--Cante uma de outro.
--Oh! por Deus, minha senhora! Eu só canto as minhas. O
Bilac--conhecem?--quiz fazer-me uma modinha, eu não aceitei;
você não entende de violão, seu Bilac. A questão não está em
escrever uns versos certos que digam cousas bonitas; o essencial
é achar-se as palavras que o violão pede e deseja. Por exemplo:
se eu dissesse, como em começo quiz, n'_O Pé_, uma modinha minha:
_o teu pé é uma folha de trevo_--não ia com o violão. Querem
ver? E ensaiou em voz baixa, acompanhando pelo instrumento:
_o--teu--pé--é--uma--folha--de--tre--vo_.
--Vejam, continuou elle, como não dá. Agora reparem:
_o--teu--pé--é--uma--uma--ro--sa--de--myr--rha_. É outra cousa, não
acham?
--Não ha duvida, disse a irmã de Quaresma.
--Cante esta, convidou o major.
--Não, objectou Ricardo. Está velha, vou cantar a _Promessa_,
conhecem?
--Não, disseram os dous irmãos.
--Oh! Anda por ahi como as _Pombas_ do Raymundo.
--Cante lá, Sr. Ricardo, pediu D. Adelaide.
Ricardo Coração dos Outros por fim afinou ainda uma vez o violão e
começou em voz fraca:
_Prometto pelo Santissimo Sacramento
Que serei tua paixão_...
--Vão vendo, disse elle num intervallo, quanta imagem, quanta imagem!
E continuou. As janellas estavam abertas. Moças e rapazes começaram a
se amontoar na calçada para ouvir o menestrel. Sentindo que a rua se
interessava Coração dos Outros foi apurando a dicção, tomando um ar
feroz que elle suppunha ser de ternura e enthusiasmo; e, quando acabou,
as palmas soaram do lado de fora e uma moça entrou procurando D.
Adelaide.
--Senta-te Ismenia, disse ella.
--A demora é pouca.
Ricardo aprumou-se na cadeira, olhou um pouco moça e continuou a
dissertar sobre a modinha. Aproveitando uma pausa, a irmã de Quaresma
perguntou á moça:
--Então quando te casas?
Era a pergunta que se lhe fazia sempre. Ella então curvava do lado
direito a sua triste cabecinha, coroada de magnificos cabellos
castanhos, com tons de ouro, e respondia.
--Não sei... Cavalcanti forma-se no fim do anno e então marcaremos.
Isto era dito arrastado, com uma preguiça de impressionar.
Não era feia a menina, a filha do General, vizinho de Quaresma. Era
até bem sympathica, com a sua physionomia de pequenos traços mal
desenhados e cobertos de umas tintas de bondade.
Aquelle seu noivado durava ha annos; o noivo, o tal Cavalcanti, estudava
para dentista, um curso de dous annos, mas que elle arrastava ha quatro,
e Ismenia tinha sempre que responder á famosa pergunta:--«Então
quando se casa»?--«Não sei... Cavalcanti forma-se para o anno e...»
Intimamente ella não se incommodava. Na vida, para ella, só havia uma
cousa importante: casar-se; mas pressa não tinha, nada nella a pedia.
Já agarrara um noivo, o resto era questão de tempo...
Após responder a D. Adelaide, explicou o motivo da visita.
Viera, em nome do pai, convidar Ricardo Coração dos Outros a cantar em
casa della.
--Papai, disse D. Ismenia, gosta muito de modinhas... do Norte; a
senhora sabe, D. Adelaide, que gente do Norte aprecia muito. Venham.
E para lá foram.