As Aves, os Favonios, Flores, Musas.
Que novo objecto á lyra os sons me pede?
Ah! Quando a Terra despe antigos lutos
Nos campos, nas florestas, sobre os montes,
Quando tudo se ri, tudo se inflamma
De amor, e de esperança, e de ventura,
Outro c’o a fantazia em Febo acceza,
Abra os fastos da Gloria aos grandes nomes,
N’um carro fulminante alce o Triunfo,
Manche, ensanguente as mãos na taça horrivel
Do vingativo Atrêo: sorrio-se Flora,
Vou cantar os Jardins, dizer qual arte
Em terreno loução, dispoem, regùla
As flores, a corrente, a relva, as sombras.
Tu, que o vigor, e a graça entrelaçando,
Dás ao canto didáctico energia,
De Lucrecio na voz, se outr’hora, oh Musa,
As austeras lições amaciaste;
Se pôde o seu Rival (sem que nos labios
A linguagem dos Numes desluzisse)
Ao laborioso arado unir o metro;
Vem mais fertil ornar, mais rico assumpto,
Assumpto amavel, que tentou Virgilio.
Mãos não lancemos de atavio estranho;
Das minhas mesmas flores vou croar-me:
Qual pura luz, que bella nuvem doira,
A expressão tingirei na côr do objecto.
Arte innocente, que em meus versos canto,
Origem teve nos cerúleos dias,
Nas Primavéras do recente Globo.
Apenas o Homem submettêra os campos
Á cultura efficaz, pôz mil disvelos
De viçósa porção no trato, e mimo,
Alinhou para si com leis, e industria
Plantas selectas, escolhidas flores.
De Alcino o luxo, o gosto, ainda rude
Punha a curto vergel módico enfeite;
Eis com arte maior, mais sumptuosa
Jardins nos ares Babylonia ostenta.
Os Latinos Heróes, de Marte os Filhos,
Depois que Roma agrilhoava o Mundo,
Davão repouso ameno á gloria, ao raio,
Em frescos Hortos, que a Victoria ornára.
Habitava os jardins outr’hora o Sabio,
Doutrinando os Mortaes mais ledo que hoje.
Quando a Sabedoria Elysios teve,
Ereis vós, Dons do Céo, talvez Palacios?
Não: vós ereis hum prado, hum rio, hum bosque
De imperturbavel paz ditoso abrigo,
Puras delicias, que a virtude anhéla.
Corra-se pois, que he tempo, o novo espaço:
FILIPPE, e o bello assumpto a voz me alentão.
Para aformosear simples terrenos
Não insulteis co’a pompa a Natureza;
Este emprego requer sisudo Artista,
Parco em dispendios, na invenção profuso;
Jardim, menos fastoso que elegante,
Jardim com mais belleza que atavío,
Parece aos olhos meus hum amplo quadro.
Sede Pintor: o campo, os seus matizes,
Os reflexos da luz, da sombra as massas,
As estações, e as horas, variando
O gyro do anno, o circulo diurno;
Ricos esmaltes de cheirosos prados,
Dos oiteiros o alegre, o verde forro,
Aguas, boninas, arvores, penedos:
Eis os vossos pinceis, têas, e côres.
Podeis crear: a Natureza he vossa,
E dóceis para vós os Elementos.
Mas antes de plantar, antes que encete
Instrumento imprudente o seio á Terra,
Para dar aos jardins mais linda fórma
Observai, reflecti, sabei de que arte
Se imita, se arreméda a Natureza.
Não tendes vezes mil em ermos sitios
De repente encontrado aquellas vistas,
Que as plantas, que os sentidos vos suspendem,
E que em meditações quietas, longas
Enlevão manso, e manso a fantazia?
Tudo o melhor senhoreai c’o a mente,
Dos campos aprendei a ornar os campos.
