_Alma prestante, onde reside e impera
O Genio da Amizade,
Que a luminosa esfera
Deixou, para acudir á humanidade,
Sumida em pesadumes e agonias,
Em feia escuridade!
Alma onde o typo eterno não se encobre,
E que, n'estes d'egoismo ferreos dias,
O instante de ser util só vigias,
Sincera, affavel, nobre!
Acceita, em oblação a ti votado,
Ancioso de agradar-te, este traslado._
Henrique Ernesto d'Almeida Coutinho.
_O TRADUCTOR,_
Para perpetuar a gloria do sublime poeta que tanto enriqueceo a sua
patria e o mundo literario com o preciosissimo cabedal de suas
producções, bastaria esta de que emprehendemos e agora publicamos a
traducção. Sciencia dos tempos e dos costumes, vasta erudição, profundo
conhecimento do homem, variedade e magnificência de quadros, fecunda
elevação de pensamentos, lustre e vigor de poesia, sobresahindo por
effeito da mais acertada e judiciosa distribuição, eis os titulos com
que se engrandece este poema, onde lord Byron não houve mister longo
espaço para mostrar-se, immortal.
Não é raro tecerem os traductores sobejo encomio ainda a mediocres
originaes, quando com estes despendêrão vigilias e desvelos; mas nem por
isso receamos que, elogiando a lord Byron, nos accusem de
encarecimento ou de leviandade: as suas obras ahi estão bem patentes, e
a sua reputação é já colossal.
Todavia, notando a mui sincera affeição que consagramos a tão estremado
engenho, ninguem haja de persuadir-se que o avaliamos como isento de
toda a mácula. Por certo que lord Byron era homem, e o fragil da
humanidade transparece em algumas das suas producções, e ás vezes
procura brilhar em detrimento daquella gentil gravidade que mui bem
assenta nas Musas, e sem a qual desmentem ellas a sua origem celeste;
mas de semelhante desar campea livre o poema que apresentamos
traduzido.--Só de passagem mencionaremos um descomedido orgulho
nacional[1], um amor á liberdade, que por vezes degenera
em fanatismo: estes sentimentos os bebeo o poeta com o primeiro alimento
de sua infância, e, quando concentrados em justo limite, são nobres, e
longe estamos de criminá-los.
Não menos que lord Byron admiramos os grandes capitães Gregos e Romanos;
tambem nas escolas estudamos e traduzimos Nepote, Tacito, Tito-Livio,
&c. Todavia os heróes n'essas historias memorados viverão em tempos mui
diversos dos nossos, e diversissima foi a sua educação fisica e moral:
por tanto o joven enthusiasta hodierno que ambiciona a todo o custo
igualá-los, arrisca-se a cometter mil despropositos, e mesmo a ser
victima inutil de suas desattentadas proezas. Para morrer com gloria no
desfiladeiro de Thermópylas, cumpre, além de haver sido educado em
Esparta, ter á frente um Leonidas. A prudencia de Fabio transtornou os
planos de Annibal e salvou Roma, conseguindo aquillo mesmo que fôra
denegado ás fastuosas e arrogantes ousadias de Sempronio e de Flaminio.
Do sacrificio de Curcio, despenhando-se armado e com seu proprio cavallo
no boqueirão aberto por um terremoto em certa praça de Roma, que
proveito recolhêrão os concidadãos, a patria, ou a especie humana?
Curcio era pois um esquentado enthusiasta, ou antes um orate rematado. É
indubitavel que a cega ambição de figurar com heroismo Grego ou Romano,
associada ao sofrego ardor não sei de que liberdade turbulenta,
insidiosa, desmoralisadora, e de mais pernicioso effeito que qualquer
desmascarada tyrannia, tem excandescido bom numero de cabeças e avultou
de sobejo na mui abalisada revolução de França, que ainda hoje em
sangrentas paginas aterra a humanidade.--Talvez o amor que sempre
tributamos á verdade nos levou em demasia longe; mas como quer que seja,
não cessaremos de confessar que o sublimado engenho de lord Byron nos
penetra de admiração, e deixa, ao menos em nosso alvitre, o homem
justificado pelo poeta.
Quanto á nossa traducção, sobre diligenciarmos que portugueza fosse,
pozemos todo o cuidado em exprimir com clareza os pensamentos do poeta,
bem como em não deteriorar-lhes a nativa gala, que antes nos parece mais
pomposa n'este nosso fertil e sonoro idioma: entretanto não é por nossa
conta que deve correr a cabal decisão na materia, mas sim por conta de
mais competentes juizes, que, versados nas duas linguas, queirão dar-se
ao trabalho de cotejar o original com a versão.
Entre os nossos traductores poetas, alguns houve que gemêrão sob a
ferrenha tarefa de traduzir tragedias e longos poemas verso por verso;
mas que resultou de tanta diligencia? o substituirem, pela maior parte,
a versos fluentes e vigorosos uma enfiada de semsaborias, de durezas, de
enigmas, onde a graça e louçania dos originaes degenera em rugosa e
desalinhada velhice. Não negamos que isso tenha cabimento e deva
adoptar-se quando nenhum inconveniente o estorva; porém o verter
affincadamente poemas inteiros verso por verso, é uma curiosidade que em
muitos casos empece á nobre franqueza do estilo, á suavidade do metro, e
ao effeito geral dos quadros poeticos. Estamos persuadidos de que deve o
traductor de um poema ser sempre fiel á quantidade das idéas, não assim
á quantidade dos versos: tal foi o nosso systema de traducção no _Cêrco
de Corintho_.
Ardua e mui ardua emprêsa é traduzir poetas; bem o sabemos e
experimentamos. Se todavia para traduzir lord Byron de nada mais se
carecesse que de estar profundamente penetrado das extraordinarias e
sublimes bellezas com que este filho da immortalidade abrilhantou suas
obras, então nos lisonjeariamos de apresentar a nossos leitores uma
copia digna do original, e preciosa para elles.
[1] Este orgulho se deixa ver bem claro no _Childe Harold's
Pilgrimage_, cant. I.º est. 16, onde, entre outros motejos com que o
poeta pertende aviltar os Portuguezes, tambem lhes exprobra o serem
_A nation swoln with ignorance and pride._
Nação inflada d'ignorancia e orgulho.
Quererá isto dizer que a Inglaterra é um paiz todo cheio de sabios, e
onde o orgulho morre de frio, por falta de quem o aquartele?