D. Adelaide disse então docemente:

--Socega, Polycarpo. Por isso só?... Ora!

A afilhada leu tambem os versos e perguntou ao padrinho:

--O Sr. se metteu algum dia nessa politica daqui?

--Eu nunca!... Vou até declarar que...

--Está doido! exclamaram as duas mulheres a um tempo, ajuntando a

irmã:

--Isto seria uma covardia... Uma satisfação... Nunca!

O doutor e Ricardo chegavam de fóra e encontraram os tres nessas

considerações. Notaram a alteração de Quaresma. Estava pallido,

tinha os olhos humidos e coçava successivamente a cabeça.

--Que ha, Major? indagou o troveiro.

As senhoras explicaram o caso e deram-lhe as quadrinhas a ler. Ricardo

depois contou o que ouvira na villa. Acreditavam todos que o Major viera

para ali no intuito de fazer politica, tanto assim que dava esmolas,

deixava o povo fazer lenha no seu mato, distribuia remedios

homeopathicos... O Antonino affirmara que havia de desmascarar

semelhante tartufo.

--E não desmentiste? perguntou Quaresma.

Ricardo affirmou que sim, mas o escrivão não quizera acreditar nelle e

reiterara os seus propositos de ataque.

O Major ficou profundamente impressionado com tudo; mas, de accordo com

seu genio, incubou nos primeiros tempos a impressão, e, emquanto

estiveram com elle os seus amigos, não demonstrou preoccupação.

Olga e o marido passaram no «Socego» cerca de quinze dias. O marido,

ao fim de uma semana, já parecia cançado. Os passeios não eram

muitos. Em geral, os nossos logarejos são de uma grande pobreza do

pittoresco; ha um ou dous logares celebres, assim como na Europa cada

aldeia tem a sua curiosidade historica.

Em Curuzú, o passeio afamado era o Carico, uma cachoeira distante duas

leguas da casa de Quaresma, para as bandas das montanhas que lhe

barravam o horizonte fronteiro. O Dr. Campos já travara relações com

o Major e, graças a elle, houve cavallos e silhão que tambem

permitisse á moça ir á cachoeira.

Foram de manhã, o Presidente da Camara, o doutor, sua mulher e a filha

de Campos. O logar não era feio. Uma pequena cachoeira, de uns quinze

metros de altura, despenhava-se em tres partes, pelo flanco da montanha

abaixo. A agua estremecia na quéda, como que se enrodilhava e vinha

pulverizar-se numa grande bacia de pedra, mugindo e roncando. Havia

muita verdura e como que toda a cascata vivia sob uma aboboda de

arvores. O sol coava-se difficilmente e vinha faiscar sobre a agua ou

sobre as pedras em pequenas manchas, redondas ou oblongas. Os

periquitos, de um verde mais claro, pousados nos galhos eram como as

incrustações daquelle salão fantastico.

Olga pôde ver tudo isso bem á vontade, andando de um para outro lado,

porque a filha do presidente era de um silencio de tumulo e o pae desta

tomava com o sou marido informações sobre novidades medicinaes: Como

se cura hoje erysipela? Ainda se usa muito o tartaro emetico?

O que mais a impressionou no passeio foi a miseria geral, a falta de

cultivo, a pobreza das casas, o ar triste, abatido da gente pobre.

Educada na cidade, ella tinha dos roceiros idéa de que eram felizes

saudaveis e alegres. Havendo tanto barro, tanta agua, porque as casas

não eram de tijolos e não tinham telhas? Era sempre aquelle sapê

sinistro e aquelle «sopapo» que deixava ver a trama de varas, como o

esqueleto de um doente. Porque ao redor dessas casas, não havia

culturas, uma horta, um pomar? Não seria tão facil, trabalho de horas.

