Marianna, decorridos dias, foi a Vizeu recolher a herança paterna. Em
proporção com o seu nascimento bem dotada a deixára o laborioso
ferrador. Afóra os campos, cujo rendimento bastaria á sustentação
d'ella, Marianna levantou a lage conhecida da lareira, e achou os
quatrocentos mil réis com que João da Cruz contava para alimentar as
regalias da sua decrepitude inerte. Vendeu Marianna as terras, e deixou
a casa a sua tia, que nascêra n'ella, e onde seu pae casára.
Liquidada a herança tornou para o Porto, e depositou o seu cabedal nas
mãos de Simão Botelho, dizendo que receava ser roubada na casinha em que
vivia, fronteira á Relação, na rua de S. Bento.
--Porque vendeu as suas terras, Marianna?--perguntou o prêso.
--Vendi-as, porque não faço tenção de lá voltar.
--Não faz?... Para onde ha de ir Marianna, indo eu degredado? Fica no
Porto?
--Não, senhor, não fico--balbuciou ella como admirada d'esta pergunta, á
qual o seu coração julgava ter respondido de muito.
--Pois então!
--Vou para o degredo, se v. s.^a me quizer na sua companhia.
Fingindo-se surprendido, Simão seria ridiculo aos seus proprios olhos.
--Esperava essa resposta, Marianna, e sabia que me não dava outra. Mas
sabe o que é o degredo, minha amiga?
--Tenho ouvido dizer muitas vezes o que é, senhor Simão... É uma terra
mais quente que a nossa; mas tambem lá ha pão, e vive-se...
--E morre-se abrazado ao sol doentio d'aquelle ceu, morre-se de saudades
da patria, morre-se muitas vezes dos maus tratos dos governadores das
galés, que tem um condemnado na conta de féra.
--Não ha de ser tanto assim. Eu tenho perguntado muito por isso á mulher
d'um prêso que cumpriu dez annos de sentença na India, e viveu muito bem
em uma terra chamada Solor, onde teve uma loja; e, se não fossem as
saudades, diz ella que não vinha, porque lhe corria melhor por lá a vida
que por cá. Eu, se fôr por vontade do senhor Simão, vou pôr uma lojinha
tambem. Verá como eu amenho a vida. Affeita ao calor estou eu; v. s.^a
não está; mas não ha de ter precisão, se Deus quizer, de andar ao tempo.
--E supponha, Marianna, que eu morro apenas chegar ao degredo?
--Não fallemos n'isso, senhor Simão...
--Fallemos, minha amiga, porque eu hei de sentir á hora da morte a
pesar-me na alma a responsabilidade do seu destino... Se eu morrer?
--Se o senhor morrer, eu saberei morrer tambem.
--Ninguem morre quando quer, Marianna...
--Oh! se morre!... e vive tambem quando quer... Não m'o disse já a
senhora D. Thereza?
--Que lhe disse ella?
--Que estava a passar quando v. s.^a chegou ao Porto, e que a sua
chegada lhe dera vida. Pois ha muita gente assim, senhor Simão... E mais
a fidalga é fraquinha, e eu sou mulher do campo, vezada a todos os
trabalhos; e, se fosse preciso metter uma lanceta no braço e deixar
correr o sangue até morrer, fazia-o como quem o diz.
--Oiça-me, Marianna, que espera de mim?
--Que hei de eu esperar!... Porque me diz isso o senhor Simão?
--Os sacrificios que Marianna tem feito e quer fazer por mim só podiam
ter uma paga, embora m'os não faça esperando recompensa. Abre-me o seu
coração, Marianna?
--Que quer que eu lhe diga?
--Conhece a minha vida tão bem como eu, não é verdade?
--Conheço, e que tem isso?
--Sabe que eu estou ligado pela vida e pela morte áquella desgraçada
senhora?
--E d'ahi? quem lhe diz menos d'isso?!
