--De certo, Albernaz, não é possivel continuar assim... Então,
mette-se um sujeito num navio, assesta os canhões p'ra terra e diz: sai
d'ahi _seu_ presidente; e o homem vai sahindo?... Não! É preciso um
exemplo....
--Eu penso tambem da mesma maneira, Caldas. A Republica precisa ficar
forte, consolidada... Esta terra necessita de Governo que se faça
respeitar... É incrivel! Um paiz como este, tão rico, talvez o mais
rico do mundo, é, no emtanto, pobre, deve a todo o mundo... Porque? Por
causa dos Governos que temos tido que não têm prestigio, força... É
por isso.
Vinham andando, á sombra das grandes e magestosas arvores do parque
abandonado; ambos fardados e de espada. Albernaz, depois de um curto
intervallo, continuou:
--Você viu o imperador, o Pedro II... Não havia jornaleco, pasquim por
ahi, que o não chamasse de «banana» e outras cousas... Sahia no
Carnaval... Um desrespeito sem nome! Que aconteceu? Foi-se como um
intruso.
--E era um bom homem, observou o Almirante. Amava o seu paiz... Deodoro
nunca soube o que fez.
Continuavam a andar. O Almirante coçou um dos favoritos e Albernaz
olhou um instante para todos os lados, accendeu o cigarro de palha e
retomou a conversa:
--Morreu arrependido... Nem com a farda quiz ir para a cóva!... Aqui
para nós que ninguem nos ouve: foi um ingrato; o Imperador tinha feito
tanto por toda a familia, não acha?
--Não ha duvida nenhuma!... Albernaz, você quer saber de uma cousa:
estavamos melhor naquelle tempo, digam lá o que disserem...
--Quem diz o contrario? Havia mais moralidade... Onde está um Caxias?
um Rio Branco?
--E mais justiça mesmo, disse com firmeza o Almirante. O que eu soffri,
não foi por causa do _velho_, foi a canalha... Demais, tudo barato...
--Eu não sei, disse Albernaz com particular accento, como ha ainda quem
se case... Anda tudo pela hora da morte!
Elles olharam um instante as velhas arvores da Quinta Imperial, por onde
vinham atravessando. Nunca as tinham contemplado; e, agora parecia-lhes
que jamais tinham pousado os olhos sobre amores tão soberbas, tão
bellas, tão tranquillas e seguras de si, como aquellas que espalhavam
sob os seus grandes ramos uma vasta sombra, deliciosa e macia. Pareciam
que medravam sentindo-se em terra propria, dellas, da qual nunca
sahiriam desalojadas a machado, para edificação de casebres; e esse
sentimento lhes havia dado muita força de vegetar e uma ampla vontade
de se expandirem. O sólo sobre a qual cresciam, era dellas e agradeciam
á terra extendendo muito os seus ramos, cerrando e tecendo a folhagem,
para dar á boa mãe, frescura e protecção contra a inclemencia do
sol.
As mangueiras eram as mais gratas; os ramos longos e cheios de folhas,
quasi beijavam o chão. As jaqueiras se espreguiçavam; os bambus se
inclinavam, de um lado e outro da aléa, e cobriam a terra com uma ogiva
verde...
O velho edificio imperial se erguia sobre a pequena collina. Elles lhe
viam o fundo, aquella parte de construcção mais antiga, joannina, com
a torre do relogio um pouco afastada e separada do corpo do edificio.
Não era bello o palacio, não tinha mesmo nenhum traço de belleza, era
até pobre e monotono. As janellas acanhadas daquella fachada velha, os
andares de pequena altura impressionavam mal; todo elle, porém, tinha
uma tal ou qual segurança de si, um ar de confiança pouco commum nas
nossas habitações, uma certa dignidade, alguma cousa de quem se sente
viver, não para um instante, mas para annos, para seculos... As
palmeiras cercavam-n'o, erectas, firmes, com es seus grandes penachos
verdes, muito altos, alongados para o céo...
Eram como que a guarda da antiga moradia imperial, guarda orgulhosa do
seu mister e funcção.
Albernaz interrompeu o silencio:
--Em que dará isto tudo, Caldas?