E não havia gado, nem grande nem pequeno. Era raro uma cabra, um

carneiro. Porque? Mesmo nas fazendas, o espectaculo não era mais

animador. Todas soturnas, baixas, quasi sem o pomar olente e a horta

succulenta. A não ser o café e um milharal, aqui e ali, ella não

pôde ver outra lavoura, outra industria agricola. Não podia ser

preguiça só ou indolencia. Para o seu gasto, para uso proprio, o homem

tem sempre energia para trabalhar. As populações mais accusadas de

preguiça, trabalham relativamente. Na Africa, na India, na Cochinchina,

em toda parte, os casaes, as familias, as tribos, plantam um pouco,

algumas cousas para elles. Seria a terra? Que seria? E todas essas

questões desafiavam a sua curiosidade, o seu desejo de saber, e tambem

a sua piedade e sympathia por aquelles parias, maltrapilhos, mal

alojados, talvez com fome, sorumbaticos!...

Pensou em ser homem. Se o fosse passaria ali e em outras localidades

mezes e annos, indagaria, observaria e com certeza havia de encontrar o

motivo e o remedio. Aquillo era uma situação do camponez da idade

média e começo da nossa; era o famoso animal de La Bruyére que tinha

face humana e voz articulada...

Como no dia seguinte fosse passeiar ao roçado do padrinho, aproveitou a

occasião para interrogar a respeito o tagarella Felizardo. A faina do

roçado ia quasi no fim; o grande trato da terra estava quasi

inteiramente limpo e subia um pouco em ladeira a collina que formava a

lombada do sitio.

Olga encontrou o camarada cá em baixo, cortando a machado as madeiras

mais grossas; Anastacio estava no alto, na orla do mato, juntando, a

ancinho, as folhas caidas. Ella lhe falou.

--Bons dias, _sá dona_.

--Então trabalha-se muito, Felizardo?

--O que se póde.

--Estive hontem no Carico, bonito logar... Onde é que você mora,

Felizardo?

--É d'outra banda, na estrada da villa.

--É grande o sitio de você?

--Tem alguma terra, sim, senhora, _sá dona_.

--Você porque não planta para você?

--_Quá sá dona_! O que é que a gente come?

--O que plantar ou aquillo que a plantação der em dinheiro.

--_Sá dona tá_ pensando uma cousa e a cousa é outra. Emquanto planta

cresce, e então? _Quá, sá dona_, não é assim...

Deu uma machadada; o tronco escapou: collocou-o melhor no picador e,

antes de desferir o machado, ainda disse:

--Terra não é nossa... E _frumiga_?... Nós não _tem_ ferramenta...

isso é bom para italiano ou _allamão_, que Governo dá tudo... Governo

não gosta de nós...

Desferiu o machado, firme, seguro; e o rugoso tronco se abriu em duas

partes, quasi iguaes, de um claro amarellado, onde o cérne escuro

começava a apparecer.

Ella voltou querendo afastar do espirito aquelle desacordo que o

camarada indicara, mas não pôde. Era certo. Pela primeira vez notava

que o _self-help_ do Governo era só para os nacionaes; para os outros

todos os auxilios e facilidades, não contando com a sua anterior

educação e apoio dos patricios.

E a terra não era delle? Mas de quem era então, tanta terra abandonada

que se encontrava por ahi? Ella vira até fazendas fechadas, com as

casas em ruinas... Porque esse acaparamento, esses latifundios inuteis e

improductivos?

A fraqueza de attenção não lhe permittiu pensar mais no problema. Foi

vindo para casa, tanto mais que era hora de jantar e a fome lhe chegava.

Encontrou o marido e o padrinho a conversar. Aquelle perdera um pouco da

sua _morgue_; havia mesmo occasião em que era até natural. Quando ella

chegou, o padrinho exclamava:

--Adubos! É lá possivel que um brasileiro tenha tal idéa! Pois se

temos as terras mais ferteis do mundo!

--Mas se esgotam, Major, observou o doutor

D. Adelaide, calada, seguia com attenção o _crochet_ que estava

fazendo; Ricardo ouvia, com os olhos arregalados; e Olga intrometteu-se

na conversa:

--Que zanga é essa, padrinho?

--É teu marido que quer convencer-me que as nossas terras precisam de

adubos... Isto é até uma injuria!