Lugares, que sutil decóra o gosto,
Olhai tambem; nos escolhidos quadros
Ainda há que escolher; por vós se admire
De Chantilli magnifica elegancia,
Que de Heróes em Heróes, de Idade a Idade
Ganha novo esplendor. Belœil, a hum tempo
Campestre, apparatoso, e tu que ainda
Ufano Chanteloup, te desvaneces
De teu grande Senhor com o desterro;
Todos vós alternais o bem dos olhos.
Qual purpureo botão, mimoso, e breve,
Timido precursor da Quadra bella,
O amavel Tivoli, de fórma estranha
Á França descobrio ténue modélo.
Montreuil as Graças desenhárão rindo,
Maupertuis, le Desert, com que alegria,
Auteuil, Rincy, Limours, quão docemente
Nas vossas lindas, arejadas ruas
Olhos se embebem, se extravião passos!
Do grande Henrique a veneravel Sombra
Ama ainda Navarra, e parecido
Comtigo Trianon, Deosa, que o reges,
Une a graça, o recreio á magestade,
Se adorna para ti, por ti se adorna.
Grato asylo d’hum Principe adoravel,
Tu, cujo nome de apoucada idéa
He indigno de ti; lugar vistoso,
Quanto lhe devo a teu Senhor, offrece:
Hum plácido retiro, hum ocio lédo.
Bemfeitor de meus versos, de meus dias,
Na eleição de atilados Escritores,
Em jardim, que do Pindo as rosas vestem,
Inclue a Musa minha, e brando a acolhe.
Junto ao Lyrio soberbo, e magestoso
Assim cresce a violeta humilde, e escura.
De illustres Vates não illustre socio,
Ah! se coubera em mim cantar como elles,
Pintára os teus jardins, pintára o Nume,
Que os habita, que os honra; o gosto, as artes,
As virtudes, a gloria, os bens que o seguem,
O ladeão em ti. Lugar formoso,
Sê tu sua ventura. Eu se algum dia
Findar, por graça delle, amena estancia,
Mais bella a tornarei co’a bella imagem
Do alto meu Protector; quero que sejão
Minhas primeiras flores seu tributo.
Para o busto real cultivo, enlaço
Em virentes festões o loiro, o myrto,
Tão caros aos Bourbons, e se o repouso,
A liberdade, as sombras me inspirarem,
Ao bemfazejo Heroe te sagro, oh lyra.
Fallei desses lugares deleitosos,
Que a arte deve imitar: convem que falle
Dos escolhos que a mesma evitar deve.
O engenho imitador tambem se engana.
Não dê belleza ao chão, que o chão não queira,
A paragem conheça antes de tudo,
Do sitio adore o Genio, o Deos consulte:
Impunemente as leis não se lhe aggravão.
Nos Campos, todavia, a cada instante,
Menos audaz que estranho em fantasias,
Tudo altera, e confunde Artista inerte,
E desnaturaliza, e perde tudo;
Com absurda eleição mil graças liga:
Encantavão na Italia, em França enjoão.
O que o terreno teu sem custo adopte
Reconhece, e depois te apossa delle.
Isto ainda he melhor que a Natureza,
Mas isto mesmo he ella, isto he perfeito
Quadro brilhante, que não tem modélo.
Dos Berghems, dos Poussins tal foi a escolha,
De ambos estuda as producções divinas,
E o muito que o pincel aos campos deve,
Arte cultivadora, agradecida,
Nos jardins restitua á Natureza.
Os terrenos agora se examinem,
E que lugar se apraz das leis, que traças.
Houve tempo fatal em que Arte infensa,
Guerra aos mais bellos sitios declarando,
Enchendo os valles, arrazando os montes,
Formou de chão gentil planicie ingrata.
Hoje, rural Tyranno, outro Artificio
Quer, por contrario abuso, erguer montanhas,
Valles quer profundar. Longe os excessos,
Longe as lidas, e ardis: tudo he baldado
Contra intrataveis, repugnantes serros;
E sobre terra igual montinho humilde
Cuida ser pictoresco, e move a riso.
