Roteiro do caminho novo da cidade do Rio de Janeiro para as Minas.
Partindo da cidade do Rio de Janeiro por terra com gente carregada, e
marchando á Paulista, a primeira jornada se vai a Irajá; a segunda ao
engenho do Alcaide Mór, Thomé Corrêa; a terceira ao porto do Nobrega
no Rio Iguassú, aonde ha passagem de canôas, e saveiros; a quarta ao
sitio, que chamão de Manoel do Couto.
E quem vai por mar e embarcação ligeira, em hum dia se põe no porto
da Freguezia de Nossa Senhora do Pilar: e em outro, em canôa, subindo
pelo Rio de Morobai acima, ou hindo por terra, chega pelo meio dia ao
referido sitio do Couto.
Deste se vai a cachoeira do pé da serra, e se pousa em ranchos. E
daqui se sóbe á serra, que são duas boas legoas: e descendo o cume, se
arrancha nos pousos, que chamão Frios. No dito cume faz hum taboleiro
direito em que se póde formar hum grande batalhão: e em dia claro, he
sitio bem formozo, e se descobre delle o Rio de Janeiro, e inteiramente
todo o seu reconcavo.
Dos pousos frios se vai á primeira roça do Capitão Marcos da Costa: e
della em duas jornadas á segunda roça que chamão do Alferes.
Da roça do Alferes, em huma jornada se vai ao Páo Grande, roça que
agora principia, e dahi se vai pousar no mato ao pé de hum morro, que
chamão Cabarú.
Deste morro se vai ao famozo Rio Parahyba, cuja passagem he em canôas.
Da parte d’áquem está huma venda de Garcia Rodrigues, e ha bastantes
ranchos para os passageiros: e da parte d’além está a casa do dito
Garcia Rodrigues, com larguissimas roçarias.
Daqui se passa ao Rio Parahibuna em duas jornadas: a primeira no mato,
e a segunda no porto, onde ha roçaria, e venda importante, e ranchos
para os passageiros de huma e outra parte. He este rio pouco menos
caudaloso que o Parahiba: passa-se em canôa.
Do Rio Parahibuna fazem duas jornadas á Roça do contraste Simão
Pereira, e o pouso da primeira he no mato.
Da roça do dito Simão Pereira se vai á de Mathias Barboza: e dahi á
roça de Antonio de Araujo: e desta á roça do Capitão José de Souza:
donde se passa á roça do Alcaide Mór Thomé Corrêa: e desta á de Manoel
de Araujo. E em todas estas jornadas se vai sempre pela visinhança do
Parahibuna.
Da roça do dito Manoel de Araujo, se vai a outra rocinha do mesmo.
Desta rocinha se passa á primeira roça do Sr. Bispo: e dahi á segunda
do dito.
Da segunda roça do Sr. Bispo fazem huma jornada pequena, á borda do
campo, á roça do Coronel Domingos Rodrigues da Fonseca.
Quem vai para o Rio das Mortes, passa desta roça á de Alberto Dias:
dahi á de Manoel de Araujo, que chamão da Resaca, e desta á ponta do
morro, que he arraial bastante, com muitas lavras, donde se tem tirado
grande copia de ouro: e ahi está hum fortim, com trinheiras, e fosso,
que fizérão os Emboabas, no primeiro levantamento. Deste lugar se vai
jantar ao arraial do Rio das Mortes.
E quem segue a estrada das Minas Geraes, da roça sobredita de Manoel de
Araujo da Resaca do Campo vai á roça, que chamão de João Baptista: dahi
á de João da Silva Costa, e desta á roça das Congonhas, junto ao Rodejo
da Itatiaja: da qual se passa ao campo do Ouro Preto, aonde ha varias
roças, e de qualquer dellas he huma jornada pequena ao arraial do Ouro
Preto, que fica mato dentro, onde estão as lavras do ouro.
Todas as referidas marchas faráõ distancia de oitenta legoas a respeito
dos rodeios, que se fazem em razão dos muitos, e grandes morros, e por
rumo de Norte a Sul, não são mais que dous grãos de distancia ao Rio
de Janeiro: porque o Ouro Preto está em vinte e hum grãos, e o Rio das
Velhas estará em vinte, pouco mais ou menos. E todo o dito caminho se
póde andar em dez até doze dias, indo escoteiro quem fôr por elle.
Do campo do Ouro Preto ao Rio das Velhas, são cinco jornadas, pousando
sempre em roças.