Limours. Este lugar, naturalmente inculto, foi mui aformoseado pela
Condessa de Brionne, e perdeo parte da aspereza sem perder o caracter.
(Ibid. _vers. 16._)
E parecido
Comtigo Trianon, Deosa, que o reges, etc.
O pequeno Trianon, Jardim da Rainha, he modélo neste genero. Parece que
a riqueza foi nelle empregada sempre pelo gosto.
(Ibid. _vers. 20._)
Grato asylo d’hum Principe adoravel,
Tu, cujo nome de apoucada idéa, etc.
He o gracioso Jardim==Bagatela==composto com muita arte para o Conde de
Artois, e que tem a vantagem de se achar no meio de Bosque aprazivel,
que parece parte delle. O pavilhão he de huma elegancia rara. Não se
podérão nomear neste Poema outros agradaveis Jardins, feitos alguns
annos depois.
(_Pag. 29. vers. 8._)
A arte os prometta, os olhos os esperem:
Dá quem promette, quem espera goza.
Este ultimo hemistichio vem n’uma Epistola de Saint Lambert; a
reminiscencia o introduzio neste Poema.
(Ibid. _vers. 30._)
Entre Kent, e le Notre eu não decido, etc.
Kent, Architecto, e famoso Desenhador em Inglaterra, foi o primeiro
que tentou felizmente o genero livre, que principia a lavrar por toda
Europa. Os Chinezes são sem dùvida seus inventores.
(_Pag. 33. vers. 34._)
Attenta em Milton, etc.
Muitos Inglezes querem que esta bella descripção do Paraiso Terreal, e
alguns lugares de Spencer, dessem a idéa do Jardim irregular; e posto
que he provavel, como já se disse, que este genero venha dos Chins,
o Author antepoz a authoridade de Milton como a mais poetica. Além
disso, julgou que se olharia com gosto a magnificencia toda do maior
Rei do Mundo, todos os milagres das Artes em opposição com os feitiços
da Natureza recente, com a innocencia das primeiras Creaturas que a
aformoseárão, e com o attractivo dos primeiros amores. Não traduzio,
nem tão pouco imitou Milton, que devia, e podia descrever mais
longamente o Eden.
NOTAS DO SEGUNDO CANTO.
(_Pag. 59. vers. 25._)
Sempre verdes,
Oh Mouceaux, teus Jardins são disto exemplo.
O Jardim de Inverno do Duque de Chartres, he com effeito, hum
encantamento. A estufa especialmente he huma das melhores que se
conhecem.
(_Pag. 67. vers. 34._)
Moço Potaveri, tu disto és prova, etc.
Este o nome de hum Habitante de O-taiti, conduzido a França por
Bougainville, célebre pelo seu valor, e constancia em varias acções, e
gloriosamente conhecido quer por Navegante, quer por Militar. O passo
que se refere, do Mancebo Otaitiano, he mui notorio, e interessante. Só
o que fez o Author foi alterar o lugar da Sena, que fingio no Jardim
Real das Plantas. Quizera pôr em seus versos toda a sensibilidade que
respira nas poucas palavras que o Moço proferio, abraçando a arvore
que havia conhecido, e que lhe recordou a Patria.==He O-taiti==dizia
elle==, e olhando para as outras arvores,==Não he O-taiti.==Assim
estas arvores, e a sua patria se identificavão no seu espirito. Julgou
o Author que este lance tão terno, e tão novo, poderia ministrar hum
bello Episodio.
(_Pag. 69. vers. 2._)
Onde he sem pejo Amor, Amor sem crime.
Observou-se em todos os Povos, onde a Sociedade tem feito curtos
progressos, huma certa innocencia nos costumes, muito diversa do
resguardo, e do pejo que sempre acompanhão a virtude nas Mulheres das
Nações polidas. Na Ilha de O-taiti, na maior parte das outras do Mar
do Sul, em Madasgacar, etc. as casadas julgão dever-se exclusivamente
a seus maridos, e quebrão raras vezes a lealdade conjugal; mas as
solteiras não escrupulizão em se entregar até á paixão momentanea que
os homens lhes inspirão. Não se sujeitão nem nas palavras, nem nos
modos, nem no vestido ao que olhamos como deveres do sexo feminino. Mas
isto he nellas simplicidade, não he corrupção: não desprezão as normas
da decencia, ellas as ignorão. Nestes Paizes a Natureza he grosseira,
mas não depravada. Eis o que se intentou exprimir naquelle verso.