Queres a teu suor lugar propicio?
Foge as mui desiguaes, os muito planos
Campos, e serras. Eu tomara os sitios
Onde sem altivez fosse eminente
A rico valle matizado oiteiro.
Não tendo insipidez, lá tem brandura
O solo complacente, he alto, he secco,
Estéril não, não rispido: caminhas;
Obedece o horizonte, ergue-se a Terra,
Ou a Terra se abate, aperta, estende:
Luzem de passo a passo encantos novos.
Dos Gabinetes no silencio triste,
De compasso na dextra, embora ordene,
Artifice vulgar a symmetria
D’enfadoso jardim, confie embora
O Geometrico plano ao papel frio.
Tu vai ver em si propria a Natureza.
O lapis maneando, alli copìa
Este aspecto, estes longes, esta altura,
Meios advinha, obstáculos presente:
Só a difficuldade he Mãi de assombros,
E o chão de menos graça havella póde,
He nu? Florestas a nudez lhe amparem.
He coberto? Os machados vão despillo.
Humido? Em lagos de cristal pomposo,
Em ribeiras fecundas, transparentes
Se converta, se aclare essa agua impura.
Por trabalho feliz corrige a hum tempo
Melhora as aguas, o terreno, os ares:
He árido talvez? Procura, sonda,
Torna ainda a sondar, não te enfasties:
Póde ser que, em trahir-se vagarosa,
A agua de rebentar esteja a ponto.
Tal de hum tenaz esforço eu mesmo anciado,
Morna individuação maldigo, entejo,
Mas de estéril objecto aborrecido
Idéa graciosa eis surge, eis salta:
O verso resuscita, e facil corre.
Inda mais doces que estes ha cuidados,
Arte existe inda mais encantadora.
Falle-se ao coração, não basta aos olhos.
As invisiveis relações conheces
Desses corpos sem alma, e dos que sentem?
Das aguas, prados, selvas tens ouvido
A calada eloquencia, a voz occulta?
Todos estes effeitos deves dar-nos.
Do alegre ao melancolico, e do nobre
Ao engraçado, os transitos sem conto
Sempre me aprazem, me cativão sempre.
Une, simples, e grande, forte, e brando,
Todo o matiz, que a todo o gosto agrade.
O Pintor enriqueça alli a idéa,
A santa Inspiração turbe o Poeta.
Alli remansos d’alma o Sabio goze,
Memorias o ditoso alli desfrute,
De lagrimas se farte o miserando.
Mas a audacia he commum, e o siso he raro.
Graça ás vezes se crê a extravagancia.
Evita que os effeitos, mal unidos,
De incoherentes imagens formem cáhos;
Vê que as contradicções não são contrastes.
Estes paineis de natural pintura
Requerem longo espaço; em quadro estreito
Não vás aprisionar montanhas, bosques,
Nem lagos, nem ribeiras. He costume
Zombar desses jardins, paródia absurda
Dos rasgos que a atrevida Natureza
No seu grande espectáculo derrama;
Jardins, em que Arte rude, e inverosimil
Hum Paiz todo n’uma geira encerra.
Em vez deste montão confuso, inerte,
Varía objectos, ou lhe altera a face.
Perto, longe, patentes, quasi occultos,
Revezem todos mil diversas vistas.
Dos effeitos seguintes a incerteza
Grato desassocego aos olhos deixe,
Ornamentos o gosto emfim coloque,
Imprevistos jamais em demasia,
Jámais em demasia annunciados.
Presta sobre maneira o movimento;
Sem a doce magia, a elle annexa,
Em lethargo recae a alma ociosa.
Sem elle, por teus campos enfadonhos
Em gyro casual vão sempre os olhos.
Citarei outra vez altos Pintores?
Lá diffunde o pincel pródigo, e fertil
Móveis objectos sobre o panno immovel:
O rio foge, o vento encurva os ramos,
Globos de fumo das Aldêas sobem,
Os Gados, os Pastores brincão, danção.