--Sei lá.
--O _homem_ deve estar atrapalhado... Já tinha o Rio Grande, agora o
Custodio... hum!
--O poder é o poder, Albernaz.
Vinham andando em demanda á estação de S. Christovão. Atravessaram o
velho parque imperial transversalmente, desde o portão da Cancella até
á linha da Estrada de Ferro. Era de manhã, e o dia estava limpido e
fresco.
Caminhavam com pequenos passos seguros, mas sem pressa. Pouco antes de
sahirem da Quinta, deram com um soldado a dormir numa moita. Albernaz
teve vontade de acordal-o: camarada! camarada! O soldado levantou-se
estremunhado: e, dando com aquelles dous officiaes superiores,
concertou-se rapidamente, fez a continencia que lhes era devida e ficou
com a mão no bonet, um instante firme, mas logo bambeou.
--Abaixe a mão, fez o General. Que faz você aqui?
Albernaz falou em tom rispido e de commando. A praça, falando a medo,
explicou que tinha estado de ronda ao litoral toda a noite. A força se
recolhera aos quarteis; elle obtivera licença para ir em casa, mas o
somno fôra muito e descançava ali um pouco.
--Então como vão as cousas? perguntou o General.
--Não sei, não _sinhô_.
--Os homens desistem ou não?
O General esteve um instante examinando o soldado, Era branco e tinha os
cabellos alourados, de um louro sujo e degradado; as feições eram
feias: mallares salientes, testa ossea e todo elle anguloso e
desconjuntado.
--Donde você é? perguntou-lhe ainda Albernaz.
--Do Piauhy, sim _sinhô_.
--Da capital?
--Do sertão, de Paranaguá, sim _sinhô_.
O Almirante até ali não interrogara o soldado que continuava
amedrontado, respondendo tropegamente. Caldas, para acalmal-o, resolveu
falar-lhe com doçura.
--Você não sabe, camarada, quaes são os navios que _elles_ têm?
--O «Aquidaban»... A «Lucy».
--A «Lucy» não é navio.
--É verdade, sim; sinhô. O «Aquidaban»... Um _bandão_ delles, sim,
_sinhô_.
O General interveio então. Falou-lhe com brandura, quasi paternal,
mudando o tratamento de você para tu, que parece mais doce e intimo
quando se fala aos inferiores:
--Bem, descança, meu filho. É melhor ires para casa... Podem furtar-te
o sabre e estás na _ignacia_.
Os dous generaes continuaram o seu caminho e, em breve, estavam na
plataforma, da estação. A pequena estação tinha um razoavel
movimento. Um grande numero de officiaes, activos, reformados,
honorarios moravam-lhe nas cercanias e os editaes chamavam todos a se
apresentar ás autoridades competentes. Albernaz e Caldas atravessaram
a plataforma no meio de continencias. O General, era mais conhecido em
virtude de seu emprego; o Almirante, não. Quando passavam, ouviam
perguntar: «quem é este Almirante»? Caldas ficava contente e
orgulhava-se um pouco do seu posto e do seu incognito.
Havia uma unica mulher na estação, uma moça. Albernaz olhou-a e
lembrou-se um instante de sua filha Ismenia... Coitada!... Ficaria boa?
Aquellas manias? Onde iria parar? Vieram-lhe as lagrimas, mas elle as
reteve com força.
Já a levara a uma meia duzia de medicos e nenhum fazia parar aquelle
escapamento do juizo que parecia fugir aos poucos do cerebro da moça.
A bulha de um expresso, chocalhando ferragens com estrepido, apitando
com furia e deixando fumaça pesada, pelos ares que rompia, afastou-o de
pensar na filha. Passou o monstro, pejado de soldados, de uniformes e os
trilhos, depois de ter passado, ainda estremeciam.
Bustamante appareceu; morava nos arredores e vinha tomar o trem, para
apresentar-se. Trazia o seu velho uniforme do Paraguay, talhado segundo
os moldes dos guerreiros da Criméa. A barretina era um tronco de cône
que avançava para a frente; e, com aquella banda roxa e casaquinha
curta, parecia ter sahido, fugido, saltado de uma téla de Victor
Meirelles.
