Não o deixaram continuar as lagrimas, nem depois a presença de Marianna.
Vinha ella pôr a mesa para a ceia, e quando desdobrava a toalha, disse
em voz abafada, como se a si mesma sómente o dissesse:
--É a ultima vez que ponho a mesa ao senhor Simão em minha casa!
--Porque diz isso, Marianna?
--Porque m'o diz o coração.
D'esta vez o academico ponderou supersticiosamente os dictames do
coração da moça, e com o silencio meditativo deu-lhe a ella a evidencia
anticipada do vaticinio.
Quando voltou com a travessa da gallinha, vinha chorando a filha de João
da Cruz.
--Chora com pena de mim, Marianna?--disse Simão enternecido.
--Choro, porque me parece que o não tornarei a vêr; ou, se o vir, será
de modo que oxalá que eu morresse antes de o vêr.
--Não será, talvez, assim, minha amiga...
--V. s.^a não me faz-uma coisa que eu lhe peço?...
--Veremos o que pede, menina.
--Não saia esta noite, nem ámanhã.
--Pede o impossivel, Marianna. Hei de sahir, porque me mataria se não
sahisse.
--Então perdôe a minha ousadia. Deus o tenha de sua mão.
A rapariga foi contar ao pae as intenções do academico. Acudiu logo
mestre João combatendo a ideia da sahida, com encarecer os perigos do
ferimento. Depois, como não conseguisse dissuadil-o, resolveu
acompanhal-o. Simão agradeceu a companhia, mas rejeitou-a com decisão. O
ferrador não cedia do proposito, e estava já preparando a clavina, e
arreçoando com medida dobrada a egua--para o que désse e viesse--dizia
elle, quando o estudante lhe disse que, melhor avisado, resolvêra não ir
a Vizeu, e seguir Thereza ao Porto, passados os dias da convalescença.
Facilmente o acreditou João da Cruz; mas Marianna, submissa sempre ao
que o seu coração lhe bacorejava, duvidou da mudança, e disse ao pae que
vigiasse o fidalgo.
Ás onze horas da noite ergueu-se o academico, e escutou o movimento
interior da casa: não ouviu o mais ligeiro ruido, a não ser o rangido da
egua na manjedoura. Escorvou de polvora nova as duas pistolas. Escreveu
um bilhete subscriptado a João da Cruz, e ajuntou-o á carta que
escrevêra a Thereza. Abriu as portadas da janella do seu quarto, e
passou d'alli para a varanda de pau, da qual o salto á estrada era sem
risco. Saltou, e tinha dado alguns passos, quando a fresta, lateral á
porta da varanda, se abriu, e a voz de Marianna lhe disse:
--Então adeus, senhor Simão. Eu fico pedindo a Nossa Senhora que vá na
sua companhia.
O academico parou, e ouviu voz intima que lhe dizia: «O teu anjo da
guarda falla pela bôca d'aquella mulher, que não tem mais intelligencia
que a do coração alumiado pelo seu amor.»
--Dê um abraço em seu pae, Marianna--disse-lhe Simão--e adeus... até
logo, ou....
--Até ao juizo final...--atalhou ella.
--O destino ha de cumprir-se... Seja o que o ceu quizer.
Tinha Simão desapparecido nas trevas, quando Marianna accendeu a lampada
do sanctuario, e ajoelhou orando com o fervor das lagrimas.
Era uma hora, e estava Simão defronte do convento, contemplando uma a
uma as janellas. Em nenhuma vira clarão de luz; luz só a do lampadario
do Sacramento se coava baça e pallida na vidraça d'uma fresta do templo.
Sentou-se nas escaleiras da igreja, e ouviu, ali immovel, as quatro
horas. Das mil visões, que lhe relancearam no atribulado espirito, a que
mais a miudo se repetia era a de Marianna supplicante com as mãos
postas; mas, ao mesmo tempo, cria elle ouvir os gemidos de Thereza,
torturada pela saudade, pedindo ao ceu que a salvasse das mãos de seus
algozes. O vulto de Thadeu de Albuquerque, arrastando a filha a um
convento, não lhe afogueava a sêde de vingança; mas cada vez que lhe
acudia á mente a imagem odiosa de Balthazar Coutinho, instinctivamente
as mãos do academico se asseguravam da existencia das pistolas.