--Os sentimentos do coração só os posso agradecer com amizade.
--E eu já lhe pedi mais alguma coisa, senhor Simão?!
--Nada me pediu, Marianna; mas obriga-me tanto, que me faz mais infeliz
o pêso da obrigação.
Marianna não respondeu, chorou.
--E porque chora?--tornou Simão carinhosamente.
--Isso é ingratidão.... e eu não mereço que me diga que o faço infeliz.
--Não me comprehendeu... Sou infeliz por não poder fazêl-a minha mulher.
Eu queria que Marianna podésse dizer: «Sacrifiquei-me por meu marido; no
dia em que o vi ferido em casa de meu pae, velei as noites ao seu lado;
quando a desgraça o encerrou entre ferros, dei-lhe o pão, que nem seus
ricos paes lhe davam; quando o vi sentenciado á forca, endoideci; quando
a luz da minha razão me tornou n'um raio de compaixão divina, corri ao
segundo carcere, alimentei-o, vesti-o, e adornei-lhe as paredes nuas do
seu antro; quando o desterraram, acompanhei-o, fiz-me a patria d'aquelle
pobre coração, trabalhei á luz do sol homicida para elle se resguardar
do clima, do trabalho, e do desamparo, que o matariam...»
O espirito de Marianna não podia altear-se á expressão do prêso; mas o
coração sinil, esse adivinhava-lhe as ideias. E a pobre moça sorria e
chorava a um tempo. Simão continuou:
--Tem vinte e seis annos, Marianna. Viva, que esta sua existencia não
póde ser senão um supplicio occulto. Viva, que não deve dar tudo a quem
lhe não póde restituir senão as lagrimas que lhe eu tenho custado. O
tempo do meu desterro não póde estar longe; esperar outro melhor destino
seria uma loucura. Se eu ficasse na patria, livre ou prêso, pediria a
minha irmã que completasse a obra generosa da sua compaixão, esperando
que eu lhe désse a ultima palavra da minha vida. Mas não vá comigo á
África ou á India, que sei que voltará sósinha á pátria depois que eu
fechar os olhos. Se o meu degredo fôr temporario, e a morte me guardar
para maiores naufragios, voltarei á patria um dia. E preciso que
Marianna aqui esteja para eu poder dizer que venho para a minha familia,
que tenho aqui uma alma extremosa que me espera. Se a encontrar com
marido e filhos, a sua familia será a a minha. Se a vir livre e só, irei
para a companhia de minha irmã. Que me responde, Marianna?
A filha de João da Cruz, erguendo o olhos do pavimento, disse:
--Eu verei o que hei de fazer quando o senhor Simão partir para o
degredo....
--Pense desde já, Marianna.
--Não tenho que pensar... A minha tenção está feita...
--Falle, minha amiga, diga qual é a sua tenção.
Marianna hesitou alguns segundos, e respondeu serenamente:
--Quando eu vir que não lhe sou precisa, acabo com a vida. Cuida que eu
ponho muito em me matar? Não tenho pae, não tenho ninguem, a minha vida
não faz falta a pessoa nenhuma. O senhor Simão póde viver sem mim?
paciencia!... eu é que não posso...
Sosteve o complemento da ideia como quem se peja d'uma ousadia. O prêso
apertou-a nos braços estremecidamente, e disse:
--Irá, irá comigo, minha irmã. Pense muito no infortunio de nós ambos
d'ora em diante, que elle é commum, é um veneno que havemos de tragar
unidos, e lá teremos uma sepultura de terra tão pesada como a da patria.
Desde este dia, um secreto jubilo endoidecia o coração de Marianna. Não
inventemos maravilhas de abnegação. Era de mulher o coração de Marianna.