Cuida em te apoderar deste segredo,
Dispoem sem parcimonia arbustos dóces,
Arvores brandas, cuja afavel coma
Das virações ao hálito obedece.
Sejão quaes forem, tu, Cultor, venera
A vacilante, undisona verdura,
Tolhe, que o ferro a Natureza ultraje,
Ella c’o a mestra mão como desenha
Desta parte os carvalhos, desta os olmos!
Olha como do tronco até aos ramos,
Dos ramos té ás folhas desparzido
Da Mãi universal benigno influxo;
Vai das undulações dar-lhe a molleza.
Porém golpes crueis... vedai tal crime,
Correi, Nynfas da selva... ah! Q’he de balde,
O córte cerceou-lhe a gala, o viço.
Já na cópa vivaz não oiço ao longe
Correr os Aquilões, bramir na rama,
Affastar-se, expirar. Tácitos, frios,
Mortos do ferro os vegetaveis Entes,
Delle semelhão rispideza immovel.
Ás plantas deixa, pois, tremor suave
Nos quadros teus, do movimento amigos:
Faze fugir, ferver, saltar as aguas.
Vês estes valles, solidões, florestas?
Por varios sitios de diversos gados.
A nédia multidão se envie, e alongue.
Além vejo a cabrinha roedora
Pender do cume de remotas penhas,
Aqui mil cordeirinhos melindrosos
Soltão queixumes, que de serro a serro
Vai éco em molles sons amiudando.
Nestes, que as aguas da collina sorvem,
Prados lustrosos, sobre as mãos se estende,
E ruminando jaz o Boi pesado,
Em quanto generoso, altivo, accezo,
O filho do Tridente, o Marcio Bruto
Ostenta, vicejando, em pingues pastos,
O indómito vigor, e o brio agreste.
Quanto me atrahe, me regozija, quanto
A audaz agilidade, o gesto activo!
Ou elle, usado ás fluviais correntes,
Sobre ellas se arremesse, estremecendo,
E luctando depois, c’os pés sacuda
As ondas, que murmurão, que branqueão;
Ou atravez dos prados salte, e fuja;
Ou, longa crina errante aos ventos dada,
Brotando os olhos fogo, as ventas fumo,
Bello de orgulho, e amor, voe ás amadas.
Sumio-se já, e a vista ainda o segue.
O thesoiro exhaurindo á Natureza,
Assim terrenos, vistas, e agua, e sombras
Dão ás paizagens movimento, e vida.
Porém se o movimento encanta os olhos,
De liberdade hum ar não menos querem.
O limite aos jardins fique indeciso;
Ou com arte se esconda, ou se disfarce.
Não ha mais que esperar? Vôa o feitiço.
Com certo dissabor o fim se tóca
De huma estancia aprazivel: cedo enfada,
E irrita finalmente; alem dos muros,
Importuna barreira, inda se ideão
Lugares mais gentis, mais attractivos,
E a alma inquieta desencanta os olhos.
Quando nossos Avós, á guerra affeitos,
Seus campos em castellos convertião,
Cada qual em munida, enorme torre
Preso vivia por viver seguro.
Mas hoje de que servem taes muralhas,
Que o temor inventou, mantem o orgulho?
A estes, que prendendo outr’hora a vista,
A vista duramente entristecião,
Prefere o gosto verdejantes muros,
Muros tecidos de espinhoso enredo,
Muros, por onde a mão, tremendo, colhe
A rosa inculta, a amóra ensanguentada.
Mas jardim limitado inda me ancêa.
Surja-se em fim de hum circulo tão breve
A genero mais vasto, e mais formoso,
De que hoje Ermenonville he só modélo.
Os jardins para si chamavão campos,
Vão nelles os jardins entrar agora.
