HYMNO Á SOLIDÃO

Diz-se que a solidão torna a vida um deserto;

Mas quem sabe viver com a sua alma, nunca

Se encontra só; a Alma é um mundo, um mundo aberto

Cujo átrio, a nossos pés, de pétalas se junca.

Mundo vasto que mil existencias povoam:

Imagens, concepções, formas do sentimento,

--Sonhos puros que nelle em belleza revoam

E ficam a brilhar, soes do seu firmamento.

Dia a dia, hora a hora, o Pensamento lavra

Esse fecundo chão onde se esconde e medra

A semente que vae germinar na Palavra,

Cantar no Som, florir na Côr, sorrir na Pedra!

Basta que certa luz de seus raios aqueça

A semente que jaz na sua leiva escondida,

Para que ella, a sorrir, desabroche e floresça,

De perfumes enchendo as estradas da Vida.

Sei que embora essa luz nem para todos tenha

O mesmo brilho, o mesmo impulso creador,

Da Glória, sempre vã, todo o asceta desdenha,

Vivendo como um Deus no seu mundo interior.

E que mundo sublime, esse em que elle se agita!

Mundo que de si mesmo e em si mesmo creou,

E em cuja creação o seu sangue palpita,

Que não ha Deus estranho aos orbes que formou.

Nem luctas, nem paixões: ideaes serenidades

Em que o Tempo se esvae sob o encanto da Hora...

O passado e o porvir são ancias e saudades:

Só no instante que passa a plenitude mora.

Sombra crepuscular, que a Noite não attinge,

Nem a Aurora desfaz: rosiclér e luar,

Meia tinta em que a Alma abre os labios de Esphinge,

E o seu mystério ensina a quem sabe escutar.

Mas então, innundando essa penumbra dôce,

De não sei que sublime esplendor sideral,

Como se a emanação d'um ser divino fôsse,

Deixa no nosso olhar um reflexo immortal.

Na vertigem que a vida exalta e desvaria,

Pára alguem para ouvir um coração que bate?

No seio mais formoso, o olhar que se extasia

Vê o mundo que nelle em ancias se debate?

É só na solidão que a alma se revela,

Como uma flor nocturna as pétalas abrindo,

A uma luz, que é talvez o clarão d'uma estrella,

Talvez o olhar de Deus, d'astro em astro caindo...

E d'essa luz, a flôr sem forma, ha pouco obscura,

Recebe o seu quinhão de graça e de pureza,

Como das mãos do artista, animando a esculptura,

O mármore recebe a sua alma--a Belleza.

Se soffrer é pensar, na paz do isolamento,

Como d'um calix cheio o liquido extravasa,

A Dor, que a Alma empolgou, trasborda em pensamento,

E a pouco e pouco extingue o fogo em que se abrasa.

Como a montanha d'oiro, a Alma, em seu mysterio,

Á superficie nunca o seu teor revela;

Só depois de sondado e fundido o minério

Se conhece a riqueza accumulada nella.

Corações que a Existencia em tumulto arrebata!

Esse oiro só se extrae do minério candente,

No silencio, na paz, na quietação abstracta,

Das estrellas do Ceu sob o olhar indulgente...

Sol de Inverno ultimos versos : 1915 · 第 71 / 106 题