--Então por aqui?... Que é isto? indagou o honorario.
--Viemos pela Quinta, disse o Almirante.
--Nada, meus amigos, esses bondes andam muito perto do mar... Não me
importa morrer, mas quero morrer combatendo; isso de morrer por ahi, á
toa, sem saber como, não vai commigo...
O General falara um pouco alto e os jovens officiaes que estavam
proximo, olharam-n'o com mal disfarçada censura. Albernaz percebeu e
ajuntou immmediatamente:
--Conheço bem esse negocio de balas... Já vi muito fogo... Você sabe,
Bustamante, que, em Curuzú...
--A cousa foi terrivel, accrescentou Bustamante.
O trem atracava na estação. Veiu chegando manso, vagaroso, a
locomotiva, muito negra, bufando, sumido gordurosamente, com a sua
grande lanterna na frente, um olho de cyclope, avançava que nem uma
apparição sobrenattural. Foi chegando; o comboio estremeceu todo e
parou por fim.
Estava repleto, muitas fardas de officiaes, a avaliar por ali o Rio
devia ter uma guarnição de cem mil homens. Os militares palravam
alegres, e os civis vinham calados e abatidos, e mesmo apavorados. Se
falavam, era cochichando, olhando com precaução para os bancos de
traz.
A cidade andava inçada de secretas, _familiares_ do Santo Officio
Republicano, e as delações eram moedas com que se obtinham postos e
recompensas.
Bastava a minima critica, para se perder o emprego, a liberdade,--quem
sabe?--a vida tambem. Ainda estavamos no começo da revolta, mas o
regimen já publicara o seu prologo e todos estavam avisados. O chefe de
policia organizara a lista dos suspeitos. Não havia distincção de
posição e talentos. Mereciam as mesmas perseguições do Governo um
pobre continuo e um influente senador; um lente e um simples empregado
de escriptorio. Demais surgiam as vinganças! mesquinhas, a revide de
pequenas implicancias... Todos mandavam: a autoridade estava em todas as
mãos.
Em nome do Marechal Floriano, qualquer official, ou mesmo cidadão, sem
funcção publica alguma, prendia e ai de quem cahia na prisão, lá
ficava esquecido, soffrendo angustiosos supplicios de uma imaginação
dominicana. Os funccionarios disputavam-se em bajulação, em
servilismo... Era um terror, um terror baço, sem coragem, sangrento,
ás occultas, sem grandeza, sem desculpa, sem razão e sem
responsabilidades... Houve execuções; mas não houve nunca um Fouquier
Tinville.
Os militares estavam contentes, especialmente os pequenos, os alferes,
os tenentes e os capitães. Para a maioria a satisfação vinha da
convicção de que iam estender a sua autoridade sobre o pelotão e a
companhia, a todos esse rebanho de civis; mas, em outros muitos havia
sentimento mais puro, desinteresse e sinceridade. Eram os adeptos desse
nefasto o hypocrita positivismo, um pedantismo tyrannico, limitado e
estreito, que justificava todas as violencias, todos os assassinios
todas as ferocidades em nome da manutenção da ordem, condição
necessaria, lá diz elle, ao progresso e tambem ao advento do regimen
normal, a religião da humanidade, a adoração do grão-fetiche, com
fanhosas musicas de cornetins e versos detestaveis, o paraizo emfim, com
inscripções em escriptura phonetica e eleitos calçados com sapatos de
sola de borracha!...
Os positivistas discutiam e citavam theoremas de mecanica para
justificar as suas idéas de Governo, em tudo semelhantes aos khanatos e
emirados orientaes.
A mathematica do positivismo foi sempre um puro falatorio que,
naquelles tempos, amedrontava toda a gente. Havia mesmo quem estivesse
convencido que a mathematica tinha sido feita e criada para o
positivismo, como se a Biblia estivesse sido criada unicamente para a
Igreja Catholica e não tambem para a Anglicana. O prestigio delle era,
portanto, enorme.
