Não era feio o logar, mas não era bello. Tinha, entretanto, o aspecto
tranquillo e satisfeito de quem se julga bem com a sua sorte.
A casa erguia-se sobre um socalco, uma especie de degrau, formando a
subida para, a maior altura de uma pequena collina que lhe corria nos
fundos. Em frente, por entre os bambús da cerca, olhava uma planicie a
morrer nas montanhas que se viam ao longe; um regalo de aguas paradas e
sujas cortava-a parallemente á testada da casa; mais adeante, o trem
passava vincando a planicie com a fita clara de sua linha capinada; um
carreiro, com casas, de um e do outro lado, sahia da esquerda e ia ter
á estação, atravessando o regato e serpeando pelo plaino. A
habitação de Quaresma tinha assim um amplo horizonte, olhando para o
levante, a _noruega_, e era tambem risonha e graciosa nos seus muros
caiados. Edificada com a desoladora indigencia architectonica das nossas
casas de campo, possuia, porém, vastas salas, amplos quartos, todos com
janella, e uma varanda com uma columnata heterodoxa. Além desta
principal, o sitio do «Socego», como se chamava, tinha outras
construcções: a velha casa da farinha, que ainda tinha o forno intacto
e a roda desmontada, e uma estrebaria coberta de sapê.
Não havia tres mezes que viera habitar aquella casa, naquelle ermo
logar, a duas horas do Rio, por estrada de ferro, após ter passado seis
mezes no Hospicio da praia das Saudades. Sahira curado? Quem sabe lá?
Parecia: não delirava e os seus gestos e propositos eram do homem
commum embora, sob tal apparencia, se pudesse sempre crer que não se
lhe despedira de todo, já não se dirá a loucura, mas o sonho que
cevara durante tantos annos. Foram mais seis mezes de repouzo e util
sequestração que mesmo de uso de uma therapeutica psychiatrica.
Quaresma viveu lá, no manicomio, resignadamente, conversando com os
seus companheiros, onde via ricos que se diziam pobres, pobres que se
queriam ricos, sabios a mal dizer da sabedoria, ignorantes a se
proclamarem sabios; mas, delles todos, daquelle que mais se admirou,
foi de um velho e placido negociante da rua dos Pescadores que se
suppunha Attila. Eu, dizia o pacato velho, sou Attila, sabe? Sou Attila.
Tinha fracas noticias da personagem, sabia o nome e nada mais. Sou
Attila, matei muita gente--e era só.
Sahiu o Major mais triste ainda do que vivera toda a vida. De todas as
cousas tristes de ver, no mundo, a mais triste é a loucura; é a mais
depressora e pungente.
Aquella continuação da nossa vida tal e qual, com um desarranjo
imperceptivel, mas profundo e quasi sempre insondavel, que a inutiliza
inteiramente, faz pensar em alguma cousa mais forte que nós, que nos
guia, que nos impelle e em cujas mãos somos simples joguetes. Em varios
tempos e lugares, a loucura foi considerada sagrada, e deve haver razão
nisso no sentimento que se apodera de nós quando, ao vermos um louco
desarrazoar, pensamos logo que já não é elle quem fala, é alguém,
alguém que vê por elle, interpreta as cousas por elle, está atraz
delle, invisivel!...
Quaresma sahiu envolvido, penetrado da tristeza do manicomio. Voltou á
sua casa, mas a vista das suas cousas familiares não lhe tirou a forte
impressão de que vinha impregnado. Embora nunca tivesse sido alegre, a
sua physionomia apresentara mais desgosto que antes, muito abatimento
moral, e foi para levantar o animo que se recolheu áquella risonha casa
de roça, onde se dedicava a modestas culturas.
Não fora elle, porém, quem se lembrara; fora a afilhada que lhe trouxe
á idéa aquelle doce acabar para a sua vida. Vendo-o naquelle estado de
abatimento, triste e taciturno, sem coragem de sahir, enclausurado em sua
casa de São Cristovam, Olga dirigiu-se um dia ao padrinho meiga e
filialmente:
--O padrinho porque não compra um sitio? Seria tão bom fazer as suas
culturas, ter o seu pomar, a sua horta... não acha?
Tão taciturno que elle estivesse, não pôde deixar de modificar
immediatamente a sua physionomia á lembrança da moça. Era um velho
desejo seu, esse de tirar da terra o alimento, a alegria e a fortuna; e
foi lembrando dos seus antigos projectos que respondeu á afilhada:
--É verdade, minha filha. Que magnifica idéa, tens tu! Ha por ahi
tantas terras ferteis sem emprego... A nossa terra tem os terrenos mais
ferteis do mundo... O milho póde dar até duas colheitas e quatrocentos
por um...
