Do caixeiro do engenho.
O que aqui se dirá não pertence ao caixeiro da cidade, porque este
trata só de receber o assucar, já encaixado, de o mandar ao Trapiche,
de o vender ou embarcar, conforme o senhor do engenho o ordenar, e tem
livro da razão de dar e haver, ajusta as contas, e serve de agente,
contador, procurador, e depositario de seu amo; ao qual, se a lida he
grande, da-se soldada de quarenta ou cincoenta mil réis. Fallo aqui do
caixeiro que encaixa o assucar, depois de purgado. E sua obrigação he
mandar tirar o assucar das formas, estando já purgado, e enxuto, em
dias claros e de sol; assistir quando se mascava, e que o reparte com
fidelidade entre os lavradores e o senhor do engenho; e tira o dizimo,
que se deve a Deos, e a vintena, ou quinto que pagão os que lavrão em
terras do engenho, conforme o concerto feito nos arrendamentos, e o
estilo ordinario da terra, o qual em varios lugares he diverso; e tudo
assenta, para dar conta exactamente de tudo. A elle tambem pertence
levantar as caixas, e manda-las barrear nos cantos, encaixar e mandar
pilar o assucar, com a divisão do branco, macho, batido, e mascavado;
fazer as caras e os fechos, quando assim lh’o encommendarem os donos
do assucar; finalmente, pregar e marcar as caixas, e guardar o assucar
que sobejou, para seus donos, em lugar seguro e não humido, e os
instrumentos de que usa. Entrega as caixas, quando se hão de embarcar,
com ordem de quem as arrecada, ou como dono dellas, ou porque as
alcançou por justiça, como muitas vezes acontece, fazendo os credores
penhora no assucar dos devedores, antes que sáhia do engenho, e de tudo
pedirá recibo e clareza, para poder dar conta de si a quem lh’a pedir.
A soldada do caixeiro, nos engenhos maiores, he de quarenta mil réis,
e se feitoriza alguma cousa na parte do dia ou da noite, dão-se-lhe
cincoenta mil réis: nos engenhos menores, dão trinta mil réis.