Do cimo desses montes, donde os olhos
Paizagem dilatada abração, medem,
A madre Natureza ao Genio disse:
Os thesoiros, que vês, são teus: envoltos
Na rude pompa, na opulencia bruta,
Os quadros meus tua destreza implorão.
Ella diz, elle vôa: em toda a parte
Esquadrinha esta massa, onde repousão,
Onde dormindo estão bellezas cento.
Do valle á serra, da floresta ao prado
Vai retocando os quadros, que varía.
Dos olhos a sabor, une, e desune,
Illumina, escurece, occulta, ou mostra:
Não destróe, não compoem, corrige, apura,
O esboço aperfeiçoa á Natureza.
Carrancudo terror já despem rochas,
O bosque alegre adóça, encurta as sombras;
Hia perder-se hum rio: eis o encaminhão;
De hum lago se apodera a mão geitosa,
De cristalina fonte se enriquece.
Quer, e veredas mil subito correm
A demandar, cingir, prender os membros,
Por aqui, por alli soltos, dispersos,
Os membros, que assombrados, que attrahidos
Da engenhosa união, do nó, que os junta,
Formão de cem porções hum todo insigne.
Talvez, campestre Artifice, te espantem
Estes grandes trabalhos. Entra os nossos
Idosos parques; de huma vez contempla
Apuros vãos, dispendiosos nadas;
As estacadas vê, regos, e tanques.
Preço menor do que a minucias coube
Para ornar o que hum dia apraz somente,
Póde aformosear hum campo immenso.
Fallaz, e sem sabor magnificencia,
Cahe ante esta arte, e por milagre della
A cara Patria minha se transforme
Toda em vasto jardim, n’um Eden novo!
Se não ousas tentar esta carreira,
Ao menos, franqueando o teu circuito,
De aspectos opulentos o engrandece.
De hum valle, hum serro, huns agradaveis longes
Ajunta posse alhêa á posse tua:
Rege c’oa vista, pelos olhos gosa.
Os varios, favoraveis accidentes,
Com que innumeros campos se distinguem,
Une principalmente a teus plantios.[1]
Aqui jaz hum lugar, que cingem bosques,
Acolá torreões Cidades croão,
E a grimpa azul, ferindo ao longe os olhos,
Vai sumir pelos Ceos o agudo extremo.
Hum rio omitirei, e as margens suas?
Após fugazes vélas corre a vista.
Ilhas ás vezes sahem do vitreo seio,
Ponte arqueada outr’hora o furta aos olhos.
Se os mares espaçosos descortinas,
Offrece, mas varía a grave scena.
Mal se divise aqui por entre as folhas,
Huma abóbada além, qual no remate
De tubo extenso, aos olhos o apresente
Em fundo de odoriferas latadas;
Nas voltas de florente bosquezinho
Aqui se encontra o mar, alli se perde:
Eis sùbito apparece em toda a sua
Fervente, rugidora immensidade.
Folgue a attenção nestes semblantes vários;
Mas com mesquinhas mãos (cumpre que o diga)
Os Homens, Natureza, o Tempo, as Artes
Nos cercão de tão ricos accidentes.
Oh Planicies da Grecia! Ausonios Campos!
Lugares divinais, inspiradores,
Sempre caros ao genio! Ah! quantas vezes
Embebido n’um mágico horisonte,
O pintor vê, se inflamma, e toma o lapis,
E debuxa esses longes, essas ilhas,
Esse pégo, esses portos, esses montes,
Torrados de volcões, e já fecundos;
As lavas delles, que ameação, fervem,
Palacios, que em ruinas de outros surgem,
Hum novo Mundo que do velho assoma
Nestes de Terra, e Mar longos tormentos.
Ah! Eu inda não vi essa risonha,
Essa encantada estancia, onde mil vezes
Soou do Mantuano a voz divina,
Mas, pelo Vate, pelo Vate o juro,
Heide, Apenino, transcender teus cumes,
E cheio do seu nome, e de seus versos,
Lêlos naquelles amorosos sitios,
Sitios, cópia do Ceo, que os inspirárão.
