II.

O corregedor, n'esse mesmo dia, ordenou que se preparassem mulher e

filhas para no dia immediato sahirem de Vizeu, com tudo que podesse ser

transportado em cavalgaduras.

Vou transcrever a singela e dorida reminiscencia d'uma senhora d'aquella

familia, como a tenho em carta, recebida ha mezes:

«Já lá vão cincoenta e sete annos, e ainda me lembro, como se fossem

hontem passados os tristes acontecimentos da minha mocidade. Não sei

como é que tenho hoje mais clara a memoria das coisas da infancia.

Parece-me que, há trinta annos, me não lembravam com tantas

circumstancias e promenores.

Quando a mãe disse a mim e a minhas irmãs que preparassemos os nossos

bahus, rompemos todas n'um chôro, que irritou a ira do pae. As manas,

como mais velhas ou mais affeitas ao castigo, calaram-se logo: eu,

porém, que só uma vez e unicamente por causa de Simão, tinha sido

castigada, continuei a chorar, e tive o innocente valor de pedir ao pae

que me deixasse ir vêr o mano á cadêa antes de sahirmos de Vizeu.

Então fui castigada pela segunda vez e asperamente.

O criado, que levou o jantar á cadêa, voltou com elle e contou-nos que

Simão já tinha alguns moveis no seu quarto, e estava jantando com

exterior socegado. Áquella hora todos os sinos de Vizeu estavam dobrando

a finados por alma de Balthazar.

Ao pé d'elle, disse o criado que estava uma formosa rapariga da aldeia,

triste e coberta de lagrimas. Apontando-a ao criado que a observava,

disse Simão:--A minha família é esta.

No dia seguinte, ao romper da manhã, partimos para Villa Real. A mãe

chorava sempre; o pae, encolerisado por isso, sahiu da liteira em que

vinha com ella, fez que eu passasse para o seu logar, e fez toda a

jornada na minha cavalgadura.

Logo que chegamos a Villa Real, eram tão frequentes as desordens em

casa, á conta do Simão, que meu pae abandonou a familia, e foi sósinho

para a quinta de Montezellos. A mãe quiz tambem abandonar-nos, e ir para

os primos de Lisboa, a fim de solicitar o livramento do mano. Mas o pae,

que fizera uma espantosa mudança de genio, quando tal soube, ameaçou

minha mãe de a obrigar judicialmente a não sahir da casa de seu marido e

filhas.

Escrevia a mãe a Simão, e não recebia resposta. Pensava ella que o filho

não respondia: annos depois vimos entre os papeis de meu pae todas as

cartas que ella escrevêra. Ja se vê que o pae as fazia tirar no correio.

Uma senhora de Vizeu escreveu á mãe, louvando-a pelo muito amor e

caridade com que ella acudia ás necessidades de seu infeliz filho. Esta

carta foi-lhe entregue por um almocreve, senão teria o destino das

outras. Espantou-se minha mãe do conceito em que a tinha a sua amiga, e

confessou lhe que não o tinha soccorrido, porque o filho rejeitára o

pouco que ella quizera fazer em seu bem. A isto respondeu a senhora de

Vizeu que uma rapariga, filha d'um ferrador, estava vivendo nas

visinhanças da cadêa, e cuidava do prêso com abundancia e limpeza, e a

todos dizia que ali estava por ordem e á custa da senhora D. Rita

Preciosa. Accrescentava a amiga de minha mãe, que algumas vezes mandára

chamar a bella moça e lhe quizera dar alguns cosinhados mais exquisitos

para Simão, os quaes ella rejeitava, dizendo que o senhor Simão não

aceitava nada.

De tempos a tempos recebiamos estas novas, sempre tristes, porque, na

ausencia de meu pae, conspiraram, como era de esperar, quasi todas as

pessoas distinctas de Vizeu contra o meu desgraçado irmão.

A mãe escrevia aos seus parentes da capital, implorando graça regia para

o filho; mas aquellas cartas não sahiam do correio, e iam dar todas á

mão de meu pae.

E que fazia este, entretanto, na quinta, sem familia, sem gloria, nem

recompensa alguma a tantas faltas? Rodeado de jornaleiros, cultivava

aquelle grande montado, onde ainda hoje por entre os tojos e urzes que

voltaram com o abandono, se podem vêr reliquias das cêpas plantadas por

elle. A mãe escrevia-lhe lastimando o filho; meu pae apenas respondia

que a justiça não era uma brincadeira, e que na antiguidade os proprios

paes condemnavam os filhos criminosos.

Teve minha mãe a affoiteza de se lhe apresentar um dia, pedindo licença

para ir a Vizeu. Meu inexoravel pae negou-lh'a, e invectivou-a

furiosamente.

Passados sete mezes, soubemos que Simão tinha sido condemnado a morrer

na forca, levantada no local onde fizera a morte. Fecharam-se as

janellas por oito dias; vestimos todas de lucto, e minha mãe cahiu

doente.

Quando se isto soube em Villa Real, todas as pessoas illustres da terra

foram a Montezellos, a fim de obrigarem brandamente o pae a empregar o

seu valimento na salvação do filho condemnado. De Lisboa vieram alguns

parentes protestar contra a infamia que tamanha ignominia faria recahir

sobre a familia. Meu pae a todos respondia com estas palavras: «A forca

não foi inventada somente para os que não sabem o nome do seu avô. A

ignominia das familias são as más acções. A justiça não infama senão

aquelle que castiga.»

Tinhamos nós um tio-avô muito velho e venerando, chamado Antonio da

Veiga. Foi este quem fez o milagre, e foi assim. Apresentou-se a meu pae

e disse-lhe: Guardou-me Deus a vida até aos oitenta e tres annos.

Poderei viver mais dous ou tres? Isto nem já é vida; mas foi-o, e

honrada, e sem mancha até agora, e já agora ha de assim acabar; meus

olhos não hão de vêr a deshonra de sua familia. Domingos Botelho, ou tu

me promettes aqui de salvar teu filho da forca, ou eu na tua presença me

mato.--E dizendo isto, apontava ao pescoço uma navalha de barba. Meu pae

teve-lhe mão do braço, e disse que Simão não seria enforcado.

No dia seguinte, foi meu pae para o Porto, onde tinha muitos amigos na

Relação, e de lá para Lisboa[4].

Em principio de Março de 1805 soube minha mãe com grande prazer que

Simão fôra removido para as cadêas da Relação do Porto, vencendo os

grandes obstaculos que oppozera a essa mudança dos queixosos, que eram

Thadeu de Albuquerque, e as irmãs do morto.

Amor de Perdição: Memorias d'uma familia · 第 28 / 46 题