--Pois fique certo, Major, se eu fosse o senhor, adduziu o doutor,

ensaiava uns phosphatos...

--De certo, Major, obtemperou Ricardo. Eu, quando comecei a tocar

violão não queria aprender musica... Qual musica! Qual nada! A

inspiração basta!... Hoje veio que é preciso... É assim, resumia

elle.

Todos se entreolharam, excepto Quaresma que logo disse com toda a força

d'alma:

--Sr. doutor, o Brasil é o paiz mais fertil do mundo, é o mais bem

dotado e as suas terras não precisam _emprestimos_ para dar sustento ao

homem. Fique certo!

--Ha mais ferteis, Major, avançou o doutor.

--Onde?

--Na Europa.

--Na Europa!

--Sim, na Europa. As terras negras da Russia, por exemplo.

O Major considerou o rapaz durante algum tempo e exclamou triumphante:

--O Sr. não é patriota! Esses moços...

O jantar correu mais calmo. Ricardo fez ainda algumas considerações

sobre o violão. Á noite, o menestrel cantou a sua ultima producção:

«Os labios da Carola». Suspeitava-se que Carola fosse uma criada do

Dr. Campos; mas ninguem alludiu a isso. Ouviram-mo com interesse e elle

foi muito acclamado. Olga tocou no velho piano de D. Adelaide; e, antes

das onze horas, estavam todos recolhidos.

Quaresma chegou a seu quarto, despiu-se, enfiou a camisa de dormir e,

deitado, poz-se a ler um velho elogio das riquezas e opulencias do

Brasil.

A casa estava em silencio; do lado de fora, não havia a minima bulha.

Os sapos tinham suspendido um instante a sua orchestra nocturna.

Quaresma lia; e lembrava-se que Darwin escutava com prazer esse concerto

dos charcos. Tudo na nossa terra é extraordinario! pensou. Da despensa,

que ficava junto a seu aposento, vinha um ruido extranho. Apurou o

ouvido e prestou attenção. Os sapos recomeçaram o seu hymno. Havia

vozes baixas, outras mais altas e estridentes; uma se seguia á outra,

num dado instante todas se juntaram num _unisono_ sustentado.

Suspenderam um instante a musica. O Major apurou o ouvido; o ruido

continuava. Que era? Eram uns estalos tenues; pareciam que quebravam

gravetos, que deixavam outros cahir ao chão... Os sapos recomeçaram; o

regente deu uma martellada e logo vieram os baixos e os tenores.

Demoraram muito; Quaresma pôde ler umas cinco paginas. Os batrachios

pararam; a bulha continuava. O Major levantou-se, agarrou o castiçal e

foi á dependencia da casa donde partia o ruido, assim mesmo como

estava, em camisa de dormir.

Abriu a porta; nada viu. Ia procurar nos cantos, quando sentiu uma

ferroada no peito do pé. Quasi gritou. Abaixou a vela para ver melhor e

deu com uma enorme sauva agarrada com toda a furia á sua pelle magra.

Descobriu a origem da bulha. Eram formigas que, por um buraco no

assoalho, lhe tinham invadido a despensa e carregavam as suas reservas

de milho e feijão, cujos recipientes tinham sido deixados abertos por

inadvertencia. O chão estava negro, e carregadas com os grãos, ellas,

em pelotões cerrados, mergulhavam no solo em busca da sua cidade

subterranea.

Quiz afugental-as. Matou uma, duas, dez, vinte, cem; mas eram milhares e

cada vez mais o exercito augmentava. Veiu uma mordeu-o, depois outra, e

o foram mordendo pelas pernas, pelos pés, subindo pelo seu corpo. Não

poude aguentar, gritou, sapateou e deixou a vela cahir.

Estava no escuro. Debatia-se para encontrar a porta; achou e correu

daquelle infimo inimigo que, talvez, nem mesmo á luz radiante do sól,

o visse distinctamente...

Triste Fim de Polycarpo Quaresma · 第 28 / 38 题