A moça esteve quasi arrependida da sua lembrança. Pareceu-lhe que ia
atêar no espirito do padrinho manias já extinctas.
--Em toda a parte--não acha, meu padrinho?--ha terras ferteis.
--Mas como no Brasil, apressou-se elle em dizer, ha poucos paizes que as
tenham. Vou fazer o que tu dizes: plantar, criar, cultivar o milho, o
feijão, a batata ingleza... Tu irás ver as minhas culturas, a minha
horta, o meu pomar--então é que te convencerás como são fecundas as
nossas terras!
A idéa cahiu-lhe na cabeça e germinou logo. O terreno estava amanhado
e só estirava uma bôa semente. Não lhe voltou a alegria que jamais
teve, mas a taciturnidade foi-se com o abatimento moral, e veiu-lhe a
actividade mental cerebrina, por assim dizer, de outros tempos. Indagou
dos preços correntes das fructas, dos legumes, das batatas, dos aipins;
calculou que cincoenta laranjeiras, trinta abacateiras, oitenta
pecegueiros, outras arvores fruticferas, além dos abacaxis (que mina!)
das aboboras e outros productos menos importantes, podiam dar o
rendimento annual de mais de quatro contos, tirando as despezas. Seria
ocioso trazer para aqui os detalhes dos seus calculos, baseados em tudo
no que vem estabelecido nos boletins da Associação de Agricultura
Nacional. Levou em linha de conta a producção média de cada pé de
fructeira, de hectare cultivado, e tambem os salarios, as perdia
inevitaveis; e, quanto aos preços, elle foi em pessoa no mercado
buscal-os.
Planejou a sua vida agricola com a exactidão e meticulosidade que punha
em todos os seus projectos. Encarou-a por todas as faces, pezou as
vantagens e onus; e muito contente ficou em vel-a monetariamente
attrahente, não por ambição de fazer fortuna, mas por haver nisso
mais uma demonstração das excellencias do Brasil.
E foi obedecendo a essa ordem de idéas que comprou aquelle sitio, cujo
nome--«Socego»--cabia tão bem á nova vida que adoptara, após a
tempestade que o sacudira durante quasi um anno. Não ficava longe do
Rio e elle o escolhera assim mesmo maltratado, abandonado, para melhor
demonstrar a força e o poder da tenacidade, do carinho, no trabalho
agricola. Esperava grandes colheitas de fructas, de grãos, de legumes;
e do seu exemplo, nasceriam mil outros cultivadores, estando em breve a
grande capital cercada de um verdadeiro celleiro, virente e abundante a
dispensar os argentinos e europeus.
Com que alegria elle foi para lá! Quasi não teve saudades de sua velha
casa de S. Januario, agora propriedade de outras mãos, talvez destinada
ao mercenario mister de lar de aluguel... Não sentiu que aquella vasta
sala, abrigo calmo dos seus livros durante tantos annos, fosse servir
para salão de baile futil, fosse testemunhar talvez rixas de casaes
desentendidos, odios de familia--ella tão boa, tão doce, tão
sympathica, com o seu tecto alto e as suas paredes lisas, em que se
tinham encrustado os desejos de sua alma e toda ella penetrada da
exhalação dos seus sonhos!...
Elle foi contente. Como era tão simples viver na nossa terra! Quatro
contos de réis por anno, tirados da terra, facilmente, docemente,
alegremente! Oh! terra abençoada! Como é que toda a gente queria ser
empregado publico, apodrecer numa banca, soffrer na sua independencia e
no seu orgulho? Como é que se preferia viver em casas apertadas, sem
ar, sem luz, respirar um ambiente epidemico, sustentar-se de maus
alimentos, quando se podia tão facilmente obter uma vida feliz, farta,
livre, alegre e saudavel?
E era agora que elle chegava a essa conclusão, depois de ter soffrido a
miseria da cidade e o emasculamento da repartição publica, durante
tanto tempo! Chegara tarde, mas não a ponto de que não pudesse antes
da morte travar conhecimento com a doce vida campestre e a feracidade
das terras brasileiras. Então pensou que foram vãos aquelles seus
desejos de reformas capitaes nas instituições e costumes: o que era
principal á grandeza da patria estremecida, era uma forte base
agricola, um culto pelo seu solo uberrimo, para alicerçar fortemente
todos os outros destinos que ella tinha de preencher.
