É quasi impossivel coordenar um catalogo completo dos _Fados_ (musica)
hoje mais ou menos vulgarisados em Portugal.
Succedem-se uns aos outros. Apparecem, alguns d’elles gosam de certa
popularidade, e demoram-se até que um novo _Fado_ lh’a roube ou pelo
menos cerceie; outros não encontram ecco no gosto publico, passam e
esquecem rapidamente.
O catalogo alphabetico, que em seguida publicamos, abrange, ainda
assim, mais de 100 _Fados_.
As indicações bibliographicas, que pudemos reunir, são por vezes
deficientes, mas algumas não deixarão de ser interessantes.
De muitos _Fados_ se ignora o nome do auctor.
A este respeito baldamos longas pesquizas e aturados esforços, mas
tivemos de resignar-nos a mencionar apenas o titulo dos _Fados_ por não
haver meio de descobrir quaes foram os seus auctores.
É possivel que, n’uma nova edição, logrêmos preencher algumas lacunas.
Sempre que dissermos _Fados_, deve entender-se que são as composições
musicaes d’este nome; quando se trata apenas da cantiga ou lettra,
temos o cuidado de o fazer sentir para evitar equivocos.
Como entre a entrega do manuscripto ao editor e a publicação do livro
mediaram largos mezes, pudemos addicionar a este capitulo alguns fados
que foram publicados ou reeditados entretanto; bem como a noticia de
outros que chegaram ao nosso conhecimento, e varias indicações que
encontramos na imprensa relativas ao assumpto.
* * * * *
Posto isto, segue o catalogo.
=Açoriano= (Fado)
Pelo actor Roldão. Editora a livraria Avellar Machado; Lisboa.
=Albertina= (Fado)
Editor Raul Venancio, rua do Ouro, Lisboa.
=Alcantara= (Fado d’)
O sr. Fernando Diniz, professor lisbonense de guitarra, recolhe todos
os _Fados_ que vae ouvindo.
Possue uma collecção de mais de 60, mas não sabe o nome dos auctores de
muitos d’elles.
Só por este colleccionador é que tive noticia do _Fado d’Alcantara_.
=Alegre= (Fado)
Auctora, Theodolinda E. Silva.
Recolhido pelo sr. Fernando Diniz na sua collecção, manuscripta, de
_Fados_.
=Algarve= (Fado do)
Musica de Alberto de Moraes; lettra de Bernardo de Passos.
Lettra:
Meu doce fado, és tão triste
Como á noite a voz do mar;
Tão triste, que a quem te canta
Dás vontade de chorar.
Eu não sei quem fez o fado,
Mas tenho d’isto a certeza:
Quem lhe deu esta tristeza,
Amou e não foi amado.
Se um dia a trança te ardesse
Nas chammas do teu olhar,
Nem talvez todo o meu pranto
Pudesse o fogo apagar.
Nada maior do que o ceu,
Que é immenso como o espaço,
Pois o ceu cabe em teus olhos
E tu cabes n’um abraço.
Teu chorar é uma aurora
E dizes que soffres tanto...
Mais triste do que o teu pranto
É meu rir a toda a hora.
Nos braços da cruz morreu
Por sina o proprio Jesus.
E eu morro longe dos teus,
Sendo tu a minha cruz.
Editores d’este _Fado_: Benjamin & Filgueiras, Lisboa.
=Alijó= (Fado de)
Recolhido pelo sr. Fernando Diniz na sua collecção, manuscripta, de
_Fados_.
=Amanhã= (=O=) Fado.
Este _Fado_ era cantado pelo actor Queiroz na revista do anno de 1895,
_Retalhos de Lisboa_, por Eduardo Schwalbach Lucci.
Foi lithographada a musica na officina da rua das Flores, 13, Lisboa.
Basta citar uma ou duas copias para dar idéa da intenção do titulo:
De navios é preciso
Nossa esquadra guarnecer.
Amanhã se trata d’isso,
Hoje ha muito que fazer.
É força tomar juizo,
As finanças recompor.
Hoje não, oh que maçada!
Amanhã, se faz favor.
=Amphiguri= (Fado)
Publicado no _Cancioneiro de musicas populares portuguezas_, fasciculo
49.
=Anadia= (Fado)
Este _Fado_ nem foi composto pelo penultimo conde de Anadia, como muita
gente suppõe, nem teve por berço a villa da Anadia.
Testemunha contemporanea (o fallecido Severo Ernesto dos Anjos)
contou-me uma vez que o titulo d’este _Fado_ lhe adveio de ter sido
offerecido em Lisboa áquelle titular por um musico, de que me disse o
nome, que infelizmente esqueci.
Vem publicado no 5.º fasciculo do _Cancioneiro de musicas populares_,
e ahi se diz que «é uma das musicas no estylo moderno, do genero, mais
distincta e não monotona.»
Incluido nas collecções das casas Lambertini, Sassetti, etc. de Lisboa,
e da casa Eduardo da Fonseca, do Porto.
O conde de Anadia viveu na bohemia elegante, mas não cantava o _Fado_,
e supponho que não tocava guitarra.
=Antonino= (Fado)
Recolhido pelo sr. Fernando Diniz na sua collecção, manuscripta, de
_Fados_.
=Armada= (Fado da)
Este _Fado_ foi aproveitado por Freitas Gazul na revista de Souza
Bastos _Sal e pimenta_. Cantava-o actriz Carmen Cardoso, applicando-lhe
quadras allusivas aos vehiculos do empresario Jacinto, que então
faziam carreiras nas ruas de Lisboa. Por este motivo se lhe ficou
chamando tambem _Fado do Jacinto_.
