar Mme.

Sinhá. Com que indifferença ella lhe respondeu: não volta! Aquillo

doeu-lhe... Que mulher má! Desde esse dia... Ah!... Acabou de abotoar a

saia em cima do corpinho, pois não encontrara collete; e foi ao

espelho. Viu os seus hombros nús, o seu collo muito branco...

Surprehendeu-se. Era della aquillo tudo? Apalpou-se um pouco e depois

collocou a corôa. O véo afagou-lhe as espaduas carinhosamente, como um

adejo de borboleta. Teve uma fraqueja, uma cousa, deu um ai e cahiu de

costas na cama, com as pernas para fóra... Quando a vieram ver, estava

morta. Tinha ainda a corda na cabeça e um seio, muito branco e redondo,

saltava-lhe do corpinho.

O enterro foi feito no dia immediato e a casa de Albernaz esteve os dous

dias cheia, como nos dias de suas melhores festas.

Quaresma foi ao enterro; elle não gostava muito dessa cerimonia; mas

veiu, e foi ver a pobre moça, no caixão, coberta de flores, vestida de

noiva, com um ar immaculado de imagem. Pouco mudara, entretanto. Era

ella mesma ali; era a Ismenia dolente e pobre de nervos, com os seus

traços meudos e os seus lindos cabellos, que estava dentro daquellas

quatro taboas. A morte tinha fixado a sua pequena belleza e o seu

aspecto pueril; e ella ia para a cova com a insignificancia, com a

innocencia e a falta de accento proprio que tinha tido em vida.

Contemplando aquelles tristes restos, Quaresma viu caixão do coche

parar na porta do cemiterio, atravessar pelas ruas de tumulos--uma

multidão que trepava, se tocava, lutava por espaço, na estreiteza da

varzea e nas encostas das collinas. Algumas sepulturas como se olhavam

com affecto e se queriam approximar; em outras, transparecia repugnancia

por estarem perto. Havia ali, naquelle mudo laboratorio de

decomposições, solicitações incomprehensiveis, repulsões,

sympathias e antipathias; havia tumulos arrogantes, vaidosos,

orgulhosos, humildes, alegres e tristes; e de muitos, recumava o

esforço, um esforço extraordinario, para escapar ao nivelamento da

morte, ao apagamento que ella traz ás condições e ás fortunas.

Quaresma ainda contemplava o cadaver da moça e o cemiterio surgia aos

seus olhos com as esculpturas que se amontoavam, com vasos, cruzes e

inscripções, em alguns tumulos; noutros, eram pyramides de pedra

tosca, retratos, caramanchões extravagantes, complicações de ornatos,

cousas barôcas e delirantes, para fugir ao anonymato do tumulo, ao fim

dos fins.

As inscripções exuberantes são longas, são breves: têm nomes, têm

datas, sobrenomes, filiações, toda a certidão de idade do morto que,

lá em baixo, não se póde mais conhecer e é lama putrida.

E se sente um desespero em não se deparar com um nome conhecido, nem

uma celebridade, uma notabilidade, um desses nomes que enchem decadas e,

ás vezes mesmo, já mortos, parece que continuam a viver. Tudo é

desconhecido; todas aquelles que querem fugir do tumulo para a memoria

dos vivos, são anodynos felizes e mediocres existencias que passaram

pelo mundo sem ser notadas.

E lá ia aquella moça por ali afóra para o buraco escuro, para o fim,

sem deixar na vida um traço mais fundo de sua pessoa, de seus

sentimentos, de sua alma!

Quaresma quiz afastar essa visão triste e encaminhou-se para o interior

da casa. Elle estivera na sala de visitas, onde D. Maricota tambem

estava, cercada de outras senhoras amigas que nada lhe diziam. O Lulú,

fardado do Collegio, com fumo no braço, cochilava a uma cadeira. As

irmãs iam e vinham. Na sala de jantar, estava o General silencioso,

tendo ao lado Fontes e outros amigos.

Caldas e Bustamante conversavam baixo, afastados; e quando Quaresma

passou, pôde ouvir o Almirante dizer:

--Qual! Os homens estão dentro em pouco aqui... O Governo está

exhausto.

O Major ficou na janella que dava para o quintal. O tecido do céo se

tinha adelgaçado; o azul estava sedoso e fino; e tudo tranquillo,

sereno e calmo.

A Estephania, a doutora, a de olhos maliciosos e quentes, passou, tendo

ao lado Lalá, que levava, de quando em quando, o lenço aos olhos já

seccos, a quem aquella dizia:

--Eu, se fosse você, não comprava lá... É caro! Vai ao «Bonheur

des Dames»... Dizem que tem cousas boas e é pechincheiro.

O Major voltou de novo a contemplar o céo que cobriu o quintal. Tinha

uma tranquillidade quasi indifferente. Genelicio appareceu

demasiadamente funebre. Todo de preto, elle tinha afivelado ao rosto a

mais profunda mascara de tristeza. O seu _pince-nez_ azulado tambem

parecia de luto.

Não lhe fôra possivel deixar de ir trabalhar; um serviço urgente,

fizera-o indispensavel na repartição.

--É isto, General, disse elle, não esta lá o Dr. Genelicio, nada se

faz... Não ha meio da «Marinha» mandar os processos certos... É um

relaxamento...

O General não respondeu; estava deveras combalido. Bustamante e Caldas

continuavam a conversar baixo. Ouviu-se o rodar de uma carruagem na rua.

Quinota chegou á sala de jantar:

--Papae, está ahi o coche.

O velho levantou-se a custo e foi para a sala de visitas. Falou á

mulher que se ergueu com a face contrahida, exprimindo uma grande

contensão. Os seus cabellos já tinham muitos fios de prata. Não deu

um passo; esteve um instante parada e logo caiu na cadeira, chorando.

Todos estavam vendo sem saber o que fazer; alguns choravam; Genelicio

tomou um partido: foi retirando os cirios de ao redor do caixão. A mãe

levantou-se, veiu até ao esquife, beijou o cadaver: minha filha!

Quaresma adiantou-se, foi sahindo com o chapéo na mão. No corredor,

ainda ouviu Estephania dizer a alguem: o coche é bonito.

Saiu. Na rua parecia que havia testa. As crianças da visinhança

cercavam-o carro funebre e faziam innocentes commentarios sobre os

dourados e enfeites. As grinaldas foram apparecendo e sendo dependuradas

nas extremidades das columnas do coche: «Á minha querida filha», «Á

minha irmã». As fitas rôxas e pretas, com lettras douradas, moviam-se

lentamente ao leve vento que soprava.

Appareceu o caixão, todo roxo, com guarnições do galões dourados,

muito brilhantes. Tudo aquillo ia p'ra terra. As janellas se povoaram,

de um lado e d'outro da rua; um menino na casa proxima, gritou da rua

para o interior: «mamãe, lá vai o enterro da moça»!

O caixão foi afinal amarrado fortemente no carro mortuario, cujos

cavallos, russos, cobertos com uma rede preta, escarvavam o chão cheios

de impaciencia.

Aquelles que iam acompanhar até ao cemiterio, procuravam os seus

carros. Embarcaram todos, e o enterro rodou.

A esse tempo, na visinhança, alguns pombos immaculadamente brancos, as

aves de Venus, ergueram o vôo, ergueram o vôo, ruflando

estrepitosamente; deram volta por cima do coche e tornaram logo

silenciosos, quasi sem bater azas, para o pombal que se occultava nos

quintaes burguezes...

Triste Fim de Polycarpo Quaresma · 第 35 / 38 题