Demais, com terras tão ferteis, climas variados, a permittir uma
agricultura facil e rendosa, este caminho estava naturalmente indicado.
E ele viu então diante dos seus olhos as laranjeiras, em flôr,
olentes, muito brancas, a se enfileirar pelas encostas das collinas,
como theorias de noivas; os abacateiros, de troncos rugosos, a sopesar
com esforço os grandes pomos verdes; as jabuticabas negras a estalar
dos caules rijos; os abacaxis coroados que nem reis, recebendo a
uncção quente do sol; as abobreiras a se arrastarem com flores
carnudas cheias de pollen; as melancias de um verde tão fixo que
parecia pintado; os pecegos veludosos, as jacas monstruosas, os jambos,
as mangas capitosas; e dentre tudo aquillo surgia uma linda mulher, com
o regaço cheio de fructos e um dos hombros nu, a lhe sorrir agradecida,
com um imaterial sorriso demorado de deusa--era Pomona, a deusa dos
vergeis e dos jardins!...
As primeiras semanas que passou no «Socego», Quaresma as empregou numa
exploração em regra da sua nova propriedade. Havia nella terra
bastante, velhas arvores fructiferas, um capoeirão grosso com camarás,
bacurubús, tinguacibas, tibibuyas, munjólos, e outros specimens.
Anastacio que o acompanhara, appelava para as suas recordações de
antigo escravo de fazenda, e era quem ensinava os nomes dos individuos
da mata a Quaresma muito lido e sabido em cousas brasileiras.
O Major logo organizou um museu dos productos naturaes do «Socego». As
especies florestaes e campezinas foram etiquetadas com os seus nomes
vulgares, e quando era possivel com os scientificos. Os arbustos, em
herbario e as madeiras, em pequenos tocos, seccionados longitudinal e
transversalmente.
Os azares de leituras tinham-no levado a estudar as sciencias naturaes e
o furor auto-didacta dera a Quaresma solidas noções de botanica,
zoologia, mineralogia e geologia.
Não foram só os vegetaes que mereceram as honras de um inventario; os
animaes tambem, mas como elle não tinha espaço sufficiente e a
conservação dos exemplares exigia mais cuidado, Quaresma limitou-se a
fazer o seu museu no papel, por onde sabia que as terras eram povoadas
de tatús, cotias, preás, cobras variadas, saracuras, sanãs,
avinhados, colleiros, tyês, etc. A parte mineral era pobre, argillas,
arêa e, aqui e ali, uns blocos de granito exfoliando-se.
Acabado esse inventario, passou duas semanas a organizar a sua
bibliotheca agricola e uma relação de instrumentos metereologicos para
auxiliar os trabalhos da lavoura.
Encommendou livros nacionaes, francezes, portuguezes; comprou
thermometros, barometros, pluviometros, hygrometros, anemometros. Vieram
estes e foram arrumados e collocados convenientemente.
Anastacio assistia a todos esses preparativos com assombro. Para que
tanta cousa, tanto livro, tanto vidro? Estaria o seu amigo patrão dando
para pharmaceutico? A duvida do preto velho não durou muito. Estando
certa vez Quaresma a ler o pluviometro, Anastacio, ao lado, olhava-o
espantado, como quem assiste a um passe de feitiçaria. O patrão notou
o espanto do criado, e disse:
--Sabes o que estou fazendo, Anastacio?
--Não _sinhô_.
--Estou vendo se choveu muito.
--Para que isso, patrão? A gente sabe logo _de olho_ quando chove muito
ou pouco... Isso de plantar é capim; pôr a semente na terra, deixar
crescer e apanhar...
Elle falava com a sua voz molle de africano, sem _rr_ fortes, com
lentidão e convicção.
Quaresma, sem abandonar o instrumento, tomou em consideração o
conselho de seu empregado. O capim e o matto cobriam as suas terras. As
larangeiras, os abacateiros, as mangueiras estavam sujos, cheios de
galhos mortos, e cobertos de uma medusina cabelleira de herva de
passarinho; mas, como não fosse época propria á póda e ao corte dos
galhos, Quaresma limitou-se a capinar por entre os pés das fruteiras.
De manhã, logo ao amanhecer, elle mais o Anastacio, lá iam, de enxada
ao hombro, para o trabalho do campo. O sol era forte e rijo; o verão,
estava no auge, mas Quaresma era inflexível e corajoso. Lá ia.