Vide _Jacinto_.
=Artilheiro= (Fado)
Vide _Fado Robles_.
=Até Chora!= (Fado)
Composição de Julio Neuparth.
=Atroador= (Fado)
Incluido na 1.ª série de _Fados_ da casa Sassetti, de Lisboa, e na
collecção da casa Eduardo da Fonseca, do Porto.
=Ballada= (Fado)
Original de Militão Lucio Garcia Coelho, professor de piano em Lisboa.
=Beira= (Novo Fado da)
Recolhido pelo sr. Fernando Diniz, professor de guitarra, na sua
collecção.
=Bohemio= (Fado)
De Reynaldo Varella. Editado no Porto, para piano, por Eduardo da
Fonseca.
Lettra:
Guitarra, minha guitarra,
Vamos correr esse mundo.
Será, vendo-te a meu lado,
Meu pesar menos profundo.
Quando eu gemer tu suspira,
Sorrirás quando eu sorrir.
Havemos assim, guitarra,
Prazer e dor compartir.
Quando a saudade da amante
Vier meus olhos turvar,
Tu cantarás, e cantando
Minha dor has de acalmar.
Entre as folhas orvalhadas
Dormem as rosas e os lirios.
Não dorme quem tem amores,
Porque amores são martyrios.
=Branco e Negro= (Fado do)
Recolhido pelo sr. Fernando Diniz na sua collecção, manuscripta, de
_Fados_.
=Brazileiro= (Fado)
Recolhido pelo sr. Fernando Diniz na sua collecção, manuscripta, de
_Fados_.
=Brilhante= (Fado)
Canto nacional para piano por N. S. Propriedade do auctor. Lith. R. das
Flores--Lx.ᵃ.
=Brisa= (=A=) Fado
Composição de Francisco Jorge de Sousa Bahia, professor de musica em
Lisboa.
=Brisa e Rosa= (Fado da)
Recolhido pelo sr. Fernando Diniz na sua collecção, manuscripta, de
_Fados_.
=Campestre= (Fado)
Incluido (com o n.º 23) na 2.ª serie de _Fados_ da casa Sassetti.
Publicado no _Cancioneiro de musicas populares portuguezas_, fasciculo
33.
=Cantadores= (Fado dos)
Incluido (com o n.º 22) na 2.ª serie de _Fados_ da casa Sassetti.
=Carmona= (Fado)
Incluido (com o n.º 20) na 2.ª serie de _Fados_ da casa Sassetti.
Publicado no _Cancioneiro de musicas populares portuguezas_, fasciculo
62.
=Carriche= (Fado de)
Pequena povoação da freguezia do Lumiar, arrabalde de Lisboa, Carriche
é um sitio muito frequentado por occasião das esperas de touros, posto
já o fosse mais, quando ali havia, ao fundo da calçada, o _Hotel de
Nova Cintra_, com uma bella horta para comesainas ao ar livre. Hoje o
dono do _Hotel_ veio estabelecer-se no Campo Grande. No sitio, apenas
restam algumas tascas, que ainda assim fazem bom negocio em noitadas de
touros, e que são habitualmente visitadas pelos saloios que ali passam.
=Cascaes= (Fado)
Muito vulgarisado. Incluido (com o n.º 18) na 2.ª serie de _Fados_
da casa Sassetti, e na collecção de 8 _Fados_ da casa Lambertini.
Publicado no _Cancioneiro de musicas populares portuguezas_, fasciculo
56.
Cascaes é a praia aristocratica de Portugal; a praia da côrte.
=Cascos de rolhas= (Fado de)
Incluido (com o n.º 27) na 3.ª serie de _Fados_ da casa Sassetti.
=Casino Lisbonense= (Fado do)
Original de João Maria dos Anjos.
Veja pag. 68 d’este livro.
[Illustração: O guitarrista João Maria dos Anjos]
=Cega= (Fado da)
Recolhido pelo sr. Fernando Diniz na sua collecção, manuscripta, de
_Fados_.
=Cegos= (Fado dos)
Incluido (com o n.º 17) na 2.ª serie de _Fados_ da casa Sassetti.
=Celta= (Fado do)
Publicado no _Cancioneiro de musicas populares portuguezas_, fasciculo
72.
=Cezaria= (Fado da)
Este _Fado_ para guitarra foi dedicado por Ambrosio Fernandes Maia,
como já dissemos, a uma rapariga de nome Maria Cezaria, continuadora
das tradições fadistas da Severa.
A ella se refere a ultima das seguintes glosas de um _Fado_ moderno:
Quando a Severa cantava,
Dizem os _faias_ antigos
Que a pedido dos amigos
Grande copasio empinava.
Sem isso bem não cantava,
Não _trinava_ com paixão;
Mas se via um cangirão
Dizia, ao som do fadinho:
--Venha lá mais um copinho
_D’esse vinho de tostão_.
E houve ainda outra _canaria_
Que tambem fazia o mesmo
E bebia sempre a esmo,
De fórma extraordinaria.
Chamava-se ella Cezaria
E era como a toutinegra,
Que canta sempre com regra
Tendo vinho ou agua-pé,
Pois já dizia Noé:
_Só o vinho nos alegra._
(Transcriptas do _Almanach da Severa_ para 1902).
Chegou! chegou!