De encantadoras margens namorado,
Por fóra ingratos campos tens sómente
Em vez de aspectos que interessem a alma?
De estranha vista, que atedía o gosto,
Vinguem-te objectos de mais bella escolha.
Aprende a deleitar-te em teu recinto,
Sê o emblema do Sabio independente,
Que entra em si mesmo, e que se apraz comsigo.
Nesse asylo fiel nos entranhemos.
Todavia em lugares onde a Terra
De aspectos variados mais abunde,
Os thezoiros da vista he bem que poupes,
E seja leve gyro o custo delles.
A arte os prometta, os olhos os esperem;
Dá quem promette, quem espera goza.
Releva, que enfeitices, não que assombres.
Entre minhas lições tambem quizera
Duas artes de effeitos encontrados:
Huma os olhos adverte, outra os saltêa.
Mas antes de dictar preceitos novos,
Dois generos, ha tempo émulos ambos,
Disputão nossos vótos. Hum presenta
De regular desenho a ordem grave,
Aos campos dá bellezas que ignoravão,
De pompa desusada os atavia,
E ás arvores poem leis, põe freio ás ondas;
Brilha entre Escravos, Déspota orgulhoso:
He mais em magestade, em riso he menos.
Da Natureza respeitoso Amante,
O outro lhe ajusta comedido enfeite,
Trata benignamente os feiticeiros
Caprichos seus, o seu desleixo nobre,
O passo irregular, e extrahe com arte
Lindezas da desordem, té do acaso.
Cada qual tem seu jus, nenhum se exclua;
Entre Kent, e le Notre eu não decido.
Ambos tem leis, tem graças: hum creou-se
Para Grandes, e Reis: oh Reis! oh Grandes,
Sois á magnificencia condemnados.
Em torno a vós o esforço, o extremo, o apuro
De alto poder se espera; alli queremos
Que em prodigios, o luxo, o gosto, as artes
Excitem pasmos, embriaguem vistas.
Rebelde a Natureza á Industria cede;
Mas deve grão triunfo honrar a Industria;
Ella em seu esplendor tem seus direitos,
He huma usurpadora, e lhe compete
Á força de grandeza obter desculpa.
Longe, pois, os Jardins desengenhosos,
Insulsa Estancia, de que o Dono insulso
As arvores garridas fôfo exalta.
Os pequenos salões bem decotados,
A extrema symmetria escrupulosa,
Passeios, onde nunca solitaria,
Alameda não ha, que irmãa não tenha;
Caminhos degostosos, enjoados
Da obediencia ao cordel, os seus canteiros
Bordados, e os seus tenues fios de agua;
Das arvores algumas torneadas
Em vasos, em pyramides, em globos,
E alçados bem na base os Pastorinhos.
Gabe o seu luxo pobre: eu anteponho
Hum campo bruto a seu jardim tristonho.
Distante destes minimos portentos,
Segue meu vôo á patria dos prestigios,
Vê Versailles, Marly, pomposos, lédos,
Onde Luiz, e a Natureza, e a Arte
Em tanta cópia desparzirão graças.
Que afoito resplandece alli o engenho!
Alli tudo he grandeza, he tudo encanto,
São de Alcina os jardins, de Armida os Paços,
Antes os de hum Heróe, que inda procura
Vencer, domar obstaculos, sublime
Em seu retiro, em seu repouso, e sempre
Caminha, de milagres circundado.
Aquellas aguas vês, a terra, os bosques?
Submettidos tambem, seu jugo adorão.
Das arvores á verde arquitectura
Olha com que elegancia estão cazados
De fórma singular Palacios doze!