Era de vel-o, coberto com um chapéo de palha de côco, atracado a um
grande enxadão de cabo nodoso, elle, muito pequeno, myope, a dar golpes
sobre golpes para arrancar um teimoso pé de guaximba. A sua enxada mais
parecia uma draga, um escavador, que um pequeno instrumento agricola.
Anastacio, junto ao patrão, olhava-o com piedade e espanto. Por gosto
andar naquelle sól a capinar sem saber?... Ha cada cousa neste mundo!
E os dous iam continuando. O velho preto, ligeiro, rapido, raspando o
matto rasteiro, com a mão habituada, a cujo impulso a enxada resvalava
sem obstaculo pelo solo, destruindo a herva má; Quaresma, furioso, a
arrancar torrões de terra daqui, dali, demorando-se muito em cada
arbusto; e, ás vezes, quando o golpe falhava e a lamina do instrumento
roçava a terra, a força era tanta que se erguia uma poeira infernal,
fazendo suppor que por aquellas paragens passara um pelotão de
cavallaria. Anastacio, então, intervinha humildemente, mas em tom
professoral:
--Não é assim, _seu majó_. Não se mette a enxada pela terra a
dentro. É de leve, assim.
E ensinava ao Cincinato inexperiente o geito de servir-se do velho
instrumento de trabalho.
Quaresma agarrava-o, punha-se em posição e procurava com toda a boa
vontade usal-o da maneira ensinada. Era em vão. O _flange_ batia na
herva, a enxada saltava e ouvia-se um passaro ao alto soltar uma piada
ironica: Bemtevi! O Major enfurecia-se, tentava outra vez, fatigava-se,
suava, enchia-se de raiva e batia com toda a força; e houve varias
vezes que a enxada, batendo em falso, escapando do chão, fel-o perder o
equilibrio, cahir, e beijar a terra, mãe dos fructos e dos homens. O
pince-nez saltava, partia-se de encontro a um seixo.
O Major ficava todo enfurecido e voltava com mais rigor e energia á
tarefa que se impuzera; mas, tanto é em nossos musclos firme a memoria
ancestral desse sagrado trabalho de tirar da terra o sustento de nossa
vida, que não foi impossivel a Quaresma acordar nos seus o geito, a
maneira de empregar a enxada vetusta.
Ao fim de um mez, elle capinava razoavelmente, não seguido, de sol a
sol, mas com grandes repousos de hora em hora que a sua idade e falta de
habito requeriam.
Ás vezes, o fiel Anastacio seguia-o no descanço e ambos, lado a lado,
á sombra de uma fructeira mais copada, ficavam a ver o ar pesado
daquelles dias de verão que enrodilhava as folhas das arvores e punha
nas cousas um forte accento de resignação morbida. Então, ahi por
depois do meio dia, quando o calor parecia narcotizar tudo e mergulhar
em silencio a vida inteira, é que o velho Major percebia bem a alma
dos tropicos, feita de desencontros como aquelle que se via agora, de um
sol alto, claro, olympico a brilhar sobre um torpor de morte, que elle
mesmo provocava.
Almoçavam mesmo no eito, comidas do dia anterior, aquecidas rapidamente
sobre um improvisado fogão de calháos, e o trabalho ia assim ate á
hora do jantar. Havia em Quaresma um enthusiasmo sincero, enthusiasmo de
ideologo que quer pôr em pratica a sua idéa. Não se agastou com as
primeiras ingratidões da terra, aquelle seu morbido amor pelas hervas
damninhas e o incomprehensivel odio pela enxada fecundante. Capinava, e
capinava sempre até vir jantar.
Esta refeição elle fazia mais demorada. Conversava um pouco com a
irmã, contava-lhe a tarefa do dia, consistindo sempre em avaliar a area
já limpa.
--Sabes, Adelaide, amanhã estarão as laranjeiras limpas, não ficará
nem mais uma touceira de matto.
A irmã, mais velha que elle, não partilhava aquelle seu enthusiasmo
pelas cousas da roça. Considerava-o silenciosa, e, se viera viver com
elle, não foi senão pelo habito de acompanhal-o. De certo, ella o
estimava, mas não o comprehendia. Não chegava a entender nem os seus
gestos nem a sua agitação interna. Porque não seguira elle o caminho
dos outros? Não se formara e se fizera deputado? Era tão bonito...
Andar com livros, annos e annos, para não ser nada, que doideira!