O trem correu, parou ainda em uma estação e foi ter á praça da
Republica. O Almirante, cozido com as paredes, seguiu para o Arsenal de
Marinha; Albernaz e Bustamante entraram no Quartel General. Penetraram
no grande casarão, no meio do retinir de espadas, de tiques de
cornetas; o grande pateo estava cheio de soldados, bandeiras, canhões,
feixes de armas ensarilhadas, bayonetas reluzindo ao sol obliquo...
No sobrado, nas proximidades do gabinete do ministro, havia um vai-e-vem
de fardas, dourados, fazendas multicores, uniformes de varias
corporações e milicias, no meio dos quaes os trages escuros dos civis
eram importunos como moscas. Misturavam-se officiaes da guarda nacional,
da policia, da armada, do exercito, de bombeiros e de batalhões
patrioticos que começavam a surgir.
Apresentaram-se e, depois de tel-o feito ao Ajudante General e Ministro
da Guerra, a um só tempo, ficaram a conversar nos corredores, com
bastante prazer, pois que tinham encontrado o Tenente Fontes e ambos
gostavam de ouvil-o.
O General porque já era noivo de sua filha Lalá, e Bustamante porque
aprendia com elle alguma cousa de nomenclatura dos armamentos modernos.
Fontes estava indignado, todo elle era horror, maldição contra os
insurrectos, e propunha os peores castigos.
--Hão de ver o resultado... Piratas! Bandidos! Eu, no caso do Marechal,
se os pegasse... ai delles!
O Tenente não era feroz nem mau, antes bom e até generoso, mas era
positivista e tinha da sua Republica uma idéa religiosa e
transcendente. Fazia repousar nella toda a felicidade humana e não
admittia que a quizessem de outra forma que não aquella que imaginava
boa. Fóra dahi não havia boa fé, sinceriddae; eram hereticos
interesseiros, e, dominicano do seu barrete phrygio, raivoso por não
poder queimal-os em autos de fé, congesto, via passar por seus olhos
uma serie enorme de réos confitentes, relapsos, contumazes, falsos,
simulados, fictos e confictos, sem samarra, soltos por ahi...
Albernaz não tinha tanta furia contra os adversarios. No fundo d'alma,
elle os queria até, tinha amigos lá, e essas divergencias nada
significavam para a sua idade e experiencia.
Depositava, entretanto, uma certa esperança na acção do Marechal.
Estando em apuros financeiros, não lhe dando o bastante a sua reforma e
a gratificação de organizador do archivo do largo do Moura, esperava
obter uma outra commissão, que lhe permitisse mais folgadamente
adquirir o enxoval de Lalá.
O Almirante, tambem, tinha grande confiança nos talentos guerreiros e
de estadista de Floriano. A sua causa não ia lá muito bem. Perdera-a
em primeira instancia, estava gastando muito dinheiro... O Governo
precisava de officiais de marinha, quasi todos estavam na revolta;
talvez lhe dessem uma esquadra a commandar... É verdade que... Mas, que
diabo! Se fosse um navio, então sim: mas uma esquadra a cousa não era
difficil: bastava coragem para combater.
Bustamante cria com força na capacidade do General Peixoto, tanto assim
que, para apoial-o e defender o seu Governo, imaginava organizar um
batalhão patriotico, de que já tinha o nome «Cruzeiro do Sul» e
naturalmente seria o seu commandante, com todas as vantagens do posto de
coronel.
Genelicio, cuja actividade nada tinha de guerreira, esperava muito da
energia e da decisão do Governo de Floriano: esperava ser sub-director
e não podia um Governo sério, honesto e energico, fazer outra cousa,
desde que quizesse pôr ordem na sua secção.
Essas secretas esperanças eram mais geraes do que se pode suppor. Nós
vivemos do Governo e a revolta representava uma confusão nos empregos,
nas honrarias e nas posições que o Estado espalha. Os suspeitos
abririam vagas e as dedicações suppririam os titulos e habilitações
para occupal-as; além disso, o Governo, precisando de sympathias e
homens, tinha que nomear, espalhar, prodigalizar, inventar, criar e
distribuir empregos, ordenados, promoções e gratificações.