Vê bronzes, que respirão, vê correntes
Que, soltas da repreza, esbravejando,
Em grossos borbotões de fofa espuma
Cahem, e se estendem por canaes soberbos;
Em lustrosa espadana além se espalhão,
Em pavêas brilhantes cá se elevão,
E nos benignos ares incendidas
De hum sol immaculado, eis chovem gotas
Côr de oiro, de safira, e de esmeralda.
Selvas, por onde absorto me extravio,
Os Sátyros, os Faunos vos povoão,
Em vós Diana influe, e Citheréa;
He cada bosquezinho em vós hum Templo,
Cada mármore hum Deos. Luiz, folgando
Do pezo marcial, do horror da Guerra,
Como que nesta, a Jove idónea Estancia,
Convida todo o Olympo a seus festejos.
Nestes grandes effeitos he que importa
Que a arte se esmere, avulte, e brilhe, e encante.
Facilmente porém o assombro péza.
Louvo o Orador que erguidos pensamentos
Na luz, na pompa, na cadencia envólve,
Mas he curto prazer, e o deixo, e corro
A escutar corações na voz de amigos;
Mármores, bronzes, que alardêa o luxo,
Arte ostentosa em breve os olhos cança.
Mas as correntes, o arvoredo, as sombras,
Este luxo innocente, ah! não fatiga,
Não fatiga jámais. Deos mesmo aos homens
Traçou este modélo. Atenta em Milton.
Quando essa eterna Mão, que rege tudo,
Aos primeiros Mortais guarida aprésta,
Regulares caminhos abre acaso,
Talvez cativa na carreira as ondas?
De improprias, de forçadas vestiduras
Cobre a infancia do Mundo, a Primavera
Recemnascida? Não, sem arte alguma,
E sem constrangimento, a Natureza
Estreou, exhaurio delicias puras,
Delicias puras, que nem ha na idéa.
O misto amavel de planicie, e monte,
Livres, e mollemente errando as aguas,
Veredas tortuosas, e indecisas,
Gratas desordens, novidades gratas,
Aspectos, onde os olhos mal sabião
Escolher, preferir, tudo alongava,
Entretinha o prazer na variedade.
Sobre viçoso esmalte aveludado
Mil arvores, mil plantas, mil arbustos,
Destes lugares ondeante adorno,
Iman da vista, do sabor, e olfato,
Em grupos elegantes, movediços,
Em natural, dispersa negligencia,
Já se fugião, já se avisinhavão.
Seu brando movimento ao longe ás vezes
Inopinada scena aos olhos dava;
Ou com pendor gentil curvando a rama,
Aos passos vinhão pôr suave estorvo;
Ou sobre as frontes em festões pendião,
Ou, na passagem, lhe entornavão flores.
Lindos Bosques direi de tenras plantas,
Em latadas, e abóbadas travando
Troncos florentes, e florentes braços?
Lá de imaginações, queridas, ternas,
Cheios a mente, o coração, e os olhos,
Deo Eva ao bello Amante a mão mimosa,
E córou como a Aurora ás portas de oiro.
A Natureza toda os afagava,
O Céo c’o a luz, com seu murmureo as ondas;
Tremendo a Terra, lhes sentia os gostos;
Favonio aos écos os suspiros dava;
O Arvoredo rugia, e curva a Rosa,
Cedia ao tóro seus perfumes todos.
Oh ventura inefavel, Par tranquillo!
Feliz quem, como vós, nos seus amados,
Bonançosos jardins, longe dos males
Que a Soberba atormentão, vive rico
De flores, frutos, innocencia, e gosto!
FIM DO CANTO PRIMEIRO.
NOTAS DE RODAPÉ:
[1] Vem no Diccionario de Sousa, e a harmonia, e necessidade do termo
animou-me a adoptallo, parecendo-me todavia que os Camponezes o usão. A
palavra _Paizagens_, de cuja pureza duvidei, acha-se em bons Escritores
nossos, sendo hum delles Rodrigues Lobo, para mim de tanta decisão como
os melhores.
[Illustração]
LES JARDINS, POÈME,
CHANT SECOND.