Ás quatro horas e um quarto acordou a natureza toda em hymnos e
acclamações ao radiar da alva. Os passarinhos trinavam na cerca do
mosteiro melodias interrompidas pelo toque solemne das Ave-Marias na
torre. O horisonte passára, de escarlate a alvacento. A purpura da
aurora, como lavareda enorme, desfizera-se em particulas de luz, que
ondeavam no declive das montanhas, e se distendiam nas planicies e nas
varzeas, como se o anjo do Senhor, á voz de Deus, viesse desenrolando
aos olhos da creatura as maravilhas do repontar d'um dia estivo.
E nenhuma d'estas galas do ceu e da terra enlevava os olhos do moço
poeta!
Ás quatro horas e meia ouviu Simão o tinido de liteiras, dirigindo-se
áquelle ponto. Mudou de local, tomando por uma rua estreita, fronteira
ao convento.
Pararam as liteiras vasias na portaria, e logo depois chegaram tres
senhoras vestidas de jornada, que deviam ser as irmãs de Balthazar,
acompanhadas de dois mochilas com as mulas á rédea. As damas foram
sentar-se nos bancos de pedra, lateraes á portaria. Em seguida abriu-se
a grossa porta, rangendo nos gonzos, e as tres senhoras entraram.
Momentos depois viu Simão chegar á portaria Thadeu de Albuquerque
encostado ao braço de Balthazar Coutinho. O velho denotava quebranto e
desfallecimento a espaços. O de Castro-d'Aire, bem composto de figura e
caprichosamente vestido á castelhana, gesticulava com o aprumo de quem
dá as suas irrefutaveis razões, e consola tomando a riso a dôr alheia.
--Nada de lamurias, meu tio!--dizia elle--Desgraça seria vêl-a casada!
Eu prometto-lhe antes de um anno restituir-lh'a curada. Um anno de
convento é um optimo vomitorio do coração. Não ha nada como isso para
limpar o sarro do vicio em corações de meninas creadas á discrição. Se
meu tio a obrigasse, desde menina, a uma obediencia cega, têl-a-ia agora
submissa, e ella não se julgaria authorisada a escolher marido.
--Era uma filha unica, Balthazar!--dizia o velho, soluçando.
--Pois por isso mesmo--replicou o sobrinho--Se tivesse outra, ser-lhe-ia
menos sensivel a perda, e menos funesta a desobediencia. Faria a sua
casa na filha mais querida, embora tivesse de impetrar uma licença regia
para desherdar a primogenita. Assim, agora não lhe vejo outro remedio
senão empregar o cauterio á chaga; com emplastros é que não se faz nada.
Abriu-se novamente a portaria, e sahiram as tres senhoras, e após ellas
Thereza.
Thadeu enchugou as lagrimas, e deu alguns passos a saudar a filha, que
não ergueu do chão os olhos.
--Thereza...--disse o velho.
--Aqui estou, senhor--respondeu a filha, sem o encarar.
--Ainda é tempo--tornou Albuquerque.
--Tempo de quê?
--Tempo de seres boa filha.
--Não me accusa a consciencia de o não ser.
--Ainda mais?!... Queres ir para tua casa, e esqueceres o maldito que
nos faz a todos desgraçados?
--Não, meu pae. O meu destino é o convento. Esquecêl-o nem por morte.
Serei filha desobediente, mas mentirosa é que nunca.
Thereza, circumvagando os olhos, viu Balthazar, e estremeceu,
exclamando:
--Nem aqui!
--Falla comigo, prima Thereza?--disse Balthazar, risonho.
--Comsigo fallo! Nem aqui me deixa a sua odiosa presença?
--Sou um dos criados que minha prima leva em sua companhia. Dois tinha
eu ha dias, dignos de acompanharem a minha prima; mas esses houve ahi um
assassino que m'os matou. Á falta d'elles, sou eu que me offereço.
--Dispenso-o da delicadeza--atalhou Thereza com vehemencia.
--Eu é que me não dispenso de a servir, á falta dos meus dois fieis
criados, que um scelerado me matou.
--Assim devia ser--tornou ella tambem ironica--porque os covardes
escondem-se nas costas dos criados, que se deixam matar.
--Ainda se não fizeram as contas finaes..., minha querida
prima--redarguiu o morgado.