O proprio Dr. Armando Borges, o marido de Olga e sabio sereno e dedicado
quando estudante, collocava na revolta a realização de risonhos
anhelos.
Medico e rico, pela fortuna da mulher, elle não andava satisfeito. A
ambição de dinheiro e o desejo de nomeada esporeavam-n'o. Já era
medico do Hospital Syrio, onde ia tres vezes por semana e, em meia hora,
via trinta e mais doentes. Chegava, o enfermeiro, dava-lhe
informações, o doutor ia de cama em cama, perguntando: como vai? Vou
melhor seu doutor, respondia o syrio com voz gutural. Na seguinte,
indagava: Já está melhor? E assim passava a visita; chegando ao
gabinete receitava: doente n. 1, repita a receita; doente 5... quem
é?... Quem é aquelle barbado... Ahn! E receitava.
Mas medico de um hospital particular não dá fama a ninguem: o
indispensavel é ser do Governo, senão elle não passava, de um simples
pratico. Queria ter um cargo official, medico, director ou mesmo lente
da Faculdade.
E isso não era difficil, desde que arranjasse boas recommendações,
pois já tinha certo nome, graças á sua actividade e fertilidade de
recursos.
De quando em quando, publicava um folheto «O cobreiro, Etiologia,
Prophylaxia e tratamento» ou «Contribuição para o estudo da sarna no
Brasil»; e mandava o folheto, quarenta e sessenta paginas, aos jornaes
que se occupavam delle duas ou tres vezes por anno; _o operoso, Dr.
Armando Borges, o illustre clinico, o proficiente medico da nossos
hospitaes, etc. etc_.
Obtinha isso graças á precaução que tomara em estudante de se
relacionar com os rapazes da imprensa.
Não contente com isso escrevia artigos, estiradas compilações, em que
não havia nada de proprio, mas ricos de citações em francez, inglez e
allemão.
O logar de lente é que o tentava mais; o concurso porém, mettia-lhe
medo. Tinha elementos, estava bem relacionado e cotado na Congregação,
mas aquella historia de arguição apavorava-o.
Não havia dia em que não comprasse livros, em francez, inglez e
italiano; tomara até um professor de allemão para entrar na sciencia
germanica; mas faltava-lhe energia para o estudo prolongado e a sua
felicidade pessoal fizera evolar-se a pequena que tivera quando
estudante.
A sala da frente do alto porão tinha sido transformada em bibliotheca.
As paredes estavam forradas de estantes que gemiam ao peso dos grandes
tratados. Ar noite, elle abria as janellas das venezianas, accendia
todos os bicos de gaz e se punha á meza, todo de branco com um livro
aberto sob os olhos.
O somno não tardava a vir ao fim da quinta pagina... isso era o diabo!
Deu em procurar os livros da mulher. Eram romances francezes, Goncourt,
Anatole France, Daudet, Maupassant, que o faziam dormir da mesma maneira
que os tratados. Elle não comprehendia a grandeza daquellas analyses,
daquellas descripções, o interesse e o valor dellas, revelando a
todos, á sociedade, a vida, os sentimentos, as dores daquelles
personagens, um mundo! O seu pedantismo, a sua falsa sciencia e a
pobreza de sua instrucção geral faziam-n'o ver naquillo tudo,
brinquedos, passatempos, falatorios, tanto mais que elle dormia á
leitura, de taes livros.
Precisava, porém, illudir-se, a si mesmo e á mulher. De resto, da rua,
viam-n'o e se dessem com elle a dormir sobre os livros?!... Tratou de
encommendar algumas novelas de Paulo de Kock em lombadas com titulos
trocados e afastou o somno.
A sua clinica, entretanto, prosperava. De commandita com o tutor, chegou
a ganhar uns seis contos, tratando de um febrão de uma orphã rica.
Desde muito que a mulher lhe entrara na sua simulação de
intelligencia, mas aquella manobra indecorosa, indignou-a. Que
necessidade tinha elle disso? Não era já rico? Não era moço? Não
tinha o privilegio de um titulo universitario? Tal acto pareceu á moça
mais vil, mais baixo, que a usura de um judeu, que o aluguel de uma
penna...
