--Vocês não vêm!
--Já vamos, fez o General.
E depois, dirigindo-se a Ricardo, ajuntou:
--Aquelle Quaresma podia estar bem, mas foi metter-se com livros... É
isto! Eu, ha bem quarenta annos, que não pego em livro...
Chegaram á sala. Era vasta. Tinha dous grandes retratos em pesadas
molduras douradas, furiosos retratos a oleo de Albernaz e da mulher; um
espelho oval e alguns quadrinhos, e a decoração estava completa. Da
mobilia não se podia julgar, tinha sido retirada, para dar mais espaço
aos dansantes. A noiva e o noivo estavam no sofá sentados a presidir a
festa. Havia um ou outro decote, poucas casacas, algumas sobrecasacas e
muitos fraques. Por entre as cortinas de uma janella, Ricardo pôde ver
a rua. A calçada defronte estava cheia. A casa era alta e tinha jardim;
só de lá os curiosos, os _serenos_, podiam ver alguma cousa da festa.
Lalá, no vão de uma sacada, conversava com o Tenente Fontes. O General
contemplou-os e abençoou-os com um olhar aprovador...
A moça, a famosa filha do Lemos, dispoz-se a cantar. Foi ao piano,
collocou a partitura e começou. Era uma romanza italiana que ella
cantou com a perfeição e o mau gosto de uma moça bem educada. Acabou.
Palmas geraes, mas frias, soaram.
O Dr. Florencio que ficara atraz do General, commentou:
--Tem uma bella voz esta moça. Quem é?
--É a filha do Lemos, do Dr. Lemos da Hygiene, respondeu o General.
--Canta muito bem.
--Está no ultimo anno do Conservatorio, observou ainda Albernaz.
Chegou a vez de Ricardo. Elle occupou um canto da sala, agarrou o
violão, afinou-o, correu a escala; em seguida, tomou o ar tragico de
quem vai representar o Oedipo-Rei e falou com voz grossa: «Senhoritas,
senhores e senhoras». Parou. Concertou a voz e continuou: «Vou cantar
«Os teus braços», modinha de minha composição, musica e versos. É
uma composição terna, decente e de uma poesia exaltada». Seus olhos,
por ahi, quasi lhe sabiam das orbitas. Emendou: «Espero que nenhum
ruido se ouça, porque senão a inspiração se evola. É o violão
instrumento muito... mui...to _dê li ca do_. Bem».
A attenção era geral. Deu começo. Principiou brando, gemebuado, macio
e longo, como um soluço de onda; depois, houve uma parte rapida,
saltitante, em que o violão estalava. Alternando um andamento e outro,
a modinha acabou.
Aquillo tinha ido ao fundo de todos, tinha acudido ao sonho das moças e
aos desejos dos homens. As palmas foram ininterruptas. O General
abraçou-o, Genelicio levantou-se e deu-lhe a mão, Quinota, no seu
immaculado vestido de noiva, tambem.
Para fugir aos cumprimentos, Ricardo correu á sala de jantar. No
corredor chamaram-n'o: Sr. Ricardo, Sr. Ricardo! Voltou-se. Que ordena
minha senhora? Era uma moca que lhe pedia uma copia da modinha.
--Não se esqueça, dizia ella com meiguice, não se esqueça. Gosto
tanto das suas modinhas... São tão ternas tão delicadas... Olhe: dê
aqui a Ismenia para me entregar.
A noiva de Cavalcanti approximava-se e, ouvindo falar em seu nome,
perguntou:
--Que é, Dulce?
A outra explicou-lhe. Ella aceitou a incumbencia: e, por sua vez,
perguntou a Ricardo com a sua voz dolente:
--_Seu_ Ricardo, quando é que o Sr. pretende estar com D. Adelaide.
--Depois de amanhã, espero eu.
--Vai lá.
--Vou.
--Pois então diga-lhe que me escreva. Eu queria tanto receber uma
carta...
E limpou os olhos furtivamente, com o seu pequenino lenço rendado.