Amava como a fantasia se compraz de idear o amor d'uns anjos que batem
as azas de baile em baile, e apenas quedam o tempo preciso para se
fazerem vêr e adorar a um reflexo de poesia apaixonada. Amava, e tinha
ciumes de Thereza, não ciumes que se refrigeram na expansão ou no
despeito, mas infernos surdos, que não rompiam em lavareda aos labios,
porque os olhos se abriam promptos em lagrimas para apagal-a. Sonhava
com as delicias do desterro, porque voz humana alguma não iria lá gemer
á cabeceira do desgraçado. Se a forçassem a resignar a sua ingloria
missão de irmã d'aquelle homem, resignal-a-ia, dizendo: «Ninguem o amará
como eu; ninguém lhe adoçará as penas tão desinteresseiramente como o eu
fiz.»
E, comtudo, nunca vacillou em aceitar da mão de Thereza ou da mendiga as
cartas para Simão. A cada vinco de dôr que a leitura d'aquellas cartas
sulcava na fronte do prêso, Marianna, que o espreitava disfarçada,
tremia em todas as fibras do seu coração, e dizia entre si: «para que ha
de aquella senhora amargurar-lhe a vida!»
E amargurava acerbamente a desditosa menina!
Resurgiram n'aquella alma esperanças, que não deviam durar além do tempo
necessario para que a desillusão lhe acrisolasse o infortunio. Imaginara
ella a liberdade, o perdão, o casamento, a ventura, a corôa do seu
martyrio. As suas amigas matizavam-lhe a tela da fantasia, umas porque
não conheciam a atroz realidade das coisas, outras porque fiavam em
demasia nas orações das virtuosas do mosteiro. Se os vaticinios das
prophetisas se realisassem, Simão sahiria da cadêa, Thadeu de
Albuquerque morreria de velhice e de raiva, o casamento seria um acto
indisputavel, e o ceu dos desgraçados principiaria n'este mundo.
Porém Simão Botelho, ao cabo de cinco mezes de carcere, já sabia o seu
destino, e achára util prevenir Thereza, para não succumbir ao
inevitavel golpe da separação. Bem queria elle alumiar com esperanças a
perspectiva negra do degredo; mas froixos e frios eram os allivios em
que não era parte a convicção nem o sentimento. Thereza não podia sequer
illudir-se, porque tinha no peito um despertador que a estava acordando
sempre para a hora final, embora o semblante enganasse a condolencia dos
estranhos.
E então era o expandir-se em lastimas nas cartas que escrevia ao seu
amigo; invocações a Deus, e sacrilegas apostrophes ao destino; branduras
de paciencia e impetos de cólera contra o pae; o afferro á vida que lhe
foge, e súpplicas á morte, que a não livra das torturas da alma e do
corpo.
No termo de sete mezes o tribunal de segunda instancia commutou a pena
ultima em dez annos de degredo para a India. Thadeu de Albuquerque
acompanhou a Lisboa a appellação, e offereceu a sua casa a quem
mantivesse de pé a forca de Simão Botelho. O pae do condemnado, segundo
o assustador aviso que seu filho Manoel lhe dera, foi para Lisboa luctar
com o dinheiro e as ponderosas influencias que Thadeu de Albuquerque
grangeára na casa da supplicação e no desembargo do paço. Venceu
Domingos Botelho, e instigado mais do seu capricho, que do amor
paternal, alcançou do principe regente a graça de cumprir o condemnado a
sua sentença na prisão de Villa Real.
Quando intimaram a Simão Botelho a decisão do recurso e a graça do
regente, o prêso respondeu que não aceitava a graça; que queria a
liberdade do degredo; que protestaria perante os poderes judiciarios
contra um favor que não implorára, e que reputava mais atroz que a
morte.
Domingos Botelho, avisado da rejeição do filho, respondeu que fizesse
elle a sua vontade; mas que a sua victoria d'elle, sobre os protectores
e os corrompidos pelo ouro do fidalgo de Vizeu, estava plenamente
obtida.
Foi aviso ao intendente geral da policia, e o nome de Simão Botelho foi
inscripto no catalogo dos degredados para a India.