do mez de maio do dito anno, na Villa de Chaves, nas pousadas do
licenciado Gaspar da Rocha Paes, vigario geral no temporal e espiritual
n'esta vigararia comarca da dita villa, pelo ill.^mo snr. D. fr.
Agostinho de Jesus, pela mercê de Deus e da santa sé apostolica,
arcebispo, senhor de Braga, primaz, etc. Presente elle appareceu o padre
João de Mattos, morador em a dita villa, o qual trouxe a mostrar a elle
vigario uma peça de _marfil_ (marfim), que mostrava ser de feição de uma
bezerrinha, e sómente lhe faltava as pernas, e braços que estavam
quebrados, e assim os corninhos espontados, o qual disse que a achára na
mão de André, moço de 16 annos, filho de João Rodrigues do Campo,
arrabalde d'esta villa; que por lh'a vêr na mão lh'a pediu que lh'a
mostrasse, o qual lh'a mostrou; e por a dita bezerrinha ser tal como
dito é, e além d'isso cheirar muito a almiscar, e parecer estar em
parte...[11], e lhe não parecer bem, lh'a trazia a mostrar por a pedir
ao dito moço André. O qual André presente disse que era verdade que
aquella peça, indo elle André hoje n'este dia a casa de Pero Fernandes,
escrevente d'esta villa, á escóla, para o ensinar a lêr, a achou debaixo
de uma arca, e ao tempo que a achou sem ninguem o vêr a guardou, e
levou, e andou mostrando a algumas pessoas entre as quaes foi ao dito
padre João de Mattos, e a Mathias de Barros cavalleiro d'esta dita
villa; e lh'a tomaram. E logo outro sim appareceu Pedro moço de 16
annos, filho do dito Pero Fernandes escrevente acima dito, e por elle
foi dito que era verdade que aquella bezerrinha elle dito Pedro a achára
na rua do Sol, d'esta villa, no meio da rua defronte da casa de
Francisco Borges, em que hora (_agora_) elle vive, que é de Diogo
Ferreira d'esta mesma villa, o que poderia haver um mez pouco mais ou
menos, e lh'a viu achar Lazaro, filho que ficou de Gaspar de Magalhães.
E depois de assim a achar a levára para casa como dito tem sem outra
cousa alguma, e a trazia em casa sem entender o que era; e andava ahi em
casa por detraz das arcas. E estando assim para se fazer este auto
chegou o padre Gaspar Dias, e o padre Antonio de Magalhães, ambos d'esta
dita villa, e disseram, que estando ambos juntos, e vindo pela porta do
dito Francisco Borges acima dito, estando Gaspar Teixeira Chaves á sua
janella, lhes disseram elles que se achára uma bezerra, não sabendo
onde, como na verdade não sabiam; e, estando n'esta pratica da dita
bezerra, disse uma moça que se chama Maria de Villar de Nantes, e criada
do sobredito Francisco Borges, e outra moça pequena, outro sim criada de
casa por nome Madanella, disse a grande rindo-se: _Senhores, isso é de
cá._ E elles ambos passaram seu caminho sem responder nada. E logo veio
atraz d'elles a dita moça Madanella, e elles a chamaram, e não quiz vir,
e foi a casa do dito Francisco Borges, e tornou logo a sahir, e veio ter
com elles ditos padres, e pediu a elle dito padre Antonio de Magalhães
que lhe desse a vaquinha, e elle lhe perguntou se era sua, e a dita moça
que sim era sua, que viera de Lisboa e que a trazia o menino na mão, e
que em algum tempo elle dito padre Gaspar Dias ouviu dizer aos
antepassados que uma Branca Manoel em Lisboa fôra queimada, a qual fôra
_bredona_ (?) de Violante Mendes mulher do dito Francisco Borges, e o
vinha denunciar e dizer. Estando assim elles ditos padres, presente elle
vigario, chegou a dita moça Madanella duas vezes, e na primeira disse a
elle vigario que a sobredita Violante Mendes sua senhora mandava pedir a
vaquinha que era do seu menino; e da segunda que tornou disse, que a
sobredita sua senhora a tornava a mandar que por amor de Deus lhe désse
a vaquinha que era do seu menino que a perdera havia quatro dias. E de
tudo mandou elle vigario fazer este auto, e assignou com os ditos padres
aos quaes todos tres deu juramento dos Santos Evangelhos que n'esta
parte tivessem todo o segredo como cousa do santo officio, e elles assim
o prometteram e juraram e assignaram que a tudo se achavam presentes ás
perguntas que se fizeram aos sobreditos moços, que elle vigario não quiz
estivessem presentes ao fazer do auto, nem que assignassem por não serem
capazes de segredo. E eu James de Moraes o escrevi, e a sobredita
vaquinha ficou em poder d'elle vigario. E eu sobredito escrevi.==_Rocha,
Gaspar Dias, Antonio de Magalhães, João de Mattos._»
Ahi está o corpo de delicto que levou á morte um homem e uma senhora que
tinham um filhinho, o qual brincava com uma bezerra de marfim sem pontas
nem pernas. Tres ungidos do Senhor, tres padres denunciantes lá estão na
gloria eterna revendo-se na bemaventarança das duas almas que elles
purificaram no fogo.