Scguira-o ao «Socego» e, para entreter-se, criava gallinhas, com
grande alegria do irmão cultivador.
--Está direito, dizia ella, quando o irmão lhe contava as cousas do
seu trabalho. Não vá ficares doente... Neste sol todo o dia...
--Qual, doente, Adelaide! Não estas vendo como essa gente tem tanta
saude por ahi... Se adoecem, é porque não trabalham.
Acabado o jantar. Quaresma chegava á janella que dava para o
gallinheiro e atirava migalhas de pão ás aves.
Elle gostava desse espectaculo, daquella luta encarniçada entre patos,
ganços, gallinhas, pequenos e grandes. Dava-lhe uma imagem reduzida da
vida e dos premios que ella comporta. Depois, fazia indagações sobre
a vida do gallinheiro:
--Já, nasceram os patos, Adelaide?
--Ainda não. Faltam oito dias ainda.
E logo a irmã accrescentava:
--Tua afilhada deve casar-se sabbado, tu não vaes?
--Não. Não posso... Vou encommodar-me, luxo... Mando um leitão e um
perú.
--Ora, tu! Que presente!
--Que é que tem? É da tradição.
Justamente estavam nesse dia assim a conversar os dous irmãos na sala
de jantar da velha casa roceira, quando Anastacio veiu avisar-lhes que
se achava um cavalheiro na porteira.
Desde que ali se installara, nenhuma visita batera á porta de Quaresma,
a não ser a gente pobre do logar, a pedir isso ou aquillo, esmolando
disfarçadamente. Elle mesmo não travara conhecimento com ninguem, de
modo que foi com surpreza que recebeu o aviso do velho preto.
Apressou-se em ir receber o visitante na sala principal. Elle já subia
a pequena escada da frente e penetrava pela varanda a dentro.
--Boas tardes, Major.
--Boas tardes. Faça o favor de entrar.
O desconhecido entrou e sentou-se. Era um typo commum, mas o que havia
nelle de extranho, era a gordura. Não era desmedida ou grotesca, mas
tinha um aspecto deshonesto. Parecia que a fizera de repente e comia, a
mais não poder, com medo de a perder de um dia para outro. Era assim
como a de um lagarto que enthezoura enxundia para o inverno ingrato.
Atravez da gordura de suas bochechas, via-se perfeitamente a sua
magreza natural, normal, e se devia ser gordo não era naquella idade,
com pouco mais de trinta annos, sem dar tempo que todo elle engordasse;
porque, se as suas faces eram gordas, as suas mãos continuavam magras
com longos dedos fusiformes e ageis. O visitante falou:
--Eu sou o Tenente Antonino Dutra escrivão da collectoria.
--Alguma formalidade? indagou medroso Quaresma.
--Nenhuma, Major. Já sabemos quem o senhor é; não ha novidade nem
nenhuma exigencia legal.
O escrivão tossiu, tirou um cigarro, offereceu outro a Quaresma e
continuou:
--Sabendo que o Major vem estabelecer-se aqui, tomei a iniciativa de vir
incommodal-o... Não é cousa de importancia... Creio que o Major...
--Oh! Por Deus, Tenente!
--Venho pedir-lhe um pequeno auxilio, um obulo, para a festa da
Conceição, a nossa padroeira, de cuja irmandade sou thesoureiro.
--Perfeitamente. É muito justo. Apezar de não ser religioso, estou...
--Uma cousa nada tem com a outra. É uma tradição do logar que devemos
manter.
--É justo.
--O senhor sabe, continuou o escrivão, a gente daqui é muito pobre e a
irmandade tambem, de forma que somos obrigados a appellar para a boa
vontade dos moradores mais remediados. Desde já, portanto, Major...
--Não. Espere um pouco...
--Oh! Major, não se incommode. Não é p'ra já.
Enxugou o suor, guardou o lenço, olhou um pouco lá fóra e
accrescentou:
--Que calor! Um verão como este nunca vi aqui. Tem-se dado bem, Major?
--Muito bem.
--Pretende dedicar-se á agricultura?
--Pretendo, e foi mesmo por isso que vim para a roça.
--Isto hoje não presta, mas noutro tempo!... Este sitio já foi uma
lindeza, Major! Quanta fructa! Quanta farinha! As terras estão
cançadas e...
--Que cançadas, seu Antonino! Não ha terras cançadas.... A Europa é
cultivada ha milhares de annos, entretanto...
--Mas lá se trabalha.
--Porque não se ha de trabalhar aqui tambem?