Não foi desprezo, nojo que ella teve pelo marido; foi um sentimento
mais calmo, menos activo; desinteressou-se delle, destacou-se de sua
pessoa. Ella sentiu que tinham cortado todos os laços de affeição, de
sympathia, que prendiam ambos, toda a ligação moral, emfim.
Mesmo quando noiva, verificara que aquellas cousas de amor ao estudo, de
interesse pela sciencia, de ambições de descobertas, nelle, eram
superficiaes, estavam á flor da pelle; mas desculpou. Muitas vezes nós
nos enganamos sobre as nossas proprias forças e capacidades; sonhamos
ser Shakespeare e sahimos Mal dos Vinhas. Era perdoavel, mas charlatão?
Era de mais!
Passou-lhe um pensamento mau, mas de que valeria essa quasi
indignidade?... Todos os homens deviam ser iguaes, era inutil mudar
deste para aquelle...
Quando chegou a esta conclusão, sentiu um grande allivio, e a sua
physionomia se illuminou de novo como se já estivesse de todo passada a
nuvem que empanava o sol dos seus olhos.
Naquella carreira atropellada para o nome facil, elle não deu pelas
modificações da mulher. Ella dissimulava os seus sentimentos, mais por
dignidade e delicadeza, que mesmo por qualquer outro motivo; e a elle
faltavam a sagacidade e finura necessarias para descobril-os sob o seu
esconderijo.
Continuavam a viver como se nada houvesse, mas quando estavam longe um
do outro!...
A revolta veiu encontral-os assim; e o doutor, desde tres dias, pois ha
tanto ella rebentara, meditava a sua ascenção social e monetaria.
O sogro suspendera a viagem á Europa, e, naquella manhã, após o
almoço, conforme o seu habito, lia recostado numa cadeira de viagem os
jornaes do dia. O genro vestia-se e a filha; occupava-se com sua
correspondencia, escrevendo á cabeceira da meza de jantar. Ella tinha
um gabinete, com todo o luxo, livros, secretaria, estantes, mas gostava
pela manhã, de escrever ali, ao lado do pai. A sala lhe parecia mais
clara, a vista para a montanha, feia e esmagadora, dava mais seriedade
ao pensamento e a vastidão da sala mais liberdade no escrever.
Ella escrevia e o pai lia; num dado momento elle disse:
--Sabes quem vem ahi, minha filha?
--Quem é?
--Teu padrinho. Telegraphou ao Floriano, dizendo que vinha... Está
aqui, n'«O Paiz».
A moça adivinhou logo o motivo, o modo de agir e reagir do facto sobre
as idéas e sentimentos de Quaresma. Quiz desapprovar, censurar;
sentiu-o, porém, tão coherente com elle mesmo, tão de accordo com a
substancia da vida que elle mesmo fabricara, que se limitou a sorrir
complacente:
--O padrinho...
--Está doido, disse Coleoni. _Per la madona_! Pois um homem que está
quieto, socegado, vem metter-se nesta barafunda, neste inferno...
O doutor voltava já inteiramente vestido, com a sobrecasaca funebre e a
cartola reluzente na mão. Vinha irradiante e o seu rosto redondo
reluzia, excepto onde o grande bigode punha sombras. Ainda ouviu as
ultimas palavras do sogro, pronunciadas com aquelle seu portuguez rouco.
--Que ha? perguntou elle.
Coleoni explicou a repetiu os commentarios que já fizera:
--Mas não ha tal, disse o doutor. É o dever de todo o patriota... Que
tem a idade? Quarenta e poucos annos, não é lá velho... Póde ainda
bater-se pela Republica...
--Mas não tem interesse nisso, objectou o velho.
--E ha de ser só quem tem interesse que se deve bater pela Republica?
interrogou o doutor.
A moça que acabava de ler a carta que tinha escripto, mesmo sem
levantar a cabeça, disse:
--De certo.
--É vêm você com as suas theorias, filhinha. O patriotismo não está
na barriga...
E sorriu com um falso sorriso que o brilho morto dos seus dentes
postiços mais falsificava.