[11] Palavra inintelligivel: parece dizer degolada.
RANCHO DO CARQUEJA
Ha 153 annos que um bando de estudantes, em Coimbra, acaudilhado pelo
mais intrepido e de peores entranhas, começando por espancar os
archeiros e rondas nocturnas, acabou por matar quem lhe offerecesse
reacção. Chamavam-se _do_ e não _da Carqueja_, como escrevem todos os
que relembram a funesta existencia d'aquelles rapazes perdidos.
_Carqueja_ e _Estopa_ haviam sido, por aquelle tempo, dous facinorosos
de Vizeu, chefes dos salteadores. Em honra do primeiro, escolheram os
estudantes o sinistro baptismo do seu bando. E é de notar e deplorar que
alguns da quadrilha eram padres que cursavam theologia. Depois de
repetidas atrocidades, o governo, a rogos dos habitantes de Coimbra e
lentes da universidade, enviou a marchas forçadas tropa de infanteria
com alguns esquadrões que chegaram de madrugada e colheram de sobresalto
os criminosos.
Alguns, bem que não reagissem, entraram acutilados no carcere, e foram
depois morrer no Limoeiro, em Lisboa. Aqui damos a relação dos seus
nomes:
O capitão do bando era da Terra da Feira; chamava-se Francisco Jorge
Ayres. João Pedro Ludovice, natural de Lisboa; o padre Vicente Gomes
Alvares Lobo, do Algarve; Manoel Antonio Ramos, José Rodrigues Esteves,
José Antonio de Azevedo, Antonio da Costa e Silva, _o Pescada_; o padre
José da Silva Couto, Miguel Pereira Coelho, Roque Monteiro Paim, José de
Horta, D. Manoel Alexandre da Costa, todos de Lisboa; Jacintho de
Figueiredo, natural de Almeida; José Pereira Manojo, brazileiro; o padre
Francisco Pereira Goes, natural de Pereira; José da Cunha Borges, do
Alemtejo; Pedro Gomes Barbosa, de Salvaterra; Lourenço Pimenta, Antonio
Maceiro, Thomaz da Silva, João dos Santos, todos de Coimbra. Estes foram
os presos conduzidos a Lisboa, afóra um estudante de Aveiro, cujo nome
não sabemos, e um filho do confeiteiro de Loures, muito conhecido
n'aquelle tempo. Um dos mais façanhosos, Francisco de Sá, natural de
Evora, pôde evadir-se de Coimbra para aquella cidade, e d'alli para
Hespanha. O juiz dos orphãos de Evora, a quem fôra recommendada a
captura de Francisco de Sá, procedeu negligentemente, d'onde lhe
resultou ir por ordem de el-rei carregado de ferros para o Limoeiro.
O estudante Francisco Jorge Ayres, capitão da malta, foi degolado no
Pelourinho de Lisboa em junho de 1722.