NOTAS DO TERCEIRO CANTO.
(_Pag. 77. vers. 2._)
Sei que em Harlem ha Curiosos tristes,
Que em seus Jardins co’as flores vão fechar-se.
Harlem he Cidade de Hollanda, onde se commercia muito em flores,
e sabe-se a que extravagancia tem chegado os Floristas no amor á
raridade, e ás posses exclusivas.
(_Pag. 79. vers. 17._)
Do cume dos Rochedos verdadeiros, etc.
Em geral, não se podem imitar bem os rochedos, nem todos os grandes
effeitos da Natureza. Ella não consente á Arte emprehender estes
atrevimentos, salvo quando combate com todos os esforços, e cabedais
do engenho, e da opulencia. Assim se formou, segundo os desenhos
de Robert, o soberbo Rochedo de Versailles, cujo effeito só o póde
adivinhar a fantasia, que o vê d’ante mão toucado de vistosas arvores,
e ornado de toda quanta verosemelhança, e belleza póde só dar-lhe o
tempo.
(Ibid. _vers. 21._)
Aos Campos de Midléton, ás Montanhas
De Dovedále te acompanho os passos,
A ellas, Whateli, comtigo subo.
São dois sitios de Inglaterra, famosos pelas fórmas pictorescas da sua
cadeia de rochedos, descriptos por Whateli, de que o Author, assim como
Morel, no seu formoso tratado dos Jardins, colhêrão algumas passagens,
tais como a cabana, e a ponte suspensas sobre despenhadeiros. Mas
Delille cuidou em exprimir de hum modo seu as sensações que nascem
destes aspectos medonhos.
NOTAS DO QUARTO CANTO.
(_Pag. 115. vers. 9._)
Eia, imita o Poussin, etc.
Este famoso quadro he certamente o melhor de todos os de Paizagens.
Senão soubessemos quanto a imaginação do Poussin se alimentou com as
producções dos grandes Poetas da Antiguidade, este painel bastaria
para o provar. Quasi todas as obras voluptuosas de Horacio tem o mesmo
caracter. Por toda a parte no seio dos prazeres, e das festas, aponta
ao longe a morte. Dai-vos pressa, (diz elle) quem sabe se á manhã
viveremos? Nosso fado he morrer; será forçoso deixar esta bella casa,
esta Mulher encantadora, e de todas as arvores que cultivais, só o
Cypreste, ai de mim! seguirá seu Senhor, mui pouco duravel.
Esta mesma filosofia, colhida dos antigos Poetas, he a que dictou a
Chaulieu aquelles versos cheios de melancolia tão doce:==
Musas, que neste retiro
Começastes meu prazer,
Plantas, que nascer me vistes,
Cedo me vereis morrer.
Estes contrastes de sensações, compostas de alegria, e tristeza,
agitando a alma em sentido contrario, fazem sempre huma impressão
profunda; e he o que obrigou o Author a colocar no meio das scenas
risonhas dos Jardins a vista melancolica dos sepulcros, e urnas
consagradas á Amizade, ou á Virtude.
(_Pag. 117. vers. 14._)
De envelhecidos Teixos lá debaixo
Não vês aquelles, etc.
Nestes versos, dedicados ás sepulturas humildes dos Camponezes, o
Author imitou alguns versos do Cimiterio de Gray.
(_Pag. 135. vers. 9._)
Mas longe os monumentos, cujo estrago, etc.
Chabanon, em huma linda Epistola, escrita a favor dos Jardins
regulares, notou antes do Author dos Jardins, que os monumentos velhos
despertavão memorias, vantagem que não tem ruinas fingidas. Esta idéa
se acha em outras obras, e particularmente na de Whateli: demais, ella
he tão natural, que era facil achalla. Talvez o não fosse exprimilla
bem, mórmente depois de Chabanon; mas se o Author se encontrou com
elle, o que todavia cuidou em evitar, confessa, e repete, que os seus
versos são posteriores aos daquelle Poeta.
(_Pag. 143. vers. 12._)
E tu, primariamente, Heroe Britanno, etc.
Todos tem noticia das viagens instructivas, e animosas do afamado,
e desditoso Cook; todos sabem a ordem que Luiz XVI. deo para se lhe
respeitar o navio em todos os Mares, ordem que honra igualmente as
Sciencias, este illustre Viajante, e o Rei, de que elle, por assim
dizer, se tornou vassallo, com este novo genero de beneficencia, e
protecção.
FIM DAS NOTAS.