Este dialogo correu rapidamente, em quanto Thadeu de Albuquerque
cortejava a prioreza e outras religiosas. As quatro senhoras, seguidas
de Balthazar, tinham sahido do atrio do convento, e deram de rosto em
Simão Botelho, encostado á esquina da rua fronteira.
Thereza viu-o.... adivinhou-o, primeira de todas, e exclamou:
--Simão!...
O filho do corregedor não se moveu.
Balthazar, espavorido do encontro, fitando os olhos n'elle, duvidava
ainda.
--É crivel que esse infame aqui viesse!--exclamou o de Castro-d'Aire.
Simão deu alguns passos, e disse placidamente:
--_Infame..._ eu! e porquê?
--Infame, e infame assassino!--replicou Balthazar--Já fóra da minha
presença!
--É parvo este homem!--disse o academico--Eu não discuto com s. s.^a...
Minha senhora--disse elle a Thereza com a voz commovida e o semblante
alterado unicamente dos affectos do coração--Soffra com resignação, da
qual eu lhe estou dando um exemplo. Leve a sua cruz, sem amaldiçoar a
violencia, e bem póde ser que a meio caminho do seu calvario a
misericordia divina lhe redobre as forças.
--Que diz este patife?!--exclamou Thadeu.
--Vem aqui insultal-o, meu tio!--respondeu Balthazar--Tem a petulancia
de se apresentar a sua filha a confortal-a na sua malvadez! Isto é de
mais! Olhe que eu esmago-o aqui, su villão!
--Villão é o desgraçado, que me ameaça, sem ousar avançar para mim um
passo--redarguiu o filho do corregedor.
--Eu não o tenho feito--exclamou enfurecidamente Balthazar--por entender
que me avilto, castigando-o, na presença de criados de meu tio, que tu
pódes suppôr meus defensores, canalha!
--Se assim é--tornou Simão, sorrindo--espero nunca me encontrar de rosto
com s. s.^a. Reputo-o tão covarde, tão sem dignidade, que o hei de
mandar azorragar pelo primeiro ganha-pão das esquinas.
Balthazar Coutinho lançou-se de impeto a Simão. Chegou a apertar-lhe a
garganta nas mãos; mas depressa perdeu o vigor dos dedos. Quando as
damas chegaram a interpôr-se entre os dois, Balthazar tinha o alto do
craneo aberto por uma bala, que lhe entrára na fronte. Vacillou um
segundo, e cahiu desamparado aos pés de Thereza.
Thadeu de Albuquerque gritava a altos brados. Os liteireiros e criados
rodearam Simão, que conservava o dedo no gatilho da outra pistola.
Animados uns pelos outros e pelos brados do velho, iam lançar-se ao
homicida, com risco de vida, quando um homem, com um lenço pela cara,
correu da rua fronteira, e se collocou, de bacamarte aperrado, á beira
de Simão. Estacaram os homens.
--Fuja, que a égua está ao cabo da rua--disse o ferrador ao seu hospede.
--Não fujo... Salve-se, e depressa--respondeu Simão.
--Fuja, que se ajunta o povo, e não tardam ahi soldados.
--Já lhe disse que não fujo--replicou o amante de Thereza, com os olhos
postos n'ella, que cahira desfallecida sobre as escadas da igreja.
--Está perdido!--tornou João da Cruz.
--Já o estava. Vá-se embora, meu amigo, por sua filha lh'o rogo. Olhe
que póde ser-me util; fuja...
Abriam-se todas as portas e janellas, quando o ferrador se lançou na
fuga, até cavalgar a egua.
Um dos visinhos do mosteiro, que, em razão de seu officio, primeiro
sahiu á rua, era o meirinho geral.
--Prendam-no, prendam-no, que é um matador!--exclamava Thadeu de
Albuquerque.
--Qual?--perguntou o meirinho geral.
--Sou eu--respondeu o filho do corregedor.
--V. s.^a!--disse o meirinho espantado; e, approximando-se, accrescentou
a meia voz--venha, que eu deixo-o fugir.
--Eu não fujo--tornou Simão.--Estou prêso. Aqui tem as minhas armas.
E entregou as pistolas.
Thadeu de Albuquerque, quando se recobrou do spasmo, fez transportar a
filha a uma das liteiras, e ordenou que dois criados a acompanhassem ao
Porto.
As irmãs de Balthazar seguiram o cadaver de seu irmão para casa do tio.