Antonio da Costa e Silva, de alcunha _o Pescada_, e José de Horta
morreram na cadêa.
A maior parte dos outros cumpriu sentença de degredo.
Entre os presos havia um poeta, D. Manoel Alexandre da Costa, neto do
primeiro conde de Soure, filho de D. Rodrigo da Costa, viso-rei da
India. Este fidalgo, ao saber que seu filho fôra preso na cáfila dos
scelerados, adoeceu de vergonha, e morreu n'esse mesmo anno de 1722, aos
16 de novembro, quando o filho ainda estava no Limoeiro, esperando a
sentença.
O protector deste moço era o marquez de Marialva, a quem o estudante,
desde que o prenderam relatou em toantes, á moda do tempo, as suas
desventuras. É longo o poema, e fastidioso, sem impedimento do interesse
inspirado pela tragedia do assumpto. Não me dispenso, porém, de
trasladar as quadras que dizem mais ao intento. Refere o incidente
imprevisto da prisão:
......................
_Era, em fim, de madrugada,
a hora menos escura
em que o dia irresoluto
nem se esconde, nem se occulta,_
_Quando com bellicas vozes
pela destra mão avulsas,
pois a eloquencia de Marte
não tem lingua, e não é muda,_
_Se ouvem de uma, e outra parte
gemer as portas, e ruas,
em o concavo dos montes
o ar ferido retumba._
_Todos ás janellas chegam
com desordenada chusma,
quem nas janellas não cabe
talvez aos telhados suba._
_Quando vem de infanteria
uma bem formada turba
forte como portugueza;
mas tyranna como turca._
_Vem tambem destros ginetes
cujos pennachos, e trunfas
se tocavam das janellas
ao movimento das upas._
_Por outra parte a justiça
entre os soldados vem junta,
que o ser a justiça armada
não é só para a pintura._
_Das casas as portas tomam,
não de todas; mas de algumas,
pois só se emprega a vingança
onde se suspeita a culpa._
_Logo de vista tam nova
com diversas conjecturas
todo o prudente se admira,
todo o culpado se assusta._
_Que será, que não será,
todo o innocente pergunta;
não o pergunta o culpado
que a mesma consciencia accusa,_
_Quando para o desengano
de tudo o que se murmura,
a esquadra passa da porta
a guarnição que as occupa_
_Levando a baioneta
mettida, calçada a buxa,
muito valor, pouco termo,
pouca attenção, muita furia._
_Assim entram os soldados
pelas casas mais occultas,
dem-se á prisão repetindo
ainda quando nada escuta._
_Pois como vinham temendo
os do rancho, cada um cuida,
que cada taboa pregada
mil criminosos occupa._
_Não ha cozinha, ou armario,
nem ha chaminé, nem tulha
que logo se não despegue,
logo não se desentupa._
_Porém era muito cedo
sem que nenhum tal presuma,
pois a culpa obra-se sempre,
Que a pena espera-se nunca._
_Nas camas os acham todos:
mau é que o culpado durma,
porém quem se deita tarde,
claro está que não madruga._
_Alli sem trabalho os prendem;
porque alli ninguem repugna,
pois não tinham como os corpos
alli as espadas nuas._
_Querem fugir; mas não podem,
pois por militar industria,
como estão guardas ás portas
não ha por onde se fuja._
......................
Até aqui, não ha razão para grandes piedades; mas, ao diante, as trovas
exhoram a compaixão; e o caso foi que o marquez de Marialva salvou do
degredo o supplicante poeta; mas não pôde arrancar o viso-rei das presas
do opprobrio que o mataram.
Quem visse dezesete annos depois D. Manoel Alexandre da Costa, obeso
doutor em canones, prior da igreja de Santa Cruz no Minho, e principal
da santa igreja de Lisboa, devia lembrar-se do socio bastantemente
prendado do _rancho do Carqueja_, e recommendar á justiça de Deus os
juizes que degolaram Francisco Jorge Ayres, e absolveram o afilhado do
marquez, e sobrinho do segundo conde de Soure!...
FIM DO 1.º NUMERO