--Lá isso é verdade; mas ha tantas contrariedades na nossa terra
que...
--Qual, meu caro Tenente! Não ha nada que não se vença.
--O Sr. verá com o tempo, Major. Na nossa terra não se vive senão de
politica, fóra disso, ba-báo! Agora mesmo anda tudo brigado por causa
da questão da eleição de deputados...
Ao dizer isto, o escrivão lançou por baixo das suas palpebras gordas
um olhar pesquizador sobre a ingenua physionomia de Quaresma.
--Que questão é? indagou Quaresma.
O Tenente parecia que esperava a pergunta e logo fez com alegria:
--Então não sabe?
--Não.
--Eu lhe explico: o candidato do Governo é o Dr. Castrioto, moço
honesto, bom orador; mas entenderam aqui certos presidentes de Camaras
Municipaes do Districto que se hão de sobrepor ao Governo, só porque
o Senador Guaryba rompeu com o Governador: e--zás--apresentaram um tal
Neves que não tem serviço algum ao partido e nenhuma influencia... Que
pensa o Senhor?
--Eu... Nada!
O serventuario do fisco ficou espantado. Havia no mundo um homem que,
sabendo e morando no Municipio de Curuzú, não se incommodasse com a
briga ao Senador Guaryba com o Governador do Estado! Não era possivel!
Pensou e sorriu levemente. Com certeza, disse elle consigo, este
malandro quer ficar bem com os dous, para depois arranjar-se sem
difficuldade. Estava tirando sardinha com mão de gato... Aquillo devia
ser um ambicioso matreiro; era preciso cortar as azas daquelle
_estrangeiro_, que vinha não se sabe donde!
--O Major é um philosopho, disse elle com malicia.
--Quem me dera? fez com ingenuidade Quaresma.
Antonino ainda fez rodar um pouco a conversa sobre a grave questão,
mas, desanimado de penetrar nas tenções occultas do Major, apagou a
physionomia e disse em ar de despedida:
--Então o Major não se recusa a concorrer para a nossa festa, não é?
--De certo.
Os dous se despediram. Debruçado na varanda, Quaresma ficou a vel-o
montar no seu pequeno castanho, luzidio de suor, gordo e vivo. O
escrivão afastou-se, desappareceu na estrada, e o Major ficou a pensar
no interesse extranho que essa gente punha nas lutas politicas, nessas
tricas eleitoraes, como se nellas houvesse qualquer cousa de vital e
importante. Não atinara porque uma resinga entre dous figurões
importantes vinha pôr desharmonia entre tanta gente, cuja vida estava
tão fóra da esphera daquelles. Não estava ali a terra boa para
cultivar e criar: Não exigia ella uma ardua luta diaria? Porque não se
empregava o esforço que se punha naquelles barulhos de votos, de actas,
no trabalho de fecundal-a, de tirar della seres, vidas--trabalho igual
ao de Deus e dos artistas? Era tolo estar a pensar em governadores e
guarybas, quando a nossa vida pede tudo à terra e ella quer carinho,
luta, trabalho e amor...
O suffrageo universal pareceu-lhe um flagello.
O trem apitou e elle demorou-se a vel-o chegar. É uma emoção especial
de quem mora longe, essa de ver chegar os meios de transporte que nos
põem em communicação com o resto do mundo. Ha uma mescla de medo e
de alegria. Ao mesmo tempo que se pensa em boas novas, pensam-se tambem
más. A alternativa angustia...
O trem ou o vapor como que vem do indeterminado, do Mysterio, e traz,
além de noticias geraes, bôas ou más tambem o gosto, um sorriso, a
voz das pessoas que amamos e estão longe.
Quaresma esperou o trem. Elle chegou arfando e se extirando como um
reptil pela estação afóra á luz forte do sol no poente. Não se
demorou muito. Apitou de novo e sahiu a levar noticias, amigos,
riquezas, tristezas por outras estações além. O Major pensou ainda um
pouco como aquillo era bruto e feio, e como as invenções do nosso
tempo se afastam tanto da linha imaginaria da belleza que os nossos
educadores de dous mil annos atrás nos legaram. Olhou a estrada que
levava á estação. Vinha um sujeito... Dirigia-se para a sua casa...
Quem podia ser? Limpou o pince-nez e assestou-o para o homem que
caminhava com pressa... Quem era? Aquelle chapéo dobrado, como um
morrião... Aquelle fraque comprido... Passo miudo... Um violão! Era
elle!
--Adelaide está ahi o Ricardo.