MOIRO E CHRISTÃ

O pobre moiro enamorou-se

D'Ely, môça christã, sendo filho do Emir...

Tamanha dor sentiu, que o misero exilou-se,

Como se alguem podesse á propria dor fugir!

Longe, na terra alheia, abrasa-lhe a memoria

A imagem da mulher que a vida lhe prendeu,

Vendo-a morta, a sorrir sob um nimbo de gloria,

Mas no esplendor de um ceu que nem mesmo era o seu...

Por sua vez, Ely nunca pôde esquecê-lo,

E nesse immenso amor, com presagios de agoiro,

Sentia-se morrer, como um lirio no gêlo,

Sem o doce luar dos seus olhos de moiro...

Mas no instante supremo, ambos crentes, temendo

Que a Morte os separasse, em tão oppostos ceus,

Elle invocou Jesus, cheio de fé, morrendo;

E a christã murmurou: «Allah! só tu és Deus!»

Sol de Inverno ultimos versos : 1915 · 第 87 / 106 题