--Mas vocês só falam em patriotismo? E os
outros! É monopolio de vocês o patriotismo? fez Olga.
--De certo. Se elles fossem patriotas não estariam a despejar balas
para a cidade, a entorpecer e desmoralisar a acção da autoridade
constituida.
--Deviam continuar a presenciar as prisões, as deportações, os
fuzilamentos, toda a serie de violencias que se vêm commettendo, aqui e
no Sul?
--Você, no fundo, é uma revoltosa, disse o doutor fechando a
discussão.
Ella não deixava de ser. A sympathia dos desinteressados, da
população. inteira era pelos insurgentes. Não só isso sempre
acontece em toda a parte, como particularmente, no Brasil, devido a
multiplos factores, ha de ser assim normalmente.
Os Governos, com os seus inevitaveis processos de violencia e
hypocrisias, ficam alheiados da sympathia dos que acreditam nelle; e
demais, esquecidos de sua vital impotencia e inutilidade, levam a
prometter o que não podem fazer, de forma a criar desesperados, que
pedem sempre mudanças e mudanças.
Não era, pois, de admirar que a moça tendesse para os revoltosos; e
Coleoni, estrangeiro e conhecendo, graças á sua vida, as nossas
autoridades, calasse as suas sympathias num mutismo prudente.
--Não me vá comprometter, hein Olga?
Ella se tinha levantado para acompanhar o marido. Parou um pouco,
deitou-lhe o seu grande olhar luminoso e com os finos labios um pouco
franzidos:
--Você sabe bem que eu não te comprometto.
O doutor desceu a escada da varanda, atravessou o jardim e ainda do
portão disse adeus a mulher, que lhe seguiu a sahida, debruçada na
varanda, conforme o ritual dos bem ou mal casados.
Por esse tempo, Coração dos Outros sonhava desligado das contingencias
terrenas.
Ricardo vivia ainda na sua casa de commodos dos suburbios, cuja vista ia
de Todos os Santos á Piedade, abrangendo um grande trato de area
edificada, um panorama de casas e arvores.
Já não se falava mais no seu rival e a sua magua tinha assentado.
Por esses dias o seu triumpho desfilava sem contestação. Toda a cidade
o tinha na consideração devida e elle quasi se julgava ao termo da sua
carreira. Faltava o assentimento de Botafogo, mas estava certo de obter.
Já publicara mais de um volume de canções; e, agora pensava em
publicar mais outro.
Ha dias vivia em casa, pouco sahindo, organizando o seu livro. Passava
confinado no seu quarto, almoçando café, que elle mesmo fazia, e pão,
indo á tarde jantar a uma tasca proximo á estação.
Notara que sempre que chegava, os carroceiros e trabalhadores, que
jantavam nas mezas sujas, abaixavam a voz e olhavam-n'o desconfiados;
mas não deu importancia...
Apezar de popular no logar, não encontrara pessoa alguma conhecida
durante os tres ultimos dias; elle mesmo evitava falar e, em sua casa,
limitava-se ao «bom dia» e á «boa tarde» trocados com os vizinhos.
Gostava de passar assim dias, mettido em si mesmo e ouvindo o seu
coração. Não lia jornaes para não distrahir a attenção do seu
trabalho. Vivia a pensar nas suas modinhas e no seu livro que havia de
ser mais uma victoria para elle e para o violão estremecido.
Naquella tarde estava sentado á meza, corrigindo um dos seus trabalhos,
um dos ultimos, aquelle que compuzera no sitio de Quaresma--«Os lábios
de Carola».
Primeiro, leu toda a producção, cantarolando: voltou a lel-a, agarrou
o violão para melhor apanhar o effeito e empacou nestes:
É mais bella que Helena e Margarida,
Quando sorri meneando a ventarola.
Só se encontra a illusão que adoça a vida
Nos labios de Carola.
Nisto ouviu um tiro, depois outro, outro... Que diabo? pensou. Hão de
ser salvas a algum navio estrangeiro. Repinicou o violão e continuou a
cantar os labios de Carola, onde encontrava a illusão que adoça a
vida...